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Norman estava deitado na cama, lutando para se sentar. Ele conseguiu erguer-se, sentindo uma dor torturante passar por  todo o seu corpo. Seus olhos percorreram os braços, cheio de hematomas verdes e vermelhos, onde os tubos de soro ainda estavam presos.

Com um suspiro de frustração, Norman puxou os lençóis para longe,  podendo ver agora sua perna machucada, enfaixada em gesso, os dedos pequenos estavam roxos. Ao ver o estado em que estava, ele cerrou o punho e desferiu um soco na cama, sentindo-se injustiçado pela situação.

Seus pensamentos tumultuavam em sua mente: “Que academia militar vai me aceitar nesse estado? Um maldito manco…” O menino então riu consigo mesmo.

— Eu devo estar louco para pensar em pisar em um lugar como esse. Por que eu faria tal coisa? Posso viver com a mamãe em algum lugar sem ninguém nos perturbar, seremos novamente uma família feliz. O que há de errado em desejar sua própria felicidade?

Norman procurou pela sua bolsa, observou o quarto em busca dela, mas encontrou apenas uma torre de copos montada em uma pequena mesa, ao lado de uma poltrona. Então ele tocou o próprio rosto.

— Ahn? Lágrimas? Por que… estou chorando?

Quanto mais ele tentava limpar as lágrimas, mais elas escorriam pelo seu rosto. Ele mordeu os lábios inferiores, piscando várias vezes para tentar conter as emoções, mas as lembranças do passado já haviam tomado conta de sua mente.

A memória era clara para ele, como se tivesse acontecido há pouco. Norman tinha apenas cinco anos, sem nada para fazer. Certa vez, foi ao armário onde ficavam vários copos de papel e a única coisa que veio em sua mente foi: “Vou fazer a maior torre de copos que eu conseguir fazer.” Começou colocando diversos copos em linha reta, de nove a quinze copos, e começou a construir a torre.

Da primeira para a terceira fileira, levou bastante tempo, e quanto mais ele subia, mais cuidado tomava para não derrubar a torre. Até que seu belo castelo de copinhos foi derrubado pelo vento. Ele se sentiu vazio por dentro, até que, com sua pequena mente de criança, sentiu uma enorme vontade de chorar.

Mas sua mãe tinha chegado da corte imperial, ela parecia cansada, naquele momento. Norman nem havia reparado. Ele então fez um pedido de uma criança desolada que já não tinha esperança de conseguir fazer seu objetivo se tornar real: ele pediu a ajuda dela para montar a torre. Ela respondeu com um sorriso cansado:

— Vou tomar um banho e vou te ajudar.

Norman sentiu naquela época como se sua alma tivesse renascido. Pulou de alegria, abraçou-a e disse:

— Muito obrigado mamãe, você é a melhor mãe do mundo.

Ela sorriu antes de responder:

— Obrigado, querido.

Quando ela veio ajudá-lo, foi como se estivessem vivendo um para o outro. Cada vez que a torre de copos caía e ele quase chorava, ela dizia para não desistirem, porque uma hora conseguiriam. Quando faltava apenas um último copo, ela o segurou enquanto ele o colocava no topo, com as mãos tremendo. Conseguiram apoiar o último copo na torre, mas como se fosse uma manada de azar, ela caiu novamente com outro vento mais forte, levando os copos para longe. Foi algo rápido e sem emoções. Norman ficou desolado, mas quando precisou de um abraço, sua mãe estava lá, de joelhos, abraçando-o e dizendo:

— Olha só, meu filho, pelo lado bom nós conseguimos colocar o último copo na torre, mesmo que por um instante. Nós conseguimos.

Norman olhou para ela com lágrimas nos olhos.

— Obrigado por ser minha mãe.

Ele a abraçou, e ela sem entender o porquê da alegria, falou:

— Eu que deveria agradecer por ter um filho tão lindo… Tá bom então, vamos parar de chorar, vamos? Vamos jantar.

Norman ficou muito feliz pela pequena “conquista” que os aproximou tanto. Dois anos depois, no dia do seu aniversário de sete anos, ele seria sequestrado pela primeira vez, e nunca mais seria a mesma criança sorridente.

Norman, então limpou as lágrimas com a palma da mão e voltou-se a deitar na cama. 

“Eu preciso voltar para mamãe”, pensou.

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— Hassan, querido, que bom que chegou cedo — Sarah, sua esposa, sorriu ao vê-lo entrar pela porta.

Ela pegou a bolsa dele e colocou sobre a pequena mesa de centro. Depois correu para os braços dele, e o abraçou enterrando seu rosto no peito dele, enquanto murmurava:

— Senti sua falta hoje na nossa cama. Acordei e não vi você ao meu lado. 

— Me desculpe. Mas eu não consigo descansar direito sem saber se  o garoto estaria bem. Eu tinha medo que ele acordasse e não tivesse ninguém lá.  Eu ainda tenho muitas perguntas para fazer para ele, por que ele estava naquelas montanhas, onde estão os pais dele? Até sabermos disso, vamos cuidar dele. 

