VS – Episódio 12 – Capítulo 02

 

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Traduzido por: Erufailon


Volume 12

Capítulo 02 — O Rugido do Dragão (2)

 

Sua respiração estava pesada. Atrás dele, o fogo e a luz brilhavam ferozmente e à sua frente havia um caminho feito de chamas.

O gigante era enorme. Embora fosse menor que o gigante que aparecera na Fortaleza Negra, ele ainda sim parecia ter dezenas de metros de altura. Ele estava no meio do pilar destruído, o corpo totalmente coberto em fogo.

Havia chifres de cervo no elmo que protegia sua cabeça e parte de seu monstruoso corpo estava coberta por uma armadura.

Levou apenas alguns segundos para que Tae Ho se aproximasse dele. Ele conseguiu ver e ouvir diversas coisas naquele curto período de tempo.

As fadas gritaram; monstros começaram a aparecer das rochas que descenderam junto do gigante; os guerreiros das legiões de Ullr e Odin cavalgaram como homens ensandecidos e do fogo abrasador surgiu, como se estivesse chorando, uma densa fumaça negra.

Tae Ho apertou o cabo de sua lança com força. Não era hora de ser meticuloso, ele precisava atacar e só então parar para observar.

A velocidade de Siri aumentou. Tae Ho mirou no ombro esquerdo do gigante lerdo e impiedosamente atacou usando sua poderosa lança, investindo antes mesmo que o monstro pudesse fazer qualquer coisa.

Com um som estrondoso a lança atingiu o gigante, culminando numa explosão que o fez cambalear para trás.

Mas foi só. Siri, que estava protegida do tremor, voou pelo gigante e Tae Ho soltou sua lança parcialmente destruída e então virou-se para trás de modo a observá-lo.

Ele soube no momento em que o apunhalou que ele não conseguiria feri-lo. A primeira lança que ele atirou também não fez nada contra o gigante, meramente obrigando-o a dar alguns passos para trás por conta da força de impacto.

Era culpa da aura defensiva.

No momento em que eles se chocaram, suas defesas foram destruídas. Entretanto, naquele curto período de tempo, a aceleração e o poder da lança já haviam enfraquecido.  E, mesmo se esse não fosse o caso, a pele do gigante era resistente e ele estava usando uma armadura. Apesar dele ter sido forçado a recuar, o monstro tinha recebido apenas alguns arranhões.

Siri fez uma ampla curva e, junto de Tae Ho, conseguiu enxergar o gigante erguer seus braços ao invés de empunhar uma arma, como havia feito o gigante na Fortaleza Negra.

Naquele momento, o chão começou a tremer. Um turbilhão de fogo surgiu; o vento, originado dos braços do gigante, se tornou um com as chamas.

Ele começou a avançar, queimando a floresta.

“Oh céus!”, Tae Ho pensou.

O gigante não era um guerreiro; ele era um mago. Embora fosse uma situação que poderia ocorrer a qualquer hora, Tae Ho não conseguiu evitar de se sentir estupefato.

As chamas começaram a se alastrar pela floresta em uma velocidade ainda maior. Fumaça negra encobriu os céus e as fadas sombrias, que estavam na floresta, não conseguiam nem mesmo gritar. Elas desmaiaram tão logo inalaram a fumaça, deixando os guerreiros de Valhalla sozinhos para lutar contra o fogo.

Um vórtice de chamas apareceu novamente nas mãos do gigante. Ele parecia estar tentando destruir tudo em seus arredores, ao invés de se concentrar em Tae Ho.

Ele precisava pará-lo; precisava chamar sua atenção da melhor forma que pudesse.

[Saga: A Espada do Guerreiro]

Tae Ho materializou a Lança Pesada novamente, voando para perto do gigante — ele atirou a lança em seguida.

O gigante balançou suas mãos, como se estivesse tentando espantar uma mosca. O chão tremeu e o fogo continuou a se espalhar pelos arredores.

Siri tentou voar o mais rápido que sua capacidade lhe permitia e, passando pela onda de chamas, Tae Ho começou a pensar.

