Capítulo 49 – Fúria das Montanhas – Parte 2

Kalui

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Whiger se encontra embaixo dos escombros paralisado.

“Acho que só tenho energia para mais algumas mudanças. Preciso comer algo urgente!”, pensa o garoto.

Aurora se aproxima com cautela do que antes era uma cúpula. Simultaneamente, Whiger tenta a todo momento sair debaixo das pedras em suas costas. 

“Ele deve estar nesta bagunça… Pode ser uma boa ideia enterrar logo tudo isso como precaução, mas e se ele já escapou? Não estou com forças para gastar no nada.”

A visibilidade na área é muito baixa. A poeira demora a descer.

Ao colocar seus pés no perímetro da cúpula, Aurora ouve o som de passos rápidos originados na sua retaguarda. Instantaneamente, ela se ergue com o solo e gira para trás.

A elemental consegue ver Shinoe no meio do salto, mas não reage a tempo. Com sua lança firme, a fortificadora golpeia em cheio a perna de Aurora, que cai para frente abruptamente, porém, antes de seu rosto tocar o solo, a terra a segura e a mantém de pé.

Shinoe rola no chão após o salto e, antes mesmo de se virar, a terra engole suas pernas. Ela se balança e bate com sua lança no solo, ao mesmo tempo que mais e mais terra a prende. Os grãos se agrupam, mas não se tornam pedra.

Aurora estica suas mãos para baixo, agrupando a terra lentamente.

“Devia ter apenas movimentado a terra! Preciso aguentar mais um pouco! Se eu fugir, terei minha revanche quando me recuperar!”

Em poucos segundos, sua prancha é formada abaixo de seus pés e em seguida, a terra começa a se movimentar e empurrá-la devagar.

     — Whiger! — grita Shinoe.

Frente a frente com Aurora, Ordep avança com suas adagas empunhadas. Antes de alcança-la, uma fenda se abre na terra, não muito profunda nem larga, mas o suficiente para impedir uma corrida contínua do garoto. Por sua vez, com os braços esticados, ele bate uma forte palma para frente e, junto disso, duas labaredas de fogo surgem de trás dele, elas se curvam em arco, buscando atingir as laterais da garota. 

“Merda! Um elemental de fogo logo agora?” pensa Aurora.

     — Fala sério! — ela grita.

Por muito pouco, duas paredes de terra protegem a garota, impedindo o fogo, porém ela não nota que Ordep pula a fenda e avança junto do ataque. Ao olhar para frente novamente, Aurora é atingida por um soco na barriga, fazendo-a curvar-se vagarosamente e perder um pouco do ar.

“Não vai dar para pensar em conservar alguma força. Devia ter atacado o garoto voador com tudo enquanto ele estava no chão! Que frustrante… mas… Como Ladir diz, só perde quem é derrotado!”, pensa Aurora.

Cinco dedos de terra, todos do tamanho de humanos, emergem em volta do garoto, prendendo-o de todas as direções, da cabeça aos pés. 

     — Mas o que! — exclama Ordep.

A mão é preenchida com cada vez mais terra, perdendo seu formato inicial e o apertando com força. Ao mesmo tempo que Ordep é preso, Shinoe é libertada. 

O garoto grita de dor, enquanto sua amiga corre para ajudar. A visibilidade ainda não é perfeita. O cheiro de terra ocupa completamente o local.

Shinoe finalmente encontra Ordep, mas Aurora já não está presente e o movimentar da terra para.

Com os dois libertos, suas respirações se acalmam e a dor do aperto já não é um grande incômodo. 

Enquanto caminham na direção de onde ficava a pequena cúpula, Shinoe olha atentamente para o corpo do seu amigo e exclama:

     — Suas plaquetas quebraram!

Ordep aponta para a garota e também se assusta:

     — As suas também!

O olhar dos dois se acalma conforme seus passos os aproximam da cúpula e, após a calma, se entristecem. 

