VS – Episódio 10 – Capítulo 01

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Episódio 10 / Capítulo 01 — Ragnar Lodbrok (1)

Tradutor: Erufailon | Editor: Erufailon

 

Tae Ho abriu os olhos. Desta vez, ele estava em um aposento aconchegante ao invés de numa floresta repleta de galhos e folhas. Ele desfrutou da sensação confortável transmitida pelo cobertor por um tempo antes de começar a pensar a respeito das coisas que haviam acontecido um pouco antes de sua consciência desvanecer.

Havia encontrado um item épico desconhecido e, depois de absorver as runas do corpo morto do basilisco, usara sua capa para cobrir o corpo nu de Siri. A última coisa da qual se lembrava era de Rolph correndo em sua direção.

— ‘Mmm.’

Sua memória se tornara embaçada depois disso mas, aparentemente, ele havia tomado um antidoto e então dormido logo em seguida.

— ‘Embora a benção de Idun sirva para impedir a sonolência, ela ainda permite que você durma de imediato’.

Tae Ho realizou algo sem sentido, afastando o cobertor para verificar as roupas que estava vestindo. Ele se sentia muito bem por estar usando peças de roupa limpas, mas percebeu algo importante naquele momento.

— ‘Meu item épico!’

Ele ainda não havia descoberto suas propriedades, mas o item continuava sendo da Classificação Épica.

Em Valhalla, era dada aos guerreiros a posse dos itens que eles pilhavam de seus inimigos, exceto em casos raros. Então, não importa o que qualquer um dissesse, o dono daquele item era Tae Ho!

— ‘Não, mais importante do que isso… e se eles jogaram o item fora?’

À primeira vista, ele não se parecia com nada além de um cabo de espada velho, quebrado e inútil.

Tae Ho apressadamente ergueu a cabeça e então suspirou, aliviado. Suas roupas e itens estavam empilhados em uma pequena mesa próxima da cama. O cabo quebrado também estava ali.

— ‘Ufa…’

Então, ele ouviu uma voz perto de si.

— Está tudo bem, esse é um lugar seguro. Você teve um pesadelo?

Era a voz de Siri. Ela falou em um tom baixo, calmo e até mesmo um pouco gentil. Tae Ho virou a cabeça, seguindo a direção da voz e viu a capitã acamada, assim como ele.

— Capitã Siri.

— Nós dois estamos bem, fico feliz por isso. Gandur e os outros chegaram na hora certa.

O sorriso de Siri era calmo. Seu jeito suave era algo bonito de se ver mas, ao contrário do usual, lhe faltava força no olhar. Seus lábios também pareciam estar secos.

— Está mesmo tudo bem com você? — Tae Ho perguntou, preocupado.

Siri assentiu, mal se mexendo.

— Mais ou menos. Devo estar melhor depois de descansar um pouco mais. Eu também sou uma guerreira que acumulou uma grande quantidade de runas, afinal.

Ela também era uma super-humana.

Como Siri estava vestindo um sorriso afável no lugar de sua armadura, ao invés de dar a impressão de uma poderosa guerreira ela mais se parecia com uma bela, porém fraca, mulher.

Tae Ho recordou-se da noite anterior.

— ‘Não, certamente não’.

Ele apagou as coisas que surgiram em sua cabeça e olhou para Siri depois de pigarrear.

— Me sinto contente em ouvir isso.

— Sim, foi um tanto perigoso… mas foi uma boa experiência.

Siri perguntou-lhe com os olhos, indagando se pensavam da mesma forma e Tae Ho assentiu. Ambos sentiram que o senso de camaradagem entre eles havia se aprofundado.

— Er… Capitã Siri, onde estamos? — Ele perguntou enquanto observava o aposento em que estavam.

— Parece ser uma casa cedida pelo Congresso das Fadas Sombrias. Enquanto você estava dormindo Gandur passou por aqui e disse ter controlado a situação.

— Quanto a isso… ela estava se referindo a família Mollo?

— A primeira coisa que você deve saber é que essa expedição não foi solicitada pela família Mollo, mas sim pelo congresso.

Tae Ho pendeu a cabeça ao ouvir a explicação inesperada e seus olhos se arregalaram quando ele percebeu algo.

— Ei, espera. Então o congresso percebeu o erro da família Mollo e por isso eles requisitaram uma expedição de Valhalla dizendo ser um pedido deles, ao invés do congresso como um todo?

— Surpreendente. Você está certo.

Ela continuou explicando de olhos arregalados, como se estivesse realmente surpresa.

— Aparentemente a família Mollo estava procurando por algo. Eles realmente descobriram alguma coisa durante as escavações… mas parecem ter acordado alguns basiliscos durante o processo, ou eles estavam escondendo as criaturas por causa de um motivo desconhecido. De qualquer forma, eles foram pegos pelas outras famílias de fadas sombrias.

