VS – Episódio 10 – Capítulo 02

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Episódio 10 / Capítulo 02 — Ragnar Lodbrok (2)

Tradutor: Erufailon | Editor: Erufailon

 

Ragnar Lodbrok era o princípio de todos os vikings, uma lenda mesmo dentre os inúmeros heróis de seu povo. O mais exaltado dos guerreiros e explorador renomado que se aventurou por terras até então desconhecidas pelas outras tribos, era destemido e não se acovardava diante de qualquer desafio.

Ele tinha inúmeras esposas, todas muito bonitas, que deram a Ragnar filhos poderosos. Além disso, era um matador de dragões, um guerreiro que lutou mano a mano contra uma dessas criaturas bestiais para resgatar uma linda donzela presa dentro de sua torre. Ele era poderoso, valente e sábio. Era um veterano astuto que lutou em inúmeras guerras cheias de crueldade, tal como Odin, Pai de Todos.

Os guerreiros da legião de Ullr começaram a explicar a respeito de Ragnar Lodbrok, mesmo enquanto cuspiam. Siri não participou da conversa de modo tão ávido, pois entendia que Tae Ho não o conhecia, mas suas explicações não deixaram de ser excessivamente detalhadas.

Tae Ho escutou tudo com uma expressão indiferente, enquanto pensava.

— ‘Huh… então ele é um rei lendário. Alguém parecido com o Rei Arthur, ou Gwanggaeto[1]. Está tudo bem em pensar dessa forma?’

Mesmo que ele fosse uma personalidade importante para o povo viking, essa era a primeira vez que Tae Ho escutava aquele nome, então não era algo tão chocante.

— Colocando em palavras simples, ele é um guerreiro de Classificação Superior — Heda murmurou, como se soubesse o que Tae Ho estava pensando.

— Oh! — Ele entendeu de imediato o porquê de tudo, exceto o nome de Ragnar, ter ficado borrado quando ele inspecionou o guerreiro com os olhos do dragão. E, com tudo o que ele havia ouvido até então, era de se esperar que uma pessoa tão lendária e poderosa fosse, ao menos, de Classificação Superior.

— Ele já foi um dos guerreiros a atingir a mais alta classificação em seu auge, mas se retirou por inúmeros motivos. — Gandur acrescentou.

— Ahh! — Desta vez, foram os guerreiros de Ullr que elevaram suas vozes. Eles pareciam entender o motivo pelo qual Ragnar deixou de ser um guerreiro da classificação mais alta.

— Se ele mostrasse toda a sua força, você nem seria capaz de respirar. — Heda acrescentou pela última vez, balançando a cabeça com uma expressão animada.

— ‘Ele parece ser um guerreiro incrível, de qualquer forma.’

Tudo o que havia ouvido até então não importava tanto, mas para Siri ter uma expressão tão inusitada em seu rosto Ragnar deveria ser um homem muito poderoso.

— ‘Mas por que Heda o chamou? ’

Tae Ho olhou para a valquíria e ela lentamente acenou com a cabeça.

— Er, Gandur. De agora em diante eu quero discutir alguns assuntos privados da nossa legião, você poderia me ajudar? — Heda olhou para Gandur e disse.

— Bem, não é como se eu não pudesse. Uma barreira já está bom o bastante?

— Sim, obrigada.

Assim que Heda assentiu, Gandur pegou um pedaço de pedra inscrita em runas de dentro de seu bolso. Heda pegou uma pedra parecida e, depois que elas suspenderam as pedras no ar olhando uma para a outra, uma cortina de luz pálida se espalhou entre a cama de Siri e a de Tae Ho. E, depois que o aposento foi dividido ao meio, Heda depositou sua pedra rúnica em cima da cama dele.

— Eu chamei Ragnar até aqui para que ele pudesse ser seu professor.

— Professor?

— Sim, isso mesmo.

— Mas se ele virar meu professor, você…

— Você usou o poder de Idun, certo? — Heda perguntou em um murmúrio. Não era como se ela estivesse culpando-o ou tentando adverti-lo, ela estava perguntando apenas para ter certeza.

Ao invés de responder, Tae Ho assentiu. Heda fechou os olhos e então sorriu, parecendo bastante perturbada.

— Eu meio que esperava isso. Ou melhor, você pode dizer que foi um palpite… Tae Ho, você é uma existência acima de todos os padrões por muitos motivos.

Palpitar era uma coisa, mas Tae Ho realmente ter usado aquele poder era outra.

Heda lentamente abriu os olhos, colocando uma mão sobre a dele.

— Eu não posso fazer isso sozinha. Esse é o motivo pelo qual eu perguntei por ai exaustivamente até conseguir trazer Ragnar comigo.

