Capítulo 2

Os Leviatãs

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Quando recobrei alguma consciência, já não estava mais na janela, algo trouxe-me para um espaço branco, onde eu não podia sentir coisa alguma. Já acima de mim existiam luzes superiores de diferentes cores, de forma bizarra eu não podia dizer o quão “alto” ou “acima” elas estavam.

Eu tentei respirar, mas não pude sentir o ar, tentei sentir o frio da noite e as minhas mãos agarradas à janela, mas não adiantou de nada. Estava preso naquele espaço branco cercado pelas luzes superiores e são elas: vermelha, negra, dourada e azul manchado por um verde escuro.

Não podia ver nada além do branco, sem nem perceber, comecei a andar para a frente, mas como se o próprio espaço não existisse, não notei a mínima diferença. Por conseguinte, em minha esperança de sentir a mínima diferença, tentei ver onde exatamente eu estava sustentado. 

Me abaixei para sentir o piso, mas fora um esforço inútil, não era frio, não era quente, o que era? Era branco. Quando estava prestes a desistir notei que eu na realidade estava suspenso ao invés de sustentado, pois o branco era uma profunda névoa densa sem fim.

Minha terceira conquista era que eu não estava com medo ou mesmo nervoso, deixei passar despercebido já que era raro eu perder a calma, mesmo quando estava em combate. Contudo, seguindo a filosofia de meu pai. “Acreditar que está pronto para tudo, é não estar pronto para nada.” E também tinha. “Evitar surpresas e mistérios é evitar a vida, você nunca estará preparado para a vida.

E eu com certeza não estava preparado para ficar preso em um lugar definitivamente assustador por sei lá quanto tempo. 

Até que eu olhei para cima e observei as luzes, na primeira vez que olhei para elas tive realmente uma segunda sensação, só que diferente. ”Um reflexo? É o meu reflexo Eu?!”

Naquele momento senti as luzes brilharem intensamente, logo depois um jovem apareceu repentinamente no espaço branco, a primeira sensação que tive foi que este estranho estava a apenas alguns metros, mas ao mesmo tempo estando a uma distância inimaginável. Como se uma barreira estivesse nos separando.

O estranho era diferente dos nortistas a qual eu estava acostumado, tão pouco parecia com o meu pai. Tinha uma pele branca, um tanto albina, junto a longos cabelos negros que escorriam até seus ombros, olhos com um azul penetrante e orelhas um pouco pontudas como as minhas. Tinha confiança e orgulho em seu semblante, uma figura estranha realmente.

— Quem é você? — Estava esperando uma chance de entender o quê estava acontecendo, mas não esperava que um sujeito estranho aparecesse do nada. Por isso fui o primeiro a dizer alguma coisa.

— Hã?! Como assim, quem é você?!

— Não foi você que me invocou para este espaço místico? — Obviamente aquele sujeito não estava esperando a minha dúvida.

O jovem franziu as sobrancelhas e fechou os olhos, após alguns segundos ele apontou para cima. Quando segui seu dedo pude realmente ver algo bizarro, outras luzes como as minhas apareceram, mas não eram estranhas. Como dizer, era como se pertencessem a mim em um lugar distante, muito distante.

— Com isso eu sei que você não é um erro, agora, até onde você sabe sobre o contrato Leviatã?

Dizer que não sei nada era imprudente: — Não sei de nada. Você pode me chamar de Thomaz — Mas mentir poderia ser muito pior.

— Eu sou o que vocês chamam de habitante do mundo dos espíritos, César Kall Loki, descendente do grande deus Loki. Atualmente estamos prestes a assinar um contrato em prol da nossa união Leviatã. Mas obviamente você não sabe a honra e sorte que tem de assinar o seu contrato com um descendente de Loki, conte-me o que aconteceu com você.

O estranho estufou o peito como se de alguma forma estivesse no controle, também parecia muito confiante e orgulhoso de ser descendente de um suposto deus. Obviamente eu não acreditava em deuses, mas eu também não era um total descrente.

— Eu estava assistindo a um estranho ritual e repentinamente vim parar aqui. Eu não fazia parte do ritual, foi apenas minha curiosidade. 

— Acho que vou ter que explicar o básico pra você. Primeiramente, existem dois universos irmãos, o seu e o meu. Comumente o seu universo se refere a nós como espíritos, mas espírito é o que sobra de alguém com uma grande força mental quando morre. Nós somos de carne, ossos e sangue, mas no nosso mundo usamos a energia espiritual para permanecermos vivos, enquanto no seu mundo, usam a estranha energia vital.

— Que lugar é esse em que estamos? 

César virou o rosto com uma expressão curiosa: — Eu ainda não sei, velhas lendas afirmam que é o núcleo do nosso ser, mas quando você faz um contrato Leviatã, você une o seu ser com outro ser de outro universo.

— Porque você quer fazer esse contrato? Ou melhor, como isso pode me ajudar.

— Um habitante do seu mundo explicaria melhor o que é para vocês, mas para nós é o modo de alcançar as profundezas do poder. No caso, seria o que ambos iríamos receber. Uma chance de alcançar o verdadeiro poder.

— Como vamos fazer isso exatamente?

