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— Senhora Yasmin, estamos bem debaixo dos narizes dos nossos inimigos; creio que é mais seguro, o mais rápido possível, saímos para fora do domínio do império.   

Heitor fazendo uma breve pausa, retirou com elegância um charuto do interior de seu terno vinho, acendeu-o com destreza, soltou uma nuvem de fumaça e continuou sua narrativa: 

— Antes de Giliard morrer, ele me fez prometer que eu cuidaria de sua família, e é isso que pretendo fazer. Partiremos antes do sol nascer, os bens que Giliard havia armazenado estão à nossa disposição. Pedi a alguns dos meus homens para prepararem uma carruagem, para que a Senhora e o jovem Norman possam usufruir do máximo de conforto durante a viagem.  

— Meu amigo, você não poderia ter sido mais preciso em suas palavras. Anteriormente, eu teria sido relutante em me mudar do lugar onde eu cresci, casei e formei minha família. Mas, agora, tudo que sinto por esse lugar é aversão. Além disso, com a faca apontada para os nossos pescoços, não me faltam razões para concordar — Yasmin falou em um tom baixo e angustiado. — Porém, pergunto-me para onde iremos, Senhor Heitor?  

Ele pegou um pequeno pedaço de papel — não muito maior que a palma da mão de um adulto — de dentro de seu terno cor vinho e mostrou à mulher.  

— Veja, Senhora Yasmin, seu marido deixou instruções detalhadas do que deveríamos fazer após a sua morte. Amanhã, sairemos da capital e partiremos em direção a um pequeno vilarejo chamado Bergen para que possamos passar a noite. A viagem até lá vai demorar algumas horas a mais devido à forte neve que cobre as estradas.  

Dando uma segunda tragada no charuto, mantendo a mesma serenidade, antes de retomar sua fala com eloquência.  

— Depois, seguiremos para o sul, fazendo mais duas paradas em dois vilarejos distintos: a primeira se chama Trotil e a segunda, Garden. A viagem deve durar alguns dias, não mais do que sete dias. Por enquanto, isso é tudo que a senhora precisa saber; teremos muito tempo durante a viagem para explicar onde será a nossa parada final. Não se preocupe com nada, já estou cuidando de tudo.  

Yasmin assentiu, confiando plenamente nas capacidades de seu velho amigo.  

O homem levantou-se e dirigiu-se à porta, mas não antes de fazer uma profunda reverência à mulher, que respondeu com um gesto de agradecimento.  

Heitor saiu, subiu as escadas, passou pelo estoque de livros, entrou na lojinha e avistou Norman conversando alegremente com a senhorita Hana. Ele ficou muito contente com aquela visão, ficando feliz de poder ver o garoto conversar naturalmente e poder sorrir mesmo depois do acontecimento ruim de antes.  

Aproximando-se de Norman, ele fez uma pequena reverência para o jovem e se despediu, desejando uma boa tarde.   

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Em um escritório de estilo rústico, Heitor estava sentado atrás de uma escrivaninha de madeira negra. Pilhas de papéis cobriam toda a mesa, deixando espaço apenas o suficiente para que ele pudesse se mover sem esbarrar em documentos. Sem deixar de escrever e sem olhar para frente, questionou um homem vestido com roupas que eram mais apropriadas para caça do que para ambientes formais.  

— Capitão Winston, quero um relatório completo sobre o andamento dos preparativos para nossa saída da capital — Heitor falou em uma voz monótona.  

O Capitão fez uma saudação típica militar, e começou o relatório: 

— Senhor, meus homens já prepararam uma história como base para o nosso disfarce. Agiremos como uma guilda contratada para fazer a proteção de um comerciante médio, sua esposa e seu filho. Além disso, para não deixarmos registro de nossa passagem, reservamos uma pequena quantidade de moedas de prata que servirão para subornar os guardas do portão. Contudo, o estoque de alimentos é suficiente apenas por alguns dias, temo que teremos que parar em alguma das vilas para reabastecer.  

— Excelente trabalho, Capitão. Está dispensado — disse Heitor, pela primeira vez, interrompendo sua escrita e olhando nos olhos do capitão.    

Saindo o Capitão, soltou um suspiro. Recostou-se na cadeira de escritório e realizou uma pinça com o dedo indicador e o polegar na parte superior de seu nariz. Aqueles dias estavam sendo extremamente exaustivos para ele.   

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Yasmin já havia explicado parcialmente a situação a Norman, dizendo que partiriam para fora das muralhas da capital antes do sol nascer.   

“Não há sentido em explicar tudo para ele agora, afinal, Heitor já se dará o trabalho de fazer isso mais tarde”, ela pensou interiormente.  

— Se você entendeu direitinho, quero que coma bastante esta noite e vá dormir. Mamãe precisa deixar nossas coisas prontas para amanhã de manhã.  

Norman acatou as ordens de sua mãe.  

Yasmin havia arrumado tudo. Ainda tinha sobrado um pouco de tempo, que ela aproveitou para ir dormir, afinal de contas ela não tinha conseguido descansar na noite anterior. Porém não muito tempo depois, foi despertada ao ouvir pequenas batidas repetidas e com pausas intercaladas, como as que havia combinado com Heitor, indicando que era a hora de partirem.  

Sem delongas, ela acordou Norman, que estava com o rosto sonolento. O garoto começou a espreguiçar-se e coçar os olhos. Yasmin achou aquela cena muito fofa, mas resistiu à vontade de envolver Norman em um abraço de mãe ursa.  

