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O ambiente era iluminado unicamente pelos corpos incendiários próximos ao portão, que funcionavam como velas.

Fogo ainda crepitava ali perto.

O líder do bando rastejava como uma minhoca pela sala quando percebeu algo se aproximando dele. Quase chorou, pois pensou ser o único sobrevivente.

— Ei, aqui! Estou aqui! Me ajudem, estou ferido.

Ao longe, uma figura distorcida pela composição das sombras pisava sobre uma das machadinhas dos sequestradores, apagando o fogo e recolhendo a arma.

Devido ao fogo de um dos cadáveres ter se apagado, a sala estava quase sem iluminação, permitindo que o homem apenas ouvisse os passos da pessoa ecoando em sua direção.

O garoto aproximou-se do homem e agachou-se. Norman segurou os cabelos do Chefe, forçando-o a encarar seu rosto.

— Que merda você pensa que está fazendo? Me ajude, porra!

“Esse bastardo está olhando pra mim como se eu fosse um lixo, espere só seu arrombado”, o sequestrador pensou, sentindo a dor parar  por um instante, franzindo as sobrancelhas em raiva.

O garoto, ignorando as palavras dele, desferiu um golpe com força, fazendo a cabeça do homem colidir com violência contra o chão. Ele soltou um berro de dor. A agonia tornou-se ainda mais insuportável quando o sequestrador percebeu que um pedaço de sua própria pele havia ficado grudado no chão frio e sujo.

Sem dar trégua, o garoto puxou-o pelos cabelos, forçando-o a encarar o rosto dele. A cabeça do homem foi, novamente, violentamente arremessada contra o chão de concreto.

Enquanto gritava de dor, o homem viu o garoto limpar as mãos sujas de sangue com água, exibindo uma expressão como a de alguém que acabou de perceber que pisou em merda.

Secando as mãos com um paninho, o menino falou em tom baixo:

— Sabia que eu já fui sequestrado antes? Eu era bem mais jovem do que sou agora. Demorei para aprender que o meu sequestrador odiava barulho. Eu perguntei: — Onde está minha mãe? E meu pai, cadê? Bastou apenas uma vez…

Enquanto falava, Norman desabotoava os botões da manga, dobrando até o cotovelo, expondo um braço totalmente roxo devido aos espancamentos dos homens.

— O sequestrador me colocou em uma cadeira, amarrou minhas pernas e pulsos com um cinto de couro. Ao meu lado, havia uma bandeja cheia de ferramentas. Ele pegou minha mão e martelou. Em seguida, com um alicate em mãos, me encarou, rindo,  começou a arrancar minhas unhas. Cada vez que eu gritava, ele dizia: — Me fale, dói? Dói muito?

“Do que esse merda está falando? Foda-se, não importa, só preciso matá-lo antes que ele me mate’, pensou ele.

O homem enquanto o garoto falava, discretamente tentava alcançar a faca que devido a explosão havia sido jogada longe, ele estendeu a mão.

“Se eu alcançar…” ,pensava o Chefe do bando.

O garoto nunca tinha tirado os olhos do homem, ao observar ele se esforçando para pegar a faca, quase sentiu pena, quase.

O homem soltou um grunhido de dor quando a lâmina da machadinha cortou seu pulso.  O metal tinha tantos dentes, que funcionava como uma cerra, ainda sim, cortou a carne do líder com um som úmido, rasgando músculos e encontrando resistência nos ossos. O odor de sangue fresco juntou-se ao cheiro fétido de carne carbonizada, viciando o ar.

O garoto, agachado entre os joelhos, olhou fixamente para o líder:

— Me diz, doi? É doloroso?

O homem sentia-se como uma presa nas patas de um gato, brincando com sua refeição antes de devorá-la.

— Seu monstro! — as palavras explodiram dele em um grito raivoso. — Verdade é o que dizem as pessoas: a fruta nunca cai muito longe do pé. — Ele gargalhou alto, mas não havia alegria na risada, apenas raiva.

Nesse momento, o rosto de Norman escureceu, mas logo um sorriso largo surgiu em seu rosto.