— Uma escavação?

— Ainda há muitas relíquias das grandes guerras nesse lugar. — Ela resmungou com um olhar sombrio e então ergueu a cabeça.

— Ah, mas se eu falar dessa forma você não vai conseguir me entender. Você sabe sobre o Ragnarök, certo?

— Hum… eu ouvi Heda dizer que as linhas de frente estavam se aderindo.

— Certo, mas dizem que há muitos anos atrás, quando o Ragnarök começou, ocorreu uma grande e cruel guerra. Na verdade, ela é a razão pela qual as linhas de frente estão se aderindo.

— Então houve uma batalha em larga escala, mas os dois lados acabaram recuando?

Era algo compreensível. Havia inúmeros casos como esse no mundo mortal.

Tae Ho assentiu e Siri continuou a falar.

— As relíquias da Grande Guerra são o que restou daquela luta. Esses vestígios permaneceram nos inúmeros planetas de Asgard que têm Yggdrasil como seu eixo central.

Os vestígios da guerra onde os guerreiros, que eram tão numerosos quanto as estrelas, haviam sucumbido.

— ‘Então, esse cabo…’

Os olhos de Tae Ho se moveram em direção ao pedaço de espada desconhecido. Talvez ele fosse parte de uma arma poderosa usada por um herói daquela época.

— Pelo que a família Mollo poderia estar procurando?

— Eu me pergunto… nós devemos investigar, de qualquer forma. Vendo que até mesmo um Regenerador apareceu, nós estamos certos de que os Gigantes estão por trás disso.

Siri respondeu em voz baixa e terminou dizendo que o chefe da família Mollo havia desaparecido junto de parte da família.

— ‘Talvez eles estivessem em busca desse pedaço de espada?’

Independentemente do que, ele ainda era um item épico. Mas, pensando melhor, Tae Ho duvidava que fosse o caso. Baseando-se nas circunstâncias, era altamente provável que os basiliscos foram enviados pela família Mollo. Isso queria dizer que eles também podiam controla-los.

O pedaço de espada não estava enfincado em um lugar como o estomago da criatura, mas sim entre suas escamas. Se o que eles estavam procurando realmente era o pedaço da espada, não parecia provável que eles teriam deixado o cabo passar sendo capazes de controlar os basiliscos.

— Tae Ho?

— Não é nada, eu só estava pensando. — Tae Ho estava prestes a mudar de assunto quando-

— Capitã Siri!

— Siri, está tudo bem?

— Seu rosto pequeno parece ter ficado ainda menor!

— Você está tão pálida!

Os guerreiros da legião de Ullr entraram no quarto, cercando a cama em que Siri estava deitada. Todos eles pareciam preocupados.

Siri sorriu para eles e então olhou de relance para Tae Ho.

— Eu estou bem. Não se esqueçam de ficar preocupados com Tae Ho também.

Ela não era a única paciente naquele lugar, afinal. Mas, apesar de seus pedidos, os guerreiros de Ullr apenas bufaram.

— Aquele cara está ótimo.

— É, não tem porque se preocupar.

— Não tem porque você se importar com ele, Capitã.

Mesmo Rolph, em quem Tae Ho confiava, expressou-se com palavras frias. Siri, surpresa com o tratamento indiferente, estava prestes a ficar nervosa, mas Gandur foi mais rápida.

— Não impliquem com ele.

A valquíria Gandur, que entrou no aposento por último, olhou para ambos os pacientes e sorriu.

— Guerreiro Tae Ho.

— Sim!

Tae Ho respondeu por instinto, podendo vagamente compreender a situação. O rosto dos guerreiros era penoso e Gandur acabou rindo. E então, uma voz veio além da porta.

— É um encontro.

— Heda!

Ele tinha suas dúvidas, mas realmente era Heda. A valquíria se aproximou da cama de Tae Ho e começou a examiná-lo.

— Você está bem? Me disseram que você foi gravemente ferido.

— O ponto positivo da legião de Idun é que somos todos muito resistentes. Eu estou bem.

— Me sinto feliz em ouvir isso.

Heda soltou um sincero suspiro de alívio e os guerreiros encararam Tae Ho com inveja brilhando em seus olhos. Heda se aproximou, aparentemente inconsciente daqueles olhares.

— Fique quieto. Eu vou te abençoar.

Era algo comum em cada encontro entre eles. No entanto, Tae Ho não pôde evitar de se sentir nervoso e os guerreiros pareciam ter engasgado com o ar.

Heda empurrou para longe uma mecha de seu cabelo e beijou gentilmente a testa de Tae Ho. Ele estava em uma perda quanto ao que dizer e os guerreiros de Ullr não estavam em uma situação muito diferente.

— Que a benção de Idun lhe acompanhe. — Heda disse, gentil.

