Death Mage — Prólogo

 

Capítulo Anterior « Índice » Próximo Capítulo

Traduzido por: Erufailon


Prólogo

 

O navio ocupado pelos estudantes do Colégio Yasaka afundou durante uma viagem de campo por causa de uma bomba plantada por terroristas.

Neste incidente trágico cento e duas pessoas — passageiros e funcionários — perderam suas vidas.

―♦♦♦―

“Heh… vendo que toda aquela água fria e salgada desapareceu, acho que eu também acabei morrendo ”, pensou. Amamiya Hiroto foi tomado por um profundo torpor ao perceber sua própria morte.

Ele estava em um local parcamente iluminado, junto de inúmeras outras pessoas. Não era algo tão simplório quanto meramente flutuar no Rio Sanzu [1], com seus belos campos floridos aguardando-os do outro lado, mas esta parecia ser, de fato, a entrada para o além-túmulo.

As outras pessoas ali reunidas exibiam reações dos mais variados tipos ao notarem que estavam mortas — algumas choravam, algumas estavam consolando seus amigos e outras demonstravam alívio ao notarem que seus conhecidos ou entes queridos não estavam ali junto delas.

Hiroto queria gritar, dizer em alto e bom som que ele não queria morrer, que ele queria continuar com sua vida, mas não havia nenhum pingo de energia restando em seu corpo exaurido para fazê-lo.

 “Eu morri em vão, no fim? ”, Hiroto indagou-se ao notar uma de suas colegas de classe sentada em um ponto próximo de si.

Ela era Naruse Narumi, a brincalhona da sala e mais comumente referida por seu apelido: Naru. Hiroto havia morrido para salvá-la.

Quando o navio balançou e começou a virar, Narumi não conseguiu se segurar a tempo em um dos corrimões e parecia estar prestes a cair. Hiroto agarrou-a pela mão de imediato, lhe ajudando a segurar o corrimão… e então escorregou pelo chão diagonalmente inclinado no lugar dela, batendo as costas contra a parede e caindo no oceano.

Tudo havia acontecido em um instante; não foi algo que ele pensou a respeito e então decidiu fazer. E agora que ele estava raciocinando com mais clareza, lhe ocorreu que o que tinha feito fora bastante irresponsável. Se ela tivesse sido salva, ao menos ele teria encontrado algum consolo naquela situação, mas…

“Ainda sim, acho que agi como uma boa pessoa antes de morrer”, pensou Hiroto. E mesmo que ele tenha morrido ninguém lamentaria sua passagem, de qualquer forma. Ele havia perdido os pais em uma idade muito jovem e não tinha nenhum irmão biológico. Além disso, ele tinha uma relação medíocre com a família de seu tio, por parte de pai, que o adotara.

“Saia daqui quando você se formar”, haviam lhe dito. Hiroto também não tinha amigos, ou uma namorada. Seu tio provavelmente acabaria herdando todo o dinheiro restante de seus pais e o Dinheiro de Condolência [2] do acidente, então ele considerava que todos os débitos que tinha para com o homem por ter lhe adotado já estavam pagos. Na verdade, era um pagamento mais do que generoso, considerando o abuso que sofrera nas mãos dele… sem contar toda a discriminação por parte de seus primos. Era dessa forma que Hiroto tinha sido tratado até então.

Seus sonhos para o futuro sempre foram vagos, algo como “viver uma vida feliz”, então tudo bem se esse desejo fosse ser realizado no paraíso. Ao menos seu tio e aquela família não estariam ali.

Entretanto, a realidade era irracional e não tão leniente quanto ele gostaria.

— Vocês, almas que já partiram do mundo terreno, foram escolhidos. Eu lhes concederei habilidades especiais, um novo destino e boa sorte. Com essas três coisas, desejo que possam usufruir de uma nova vida em um mundo distinto da Terra em que viviam. — Uma pessoa misteriosa, com um halo de luz flutuando em cima de sua cabeça, apareceu e disse. 

Deuses provavelmente são assim.

Parecia que o que os aguardava não era o paraíso, mas sim um ciclo sem fim de transmigração [3]. As pessoas ali reunidas estavam além de surpresas ao descobrirem que seriam reencarnadas em outro mundo.

— Vocês podem, é claro, negar o meu pedido. Se vocês escolherem fazê-lo, irão perder todas as memórias de sua vida passada e serão reencarnados em algum outro lugar da Terra, como comumente acontece. Peço que aqueles que desejam fazer isso deem um passo em frente.

Hiroto se perguntou quem iria jogar fora uma oferta como aquela, mas havia um garoto que recusou. Ele estava um pouco longe do menino e, portanto, foi incapaz de ouvir o que ele disse para a divindade, mas o deus concordou e permitiu-o retornar ao ciclo normal de transmigração.

