Prólogo

Os Leviatãs

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Sobre o forte Sol, meus filhos lutavam como leões e tigres, mesmo com os pés descalços sobre a areia quente, eles não paravam e continuavam a lutar. Em tempos normais ficaria feliz por seus esforços, mas aquele seria o meu último ano ao lado dos meus filhos. Ainda teria hoje o meu último encontro com meu velho amigo e irmão.

— O treinamento acabou!

Quando ordenei que parassem, Akira caiu na areia escaldante cansado, mas não largou a espada, assim como Thomaz que se apoiava em seu bastão e Ember em suas pernas. Eles haviam crescido demais nos últimos dez anos, sempre pensei que Ember iria se parecer mais com sua mãe, uma pele branca como a neve com longos cabelos negros lisos.

Ember no fim puxou para mim, tendo sua pele parda, olhos castanhos e os seus cabelos sendo curtos e pretos, como o de seus irmãos, por eu cortar desde de cedo. Um cabelo longo atrapalha os movimentos em uma batalha. E ela já estava com dezesseis anos.

E foi Akira que herdou os traços de sua mãe, seu nariz pequeno, a pele branca e se eu deixasse seus cabelos crescerem, seriam tão longos e negros quanto os de sua mãe. Ainda possuía os olhos verdes como uma esmeralda polida. Assim como sua irmã gêmea, Akira também estava com dezesseis.

Foi Thomaz o meu filho mais diferente, seu nariz era fino, tinha os olhos castanhos, mas não escuros e sim claros com uma profunda luz, detinha orelhas um tanto pontudas, o cabelo pretos e fino. Eu não sabia a idade de Thomaz, mas acreditava que ele estava com dezessete anos.

— Façam o próprio almoço, preciso ir à cidade— Eu precisava ir logo ou me atrasaria para o encontro com o meu amigo e irmão.

Atravessei o campo de areia e fui para dentro de casa, os meus filhos iriam caçar algum animal selvagem na floresta. Já dentro de casa fui para o meu quarto, possuía ciência que dentro de um ano eu morreria, o que me deixou melancólico nos últimos dias.

Em meu quarto tinha poucas coisas, um colchão na parede direita, uma cômoda na parede esquerda e um grande baú no fundo, era algo que em tempos passados não esperaria. Quando ainda era um escravo, lutando pela comida de cada dia, eu desejava ter muitas coisas, mas depois de conquistar a liberdade, a vontade de ter tantos bens desapareceu. 

E mesmo quando conquistei uma assombrosa riqueza, mal tive alguns usos para ela em décadas de lutas até a morte junto a missões de alto risco. A primeira coisa que fiz foi ir até o baú, sentei em minhas pernas, abrir o baú e tirei ítem por ítem.

A primeira a coisa que veio em minhas mãos foi uma espada um pouco enferrujada, passei a ponta de meu dedo esquerdo pela lâmina, sentindo o frio da lâmina eu lembrei dos rios de sangue que fiz com aquela espada, desde de que me libertei, ela fora minha maior companheira.

Coloquei a espada de lado e puxei o cordão, o pingente, que brilhava mesmo com a pouca luz, era feito de um material desconhecido e leve, mas era muito mais resistente que o aço, podia cortar até mesmo algumas rochas. Mas não foi essas coisas o motivo de meu apego àquele pingente, era algo precioso pois foi a minha amada Catharina, a mãe de meus filhos, que me deu a muitos anos.

Coloquei o pingente em meu pescoço e peguei o próximo ítem, este foi apenas um pedaço de pano vermelho maltrapilho com uma águia no meio, entretanto, muitos poucos saberiam a grande origem daquele pano e o grande amigo e irmão que conquistei junto a aquele paninho.

O último item foi o que me fez vislumbrar a verdadeira luz e felicidade, um filho que a vida me trouxe, meu amado Thomaz que, ainda criança, eu havia encontrado nas águas da praia desmaiado e ferido.

Essas foram as roupas que Thomaz usava, ele nunca mais as viu, pois eu as tinha escondido bem longe de sua vista, bom, nem tanto, ele sabia que suas roupas estavam comigo, mas nunca as pegaria se não pudesse me derrotar, algo que nunca aconteceu.

Guardei todos os itens no baú novamente e tirei algumas peças de bronze e prata, depois disso saí da casa. Antes de sair olhei para a grande cerejeira que ficava ao lado do campo de treinamento. Aquela árvore também era uma de minhas lembranças, de quando deixei a vida de um mercenário, para a vida de um pai em um canto esquecido da 8ª ilha.

Meus filhos ainda não tinham voltado então fui para a cidade como tinha planejado. A minha casa ficava a mil metros da cidade e do porto, era um bom lugar para o treinamento de meus filhos, uma floresta com muitos animais selvagens existia naquelas terras.

Quando cheguei na cidade, sem muita demora fui para o bar que tinha combinado com Raji, aquele que havia me dado o pedaço de pano maltrapilho. Ele não havia chegado então pedi uma dose de vinho e aguardei pacientemente sua chegada sentado no banco do balcão.