Ele não era um guerreiro que pertencia a legião de Idun. Ragnar era um dos guerreiros de Odin e, mesmo aposentado, todos os guerreiros de Ullr o respeitavam imensamente. Era obvio que ele era um figurão dentre todos os outros figurões.

 — Heda — disse Ragnar. Ele estava escutando a conversa entre ambos, encostado numa parede. Os lábios do guerreiro se contorceram e então ele sorriu. — Eu ainda não aceitei tomar a responsabilidade sobre seu garoto — e, embora os olhos de Ragnar estivessem sorrindo, eles emitiam um brilho perigoso.

— Isso é verdade, mas o mundo está mudando. Em tempo, você vai querer ensiná-lo. Na verdade, vai pedir para ensiná-lo.

Para Tae Ho, que até então só havia conhecido a gentil e doce Heda, a valquíria provocante com olhos afiados era uma novidade.

— Um guerreiro de Classificação Inferior usando o poder de um deus é algo realmente impressionante, mas isso é tudo. — Ragnar disse, bufando.

 Até mesmo seus filhos podiam fazê-lo. Era algo impressionante, mas não raro. Ragnar então olhou para Heda, como se esperasse uma resposta dela.

— Tae Ho, eu confio em Ragnar. Você se importaria de mostrar sua saga para ele? — Heda perguntou, apertando levemente as mãos dele.

Era para ser um segredo. Quem havia preparado o terreno, por assim dizer, era Heda. Mas era Tae Ho quem deveria decidir usar a oportunidade ou não. Ele se virou para encarar Ragnar e assentiu.

— Se você confia nele, eu farei o mesmo.

Ele ainda não sabia que tipo de homem Ragnar era, mas Tae Ho realmente acreditava em Heda. Ele sequer podia imaginar a valquíria fazendo algo que lhe machucasse de propósito.

— Tudo bem, obrigada.

Heda se levantou e deu uma pena de ferro para ambos os guerreiros. Era algo que Tae Ho já havia utilizado antes. Um item mágico que tinha a capacidade de mostrar sua saga para outra pessoa.

Ragnar agarrou a pena como se dissesse ‘siga em frente’. Tae Ho respirou fundo e, ao invés de falar, ele imediatamente pensou em sua saga.

【Saga: Guerreiro Imortal】

Era a história do cavaleiro dragão Kalsted, tido como a mais poderosa existência em todo Dark Age. O recorde do melhor jogador profissional do mundo, Lee Tae Ho.

Os olhos de Ragnar se arregalaram. Ele, que estava encostado contra a parede, ficou tão surpreso que fixou sua postura quase que de imediato.

— Você… — O homem não tinha palavras para descrever o que sentia. Ele mal conseguiu dizer algo depois de um bom tempo apertando os lábios em dúvida. — O que você usou para fazer isso, seu bastardo… não, pessoa. Melhor dizendo, senhor? — Ele quase não conseguiu dizer a última palavra.

Tae Ho olhou para Ragnar por um tempo, ao invés de responder e Heda, como se já estivesse esperando por aquela reação, apenas sorriu docemente.

♦ ♦ ♦

— Isso é louco demais pra ser verdade.

Ragnar continuou a rir por um bom tempo depois de ter saído da casa acompanhado por Heda. Ele próprio era um matador de dragões que caçou as bestas, dono de uma incrível saga que o transformou em uma lenda entre os vikings. No entanto, Tae Ho estava acima de si.

 — Ele realmente é um cara engraçado.

Ele tinha uma saga incrível, mesmo sendo apenas um guerreiro de Classificação Inferior. Até o desequilíbrio tinha seus limites.

— ‘Não, ele está ficando mais forte… e rápido.’

Ele não era nada além de um guerreiro da classificação mais baixa até recentemente. Tae Ho havia ascendido à Classificação Inferior no dia anterior, mas já estava usando o poder de Idun, algo que só deveria ser possível para alguém da Classificação Intermediária.

Ragnar era uma lenda entre os vikings e, por conta disso, ele era um guerreiro ideal de Valhalla. Ele amava guerreiros fortes e exaltados.

— Ragnar, o que você acha que vai acontecer? — Heda engoliu em seco, perguntando com um ligeiro tom de nervosismo em sua voz.

— O que?

— Quando a saga de Tae Ho se completar e ele se tornar tão forte quanto ela, o quão poderoso ele vai ser?

Até que patamar Tae Ho seria capaz de subir? Ragnar não ponderou por muito tempo e logo encontrou uma resposta.

— Ao menos tão forte quanto Sigurd.

Matador de dragões. O homem que derrotou inúmeros dragões, mesmo que você já pudesse ser considerado uma lenda apenas por matar um. Ele era o dono da Espada divina, Gram, presenteada por Odin e cônjuge da bela valquíria Brynhildr. O rei dourado que detinha uma parte dos tesouros de Fafnir.