É claro que Hiroto, assim como todos ali, pretendia aceitar o pedido do deus. Eles iriam receber algum tipo de poder especial, renascer em um mundo novo com uma nova família e poderiam ser felizes. Nenhuma outra possibilidade oferecia tanta esperança quanto aquela.

 — Tudo bem, quando eu chamar seus nomes por favor venham até mim e fiquem parados na minha frente — disse a divindade.

— Endou Kouya.

— Shihouin Mari.

— Naruse Narumi.

— Mifuji Kanata.

— Minami Asagi.

Um depois do outro, seus nomes foram chamados e eles receberam seus poderes especiais, destinos e boa sorte da divindade antes de deixarem o lugar. Narumi também foi chamada.

Mas até agora metade das pessoas já haviam partido e o nome de Hiroto ainda não havia sido chamado.

 — Amamiya? Não, Amemiya Hiroto.

Por um momento, Hiroto pensou ter sido chamado, mas parecia não ser o caso. Alguém com um nome bastante similar se postou diante do deus.

“Amemiya? ”, pensou.

Era um nome que Hiroto nunca tinha ouvido antes. Mesmo que eles fossem de classes diferentes, eles pertenciam a mesma escola, então era improvável que ele não conhecesse alguém com um nome tão parecido.

Talvez fosse um passageiro que estava no barco ao mesmo tempo que eles, ou um dos membros da tripulação? Ele parecia ser quase um jovem adulto… e mesmo seus físicos eram semelhantes. Se mesmo seus rostos fossem parecidos ele certamente deveria ser o doppelgänger [4] perdido de Hiroto, ou algum irmão desconhecido.

Os outros receberam um ou dois, no máximo três, poderes especiais da divindade. Enquanto Hiroto observava, Amemiya recebeu nada menos do que oito poderes. Bastante poderosos, também. Havia também dois destinos e duas fortunas, mas o deus os combinou antes de dá-los a ele.

 “Receber não dois, mas oito poderes! Deus deve realmente amar muito essa pessoa”, pensou. Enquanto isso, a divindade chamou o próximo nome. E em tempo, Hiroto era o único restante.

— Hmm? Quem é você? — Disse a divindade.

Finalmente o deus notou a presença de Hiroto.

 — Eu sou Amamiya Hiroto.

O deus parecia confuso, então Hiroto lhe disse seu nome. No entanto, isso só pareceu deixa-lo ainda mais surpreso.

— Amamiya Hiroto? E não Amemiya? O seu sobrenome é Amamiya, escrito como “santuário do paraíso” e o seu nome é Hiroto, escrito como “pessoa inteligente”? [5]

— Isso mesmo — disse Hiroto.

Com um pressentimento ruim, ele confirmou a grafia de seu nome. O deus soltou um gemido.

— Ó céus… seus nomes são parecidos, então eu cometi um engano. Eu pensei que você e Amemiya Hiroto fossem a mesma pessoa. Todos os poderes especiais que eram supostos ser seus eu, infelizmente, dei a Amemiya Hiroto. Mesmo seu destino e a boa fortuna, que deveria mantê-lo seguro, foram dados a ele — disse a divindade.

Foi um erro honesto, que ocorreu apenas devido a pura coincidência, no momento em que Hiroto pensou ter sido chamado.

— Mas Amemiya Hiroto não está mais aqui, então eu não posso recuperar a sua parte. Eu também não posso preparar novos poderes para você e o mesmo vale para seu destino e sua boa fortuna — continuou.

— Então você quer dizer que eu sou o único que vai começar do zero, sem receber nada?

— Não, você vai começar de um ponto negativo. Você nunca será salvo pelo destino ou pela coincidência, tampouco vai ser abençoado com boa sorte.

“Nem mesmo um começo do zero, mas um ponto de partida negativo. Isso não é um pouco demais? ”, pensou.

— Nesse caso, eu desisto disso tudo. Por favor me devolva ao ciclo de transmigração normal, como você fez com aquele garoto mais cedo.

Mesmo se ele fosse renascer em um novo mundo, agora parecia que ele passaria apenas por dificuldades, então Hiroto estava pronto para desistir completamente de sua reencarnação. O deus, no entanto, negou com a cabeça.

— Você já disse que aceita transmigrar.

— Ei… você está falando sério? — Perguntou Hiroto.

Hiroto já não podia mais recusar. Ele estava pronto a objetar, dizer que esse tipo de regra não podia existir, mas seu corpo começou a ser envolto em luz e sua consciência começou a desvanecer.

— Parece que o momento do seu renascimento chegou — disse a divindade.

“De jeito nenhum! Não é demais pra mim, ser o único a recomeçar com nada? “, ele gritou em seus pensamentos.