Whiger se encontra deitado de bruços, preso por algumas grandes pedras nas suas costas. 

Shinoe escala as pedras e começa a tirá-las uma a uma, com suas finas veias saltadas.

Após alguns minutos, o garoto metamórfico está completamente livre. Suas asas vermelhas encontram-se no chão, ao lado do entulho. Não há nenhum tipo de cicatriz em suas costas ou qualquer ferida por todo o seu corpo, porém, seus olhos aparentam estar cansados e sua respiração está profunda.

O trio decide contar suas plaquetas e percebem que Ordep e Shinoe estão com oito plaquetas quebradas, já Whiger, apenas cinco, principalmente em suas costas.

Ainda é difícil respirar e enxergar com tanta poeira.

“Eu desprezei esses dois, mas mesmo assim, eles perderam me salvando. Pode-se dizer que eles perderam por minha infantilidade… E eu perdi por azar, claro. O ataque dela não me afetou, o que me ferrou foi as pedras que caíram em cima de mim.”

     — Me desculpem. — diz Whiger, em um tom sério com sua voz grossa para a idade. — Se tivéssemos atacados juntos ou, até mesmo, se eu tivesse sido derrotado antes, vocês não teriam perdido me ajudando.

Shinoe tira seu elmo, mostrando seu cabelo curto e rosto delicado. Ela soca o peito de Whiger com força e exclama:

     — Que tipo de “desculpas” é essa!? Se decide, ou nos agradece ou pede desculpa direito!

Um grande sorriso é esboçado pelo garoto por baixo do capacete. Coçando o peito, ele responde:

     — Obrigado! 

Ordep segura nas suas adagas na bainha com toda a sua força e diz:

     — É frustrante, admito. Mal tive a chance de lutar. Queria ter a experiência de duelar contra uma rank A como aquela.

     — É! — A garota bate forte o pé no chão. — Realmente frustrante!

Whiger bota suas mãos nos ombros de seus ex-companheiros e responde:

     — Para mim também foi uma derrota.

A mesma professora de antes surge de trás das árvores. 

     — Os três perderam? — ela pergunta.

Shinoe aponta para Ordep e diz:

     — Só eu e ele. 

A mulher se vira de costas, sinalizando para que os dois a siga e caminha para a floresta.

     — Devo dizer, parabéns aos três. Lutar corpo a corpo com um elemental da terra já é uma tarefa insana. Contra aquela elemental, é realmente um feito e tanto.

Shinoe abre um grande sorriso. Ordep tira seu elmo, mostrando um rosto emburrado. Whiger se inclina para frente e exclama:

     — Obrigado!

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                    Ano 955, dia 030, Território de Elfen, Floresta de Eucalipto, 13h.

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As lindas e altas árvores de eucalipto não animam Kalui, que continua a caminhar lentamente, com seus olhos cheios d’água. Agora que não está com nenhuma armadura, as muitas sujeiras de seu uniforme estão visíveis. 

“Esse é o pior dia da minha vida… Se pelo menos eu tivesse perdido lutando com tudo que tenho… Realmente teria algum problema descobrirem meu poder? Todos parecem tão legais… Eu sou amigo de um príncipe. O que poderia dar errado?!”

Seu devaneio sem fim é interrompido pelo repentino vento carregado de folhas. O menino esboça um singelo sorriso enquanto observa o céu azul.

“No que eu estou pensando… Roldi me mataria se pudesse ler mentes como na historia que Fynich me mostrou. Enfim, hoje vou treinar até morrer. Será que um vento forte o suficiente consegue quebrar uma rocha? Vou perguntar para o meu pai.”

O som do atrito entre ferros é ouvido junto de passos corridos. Antes de se virar para trás, uma voz familiar é ouvida.

     — Ei! Kalu! — grita Davi. 

Kalui coça seus olhos com pressa, se vira para trás e responde:

     — É “Kalui”.

Coçando a cabeça, Davi se aproxima.

     — Desculpa, Kalui.