O bar era animado, tinha uma banda que tocava lá na frente, mesas e cadeiras no centro, o balcão no fundo onde eu estava. Havia ainda um segundo andar, onde a escada ficava próxima às mesmas e cadeiras, para que os clientes pudessem aproveitar um tratamento diferente….

Quando Raji entrou no bar, rapidamente pude o reconhecer, ele usava um elegante terno preto com detalhes prateados, um relógio de bolso dourado e uma boina cinza. Tinha o porte grande e alto, o rosto um tanto oval, a pele branca e seu cabelo preto mostravam um homem mais simples do que ele era “Sendo extravagante como sempre, cara mimado!” 

Antes de falar comigo ele primeiro pediu pato para comermos junto a uma garrafa do melhor vinho que o dono da taberna tinha em sua adega: — Como você está velho amigo?

Não sabia como estava, mas tentei explicar como me sentia para Raji: — Sabe quando você está feliz, quando pode sentir o vento soprando sem pensar na tempestade, quando pode ver a luz do sol e das estrelas sem se perguntar se é a última vez, sabe o que é isso meu amigo?

Depois de revelar o que sentia, me senti um pouco mais relaxado,  contudo não estava totalmente triste. Meus últimos anos foram os melhores, como quando conheci Catharina. “Você ficaria feliz em como nossos filhos cresceram tão fortes, meu amor.” 

— Mesmo um guerreiro forte como você não pode escapar da morte, não, melhor dizer que você não pode fugir para sempre.

Passei o dedo pela borda do copo de cerveja com um leve sorriso, meu amigo falará a verdade, primeiro escapei do oceano, exatamente como o meu filho mais velho, depois escapei da vida de um escravo, tive a vida de um fugitivo assassino e ainda passei pela vida de um temido mercenário procurado em todo o domínio Nortista. 

— Parando para pensar, vivi fugindo da morte, sendo procurado e temido por muitos, no final, fiquei forte o bastante para assustar ou matar todos que me perseguiam. Depois resolvi viver a simples vida de um pai que perdeu sua esposa. Agora que não estou fugindo ou vivendo pela espada, parece cômico que eu termine assim. Poderia ser um recado da morte? Hahahaha.

— Não fale bobagens, quanto tempo você ainda tem?

— Um ano, provavelmente morrerei dentro de um ano.

— Posso lhe forçar a aceitar minha ajuda,  você sabe?!

Balancei a cabeça me virando para Raji: — Não estou chateado por morrer por causa de uma doença esquisita meu irmão, mas é que mesmo no pós vida não deixarei de me preocupar com aqueles meus filhos. 

Mesmo na morte, sendo um bode teimoso!” — Você os treinou tão duramente e cruelmente que questionei seriamente os objetivos que você tinha ao fazer isso. Até que, sem mais nem menos, você vem até mim e me conta que estava morrendo por uma doença mortal, a mesma que matou sua esposa. Mas realmente é muito assustador, mesmo você que não entrou em contato diretamente foi afetado, que infelicidade. Agora falando sobre seus filhos, sabia que nem nossas Elites da Academia Estrela do Norte foram treinadas como eles? Não seria difícil pedir uns favores por um velho amigo, sabe.

— Eles serão muito mais fortes do que eu, Raji, mas deixarei que sigam seus próprios destinos. Principalmente Thomaz.

— O garoto que você achou na praia, não é? Lembro dele, posso dizer que tinha grandes expectativas em seus próprios filhos, tanto por serem seus quanto daquela mulher, mas esse garoto realmente me deixou surpreso. Não me impressiona que você o ame tanto quanto seus próprios filhos.

Raji nunca sonharia que por pouco não condenei Thomaz a uma vida sem poder algum, pois por muito tempo tive medo dele correr atrás de um sonho impossível, então suas realizações agora são, sem dúvidas, mérito próprio. 

— Você se tornou um dos humanos mais fortes que conheci, mesmo não usando um manual de cultivo de energia ou fazendo um contrato Leviatã. E ainda assim você não descobriu como veio parar no Continente Despedaçado quando ainda era uma criança. Acha que esse pirralho vai conseguir?

Sorri nesse momento e estufei o peito como um verdadeiro pai: — Você está subestimando o Thomaz! Meu filho vai ficar na história e vai muito além de que seu velho pai. 

“Você é ridículo velho amigo.” — Mesmo que não queira que eles não se envolvam conosco. Dê isso para eles, diga apenas para eles mostrarem em qualquer sede da Academia Estrela do Norte ou chamar por ajuda enquanto o segura. Deixa que eu pago a conta.

Raji deixou uma moeda de prata, algo que dava para sustentar uma família por um alguns meses, não que ele tivesse opções além das moedas de prata. Peguei os três broches que Raji deixou na mesa e dei uma olhada. “Tão extravagante.”

Os três broches, feitos de ouro, tinham a imagem de uma águia incrustada com um rubi nos olhos. Coloquei os broches no bolso e saí da taverna, minha última bebida seria essa. “Será que levo peixe para o jantar?” 

Aviso do Autor:

José Victor B.Martins

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