— Em troca disso a sua alma possui uma enorme [moldura vazia], diferente dos outros que já renasceram. No lugar de poderes especiais, essa [moldura vazia] provavelmente vai armazenar uma grande quantidade de Mana [6] dentro do seu corpo. No entanto, já que você não vai ter aptidão alguma para usar a magia, você não será capaz de aprender quaisquer atributos mágicos já existentes no mundo em que você está prestes a reencarnar, Origin. Portanto, é algo inútil para você.

“Você está falando isso pra me confortar? Ter Mana, mas não ser capaz de usar magia, que tipo de piada é essa? ”, ele quis gritar.

 — Eu sinto muito por você. Sem poderes, destino ou mesmo sorte, eu tenho certeza de que você vai passar por inúmeras dificuldades. Você será incapaz de crescer em um lar feliz. Suas perspectivas para o futuro também vão ser limitadas, já que você não pode usar magia. Você será atormentado por uma solidão ainda maior do que aquela que você enfrentou em sua antiga vida; em sua desesperança, você irá lutar para sobreviver e irá sofrer enormemente, mas eu peço que você aguente e viva sem desistir ou guardar ressentimentos por outros — a divindade finalizou.

 “Você faz isso parecer tão fácil! “

Sem nem mesmo ser capaz de gritar, Amamiya Hiroto começou sua segunda vida.

―♦♦♦―

O novo mundo para qual o deus, cujo nome era Rodcorte, havia enviado Hiroto e os outros era chamado de Origin. Ele era bastante similar à Terra, mas era um mundo em que a ciência e a magia se interligavam uma a outra.

As cem pessoas reencarnadas em Origin se maravilharam com as diferenças entre esse mundo e a Terra. Eles ganharam uma nova família, foram salvos por inúmeros momentos de boa sorte, usaram suas novas habilidades especiais e se reuniram uns com os outros, se reconhecendo através de seus destinos. Eles mantiveram o seu renascimento como um segredo entre eles, mas, antes que soubessem, já haviam começado a ser chamados de “Os Cem Heróis”.

Todos eles, menos a centésima primeira pessoa.

―♦♦♦―

Rodcorte é o deus responsável pelo ciclo de transmigração das almas de muitos mundos, incluindo a Terra e Origin. Ele não era diretamente cultuado por pessoas, tampouco designava deveres à um clero. Rodcorte também não tinha a capacidade de interferir diretamente com o mundo terreno, descendendo ao plano mortal para realizar milagres.

O que ele podia fazer era controlar o ciclo de transmigração das almas e, muito ocasionalmente, alterá-lo. No entanto, raramente ele fazia alguma alteração no ciclo. Isto porque o sistema de transmigração era muito bem feito; não havia praticamente nenhuma situação que requeria que Rodcorte o ajustasse de alguma forma.

No entanto, um problema tinha acontecido recentemente.

O ciclo de transmigração de um dos mundos que ele conduzia estava mais lento do que o de outros mundos. Enquanto estes prosseguiam em um ritmo normal, esse mundo problemático havia chego à um impasse há algum tempo.

Magia, artes marciais, literatura, ciência, engenharia, arte, culinária. Um padrão estava se repetindo em uma ampla variedade de campos em que o desenvolvimento ocorria, mas era perdido logo em seguida.

Os países deste mundo guerreavam com frequência; mil anos haviam se passado e nenhum progresso foi feito. De tempos em tempos, um herói apareceria e um de dois países menores, que estavam em guerra, iria vencer e absorver o perdedor para criar uma única, grande nação. Mas esses países maiores eram incapazes de se unificar propriamente e, eventualmente, se dividiam e o conflito recomeçava.

Mesmo quando as nações eram capazes de manter a paz entre si, incidentes como a aparição de poderosos demônios causavam causalidades ainda maiores do que qualquer guerra.

Existiam deuses que controlavam diretamente aquele mundo, guiando seu povo. No entanto, para proteger seus domínios do Rei Demônio, que anteriormente já havia invadido outros lugares, eles invocaram heróis de além-mundo. Com a ajuda deles, os deuses lutaram contra o Rei Demônio, mas, desde então, não foram capazes de se recuperar completamente.

Era necessário que este mundo continuasse evoluindo independentemente dos meios. Atualmente ele estava estagnado, mas um único acontecimento poderia dar início a um súbito declínio em sua evolução.

E conforme o mundo passava por esse declínio, a quantidade de almas que chegavam ao ciclo de transmigração era menor, o que apresentava um risco para até mesmo Rodcorte.

Enquanto ele se perguntava o que deveria fazer, acabou escutando alguns rumores de deuses que cuidavam de outros mundos.