Com apenas o sujo uniforme laranja e amarelo, o garoto fortificador se mostra magro, com o cabelo grande e muito cacheado, seus olhos castanhos são pequenos e suas sobrancelhas grandes.

     — Também está triste com a derrota? — pergunta Davi.

Os dois começam a caminhar juntos. 

Olhando para o céu, Kalui responde:

     — É… Não tem como não ficar, né? 

Com seus olhos observando fixamente o chão, Davi diz:

     — Eu não esperava ganhar uma competição com tanta gente assim, mas também não imaginei perder logo de cara… 

Kalui observa o garoto de cima a baixo e pergunta:

     — Você estava muito machucado? Você demorou a ser liberado.

     — Machucado, não, mas eu precisei beber bastante água e descansar um pouco. Só de andar até lá já foi um sufoco.

     — Entendo… 

Chegando nos portões da cidade, Davi se despede e segue seu caminho, já Kalui, caminha de encontro ao guarda com o qual conversou mais cedo.

     — Boa tarde, senhor. — Ele inclina levemente a cabeça.

O homem franze as sobrancelhas, analisando o garoto.

     — Você já perdeu!? — Ele gargalha muito alto. — Apanhou feio em!?

Os olhos de Kalui são tomados por fúria. Ele fecha suas mãos com força e pergunta de forma rude.

     — O senhor lembra onde deixei minha bicicleta?! — Ele aponta para a muralha, ao lado do portão — Tenho certeza que foi ali.

O adulto observa o local apontado com calma. 

     — É… Não lembro não. Mas se você realmente deixou ela ali e não está mais, com certeza alguém pegou.

O menino esboça genuíno olhar confuso, curvando a cabeça para o lado, ele pergunta:

     — Como assim, “alguém pegou”? A bicicleta é minha. Por que alguém pegaria?

     — Ué, garoto. É por isso que roubar é crime. Tenha mais cuidado da próxima vez!

O rosto do garoto se contorce de desgosto enquanto ele coloca sua mão na testa.

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                 Ano 955, dia 030, Território de Elfen, Campo de Treinamento, 18h.

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Um grupo caminha na floresta em formação de seta. Com plaquetas vermelhas, na ponta da frente de tal formação, Kahyu é a única que não carrega nenhuma arma ou escudo consigo.

O sol está se pondo e um ar mais frio começa a preencher o local. Muitas áreas da floresta já estão escuras.

Kahyu levanta sua mão e, em seguida, todos os nove param e se reúnem.

     — Acho que está claro — diz a garota das plaquetas vermelhas. — Não há nenhum animal nessa floresta. Não é possível que todos estão escondidos da gente.

Um garoto encara a líder. Ele tem uma estatura mediana e olhos azuis, está equipado com um grande escudo negro e redondo nas costas, além de uma tonfa de madeira em cada mão, sem lâminas. Gesticulando muito, ele exclama:

     — Kahyu, não podemos desistir ainda! Estou com tanta fome que nem consigo prestar atenção na minha sede! 

Uma parte do grupo murmura que também está com fome.

     — Deixa de ser idiota! — exclama uma garota, batendo sua espada no chão.

     — Cala a boca, Kimberly! Se você não está com fome o problema é seu!

     — Qual seu nome mesmo? — pergunta Kahyu.

     — Tomael Tomike, mas todos me chamam de Tomtom.

     — Então, Tomtom, prefere continuar andando em círculo em busca de um animal que nem sabemos se existe aqui? — Ela fecha seus punhos projetados para frente. — Acho melhor se prepararem para lutar. Se não há nenhum animal na floresta, todos irão para um único lugar… Ladir avisou, lembram? No centro, há um lago cheio de peixes.

Aviso do Autor:

Marcelo Pedrette - IITsuki

Marcelo Pedrette - IITsuki

A historia agora tem um discord! Fica fácil de achar outras pessoas que leem Kalui, já que não são muitas kkkk https://discord.gg/6rRjY4kBSa
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