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As quarenta e oito horas de meditação de Theo se passaram. Além desses dois dias, mais cinco horas se passaram. Assim que acordou, Theo pediu uma caneta para a enfermeira e começou a rabiscar símbolos nas paredes do quarto.

Mesmo que todas aquelas memórias de Liam fossem apenas lembranças, Theo conseguiu sentir as sensações. Achou estranho Liam ter tido sentimentos, porém, estranhou ainda mais duas energias: weltna e a energia negativa, que pertenciam aos demônios.

Somente ao sentir o weltna, Theo conseguiu compará-lo com a mana. Quando ingeriu mana em seu próprio núcleo, a sensação estava próxima de uma atmosfera forte, pura, complexa e natural. Nas lembranças de Liam, ele pôde perceber que as duas energias possuíam o mesmo valor, o mesmo poder.

Quanto à energia negativa, era literalmente a mesma que estava presente em todos os cantos do Tártaro. Comparando isso e com a dúvida do reino citado por Liam permeando sua mente, ele chegou a uma conclusão.

Existe um reino mitológico e conceitual. Ele esteve lá, perante uma verdadeira divindade primordial. Logo, para ele, os mitos passaram a ser considerados na realidade. Ele considerou, também, outra mitologia além da de seu império. “Fundamentos da Criação”.

Um documento teórico, porém, tenta, de alguma forma, pôr todas as crenças comprovadas verídicas, assim como a ciência, em uma única teoria. É constantemente atualizado, por isso, não é um fato absoluto.

Afinal, a cada passo evolutivo da humanidade, mais dúvidas surgem, mais respostas e perguntas para cada uma delas.

Buscando encaixar todas as crenças comprovadas verídicas, o “Fundamento da Criação” começa:

Antes de haver algo, existia o nada. Um universo escuro, quente e confuso, onde o ferro era o ouro, o ouro era o diamante e o diamante era o vento. Tudo ocupava um único lugar no cosmo; uma singularidade. Foi então, quando a grande explosão aconteceu.

Dessa explosão, criou a si, o criador: Yahweh. O absoluto tudo, ao contrário do Chaos, o absoluto nada. Após milhões de anos, na guerra do “Fim e Início”, onde Yahweh comandou os anjos e reis dos panteões, contra o Chaos que governou os titãs. Todos os seres coexistiam no mesmo mundo. Anjos e deuses com humanos, gigantes, fadas, elfos, exceto pelos demônios condenados para o inferno.

Yahweh então separou tudo. Deu um mundo aos gigantes. Para os elfos e fadas compartilharem de um mesmo reino. Os deuses se dividiram em regiões humanas, mas logo foram para o céu, chamado de Asgard. Dentre todas essas raças, os humanos tiveram a graça da mortalidade. Já que, graças ao ciclo de nascimento, destino e morte, os humanos, dentre todas as raças, teriam o índice de avanço tecnológico mais abrangente.

Porém, essa raça foi dividida em duas. O reino de Midgard ficou para os humanos comuns. Tais que não possuíam magia ou qualquer dom sobrenatural. Ao contrário dos humanos de Alvheim, que foram abençoados, amaldiçoados e esquecidos.

Em dado momento, Yahweh teria criado uma estrutura metafísica que rodeia toda a sua criação. Uma imensurável árvore que não pode ser enxergada sequer por anjos ou deuses: a árvore do mundo, Yggdrasil. Seus galhos foram nomeados de Bifrost, aquilo que liga todos os dez reinos.

Sabemos que existe, pois, em algum momento da história, os humanos de Alvheim tiveram acesso a Bifrost e viajaram até Midgard, onde foram chamados de demônios por ensinarem a magia comum aos humanos primitivos.

Com isso em mente, Theo teoriza que ele reencarnou não em outro universo, ou alguma realidade, como alguns livros de fantasia do Grande Império sugerem. Mas sim no mesmo mundo em uma dimensão diferente, visto que no mito da criação, Midgard e Alvheim estão no mesmo lugar do espaço, porém Alvheim se encontra em uma dimensão superior.

No entanto, ao mesmo tempo, isso não faz sentido. Midgard não possui magia de alta escala, porém Liam Mason tinha total controle sobre esse conceito. Seu mundo atual não poderia ser Midgard também. Mesmo que manipulem a ciência em vez da magia, as descrições não batem. Pensar nisso só lhe trouxe mais dores de cabeça.