— Chamamos de contrato, mas está mais para pacto. Quando unimos nossos seres, o pacto será selado. Significa que você não poderá ter outro Leviatã a não ser que eu morra, mas caso eu morra, você sofrerá perdas consideráveis nas habilidades naturais que conquistou durante o nosso contrato e se por um milagre encontrar outro para assinar o contrato consigo, não vai mais ganhar as habilidades naturais com a subida de Estados, apenas irá melhorar suas magias e forças.

— E o que são esses Estados? 

— É como chamamos o Ranking de Poder, seguindo do primeiro até o nono. A cada Estado você ganha uma habilidade natural. E a habilidade será a mesma para nós dois. Agora explicando mais sobre as magias, vocês precisam da energia espiritual para lançar magias e nós, do outro universo, precisamos de sua energia vital para lançar nossas magias. 

— Porque essa diferença? 

— Não tenho ideia, e sendo sincero faço parte de uma família com uma boa herança, mas mesmo o nosso ancestral não sabia o motivo de precisarmos da energia vital de vocês para lançar magias.

— Como finalizamos o contrato?

— Aperte a minha mão.

De frente um para o outro, desconheciamos o futuro que nos aguardava e apesar de aparentar estar mais seguro do que eu, percebi o nervosismo de César, como se ele estivesse seguindo instruções detalhadas sobre como fazer um guisado. No mínimo era muito melhor que a minha trágica situação.

Quando nossas mãos se tocaram, o próprio espaço pareceu ferver em chamas, começando a derreter em seguida. E como em um furacão, tudo começou a se movimentar rápido demais. As luzes superiores por sua vez colapsaram em um turbilhão de fragmentos que foi quando tudo escureceu!

“Onde eu estou? Quem sou eu?…Thomaz! “  Os segundos que levei para recuperar a consciência só fez tudo parecer mais real e bizarro. Eu ainda estava na janela de Yuri observando o ritual, parecia que mesmo segundos não iriam passar enquanto estivesse no espaço branco misterioso.

Olhei para Yuri com dúvidas, o material estranho que ele colocou no centro do círculo tinha desaparecido, como se nunca tivesse existido. Não soube se o ritual de Yuri tinha dado certo, mas com certeza não iria ficar para descobrir. 

Saltei da janela só que antes que eu caísse no mar, me segurei nas bordas de minha própria janela, e fiquei feliz em sentir os respingos da água fria daquela estranha noite. Subi rapidamente a janela e felizmente Paty ainda dormia com seus roncos de porco. 

Quando enfim me deitei, pensando que podia relaxar, comecei a ouvir uma coisa diferente de dentro da minha mente, de início eram apenas uns estranhos ruídos, depois sussurros, em seguida foram palavras totalmente sem sentindo. Até que as palavras tomaram sentido.

— Thomaz, consegue me ouvir? [1]A comunicação entre os personagens e seus leviatãs do outro mundo, seja este o mundo dos espíritos ou o mundo dos humanos, será descrita usando negrito e itálico. E aquele que for o narrador será utilizado aspas e aquele que não for, será … Continuar Lendo

“ César?” César de alguma forma conseguiu se comunicar diretamente com a minha mente, de início acreditei ser interessante, até que percebi o quão inconveniente era alguém poder de alguma forma ouvir seus pensamentos. Se as coisas funcionassem dessa forma, se tornariam inconvenientes.

— Agora estamos conectados telepaticamente, mas não posso ouvir você a não ser que você chame o meu nome e tente se conectar comigo, o mesmo vale pra mim obviamente. 

Assim é melhor “Entendo, agora pode me explicar melhor em que situação eu me meti?” 

— Você ainda não sentiu? Tente fechar os olhos e sentir um novo membro em seu corpo.

Naquele momento eu tive minhas dúvidas, mas fiz como César orientou, sendo sincero, eu não esperava algo como poderes de controlar o tempo. Mas com certeza eu estava esperando algo. Essa foi uma oportunidade de ficar tão forte quanto meu pai.

E não demorou muito para César se provar verdadeiro, pelo menos naquele momento. Senti como se uma extensão de mim estivesse habitando as minhas profundezas. Algo que até então era desconhecido e novo.

Logo em seguida, uma palavra brotou do próprio vazio, surgindo diretamente em minha mente. E a palavra era “Duplicação” Informações detalhadas surgiram a respeito da palavra, provando que agora eu tinha uma habilidade sobrenatural. A habilidade consistia em duplicar certas coisas, entretanto no início as cópias seriam virtuais, mas conforme o meu poder iria aumentando, mais a habilidade cresceria até o ponto onde poderia copiar navios e prédios totalmente reais. “Assustador!”

Junto com a habilidade senti, com dificuldade, uma energia sem forma, mas de grande poder: — Isso que sentiu agora fora a energia espiritual dentro de mim. E a habilidade “Duplicação” eu  também consegui. O contrato Leviatã diz que agora serei o seu Leviatã, suas forças, suas ambições e suas conquistas. E agora você é o meu Leviatã, minhas forças, minhas ambições e minhas conquistas!

Notas

Notas
1 A comunicação entre os personagens e seus leviatãs do outro mundo, seja este o mundo dos espíritos ou o mundo dos humanos, será descrita usando negrito e itálico. E aquele que for o narrador será utilizado aspas e aquele que não for, será utilizado travessão. Ex.: Thomaz é o narrador, então utiliza-se aspas para representar sua comunicação telepática com César, junto de negrito e itálico, César não é o narrador, então utiliza-se travessão junto de negrito e itálico.

Aviso do Autor:

José Victor B.Martins

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