 Ele não tinha atirado a lança apenas para chamar a atenção do gigante, mas também para obter um melhor entendimento da aura defensiva que cobria o monstro. Ela não era tão poderosa quanto ele tinha pensado no início, dissipando depois de receber apenas um ataque de sua arma.

Mas o problema era a sua capacidade de regeneração. Tae Ho, depois de três ataques, estimou que o tempo que ela levava para se recuperar era de mais ou menos três segundos.  Embora fosse rápido, não era instantâneo.

[Saga: Os Olhos de um Dragão que Vê Através de Todas as Coisas]

Siri fez outra curva em pleno ar e Tae Ho observou o gigante com seus olhos de dragão — ele conseguiu enxergar uma tênue luz no meio do tórax dele.   Embora ele não pudesse ver o formato por completo, já que a luz estava encoberta pelo peitoral triangular, ele estava certo de que aquilo era um ponto fraco.

“Tae Ho!”, Siri gritou por ele com todas as suas forças.

 Ele colocou mais de seu poder na [Saga: Aquele que Pode Manipular Dragões] para auxiliar o voo de Siri.  A onda de fogo vinda do gigante se tornou ainda mais viciosa. Eles estavam tendo dificuldade para respirar por conta da fumaça encobrindo o céu.

Como estaria a luta no lado de Rasgrid? Quando os reforços chegariam? As fadas do vilarejo seriam capazes de sobreviver? O que dizer dos guerreiros de Valhalla lutando embaixo do gigante?

Tae Ho se sentiu sobrecarregado. Antes de mais nada, ele tinha que dar um jeito no fogo… e, para fazer isso, o gigante precisava ser derrotado.

— Tae Ho, as fadas! — Siri gritou com todas as suas forças, mas desta vez sua voz exalava deleite.   Tae Ho apressadamente se virou para olhar na mesma direção que Siri. No lugar onde a cobertura de galhos havia sucumbido, estava um agrupamento de fadas — mas, ao invés de uma tonalidade escura, suas peles eram esverdeadas.

“Magia!”, ele pensou.

Através de seus olhos de dragão, ele conseguiu enxergar fachos de energia mágica sendo acumulados. Os magos começaram a entoar um cântico e o poder mágico concentrado começou a se erguer nos céus.

Um barulho ecoou acima de suas cabeças; nuvens se formaram e Tae Ho entendeu o que iria acontecer.

Era um dilúvio. Chuva derramou-se sobre o gigante e os seus arredores como se um enorme buraco tivesse sido feito nos céus — ela engoliu toda a fumaça. As chamas ardentes foram aplacadas, impedindo que elas consumissem a floresta. A chuva até mesmo enfraqueceu o fogo emanado pelo corpo do gigante.

— Odin!

— Ullr!

Os guerreiros de Valhalla comemoraram, mas eles não podiam apenas ficar parados.  Embora seus corpos fossem tão fortes quanto o aço, comparadas a eles, as fadas sombrias eram muito frágeis. A chuva pesada era tão ameaçadora para suas vidas quanto o incêndio.

Rolph, que estava observando Siri e Tae Ho lutarem, abraçou uma criança que havia caído perto de si. Sua respiração estava fraca e seu corpo trêmulo estava gélido.

Eles tinham que se apressar. Embora eles provavelmente fossem capazes de ganhar caso mantivessem a situação atual e esperassem por reforços, inúmeras fadas sombrias morreriam como consequência.

O gigante se voltou para os magos. Ele começou a entoar um cântico com o propósito de atacá-los a distância e, mesmo sabendo disso, as fadas sombrias não podiam deixar seus postos — elas precisavam ficar paradas para manter a chuva.

Outras fadas estavam cavalgando até o local, montadas em seus cavalos. O gigante jogou uma esfera de vento na direção dos magos e alguns deles ergueram seus cajados na hora certa.  Algo invisível a olho nu conseguiu, com grande dificuldade, parar a esfera de vento — o vendaval resultante foi tão brutal que as árvores em volta foram destruídas.

Infelizmente, alguns dos magos que estavam próximos das árvores foram atingidos; alguns até mesmo cuspiram sangue.

Tae Ho respirou fundo.  Siri cambaleou por conta da chuva, mas ela bateu suas asas enquanto trincava os dentes; Tae Ho lhe sussurrou seu plano.