Porém, agora ele tinha um objetivo em mente: descobrir de fato a qual mundo pertence.

Agora, com uma crise de realidade e existencial em mente, Theo sentou-se no chão e ficou em silêncio, apenas observando o que havia desenhado.

“Lixo,” pensou. “Você é um lixo.” se referiu a Liam. “Idiota de merda que sempre está certo! Você está certo, beleza? Admiti! Eu sou um gênio, porque eu sou você. Então, por que continuo brincando com o perigo? Medo de desbalancear? Medo de perder algo? Medo de ser eu? Do que exatamente tô com medo?!”

Theo esfregou o rosto, limpando resquícios de lágrimas que tentaram se formar.

— Vai ser útil para você descobrir de onde veio? Não. Ou talvez sim? Descobrir a existência de outra dimensão mudará algo na minha vida? Por que estou interessado em retornar para casa? Este mundo é perfeito. Estou feliz aqui. — Deitou-se no chão, com os braços abertos. — Eu não sei de mais nada.

Ele fechou os olhos e tomou ar nos pulmões. Alguns segundos depois, a porta do quarto se abriu. Luanne entrou e ficou paralisada, olhando todos os símbolos que seu afiliado havia desenhado.

— Theo?… — chamou, de olhos arregalados e dando passos lentos.

— Madrinha… A senhora já sentiu um vazio no peito por não se reconhecer?

— Como assim?

— Não sei. Não consigo me entender. Às vezes acho que eu não sou eu. Tipo, por que meu nome é Theo? Isso não faz sentido. Por que uma simples palavra define quem eu sou?

“Pode ser a adolescência?” pensou perplexa, analisando o desenho de uma grande árvore que se estendia até o teto. — É comum passar por isso…

— Às vezes penso que sou uma reencarnação.

Ele não pensava, nem achava, mas sim tinha certeza. Apenas usou essas palavras para testar a reação de Luanne sobre o assunto.

— Mas todos somos — respondeu. — Reencarnação é o ato de uma alma ir para um corpo. Não necessariamente após a morte, pode acontecer ainda em vida caso tenha controle sobre a própria alma. Nossa alma nasce antes do corpo, o que fazemos é escolher um receptáculo condizente com as nossas especificações. Ou seja, pode-se dizer que nascer é o ato de reencarnação.

— Estou falando de ter memórias que não são minhas…

Corrija os erros gramaticais, ortográficos e de escrita, mantendo um tom natural:

“Ele consegue lembrar?!” Luanne conseguiu a proeza de se engasgar com saliva.

— É comum também. Às vezes a mente engana e cria personagens fictícios para preencher a falta de algo. Talvez seja isso? — disse desconfortável. “Foi uma desculpa convincente? Se ele lembrar de tudo…” ela se arrepiou.

Theo se sentou de pernas cruzadas no chão. Olhando para baixo, ele pensou: “Criei o Liam Mason na minha cabeça? Não. É improvável. Eu vivi aquela vida. Mas pensando bem… Um homem invencível não poderia existir, poderia? Ele preencheria a minha falta de força… Caramba, Luanne! Você só piorou!”

Ele soltou um tapa no próprio rosto.

“Distrações. Preciso me distrair do assunto.” Desviando o olhar para a parede à sua frente, Theo lembrou de símbolos sobre a mana. — Madrinha. O que a senhora sabe sobre a magia?

Luanne sentou-se na cama.

— Magia? Ou está falando da ciência? — indagou. — Caso seja da ciência, sei muita coisa. Sobre o que exatamente quer saber?

— A diferença dos dois conceitos.

— Hm… Ciência é algo que está dentro da nossa física. Respeitamos a lei da troca equivalente. Basicamente, sacrificamos a energia do nosso núcleo em troca de poder manipular as moléculas do ambiente. Já a magia… Ignora tudo isso. Ela não respeita nada, é por isso que não usamos. É mais por ética e senso humano mesmo, porém a magia também tem um custo. Sacrificamos a nossa vida para realizar algum feitiço…

“Entendo. Então são os mesmos conceitos de Egon…” Theo engoliu em seco. — Mas a ciência não profere o mesmo risco? Os dois levam à morte no final.