O rumor dizia que se você pegasse uma alma de um mundo diferente que ainda retivesse todas as suas memórias passadas e a abençoasse com enormes poderes, a ponto de serem trapaças, e fizesse com que ela renascesse no mundo desejado ele acabaria por se desenvolver na direção certa em um ritmo alarmante.

Era um rumor que ele queria acreditar ser verdade. Parecia absurdo, pensar que uma única pessoa com as memórias de sua vida passada e poderes trapaceiros poderia ter tanta influência em um mundo inteiro.

De qualquer forma, era algo que valia a pena testar. No mundo problemático, os deuses utilizaram da invocação para receber ajuda de heróis de outro mundo. Como eles foram diretamente convocados de seus mundos de origem, esses heróis não receberam nenhum tipo de presente divino ou de poderes especiais. E, mesmo assim, foram capazes de derrotar o Rei Demônio.

Ademais a maior parte desses heróis acabou falecendo durante a batalha e o tempo que passaram naquele mundo foi curto. Apesar disso, as consequências de suas ações podem ser observadas até hoje.

E não haveria melhor momento para testar esses rumores do que o agora, quando não existiam reis demônios ou deuses malignos. Sem a interferência de batalhas contra seres divinos ou anormais que poderiam desafiá-los, heróis que receberam presentes divinos iriam certamente impactar ainda mais profundamente no desenvolvimento do mundo.

Felizmente Rodcorte podia usar de seu posto para inserir a alma dos mortos dentro do ciclo transmigratório do mundo problemático, fazendo-os renascer nele quantas vezes fosse preciso. Ter a certeza de que essas almas mantivessem suas memórias intactas não era uma tarefa difícil, também.

E quanto as habilidades especiais, ele poderia simplesmente prepara-las usando suas capacidades ordinárias como um ser divino, até então guardadas. Entretanto, Rodcorte não se sentia muito confiante com a ideia de reencarnar apenas uma única pessoa. Apenas para ter certeza, seria melhor se ele usasse cem.

E bem a tempo, enquanto Rodcorte finalizava seus preparativos, mais ou menos cem japoneses morreram. Pelo que tinha ouvido, eles eram habitantes de um país insular com conhecimentos avançados de ciência e economia, possuindo uma cultura bastante peculiar. E, com ninguém por perto para protestar, Rodcorte decidiu excluir as almas das pessoas malignas entre os japoneses que morreram no barco e reencarnar os que sobrassem.

Mas antes de reencarnar essas pessoas no mundo problemático, elas iriam viver uma vida inteira em outro mundo, em Origin.

Com o propósito de que o plano fosse executado perfeitamente, Rodcorte escolheu Origin como um “campo de testes” para essas almas, de modo que elas pudessem acumular experiência e conhecimento. Uma vez que elas completassem suas segundas vidas em Origin, ele lhes garantiria novos poderes e destinos uma vez mais e faria com que reencarnassem de novo, desta vez no mundo problemático.

Tendo gasto tanto tempo e se esforçado tanto para que esse plano desse certo, não tinha como nada dar errado.

Entretanto, não estando acostumado a fazer esse tipo de coisa, Rodcorte cometeu um pequeno erro. Mesmo um deus não seria capaz de prever que esse erro causaria a queda de todas as suas expectativas e esperanças.

―♦♦♦―

Como se prenunciando esses eventos, uma alma apareceu diante de Rodcorte, tendo terminado sua segunda vida.

Rodcorte esperava que os heróis terminassem suas vidas em momentos variados, dependendo da ordem em que foram ressuscitados. Mas dada a expectativa de vida padrão de um ser humano essa reunião aconteceu rápido demais. Ele já estava esperando, no entanto, que essa seria a primeira alma a aparecer.

— Como previsto, você foi incapaz de usufruir de toda a sua vida útil, Amamiya Hiroto — disse Rodcorte.

A pessoa que tinha aparecido era a centésima primeira alma a ser reencarnada, sem qualquer tipo de poder, destino ou sorte. Era a alma de Amamiya Hiroto. Ele estava em um estado lamentável: machucado e encoberto por Mana sinistra.

— Eu vou mata-los, eu vou matar aqueles caras! Mesmo se eu renascer eu jamais irei perdoá-los, e isso vale pra você também! — gritou Hiroto.

 Sem se importar com o fato de que Rodcorte era um deus, Hiroto tentou soca-lo.

―♦♦♦―

Amamiya Hiroto renasceu em um país militar no mundo de Origin.

Rodcorte havia lhe dito que ele jamais desfrutaria de uma vida abençoada. Aquelas palavras se tornaram realidade; ele não experimentou nada além do infortúnio desde o momento em que respirou pela primeira vez.