Era um plano arriscado, mas — ao invés de discordar — Siri concordou. Parecia que eles precisavam ser imprudentes para derrotar o gigante.

— Vamos! — Tae Ho gritou. Siri chamou a sua própria saga enquanto voava, ativando a [Saga: Bruxa Lupina] para conservar estamina.

[Saga: Aquele que Pode Manipular Dragões]

[Saga: A Investida de um Guerreiro é como uma Tempestade]

Tae Ho também usou suas sagas em sequência, de modo a tornar o voo imprudente de Siri um sucesso.

Ela voou na direção do gigante como se estivesse investindo contra ele; a criatura estendeu a mão, mas Siri passou através dela por um triz e então virou-se em espiral.  As costas da Siri ficaram voltadas para o chão por um instante e, naquele momento, Tae Ho pegou Unnir e deixou que algumas coisas caíssem de dentro dela.

Eram duas pedras do tamanho de um dedo. Tae Ho entoou um cântico no momento em que elas saíram da algibeira, como Heda havia lhe ensinado.  As pedras voltaram ao seu tamanho original sem que ele precisasse esperar três segundos. Com um estrondo audível, pedregulhos do tamanho de uma pessoa despencaram sobre a cabeça do gigante.

Embora eles tivessem sido jogados de uma altura relativamente baixa e o gigante fosse enorme — o bastante para praticamente não feri-lo — era o bastante. A aura defensiva foi destruída e Tae Ho pulou das costas de Siri. Seu objetivo era o tórax do gigante.

[Saga: A Espada do Guerreiro]

Ele empunhou Runefang enquanto caia, fazendo-a emanar chamas alaranjadas — mesmo no meio da chuva pesada — e focou seu ataque em um único ponto: justamente nas junções do peitoral que o gigante vestia.

Com o som distinto de algo se partindo, Runefang cortou a junção. A lâmina deixou uma ferida superficial e Tae Ho trincou os dentes. Usando o chão para ganhar impulso, ele também destruiu a junção inferior do peitoral.

A mão do gigante se moveu e, quando estava prestes a ser atingido, Tae Ho torceu seu corpo em pleno ar. Com um grito, ele se transformou num falcão.

 Ele abriu suas asas e alçou voo.

— Tae Ho! — gritou Siri, que voava abaixo dele.

 Ele cancelou a transformação assim que pôde pousar seguramente nas costas de Siri, tornando a olhar o monstruoso gigante. Graças as junções de um dos lados terem sido completamente cortadas, o tórax do gigante estava desprotegido e nele uma enorme rocha, cintilando em luz anil, estava exposta.

 Tae Ho percebeu, mesmo sem usar seus olhos de dragão, que aquela era a fraqueza do monstro. E, talvez, a origem de sua força.

A velocidade de Siri aumentou novamente e Tae Ho invocou Ventania em sequência, usando o feitiço para dispersar o redemoinho conjurado pelo gigante.

Desviando do vendaval, Siri e Tae Ho voaram quase que verticalmente contra a chuva fria, completamente encharcados. A respiração de Tae Ho estava pesada.  — Capitã, aguente — ele sussurrou, inclinando-se para perto de Siri. Então completou — Eu irei exagerar um pouco, agora.

Siri abriu um sorriso forçado, mas ao invés de perguntar se o que eles estavam fazendo já não era algo exagerado, ela simplesmente fortaleceu sua determinação em preparo para o voo derradeiro.

“Um golpe mortal”, Tae Ho pensou.

Seu plano não funcionaria se ele tentasse quebrar aquela enorme pedra aos poucos. Ele necessitava de um ataque poderoso para usar assim que a aura do gigante fosse momentaneamente destruída. Um ataque em que ele daria tudo de si!

A aura dourada que a lança de Tae Ho emanava começou a tomar forma. Um vendaval surgiu envolta dela e, na ponta, estava acumulada a luz brilhante de Idun.

O poder de um deus. E, além disso, as sagas de Siri e de Tae Ho.

