Capítulo 8

Os Leviatãs

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“Dia 7 do 2ª mês de 1964 – Estamos a um dia da 22ª Ilha, o porto da última ilha tem um nome interessante – Águas do Céu – e sua cidade chama-se Cidade do Céu. A três semanas terminei o cultivo da pele, levei uma semana a menos do que o previsto, sinto que a cada vez que eu cultivo, mais e mais meu corpo se adapta e evolui, o qual não me deixou decepcionado nenhum pouco, antes eu estava apenas no meio do nível Profissional, e agora estou a um passo do nível Especialista.”

Nessas três últimas semanas cultivei diligentemente os músculos do meu corpo, ao passo de não praticar uma única magia, mas tudo valerá a pena. “É nesta madrugada que passo para o temperamento dos ossos!”

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— Amanhã chegaremos ao nosso destino, assim que o deixarmos no porto, voltaremos para os mares do Leste. E sobre a segunda metade do pagamento?

Olhei para o capitão Jack, ele foi um bom capitão e sua tripulação fora das melhores, principalmente em comandar um navio, mesmo com tão poucas pessoas. Contudo, eu ainda precisava de seus serviços, enquanto ainda fosse perseguido por aqueles meus irmãos…. :— Aqui está o que foi combinado.

Entreguei um pequeno livro que continha os três primeiros Estados da prática da energia vital, era muito a ser entregue, mas agora, provavelmente, todos já sabem que a tripulação do Sparrow ajudou um traidor e fugitivo. No momento, eles terão que ficar nas sombras e treinar a energia vital, ou a morte os aguarda.

A única maneira que eu tive para convencer Jack a arriscar tanto foi oferecer meu manual de cultivo, contudo, eu não me importava, eles poderiam ser considerados talentos entre os humanos, mas com certeza não seriam exemplos de grande talento como eu.

“Preciso balançar a isca…” — Você já ouviu falar dos Leviatãs?

Jack pareceu ficar paralisado por alguns instantes: — Sim, as crianças de hoje podem não saber, mas na época dos piratas, vários anos atrás, junto a histórias de pilhagem, tesouro e batalhas. Existiam os Leviatãs, sendo as mentes por trás de tanto derramamento de sangue. E quando essas mentes se encontravam, a terra se partia e os céus perdiam seu brilho.

“Ótimo“ — Creio que sua busca é se tornar um Leviatã, estou errado?

— Exatamente, por isso aceitei o teu serviço. Essa é a minha chance de me tornar um Leviatã de verdade, chegando ao nível dos Grandes Mestres.

Não sendo difundida entre os guerreiros atuais, a informação sobre o que são Leviatãs se perdeu a anos, junto com o meio de como persegui este caminho. Claro, os continentais fizeram um ótimo trabalho depois da guerra com os piratas. Destruindo muitas heranças de Leviatãs dos Ilhais.

Hoje, muitos como Jack, que buscam se tornar velhas lendas, acreditam que o termo Leviatã é destinado para aqueles como o pai de Thomaz, Grão Mestres que se destacavam mesmo entre os Grão Mestres.

Contudo, não estava longe da verdade, esses poucos gênios podiam lutar de igual para igual com aqueles iniciantes do Segundo Estado, podiam ser considerados o ápice da humanidade.

— Não quero me demorar Capitão, então vou direto ao ponto. Você está errado, Leviatãs são muito mais misteriosos e poderosos do que você imagina, posso lhe mostrar, mas vai ter um custo. Você sabe qual.

Olhei seriamente para o capitão, podia estar sorrindo, mas estava verdadeiramente nervoso. Não podia confiar naquela prostituta do submundo e precisava de uma tripulação de profissionais, não de amadores.

— Preciso conversar com os outros primeiro.

— Pode lhes contar a verdade se quiser, mas primeiro vou lhe dar uma amostra do verdadeiro poder dos Leviatãs.

Ergui a mão no alto e recitei a magia: —Brilho — e a energia espiritual percorreu meu braço e se ergueu no ar, transformando-se em uma esfera de luz. A luz como um pequeno sol iluminou toda a cabine, eu abaixei o braço e apreciei a expressão de Jack.

— Is..so, o que é isso?! — o capitão perguntou apontando para a esfera de luz.

— Magia, capitão Jack.

Estalei os dedos e a esfera desapareceu, deixando a sala apenas com a fraca luz das velas. O capitão Jack olhou seriamente para mim e saiu da cabine, naquele momento soube que tinha conseguido mais uma vez.