Sua mãe era uma prostituta e seu pai biológico a abandonara antes mesmo dele nascer. Sua mãe encontrou um novo amante que decidiu vender Hiroto, ainda bebê, para comprar bebida — algo que ela não objetou.

Os indivíduos que compraram Hiroto pertenciam a um laboratório que fazia pesquisas ilegais. Enquanto ele era examinado ali, tornou-se claro que ele era mais inepto com a magia do que qualquer pessoa ordinária de Origin.

Em Origin havia sete atributos de magia que poderiam ser usados — os quatro elementos da terra, água, fogo e ar, bem como os atributos da luz, vida e da magia espacial. Era de conhecimento comum que todos possuem afinidade com pelo menos um atributo dentre estes sete. Hiroto, no entanto, não era apto com nenhum deles, tampouco tinha qualquer afinidade. Em outras palavras, ele era uma existência que desafiava a lógica, um ser inferior a até mesmo pessoas comuns.

Mas os cientistas descobriram que Hiroto possuía uma ampla reserva de Mana, diversas vezes maior do que a de uma pessoa comum. Ter uma quantia tão alta de energia mágica e mesmo assim não ter aptidão para sequer um dos sete elementos era uma contradição bizarra aos olhos dos pesquisadores. E um deles teve uma ideia.

— Não é que a cobaia de testes não tem afinidade para com nenhum atributo. Em vez disso, ele deve ter aptidão com outro atributo que nós ainda não descobrimos. Isso não é algo plausível?

Daquele ponto em diante, a pesquisa deles começou. Foi mais ou menos nessa época que as memórias de Hiroto voltaram.

Depois de muitos e muitos anos de pesquisa, usando Hiroto como uma cobaia viva, elas descobriram um oitavo atributo — o atributo da morte. Os pesquisadores fizeram Hiroto aprender a magia do atributo da morte que eles descobriram e reconstruíram todo o seu corpo, incluindo seu cérebro, para prosseguirem com a pesquisa e com seus experimentos.

―♦♦♦―

— MORRAM! — gritou Hiroto.

A circunstância em que ele se encontrava acabou com uma única palavra.

 Quando ele readquiriu as memórias de sua vida passada, seu corpo já estava envolto de explosivos; sua própria vida havia sido tomada como refém. E ao redor dele estavam os pesquisadores que o encaravam não como um ser humano, mas como um animal-cobaia.

Hiroto não precisava mais de educação básica, como aprender a ler e a escrever, mas ele tampouco tinha qualquer liberdade.

Não apenas isso; se ele demonstrasse qualquer sinal de querer se rebelar, ele receberia uma descarga elétrica tão forte a ponto de deixa-lo convulsionando no chão.

Ele passou seus dias se alimentando com comidas nutritivas, mas ainda menos apetitosas do que aquelas servidas para prisioneiros e seguindo todas as ordens dos pesquisadores em quaisquer tipos de experimentos que eles quisessem fazer. Mesmo tendo despertado sua capacidade de realizar magia do atributo da morte, ele não tinha a capacidade de deixar o laboratório.

Hiroto cobriu seu corpo inteiro com o atributo da morte e desesperadamente acumulou poder em suas mãos. Completamente inapto com qualquer outro atributo, através de puro empenho, ele envolveu seu corpo com aquela magia.

Ele desenvolveu inúmeras formas de usar sua magia, contribuindo com o laboratório, com os pesquisadores e com o país em que ele vivia. No entanto, até o amargo fim, o trabalho de Hiroto permaneceu ingrato. Isso porque os pesquisadores sabiam da utilidade que ele tinha, mas também temiam sua insubordinação. E conforme a utilidade de Hiroto crescia, esse medo também aumentou.

Os explosivos em seu corpo estavam enterrados não apenas em seu coração, mas também no cérebro. Seu torso abrigava um GPS para impedir que ele escapasse. Seu olho direito foi substituído por um olho artificial que continha uma câmera especial e uma escuta foi plantada em sua boca e em suas orelhas para captar mesmo o menor dos sussurros.

Seu suprimento de comida era limitado de modo que ele nunca desenvolvesse mais força física do que o necessário. Seu quarto era pequeno e ele nunca era permitido deixa-lo por outro motivo que não fossem os experimentos.

Para torna-lo mais capaz no uso da magia do atributo da morte, para aumentar o tamanho de seu reservatório de Mana — Eles reconstruíram seu corpo por inúmeras razões.

E para garantir que ele não seria capaz de fazer um aliado que pudesse ajuda-lo em um plano de fuga ou numa rebelião, os guardas que o monitoravam e os operadores que os comandavam eram rotacionados com frequência, de modo que ele nunca ficasse em contato com qualquer indivíduo em particular por longos períodos de tempo.