— Bem, se você realmente insiste, podemos tornar as coisas mais interessantes… 

O chefe do grupo, lembrou-se que essa eram as mesmas palavras que ele tinha falado antes de ameaçar cortar as mãos e as pernas do garoto.

— Um jogo, entende? Responda sinceramente: alguém ordenou que vocês fizessem isso ou foi uma decisão por conta própria? Se me contar quem está por trás disso, eu te deixo viver.

— Não houve mandante, agimos por conta própria — respondeu ligeiramente.

Norman pegou a faca e cravou a mão do homem no chão.

O homem gritou encarando a própria mão.

— Resposta errada. Não é tão difícil assim, não é? Acho que você não está se esforçando o suficiente, vamos tente lembrar — Norman falou ironicamente, com um ar altivo. Uma gargalhada de pura felicidade escapou de seus lábios, com o pensamento das posições estarem invertidas agora.

Ele detinha o poder e não aceitaria qualquer resposta senão aquela que gostaria de ouvir, assim como os homens haviam feito com ele.

— Eu já falei, não teve ninguém!

O homem gaguejou repetindo entre lágrimas:

— Não teve ninguém…

—  Sabe quando eu fui sequestrado pela primeira vez, o sequestrado falava que: “A dor muitas vezes se apresenta como uma ilusão distante quando testemunhamos ela como um observador” Talvez ele tenha razão, ao ver você gritar, não sinto nada.

Com o uma expressão alegre, Norman falou:

— Segundo round: Alguém mandou vocês fazerem isso ou vocês agiram por conta própria? Como vocês sabiam quem eu era, afinal, meu rosto não é conhecido no império.

— Por favor, meu senhor tenha misericórdia. Eu faço tudo que o senhor quiser, apenas me deixe vivo. — O líder do grupo engolindo seu orgulho, tentou beijar os pés de Norman.

Norman retirando-se, levantou-se dando um passo seguido do outro. Segurando os pulsos atrás do corpo, ele apenas lançou um olhar por cima do ombro.

“Não…”, pensou ele, chorando. Tinha compreendido as intenções do garoto. O menino desejava que ele se rastejasse até ele. Era um simbolismo que até mesmo os plebeus conheciam: “Quem quer sobreviver? Aquele que rasteja como porco.”

Na desesperada tentativa de se arrastar, ele percebeu que teria que rasgar a própria mão para escapar da faca que o prendia. Uma expressão de terror e dor distorceu seu rosto enquanto ele puxava a mão, sentindo a pele se desgarrar.

Ele cerrou os dentes, tentou se arrastar, fincando o queixo no chão. Sua barriga, repleta de bolhas causadas pelas queimaduras, agora estava em contato direto com o solo áspero. Deixou um rastro de sangue e pele rasgada, contudo, a dor insuportável o impediu de mover-se efetivamente.

Ele se encolheu, chorando muito:

— EU NÃO CONSIGO!

Seus olhos, turvos pelas lágrimas, capturaram a imagem do ser apático diante dele, parecia desconsiderar a miséria em que ele estava. Para o homem, aquela expressão indiferente era uma afronta, uma maneira de como sua agonia não passava de entretenimento para o observador. Os pensamentos do homem giravam em torno de sua própria pateticidade, humilhado por uma criança.

Finalmente, uma compreensão dolorosa o atingiu, entendeu que estava diante de algo muito além de seu controle. A falsa sensação de segurança que mantinha até há pouco escapou, como uma presa fugindo do predador.

Ele recordava vividamente dos momentos em que o garoto manipulava o cristal, a explosão. Até mesmo nos momentos em que aparentava ajudar Orc, na verdade, estava planejando fazer com que todos baixassem a guarda.  Nesse instante, percebeu claramente que nada estava sob seu controle.

Naquele momento, sentia-se como se, na verdade, ele fosse um boneco e suas cordas tivessem sido puxadas. Ele e seu grupo eram como animais que tinham sido guiados para o abatedouro no momento que ouviram o menino.