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Estava uma madrugada chuvosa, sem a lua e definitivamente sem o brilho das estrelas. A água caía das nuvens, escorria pelo meu corpo e depois chegando as águas turbulentas do mar, senti que tudo isso estava fomentando o meu poder.

Fechei os olhos e foquei em meu corpo, em meu próprio universo, ergui a energia dentro de mim e a guiei para os meus músculos, cada parte e cada fibra recebendo rios de energia vital.

Transformando o meu corpo em uma verdadeira arma de combate. Nos instantes seguintes, senti o meu corpo se aquecer em meio a chuva. Como uma fornalha em chamas.

Logo depois cerrei os dentes de dor, meus músculos estavam sendo rasgados e regenerados logo em seguida, várias e várias vezes. Mas a cada vez ficava mais forte e poderoso, então tudo era para esse momento.

Senti estalos por todo o meu corpo, que agora estava com cinco cm a mais pelos densos músculos salientes e vermelhos que logo depois começaram a reduzir, tornando-se mais firmes e compactos. Quando os estalos cessaram, me levantei e analisei o meu corpo, o meu novo e melhorado corpo.

Não só me senti mais poderoso e forte em meia aquela chuva, como também orgulhoso, o que em parte era pela minha nova força, mas o que também me deixava um passo à frente de meus irmãos na nossa busca por novos poderes e verdades.

Percebi que meus músculos estavam tão bem compactados e firmes que até tinha perdido um cm de minha altura original pela perda de massa corporal. Com a atual velocidade, devo terminar o fortalecimento dos ossos em um tempo bem menor que a estimativa, levei quatro semanas para chegar aos ossos, talvez leve mais quatro para sair.

Eu não iria praticar magias no momento, meu foco estava em chegar ao pico do temperamento dos ossos, assim, César também poderia cultivar, aumentando minha própria base para a prática de feitiços futuros.

Depois voltei para a minha cama, não antes de me enxugar e garantir que estava seco, então caí na cama definitivamente cansado. E tudo estava apenas começando.

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Acordei na manhã seguinte cheio de disposição, algo muito diferente dos primeiros dias que passei no mar, e ainda chegaríamos ao nosso destino essa noite. Então estava animado e ansioso. Fora que os resultados da conclusão do temperamento dos músculos ainda não tinha terminado, ainda iriam evoluir mais com o passar do tempo.

— O quê John preparou para nós, Tim?

— Vamos vê-lo, garoto.

De certa forma também me aproximei da tripulação, Tim era o mais descontraído, John ficou a maior parte do tempo calado nos primeiros dias, mas depois me contou algumas histórias da tripulação e como os Sparrow ficaram relativamente conhecidos.

Paty era como um velho rabugento, levava muito a sério os afazeres do navio, principalmente os mais comuns, surpreendentemente ele tinha muito a ensinar sobre navios e navegações.

Hela parecia estar sempre esperando por algo, ansiosa e preocupada, não tive como me aproximar dela, mas comecei a gostar de Hela, pois ela realmente era muito competente e habilidosa ao comandar esse navio.

E uma das histórias que fez o nome dos Sparrows ficar conhecido, foi em uma missão para um Governante, que poderia ser muito simples, mas estava em um período de grandes tempestades e muitos navios tinham sido engolidos pelos mares.

Os Sparrow não foram a primeira opção, mas pegaram a missão e não só tiveram êxito, como o próprio navio teve poucos problemas em meio às tempestades. Tudo graças às habilidades e técnicas de Hela.

Já Jack era um guerreiro com grandes técnicas e habilidades, durante nossas lutas, mostrou grande experiência, mesmo com a evolução constante de minhas forças. Mas não era apenas isso, de acordo com John, guerreiro é a profissão secundária de Jack, acima dela estava sua liderança firme com suas habilidades de julgar e avaliar as situações mais complicadas.

Estava satisfeito com os Sparrow, eles seriam a minha base até eu conseguir chegar no momento de me separar deles. Quando entrei na cozinha, Jack já estava lá com todos os outros e uma expressão séria era vista em seu rosto.

— Precisamos conversar.

Jack colocou um livro na mesa, era um livro pequeno e bruto: — Atualmente somente eu e Thomaz conhecemos a identidade deles, e agora todos vocês precisam saber. Ele é Yuri, filho do Governador Jonas da 8ª Ilha.

Vendo que ninguém tinha perguntas ou dúvidas, Jack continuou, apesar disso eu tinha certeza que todos conheciam a situação de Yuri; traidor e criminoso procurado. E eles sabiam ainda mais a nossa situação atual; criminosos.