E, finalmente, eles seguiram em frente com um procedimento inumano em seu cérebro, cortando seu controle sobre a Mana de seu corpo e fazendo dele nada mais do que uma marionete. Hiroto não tinha mais de dez anos.

Dessa idade em diante, ele passou outros dez anos nesse inferno em que ele não tinha a permissão de mexer sequer um único dedo por vontade própria. E mesmo depois de todo esse tempo, a mente de Hiroto não quebrou. Uma das razões para isso não ter acontecido eram as almas dos mortos atraídas até ele por conta de seu atributo da morte, sempre sussurrando palavras de conforto em seus ouvidos. O outro motivo é que ele sempre teve a esperança de que eles viriam resgatá-lo daquele inferno.

No entanto, Hiroto morreu.

Ele foi incapaz de suportar os experimentos descuidados feitos pelos novos pesquisadores, que tentavam superar os resultados de seus predecessores. Era irônico que, através de sua morte, Hiroto readquiriu sua liberdade. Através da morte de seu corpo, sua alma reganhou o controle sobre sua Mana.

Hiroto transformou seu próprio corpo em um morto-vivo e lançou-se num frenesi alimentado por todo o seu ódio. Ele rasgou aqueles que brincaram com sua vida em pedaços e espremeu os pesquisadores desesperados como se fossem pedaços molhados de pano. Ele brincou com os seguranças enquanto os matava.

Enquanto Hiroto continuou, furioso, depois de matar todos no laboratório e insatisfeito com sua vingança, rostos familiares apareceram diante dele.

―♦♦♦―

— Oh! — a voz de Hiroto elevou-se em alegria tão logo ele avistou todas aquelas pessoas. Seus rostos lhe eram familiares.

Suas características físicas eram um pouco diferentes, mas grande parte deles eram seus colegas durante sua vida passada. Alguns deles eram seus professores, também.

Naruse Narumi também estava entre eles.

Aqueles eram os companheiros de Hiroto que reencarnaram em Origin junto dele. Eles eram sua esperança.

Um dia eles iriam definitivamente encontra-lo; eles iriam vir resgatá-lo. Pelos últimos vinte anos, Hiroto nunca deixou de acreditar.

Eles estavam um tanto atrasados, mas ele não era iria reclamar. “Vamos celebrar nossa reunião e refazer nossas segundas vidas. Eu tenho certeza de que isso é possível agora que tantos amigos estão aqui reunidos”, ele pensou.

Tremendo de felicidade, Hiroto deu um passo em frente na direção deles.

— Pessoal, comecem a atacar!

No entanto, sob o comando de um jovem rapaz que parecia ser o líder de seus companheiros, Hiroto foi atingido simultaneamente por inúmeros ataques mágicos.

— Espera! Por que vocês estão me atacando? Eu sou um aliado, um de seus companheiros!

Os gritos de Hiroto foram abafados por ardente fogo infernal, por lâminas de vento, por gelo perfurante e por relâmpagos devastadores. Hiroto, que se aproximou de seus companheiros sem qualquer intenção de defender a si mesmo, estava completamente desnorteado ao cair, seu corpo fatalmente ferido.

— Isso foi surpreendentemente rápido, considerando que nos disseram que um poderoso morto-vivo havia surgido.

— Bem, há trinta dos cem de nós reunidos aqui. Nós nunca teríamos problemas com algo do tipo.

Acima da cabeça de Hiroto, vozes familiares estavam conversando.

“Cem pessoas? Cem pessoas, você disse? NÃO! Há cento e um de nós, incluindo eu, cento e um! ”, pensou.

Ele queria ter gritado, mas sua garganta já havia sido cortada; ele não conseguia nem mesmo gemer.

Seu braço direito estava completamente queimado e enegrecido; seu braço esquerdo havia saído voando para algum lugar. Suas pernas haviam se quebrado em algum ponto; ele podia ver perfeitamente sua perna direita, dobrada, com os cantos de sua visão.

Sua cabeça e seu torso estavam terrivelmente machucados, também.

— O motivo pelo qual não tivemos dificuldade foi porque esse morto-vivo baixou a guarda. Atributo da morte… que magia terrível.

Olhando na direção da voz com seu único olho restante, Hiroto viu Naruse Narumi ali parada. Ela havia amadurecido mais do que em sua vida passada; agora ela era uma mulher adulta.

— Ah, ele é outra vítima desse laboratório.

 Próximo a ela estava um homem jovem, o líder que havia dado a ordem de ataque. A julgar pela distância entre eles, Hiroto sabia que esse homem e Narumi eram íntimos um com o outro.

— Eu tenho certeza de que ele gostaria que o matássemos.

— Você tem razão, Hiroto — disse Narumi.

“Hiroto? Hiroto? Amemiya Hiroto? Esse cara é Amemiya Hiroto? “, pensou.