A mulher morena assentiu com a cabeça, os pensamentos de angústia enchiam sua mente, ela carregava isso consigo desde a perda de seu filho. A visão do garoto à beira da morte, lutando nas mesmas circunstâncias que seu próprio filho enfrentou, mexia profundamente com ela. Era como reviver um pesadelo, uma ferida que nunca cicatrizava completamente.

Ela acreditava que ajudar o garoto doente poderia ser uma forma de redenção, uma maneira de aliviar a culpa que ainda pesava em sua alma.

Apesar de ter feito tudo ao seu alcance, ela se sentia como se não tivesse feito o bastante para salvar seu filho. Era um fardo pesado.

A morena, afastou-se balançando a cabeça tentando tirar esses pensamentos da cabeça, e então, como toda mãe cuidadosa, começou a catar os pequenos livros pelo quarto de hotel os colocando em um pequeno baú. 

— Hassan, sente ai. Eu vou preparar um café… — Ela piscou para ele, enquanto se movia para cozinha.

— Acho que eu vou fazer isso mesmo, ficar naquela cadeira me deixou com um  pouco de dor aqui no pescoço — ele falou da sala gargalhando.

Sarah estava na cozinha preparando o café, ela tinha rejeitado o serviço de quarto, na esperança de que quando seu marido chegasse, ele pudesse desfrutar de uma comida caseira quentinha. Ao ouvir ele falando que estava com um pouco de dor no pescoço, ela sentiu vontade de repreendê-lo por passar a noite no Hospital Hipócrates, mas pelo jeito animado que tinha falado, ela não tiraria o sorriso do seu marido por nada.

— O garoto…

— Norman é o nome dele — disse, aparecendo na cozinha e abraçando-a por trás.

— Norman — ela se corrigiu sorrindo — Como ele está? — então virou-se e fugiu dos braços dele, como uma criança brincando de pique pega.

Ela correu até a sala e se jogou no sofá. Hassan correu atrás dela e a agarrou pelas mãos, prendendo-a no sofá.

— Ele finalmente acordou, estou muito feliz com isso.

— Tem certeza? Porque não parece para mim —  Sarah disse com uma risadinha.

Ele abaixou-se para beijá-la, suas mãos passearam por debaixo da roupa dela, passando pela cintura dela. Ela parou de beijar para soltar um pequeno gemido, fechando os olhos e se deixando levar pelo momento, sentindo arrepios de prazer.

Aparentemente do nada, Hassan ficou quieto. Sarah estava prestes a questionar por que ele havia parado quando abriu os olhos e viu a pequena criança ao lado deles.

Hassan já tinha se retirado de cima dela e pegado sua filha, colocando-a no colo.

— Laysla, por que você está acordada a essa hora? — perguntou Hassan ainda um pouco vermelho.

— Tive um sonho ruim, papai.

— Um pesadelo, hein?

A menininha, que não aparentava ter nem 7 anos, exibia um corpinho magro e uma pele morena como a de sua mãe, seus cabelos cacheados estavam amarrados como chifres de capricórnio na lateral da cabeça, concordou com a cabeça.

O pai dela sorriu, colocando-a no chão.

A meninazinha agarrou-se à túnica de Hassan, com um rosto pidão.

— Papai, não dorme lá hoje, dorme aqui. Dorme aqui com a gente. Dorme aqui com a Laysla.

Ele então olhou para trás, vendo sua esposa com a mão no rosto, cobrindo o sorriso. Ele não teve escolha, então olhou para frente e viu seu filho mais velho, Guli, encostado no portal da porta, observando-os.

Suspirando com resignação, ele levantou-se, pôs a menina no colo da mãe e caminhou até a pequena mesa de centro, pegando um livro ilustrado

 Hassan olhou para sua família com ternura, sentindo o peso de uma certa culpa em seus ombros. Ele respirou fundo antes de continuar:

— O doutor me disse que o garoto poderia terminar a sua recuperação conosco. Em pouco tempo ele estará aqui. Eu sei que é um pedido grande, — Hassan abriu os braços fazendo um grande balão com as mãos para enfatizar suas palavras, as crianças se divertiram vendo aquilo — mas quero que vocês dois sejam muito gentis com ele. Se se comportarem bem, vou ler isso para vocês quando ele chegar. E não é apenas uma história, é uma chance para mostrarmos o quão acolhedores podemos ser, não apenas como família, mas como seres humanos. Podemos ajudar esse menino a se sentir em casa, mesmo que seja apenas por um tempo. O que acham?

— Eba! — Laysla pulou de alegria, enquanto Guli, o filho mais velho, finalmente aparecia na sala com um sorriso tímido no rosto.

— Qual livro? — perguntou o menino ansioso.

— É a história de um herói trágico. Gosto dessa história, pois ela mostra o mundo como ele realmente é. — Ele então olhou para sua esposa, com um rosto sério:—Sarah, você não acha que já é muito tarde para criança está acordada?

Ela deu uma risadinha, antes de também ficar com o rosto sério e falar com voz autoritária.

—  Eu não acho, eu tenho certeza.

As duas crianças reclamaram com um grande e prolongado “não”, aquele choro típico de criança quando é obrigada a fazer algo que não tem vontade.

Sarah se levantou dizendo:

— Vamos, sem reclamar. Direto para cama.

Olá, eu sou o Kaua Paulino!

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