— Claro que sim, não existe imortalidade. Não aquela eterna… Por exemplo, Sir Lincoln, que atualmente é o líder dos titãs. Ele conseguiu manipular a energia perfeitamente através das artes marciais, e com isso, conseguiu prolongar a vida. Hoje em dia ele deve ter cerca de duzentos e trinta anos. Porém, é humano.

— Isso é verdade?

— Sim. Não depende de qual energia você manipula, depende de como você manipula. Nós, os desviantes, somos como estrelas. Quando acabar o processo de combustão, morreremos. O que nos cabe é saber exatamente como usaremos nossos limites. É por isso que a madrinha aqui decidiu se tornar uma cientista. Estudo o assunto há mais de trinta anos.

— Trinta vezes seis… — murmurou Theo.

— Oi?

— Meu pai me falou que a senhora tem mais de duzentos anos. Eu achava exagero, mas depois que você mesma disse que não é impossível…

— Ei, moleque! — repreendeu. — É falta de educação falar sobre a idade de uma jovem como eu — disse apontando o dedo para cima e de olhos fechados.

— Aham, múmia.

— Não podia deixar isso na sua mente?

— Você ia ler de qualquer jeito, não?

— Deixar guardado doeria menos… Enfim! Você está interessado no sistema de magia, não? Posso te levar ao meu laboratório. Lá tem milhares de livros sobre o tema, você pode estudar lá antes de retornar a Vagus. Posso pedir até uma licença para a diretora Wispells, para que você possa passar um tempo estudando aqui.

— Você pode fazer isso?

— Garoto, olha quem você está falando. Agradeça por ser uma criança de ouro…

“Ou ficou tanto tempo brincando de ‘Theo Lawrence, a criança de ouro’ que esqueceu do seu verdadeiro eu?” lembrou das palavras de Liam.

— … sua família te proporciona todas as melhores oportunidades. Vem. Eu vim aqui porque você irá passar um dia comigo no meu trabalho — disse Luanne, levantando Theo do chão. — Arrume-se. Você tem dez minutos.

Theo encarou a palma de sua mão esquerda quando Luanne se ausentou. Então, se lembrou das últimas palavras que Liam lhe proferiu: — Feche a porta caso deseje acreditar nesse pensamento atual, abra e passe por ela caso deseje avançar.

— Abrirei a porta — disse a si.

O raio intenso de luz iluminou o quarto através da janela. Um pássaro voou aos céus.

☽✪☾

Luanne e Theo caminham pela calçada do C.P.M.F — Centro de Pesquisas de Myrddin e Fulmenbour. Uma enorme academia que pertence às duas ordens científicas. Como as duas ordens buscam o mesmo fim: evolução social da humanidade, no território de ambas está um centro de pesquisa onde os cientistas das duas áreas, alquimistas e pesquisadores, podem compartilhar do sucesso e da derrota.

Originalmente, Luanne é uma cientista de Myrddin, porém, está em Fulmenbour somente pela ajuda dos alquimistas para a criação do artefato que está mantendo o núcleo de Theo estável.

— É movimentado, né… — comentou Theo, desconfortado.

— Não se preocupe — confortou Luanne. — Você vai se sentir em casa. Tem muitos nerds aqui.

Eles chegam no portão principal. Retangular, de quase quinze metros. Uma muralha o acompanha, rodeando todo o perímetro do campus. Lá dentro é tão enorme que Theo só conseguiu descrevê-lo como sendo “Uma cidade dentro de outra cidade”.

— Fique perto de mim — ordenou.

Theo seguiu sua madrinha. Caminharam por uma estrada asfaltada e rodeada por um jardim onde estudantes conversam. Foi quando o garoto percebeu que aquele enorme campus era, na verdade, a primeira entrada do complexo acadêmico.

A verdadeira entrada para a academia fica acima de uma pequena escada. Um

portão menor, com apenas cinco metros e barras de ferros nas laterais. Porém, não escapa de outra muralha. Diferente da primeira entrada, que não tinha muita segurança, aqui estão cinco guardas e um recepcionista averiguando sempre quem está entrando e saindo.

Caminhando na estrada até o verdadeiro portão, os olhos de Theo se arregalaram e brilharam como o sol ao ver uma pessoa familiar. Seus cabelos são de tom castanho um pouco ruivo, longos e ondulados descendo pelas costas. Coberta por um jaleco branco e subindo pelas escadas, o grito de Theo ecoou pela multidão: — Agnes!

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Olá, eu sou o Mirius!

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