[Saga: A Investida de um Guerreiro é como uma Tempestade]

[Saga: As Flechas da Bruxa Nunca Perdem o Alvo]

Tae Ho não estava atacando com uma flecha, mas a habilidade que ele usaria agora poderia ser aprimorada pela saga de Siri.

O ataque poderoso mencionado por Ragnar. A saga mais forte que ele poderia criar naquele momento.

[Taxa de Sincronização: 17%]

[Taxa de Sincronização: 18%]

Sua taxa de sincronização aumentou assim que ele recriou a saga. Isso era algo óbvio, porque essa técnica representava o início da lenda de Kalsted!

[Saga: Rugido do Dragão]

Balista Dragonica!

Ela perfurou através da terra. A explosão ressoou como o rugido de um dragão cortando os céus.

Não era uma simples investida. Outra força motriz foi criada nas costas de Tae Ho. O brilho dourado que apareceu dentre os grossos fachos de luz já era o golpe de um relâmpago. Uma descarga de raios. Tae Ho e Siri tornaram-se eles mesmos uma flecha mortal.

O gigante tentou apressadamente se proteger com um feitiço de vento. Graças a isso, a investida se tornou mais turbulenta, mas a saga de Siri os estabilizou.  Eles começaram a voar na direção do tórax do gigante em rota de colisão!

O poder de Idun dissipou as defesas do gigante e, então, a lâmina cintilante da lança apunhalou a rocha, explodindo junto dela. A capacidade penetrante da Balista Dragonica ajudou-os a perfurar através das rachaduras no pedregulho.

Uma luz anil cintilou intensamente. Era como se o mundo inteiro estivesse sendo pintado de azul.

Talvez fosse apenas impressão, ou talvez o tempo estivesse realmente passando mais devagar, mas… Tae Ho e Siri pousaram no chão de imediato e flutuaram através das rachaduras bem lentamente. Eles não sabiam ao certo o que tinha acontecido, mas Tae Ho tinha certeza de uma coisa: Eles haviam derrotado o gigante. Eles haviam vencido.

Tae Ho estendeu a mão na direção do centro da rocha azul que ele havia destruído; diversos tipos de runas se transformaram em fumaça e começaram a se reunir ao redor dele e de Siri.

Naquele momento, Tae Ho piscou. O tempo tinha voltado ao normal. Contudo, eles não caíram. Uma luz azulada ainda mais intensa os cobriu por completo e então o mundo entrou em caos.

— Ullr!

— Guerreiro de Idun! — Rolph comemorou enquanto observava o gigante tombando. Os outros guerreiros fizeram o mesmo.

No entanto, algo deixou Rolph perplexo — ele olhou ao redor e seu semblante se tornou pálido.

— Capitã Siri? Tae Ho?

Eles não estavam em lugar algum. Rolph pensou que eles teriam ou alçado voo novamente, ou pousado no chão, mas nenhuma de suas expectativas se concretizou. Como aquilo havia acontecido?

Os olhos de Rolph fixaram-se no céu; ele estava perplexo, só conseguindo enxergar as nuvens negras nas quais eles haviam desaparecido.

―♦♦♦―

Eles despencaram no chão. Tae Ho saltou e então rolou sobre o solo para readquirir sua compostura. Siri retornou para sua forma humana. Suas roupas estavam completamente amassadas e destruídas, talvez porque ela havia usado a [Saga: Bruxa Lupina] no meio do voo, mas aquele não era o momento certo para se preocupar com algo do tipo.

Siri havia desmaiado e não parecia estar prestes a acordar e Tae Ho, que mal conseguira se manter consciente, gemeu e forçou-se a ficar de pé.

— Capitã… Siri? — ele resmungou.

As runas que eles não conseguiram terminar de absorver antes foram sugadas para dentro de seus corpos depois de se transformarem em fumaça carmesim.

Tae Ho se aproximou de Siri e deitou-a em uma posição mais confortável, desajeitadamente usando seu colo como um travesseiro. Erguendo a cabeça, ele começou a observar seus arredores.

“Que lugar é esse?”, ele pensou.

Um mundo em que o dia e a noite, a terra e o céu estavam emaranhados, misturados. O cenário, que só poderia ser razoavelmente descrito dessa forma, era o que aguardava Tae Ho.


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