— Yuri me procurou duas semanas antes de sairmos da 8ª Ilha, me ofereceu trezentas moedas de prata para essa missão e eu não devia fazer mais perguntas. Obviamente eu não aceitei.

Tim havia me contado que uma das regras do bando é que grandes recompensas são acompanhadas de grandes riscos, então eles nunca aceitariam uma missão desconhecida.

— Yuri me contou naquela noite sobre seus planos e a nossa participação nisso tudo, então eu ia recusar, apenas que antes disso, ele me falou sobre esse livrinho aí. E a existência de um manual escrito nele para o cultivo da energia vital, totalmente sem falhas! E foi depois disso que eu aceitei o serviço.

A cozinha já estava em silêncio, apenas que agora uma tensão mortal pairou sobre o ar, onde uma agulha poderia ser ouvida ao cair sobre as tábuas. A primeira a se mexer foi Hela, que pegou o livro em suas mãos, sem perguntar nada, o acariciando como se fosse ouro puro.

Ela passou as páginas de forma lenta, e a cada virada parecia que um peso de vários kg seria movido em nossas mentes. E quando Hela virou a última página, todos prenderam a respiração.

— Você leu o que tá aqui, Jack?

— Não, você é a primeira a ler.

Hela suspirou profundamente e passando o livro em seguida para John, que estava à sua direita, John por sua vez estava com as suas mãos tremendo, entretanto ainda segurou firmemente o livro.

E depois de ler, passou-o para Paty, que passou para Tim, e por fim eu mesmo segurei o livro e li calmamente, página por página até que o passei o livro para Jack, que o pegou com as duas mãos e com ambos os olhos fechados, soltando um longo suspiro.

Surpreendentemente, Yuri não retirou nem mesmo uma parte das instruções de cultivo, estava tudo lá, detalhe por detalhe. Mas eu já podia prever seu plano, afinal, para fisgar o peixe, a isca não pode ser falsa.

Jack terminou de ler o manual em alguns poucos minutos: — Serei direto com vocês, Yuri é muito forte ao ponto de manifestar a própria luz do Sol em sua mão.

“Ele usou Brilho.” — Isso é impossível!

— Não, não é Thomaz. Vi com meus próprios olhos a intensa luz. Vocês lembram da parte que fala brevemente sobre os Leviatãs? Sobre as raras pedras de energia espiritual e essas pedras de energia vital, sobre o mundo dos espíritos e os três estados do poder?

— Is..so.. o que foi que Yuri disse?!

— É tudo verdade, as lendas sobre as batalhas que separavam os céus e terra, as mentes por trás da cortina e os verdadeiros donos do nosso mundo, talvez até de nós, os Leviatãs.

— E isso tudo não é fruto dos nossos treinamentos para a energia vital? O quê mais temos que fazer?!

Esta foi a inquisição de Paty, que estava vermelho de tanto nervosismo. “Yuri pretende escapar para o Sul, todos aqui já devem saber exatamente o que Yuri quer e qual foi a proposta feita para Jack.”

— Yuri diz que não, Paty, mas se o levarmos em segurança para os mares do Sul. Aí seríamos recompensados com o verdadeiro segredo. Um manual para nos tornarmos Leviatãs.

Desta vez todos se viraram para Hela, a que poderia ser descrita como a melhor na área e em seus possíveis riscos. Contudo, Hela balançou a cabeça: — Não existem rotas conhecidas publicamente para as ilhas do sul a décadas ou séculos, arriscar às cegas seria fatal. Sem falar que desembarcar em uma ilha, imaginando que conseguíssemos chegar nela, poderia ser ainda mais perigoso, eles iriam reconhecer a gente no momento em que vissem a falta de um emblema em nosso navio.

Para garantir que tudo continuasse na devida ordem nas ilhas e no comércio, os Continentais do Norte dividiram o seu domínio em quatro grandes mares, Norte, Sul, Leste e Oeste. Cada navio tinha um emblema obrigatório para o mar e a ilha onde nasceu.

E Hela considerou que os Sulistas tivessem o mesmo sistema de reconhecimento, o pior é que eles podem nem ao menos ter ou ter um completamente diferente dos Nortistas.

— Yuri está confiante em conseguir um mapa com as rotas e a designação certa para os barcos do Sul. Acha que pode nos levar em segurança para o Sul

— Com o mapa? Talvez…

— Aqueles que apoiam continuarmos para o Sul, que levantem as mãos.