— Vamos mata-lo para que ele não tenha mais de sofrer.

— Essa é a melhor coisa que podemos fazer por ele. Narumi, vamos fazer isso juntos — disse Amemiya.

“Não fode comigo! Por que diabos é você que está aí? Você, que tomou meu poder, destino e toda a minha sorte! Você, por que você está tentando me matar com uma expressão tão heroica em seu rosto? “

“Por que é você, por que diabos tinha que ser você? “

“É tudo culpa sua que minha segunda vida é um desastre! Cem Heróis? Vocês estão me tratando como um pária e me matando? ”

Hirotou urrou, mas ele foi incapaz de resistir ao intenso brilho vindo das mãos de Hiroto e de Narumi, e se transformou em pó.

―♦♦♦―

— A culpa disso tudo é sua! Você diz que é um deus? Segunda vida é o meu rabo! Você me jogou em um inferno ainda pior do aquele da minha vida passada! — gritou Hiroto.

O punho de Hiroto estava envolto de uma substância nebulosa e preta, mas nem mesmo arranhou Rodcorte. Essa era simplesmente a diferença de poder entre um homem e um deus.

— Eu sei que eu fiz algo terrível para você — disse Rodcorte.

Dizendo a mesma coisa que antes, Rodcorte explicou as circunstâncias que ele estava enfrentando para a alma raivosa de Hiroto. A informação foi transmitida a ele diretamente por um poder divino e penetrou sua mente em um instante.

— Então você está me dizendo que há uma terceira vez?

— Você está certo. Isso é algo que eu preparei desde o momento em que vocês foram reencarnados em Origin. Desa vez, você não tem a permissão de recusar e eu não posso mais interromper essa transmigração.

Isso tudo não passava de um absurdo sem sentido. No entanto, para Hiroto, esse absurdo era como encontrar um barco quando ele mais precisava velejar. [7]

— Eu vejo… então nesse próximo mundo, eu vou mata-los! Aqueles que me mataram, eu não deixarei nenhum deles vivo! Eu morri primeiro, não foi? Nesse caso, eu vou ser o que vai reencarnar primeiro dessa vez, então eu estarei na vantagem. Dessa vez, eu vou ser aquele que vai mata-los! — disse Hiroto.

“Eu vou envelhecer antes deles, ganhar poder e então encontrar Amemiya Hiroto e os outros e mata-los! Isso deve ser possível mesmo para mim, alguém sem qualquer tipo de poder especial “, pensou.

 — Agora ande logo e me dê todas aquelas coisas, Deus. Dessa vez você deve ter um destino e boa sorte para me dar, não é? Depois de tudo, eu sou o que morreu primeiro, não há nenhuma chance de você me confundir com outro alguém dessa vez, certo?

— …Eu não tenho nenhum tipo de poder para lhe conceder.

Como se levemente puxando a alma de Hiroto, Rodcorte pressionou sua palma contra ele.

— Eh? — disse Hiroto.

Com isso, ele começou a ganhar e velocidade e cair em direção a algum lugar.

— Tudo o que posso fazer agora é adicionar algo. Eu não posso lhe dar um poder.

— Por que? Por que eu sou o único a não ganhar nada novamente, como isso é possível?

— Porque eu não posso permitir que os outros sejam mortos por você — disse Rodcorte. Ele se desculpou e acrescentou — Se você matar os outros, o desenvolvimento desse mundo vai ser prejudicado. Sua morte em Origin foi produto de um enorme infortúnio. O mesmo vale para o fato de que Amemiya Hiroto e os outros não sabiam de sua existência, mesmo até o fim. Mas ainda que eu diga isso, você não vai ficar satisfeito.

Depois que Hiroto morreu no navio, antes dele ser reencarnado, ele estava de pé na borda onde todas as almas se reuniam. Por causa disso, ninguém havia visto Hiroto.

Além disso, havia apenas uma única pessoa que recusou ser reencarnada em um novo mundo.

E o último ponto é que ele fora o último a ser reencarnado.

Por causa dessas coisas, Amemiya Hiroto e os outros justificaram sua ausência ao pensar, “ele deve ter sobrevivido e não morreu conosco” ou “ele deve ter se recusado a reencarnar, igual àquela outra pessoa”.

Além disso, os inúmeros experimentos no corpo de Hiroto haviam mudado o formato de sua face completamente, ao ponto que Narumi sequer fora capaz de reconhece-lo.

— Todo esse infortúnio foi causado por minha própria inexperiência. Eu desejei que você pudesse aguentar e viver sem desistir ou se ressentir, mas infelizmente você foi colocado em um caminho em que isso se tornou impossível. Através de sua descoberta da magia do atributo da morte e o desenvolvimento de uma nova magia, você contribuiu para a evolução de Origin. Eu espero que você possa me perdoar por ser incapaz de lhe recompensar e por te forçar viver uma terceira vida repleta de infortúnios.