— Agora eu entendi porque eles estavam fazendo esse estardalhaço todo. — Siri, que estava observando a situação, sorriu amargamente.

— Eu estava me perguntando o que vocês faziam durante esses encontros!

— Impossível!

Os guerreiros começaram a falar depois de ouvir Siri. Um deles até mesmo se virou para olhar Gandur e gritou:

— Gandur! Me abençoe também!

— Vá se lavar. Você fede.

— Wah! Você está sendo maldosa demais… — o guerreiro ficou deprimido, abaixando a cabeça ao ouvir a resposta fria.

— O que há de errado? Isso é algo normal, não é Tae Ho? — Heda encolheu os ombros diante da reação dos guerreiros, a expressão calma.

— Você fez isso de propósito, não fez?

Heda colocou a língua pra fora e riu antes de se recompor.

— Antes de mais nada, eu preciso te apresentar uma pessoa.

— Alguém que você precisa me apresentar? Ele é-

Tae Ho imediatamente pensou na pessoa que ele vira antes de desmaiar, que ainda não estava dentro daquele aposento. Era o poderoso guerreiro que ele só conhecia pelo nome — o guerreiro que cortou o pescoço de um basilisco como se fosse feito de palha.

— Ragnar, pode vir! — Heda gritou, olhando para a porta.

— Ragnar?

— É aquele Ragnar?

Os guerreiros da legião de Ullr se entreolharam, piscando. Todos eles compartilharam do mesmo sentimento.

— Espere, então a pessoa que lutou conosco era…

Eles não conseguiram continuar falando. Todos olharam em direção à porta, sem fôlego e, surpreendentemente, Siri engoliu em seco e também começou a olhar, expectante, para a entrada do aposento.

Um homem lentamente entrou pela porta. Ele era realmente alto, com membros bastante longos. Seu rosto era tão integro quanto elegante e sua barba dourada também era algo marcante. Seu cabelo, raspado nos cantos, lhe dava uma aparência afiada e predatória.

Mas, acima de tudo, a coisa mais impressionante naquele homem eram seus olhos.

Tão verdes quanto as folhas de um carvalho, continham loucura e mistério em suas profundezas. Um par de olhos que muito se assemelhava aos de um lobo.

— Eu irei introduzir você. Ele é Ragnar Lodbrok. — Heda disse e, naquele momento, os guerreiros esbravejaram.

— Ragnar Lodbrok!

— Meu deus!

— S-santo-

— R-Ragnar Lodbrok.

A última a falar foi Siri. Ela estaca corada, gaguejando o nome daquele homem como uma garotinha olhando para o seu ídolo favorito — era uma expressão inimaginável vindo dela.

— Oooh! Ohhh!

Os guerreiros da legião de Ullr mal conseguiam falar. O homem chamado Ragnar sorriu para eles e até mesmo piscou para Siri, que tampou a boca com as mãos e engoliu o ar. Era uma cena irrealista de inúmeras maneiras.

— Ragnar, esse é o nosso guerreiro Tae Ho. Tae Ho, esse é Ragnar. — Heda não parecia afetada e disse, apontando para ele.

E, ouvindo a breve introdução da valquíria, os guerreiros de Ullr arregalaram os olhos. Eles sabiam o que aquele tipo de introdução significava.

No entanto, Ragnar apenas assentiu levemente, aproximando-se de Tae Ho.

— Eu sou Ragnar Lodbrok. Acho que não há porque eu me introduzir, certo? — Ele terminou de falar olhando para os guerreiros da legião de Ullr e eles assentiram, como se tivessem se transformado em Tae Ho.

No entanto, o próprio Tae Ho não conseguiu seguir com esse fluxo de pensamento, já que ele era o tipo de pessoa com um conhecimento mínimo de mitologia nórdica. Ele só sabia sobre os deuses como Thor e Odin, não havia como ele ter conhecimento prévio dos heróis daquele povo.

Ele olhou de relance para Heda, mas talvez não fosse o tipo de atmosfera correto para se fazer esse tipo de pergunta. Ou talvez fosse, já que ele sentia que a valquíria desejava que ele próprio fizesse essa pergunta para Ragnar.

— ‘Ele me mataria se eu perguntasse?’

Tae Ho se decidiu e então olhou para Ragnar.

— Er… eu estou perguntando porque eu realmente não sei, mas… quem é você? — Ele disse em um tom cheio de nervosismo e com uma expressão apologética no rosto.

Quem diabos era Ragnar?

Ouvindo a pergunta de Tae Ho, o queixo dos guerreiros de Ullr caiu e Siri mal foi capaz de impedir as palavras que estavam prestes a deixar sua boca.

Como se a reação de Tae Ho tivesse sido completamente inesperada, Ragnar olhou para ele com a expressão de alguém que havia acabado de ser esfaqueado. Apenas Heda começou a rir, silenciosamente.


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