Todos levantaram e Jack sorriu imensamente, então foi e bateu no braço de John: — Vamos John, prepare um verdadeiro lanche para nós.

John balançou a cabeça e correu para suas panelas e para o seu fogão aquecendo a lenha. Naquela manhã comemos ovos com pão, presunto e queijo. O lanche dos campeões.

— Thomas, quero conversar com você a sós. E todos já podem começar a cultivar, lembrem-se que o futuro é desconhecido.

Todos saíram da cozinha, mesmo John, no final ficamos só eu e Jack. Jack me olhou fixamente por alguns minutos, até mesmo franzindo a sobrancelha. Tive que sorrir inconscientemente. ”Nem é perto daqueles interrogatórios insanos de meu pai, capitão Jack.“

— Sim, eu já conhecia o método de cultivo de energia vital e posso atestar a veracidade desse que Yuri nos deu. Contudo, meu pai nunca falou sobre Leviatã algum. Eu nem mesmo conhecia essas lendas.

A melhor maneira de mentir, era misturar a verdade e a mentira de forma a não saber nem a verdade, nem a mentira. E eu estava falando a maior parte das verdades, realmente não conhecia lendas nenhuma sobre o Continente ou os ilhais, cresci afastado de qualquer coisa que não fosse para alimentar minhas forças.

— Você tem certeza?!

— Sim, mas não sabemos porque Yuri fugiu, ou melhor, o que ele fez para fugir. Oferecer o manual para o cultivo da energia vital mostra que existe muito mais em jogo.

— Em que nível você está de verdade, Thomaz?

— Eu não menti pra vocês quando eu cheguei no navio, mas nos últimos dias alcancei o nível Especialista. Você deve saber isso melhor do quê ninguém.

— Quanto tempo você levou para chegar nesse nível cultivando?

— É preciso ter o mínimo de 15 anos para se cultivar, tudo porque a mente precisa estar desenvolvida até certo ponto para conseguir guiar a energia vital. Na época eu ainda estava no pico dos aprendizes através de puras habilidades físicas e técnicas. Mas existe um porém, você precisa ser firme no que está fazendo. E isso vale para qualquer idade quando se está cultivando.

Eu estava inventando essas coisas, mas Jack provavelmente acredita que meu pai, que superou os Grão Mestres, estava se cultivando na energia vital. Mas infelizmente, nem mesmo eu sabia.

Jack parecia muito mais aliviado após nossa conversa e eu estava satisfeito com as coisas, mas olhei para o manual um tanto melancólico, pois mesmo se eu não tivesse roubado o ritual de Yuri, vejo que meu caminho cedo ou tarde seria para me tornar um Leviatã.

Yuri ainda parecia muito diferente de mim, parece que ele fez um contrato com alguém em um nível similar ao seu ou está focando em suas magias ao invés de seu cultivo.

— Você acha que devemos aceitar o trabalho de Yuri?

Eu olhei para Jack com um pouco de dúvidas, não sabia se ele estava com medo dos riscos ou com medo dos custos: — Não foi você quem disse sobre sentir algo diferente quando nos viu? Ou estava além do que estava esperando?

— Sim, e eu estava certo no final pelo visto, ambos estão relacionados ao cultivo da energia vital. Mas … Leviatãs…não sei se estou dando um passo maior que nossas pernas.

— Com certeza não, acredito que Hela, John, Paty, Tim, você e com certeza eu, não vamos aceitar ser tão fracos e submissos aos poderes desses Leviatãs. E você deve saber que apesar de ser um Leviatã, Yuri com certeza não é um dos mais poderosos, ou não teria negociação ou acordo.

Jack se levantou e estendeu a mão, olhei no fundo de seus olhos e sorri: — Você está certo, Thomaz. Nunca aceitaremos ser fracos.

Foi a primeira noite em que não baixamos as velas e a âncora, e naquela noite Hela segurava o Timão, enquanto todos permaneciam no Convés com o coração em suas mãos, todos ansiosos para o que estava além de nossas vistas.

E eu? Estava no topo do mastro olhando para longe, sentindo aquele vento que percorria milhares de km até mim, tornou-se um hábito agradável ficar ali. E no horizonte, em meio às águas escuras, surgem as várias luzes e os barcos atracados ao porto, até mesmo a cidade iluminada mais ao longe.

E por fim Hela gritou: — 22ª ILHA A VISTA!

Aviso do Autor:

José Victor B.Martins

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