Mas mesmo que a alma de Hiroto se distanciasse cada vez mais, Rodcorte podia sentir que ele estava dizendo que nunca o perdoaria.

— Portanto, tudo o que eu posso fazer é lhe forçar a desistir de sua tola vingança antes que você cometa qualquer tipo de pecado e esperar que sua vida termine logo.

E então, na palma de Rodcorte, algo parecido com uma bola de lodo apareceu. No momento seguinte, ela atingiu o corpo de Hiroto.

— O que? — Hiroto gritou em agonia graças à dor intensa que lhe assaltava o corpo.

— Essa é uma maldição que nunca poderá ser dissipada. Com essa maldição, você nunca será capaz de adquirir novos poderes mesmo neste novo mundo. No entanto, eu prometo a você que em sua quarta vida eu irei apagar todas as suas memórias dolorosas e te mandar de volta ao ciclo normal de transmigração.

Sem tempo para objetar quanto a promessa indesejável de Rodcorte, a mente de Hiroto apagou.


Capítulo Anterior « Índice » Próximo Capítulo

[1] O Rio Sanzu (em japonês: 三途の川, Sanzu no Kawa, literalmente “Rio dos Três Cruzamentos”) é, segundo a tradição budista japonesa, um rio envolto por névoa que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, e localizado no Monte Osore. Entre as várias lendas a respeito do Sanzu, uma diz que as almas podem atravessá-lo de três formas (daí o nome): as carregadas de pecados graves devem passar pela parte mais funda, onde há ninhos de serpentes; as que tem pecados mais leves enfrentam apenas as corredeiras; e as inocentes passam por uma ponte de pedra. Outra crença diz que é preciso pagar a um barqueiro para que ele transporte as almas para o outro lado (de forma semelhante ao óbolo de Caronte, no Estige da mitologia grega). Por isso, em funerais tradicionais japoneses o morto é enterrado com seis moedas. Também se diz que uma bruxa ataca os mortos que tentam atravessar o rio, roubando suas roupas; e ainda que espíritos maus tentam impedir a passagem das crianças, que então precisam da ajuda do bodisatva Jizo.

[2] A entrega do dinheiro de condolência é um costume comum no Japão. A entrega é feita em um envelope apropriado para pêsames com a enfeites preta amarrada por cabos pretos e brancos. As cordas de papel são pretas, brancas, de prata ou amarelas. Na cara do envelope interno é escrito a quantidade de dinheiro , na parte traseira, o endereço e no nome da pessoa que dá o dinheiro. e entregue no serviço funerario, e escrito sempre acima das cordas de papel.

[3] Samsara, ou ciclo de transmigração, (sânscrito-devanagari: संसार: , perambulação) pode ser descrito como o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos. Na maioria das tradições filosóficas da Índia, incluindo o Hinduísmo, o Budismo e o Jainismo, o ciclo de morte e renascimento é encarado como um fato natural. Esses sistemas diferem, entretanto, na terminologia com que descrevem o processo e na forma como o interpretam. A maioria das tradições observa o Samsara de forma negativa, uma condição a ser superada. Por exemplo, na escola Advaita de Vedanta hindu, o Samsara é visto como a ignorância do verdadeiro eu, Brahman, e sua alma é levada a crer na realidade do mundo temporal e fenomenal.

[4] Doppelgänger, segundo as lendas germânicas de onde provém, é um monstro ou ser fantástico que tem o dom de representar uma cópia idêntica de uma pessoa que ele escolhe ou que passa a acompanhar, o que hipoteticamente pode significar que cada pessoa tem o seu próprio. Também são conhecidos como duplo-eu ou sósia.

[5] O deus está perguntando ao protagonista para esclarecer qual a forma em que o nome de Hiroto está escrito em kanji. Nomes japoneses podem ser escritos de diversas formas em kanji, mesmo que a pronuncia permaneça igual.

[6] Mana refere-se a um conceito polinésio encontrado sob diferentes denominações em outros povos. A noção de Mana, fundante da magia e da religião, corresponde à emanação da força espiritual de um grupo e contribui para uni-lo. A Mana é, segundo Mauss, criador do vínculo social. Mana é comumente interpretado como a “substância da qual a magia é feita”, além de ser a substância que forma a alma. Essa força existiria não só nas pessoas, mas nos animais e objetos inanimados, instigando no observador um sentimento de respeito ou de admiração. Além de precursor da religião está ligado também às origens da filosofia, sendo um conceito de significativo interesse antropológico.

[7] Um ditado popular japonês usado para se referir a um momento de boa sorte.