Heda fechou os olhos, exultante. Ela perguntou a Ragnar novamente, que havia nomeado um dos melhores guerreiros a já agraciar os salões de Valhalla.

— E na melhor das hipóteses?

Dessa vez, Ragnar não respondeu. Ele fechou os olhos novamente e então abriu um sorriso brincalhão.

— Então, eu só tenho que ensinar aquele cara?

— Não de qualquer jeito. Você também não pode apressar as coisas.

Havia um aviso nos olhos de Heda, mas Ragnar apenas sorriu como se estivesse brincando.

— Ainda sim, você não pode guarda-lo como se ele fosse um baú cheio de tesouros preciosos.

 Ragnar fixou seu olhar no de Heda. Ela era bela e simplória, mas essa era a razão dela ter olhos tão gentis. Eram completamente diferentes dos olhos de Ragnar, que muito se assemelhavam aos de um lobo.

— Eu irei confiá-lo a você. — Heda disse, suspirando. Ragnar apenas sorriu, assentindo.

— Não se preocupe, eu irei tomar conta dele.

Muito tempo já havia se passado desde a última vez em que ele ensinara alguém. No entanto, Tae Ho era uma existência que o compelia a fazê-lo.

— Além do mais, Heda, você não sabe nada a respeito desse caso? — Ragnar disse, mudando de assunto. Foi por apenas um breve momento, mas ele havia enfrentado os basiliscos, então era natural que ele se sentisse curioso.

— Eu ainda não sei, mas tenho a impressão de que os Gigantes estão por trás disso. Considerando que um Regenerador apareceu, provavelmente estamos lidando com o lado de Utgard Loki — ela disse, exalando um longo suspiro.

Quem criou os Regeneradores foi o Rei Gigante, Utgard Loki, também chamado de “Rei Mago”.

 — O que eles estavam procurando?

— Isso é algo que deveríamos descobrir.

A informação ainda era escassa. A investigação a respeito da família Mollo havia acabado de começar, então eles ainda precisavam de mais tempo.

— Um, Ragnar…

— O que foi? — Ragnar se aproximou de Heda e perguntou. Olhando para o guerreiro, ela perguntou novamente.

— Então, qual é o melhor cenário que você consegue imaginar?

Era a pergunta que ele ainda não havia respondido.

Ragnar abriu seus olhos afiados e se aproximou um pouco mais de Heda, sussurrando seus pensamentos contra os ouvidos da valquíria.

♦ ♦ ♦

— ‘Ele realmente virou meu professor…’

Enquanto Heda e Ragnar estavam conversando no lado de fora da casa, ele foi deixado sozinho com Siri novamente, fazendo-o pensar nas coisas que ele havia enfrentado até então.

 — Bem, parece que eu vou realmente precisar de um.

As aulas de Heda eram, em sua maioria, teóricas. Além disso, ela era uma valquíria, então ele se perguntou se seria mais efetivo aprender diretamente de um dos guerreiros de Valhalla.

— ‘Um homem em quem Heda confia.’

Sendo assim, Tae Ho também acreditaria nele por enquanto. Ele aprenderia de um guerreiro que Rolph e até mesmo Siri admiravam.

— Antes de mais nada… — Tae Ho sussurrou, olhando para o cabo velho e quebrado de espada que ele havia encontrado, em suas mãos. Olhando para o fragmento com os olhos de dragão, ele ainda podia enxergar as letras na cor do arco íris que representavam a classificação épica do item.

— ‘Eu tenho certeza de sua classificação, mas…’

Tae Ho não sabia de que modo usá-lo. Como você usa uma espada tendo apenas o cabo?

— ‘Eu tenho certeza de que há algo que eu possa fazer, eu sinto isso…’

Eram os sentidos de um jogador profissional, algo difícil de se explicar.

[Fragmento de uma Espada Desconhecida]

Obviamente não era um item normal, de forma alguma. Embora fosse algo específico de Dark Age, não havia nenhum item de classificação épica que pudesse ser usado como material. Os materiais utilizados na criação de uma arma de classificação épica eram todos de uma classificação inferior: única.

Talvez esse fosse o primeiro material de classificação épica existente? Ou o cabo possuía uma classificação tão alta mesmo sendo apenas um fragmento?

— ‘Os resquícios da Grande Guerra.’

Se esse realmente fosse o caso, aquele cabo não seria o fragmento de uma arma empunhada por uma existência divina?

Tae Ho tocou no cabo, encarando as letras coloridas.


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[1] Gwanggaeto, o Grande, foi o décimo nono monarca de Goguryeo, um reino coreano. Seu nome póstumo significa “sepultado em Gukgangsang, amplo expansor de domínios, pacificador e rei supremo”, por vezes abreviado como Hotaewang.