No lado escuro da sala, Norman virou-se, avançando com passos lentos. Agachou-se e proferiu palavras que, à primeira vista, pareciam aleatórias para o chefe. Contudo, considerando que tudo que o menino fazia parecia ter um esquema por trás, o chefe decidiu ouvi-lo. Talvez, ao compreender as palavras do menino, somente talvez, melhorassem suas chances de sobreviver:

— Eu tenho uma história que eu quero que você ouça, sabe, quando eu fui sequestrado pela primeira vez, não estava sozinho. Um bando de mulheres também estava lá, aprisionadas como eu. Não havia motivo para elas estarem ali, exceto para servirem como brinquedos para ele.  Ele realizou todos os tipos de fantasias com elas. Uma dessas vezes, ele abriu a gaiola e arrastou uma das mulheres para fora. Ela tremia como uma folha enquanto ele a forçava a se ajoelhar. Os olhos dela, cheios de pavor, encontraram os meus enquanto ele a segurou pelo pescoço, inclinando-o para o lado, sua boca explorando cada centímetro dela, da nuca até os ombros, lambeu ela toda. Eu queria desviar o olhar, mas ele ordenou: 

— Não, quero que você veja! — Então mordeu a orelha dela provando ela, enquanto olhava para mim.

 — Sabe, meu querido jovem mestre, tem algo mais que eu gostaria de te ensinar… — falou para mim.

— Eu podia ver a mulher se tremendo toda, enquanto ele a torturava, apertando seus mamilos, a outra mão dele deslizava para dentro das coxas dela. Ela chorava em agonia, seus soluços juntou-se com a das outras moças  naquela prisão, seu corpo se contorcendo em dor e agonia. Então, ele se levantou, indo em direção a uma bandeja de ferramentas. Eu vi o chão debaixo do corpo dela ficar molhado, antes dele voltar  com uma faca.

 — Você conhece o termo “de orelha a orelha”? — ele perguntou, mesmo que eu balançasse a cabeça em negação, ele continuou explicando:

 — As pessoas acham que “de orelha a orelha” é só força de expressão, mas, na verdade, é um guia. — Então ele fez uma pinça com os dedos apertando levemente a pele dela no pescoço: 

— Aqui é onde fica a traqueia. — Então, novamente, moveu os dedos colocando eles na lateral do pescoço dela:

— Aqui é onde fica a jugular, responsável por drenar o sangue do cérebro de volta ao coração. Então quando cortamos a garganta de alguém… Bem, precisam abrir de orelha a orelha para atingir a traqueia e a jugular. Dessa forma, ela sangra e sufoca ao mesmo tempo, senão ela só vai sentir muita dor.

— A mulher começou a chorar incontrolavelmente, ela balançou a cabeça para o lado em negação, não falou, mas eu tinha certeza que ela sabia que aquele era os últimos momentos da vida dela. Ele virou a cabeça dela para ele e a beijou, enquanto deslizava a faca de um lada ao outro do pescoço dela, eu vi o sangue dela se misturando com urina, as roupas dela manchadas em vermelho, os pingos que respingaram em mim, as outras garotas colocaram as mãos na boca para não gritar ou chorar alto. Eu vi tudo, cada momento.

— Você sabe o porquê eu estou te contando isso? — A voz de Norman estava fraca, quase como um sussurro. As palavras saiam devagar da boca dele, era assustador ouvir ele falar.

Depois dos jogos que tiveram, o homem sentia medo de responder erroneamente, as palavras se formavam em sua mente, mas a pressão que sentia ao encarar o menino o fazia sempre recuar de dizer algo.

 — Eu quero que você entenda o que vai sentir.  Reflita que pessoas como vocês ninguém se importa que elas morram. São como baratas, feitas para serem pisoteadas.

Antes que o Chefe pudesse responder implorando por misericórdia, o menino deslocou então a faca apenas até a metade do pescoço, cortando a pele com um movimento bem devagar, provocando o máximo de dor. Um jato de sangue quente jorrou, borrando o chão  e as roupas do homem de vermelho enquanto ele, em agonia, desesperadamente tentava puxar o ar.

O sequestrador demorou para morrer, mas Norman assistiu a cada instante que ele se contorcia, parecendo um rato debatendo-se numa ratoeira. Para o menino, foi como cortar papel, tão fácil.

Norman, então levantando-se, viu os olhos do Chefe do grupo, fechando-se lentamente.

Olá, eu sou o Kaua Paulino!

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