Então, em vez disso, ela virou-se, sentou-se, colocou suas pantufas e, finalmente, levantou-se. Indo à porta atender o velho amigo, ao abrir, ela o cumprimentou, e ele respondeu com uma profunda reverência.  

— Senhora Yasmin, tudo está pronto. Por favor, permita que esses dois cavalheiros levem sua bagagem lá para fora — falou Heitor, enquanto apontava para dois homens de figura viril, que se assemelhavam a dois armários gigantescos.   

— Claro, eu garanto o que não vai faltar são coisas para carregar — disse Yasmin, em tom meigo.   

O que fez os dois homens atrás de Heitor se entreolharem como se estivessem pensados em uníssono: “Uma dama, realmente muito linda e gentil. Não é de admirar que o Senhor Heitor a esteja cortejando.”  

Heitor havia explicado para poucas pessoas seu envolvimento com Giliard e com a sua família, ele acreditava fortemente que quanto menos pessoas soubessem, melhor seria. Explicar para os dois homens que a mulher que eles iriam ajudar era Yasmin Vitoiesk só traria problemas, por isso ele se manteve em silêncio.   

Os dois homens saíram de seu estupor inicial e, passando pelos dois, foram em direção às grandes caixas que estavam logo na entrada. 

Durante o tempo que sua mãe abria a porta para Heitor, Norman começou a se preparar para partir. Ele pegou seu colar que estava acima do criado-mudo, colocou em volta de seu pescoço e o escondeu por dentro de sua roupa. 

 Após isso, ele foi onde estava sua mãe e viu dois grandes homens mexendo nas caixas, mas como ninguém parecia se importar, ele apenas deu de ombro.  

Heitor queria partir o mais rápido possível e, por esse motivo, apressou a entrada de Yasmin e Norman na carruagem, sem permitir que o jovem tivesse tempo para uma despedida adequada da senhorita Hana.  

Hana sentiu uma leve pontada no peito; em tão pouco tempo, já se afeiçoara ao pequeno garoto. Uma despedida tão rápida, sem permitir que ela desse conselhos ou lhe desse um beijo na testa de despedida, era dolorosa para uma mulher solitária que passava suas horas lendo livros. 

Os dois homens em questão de minutos já haviam arrumado toda a bagagem em uma área atrás da carruagem, denominado bagageiro.  

Tendo realizado o serviço, os dois homens se aproximaram de um senhor de terno cor vinho para receber o que lhe era devido. 

De pronto, Heitor retirou 5 moedas de prata para cada um. 

Os olhos dos dois homens brilharam ao ver tanto dinheiro de uma vez. Normalmente, um homem adulto comum somente receberia 5 moedas de prata depois de um mês inteiro de trabalho. Receber tanto por um trabalho tão simples fez com que os dois fizessem uma profunda reverência para Heitor em agradecimento.   

Ele apenas acenou de volta e tomou a posição dentro da carruagem junto a esposa e o filho do seu falecido amigo.  

O cocheiro estalou o chicote, podendo, dessa forma, ouvir de dentro da carruagem os trotes dos dois cavalos iniciarem no que seria uma sinfonia que ouviriam com bastante frequência a partir de agora.  

Norman olhou para janela, fascinado com a maravilha da natureza que estava ocorrendo do lado de fora, neve estava caindo em um espetáculo frio. Cada expiração se tornava um ato de alquimia, uma transformação de respiração quente em vapor de água visível.  

Yasmin sequer notou o que estava acontecendo do lado de fora. Muitas coisas se passavam em sua cabeça: “Então, efetivamente, estou deixando a capital. Minha casa… eu queria tanto ir visitá-la, tive tantos momentos mágicos naquele lugar. Agora, abandonarei tudo como um mau hábito.   

“E, neste momento… eu nem sei o que houve com o corpo do meu marido; mesmo se eu perguntar para Heitor, decerto que ele também não saberá nada a respeito.” Ela estava fazendo o possível para que as lágrimas não derramassem na frente de todos, mas, no fim, acabou sendo um esforço inútil. Copiosamente, lágrimas escorriam dos olhos dela. 

O fascínio com a neve que Norman estava sentido, estourou como uma bolha. Ele, que estava junto à janela, aproximou-se dela e, com um puxão delicado, fez a cabeça dela repousar em seu peito e começou a acariciar o cabelo castanho cor mel de Yasmin, como ela havia feito no dia anterior com ele.  

O movimento repentino assustou Yasmin um pouco. No entanto, ela não fez nada para resistir ou falou algo. O batimento rítmico de Norman agia como um calmante para ela, uma sensação como se estivesse nos próprios braços de Giliard, onde sua calma e semblante serenos que nada poderia abalar, sempre passavam o sentimento de segurança que ela tanto apreciava.   

Heitor apenas se manteve quieto, ele sabia que nada do que fizesse ou dissesse iria fazê-la se sentir melhor.   

Depois de dormir tão pouco e com o turbilhão de emoções que a mulher estava suportando, a sensação de tranquilidade a fez adormecer nos braços de Norman, que não se importou.  

Ele seguiu fazendo carinho nela e, com a outra mão, estava segurando um livro pequeno de guia de campo. Heitor parecia seguir o exemplo do garoto e também estava absorto em um livro de economia.   

Alguns minutos após eles terem saído da lojinha da senhorita Hana, os trotes dos cavalos cessaram, o que fez Heitor olhar pela janela, percebendo que estavam parados bem diante do portão principal. Ele pausou a leitura do livro e colocou lentamente um marcador de página sobre o livro e o fechou em seguida. Abriu a porta da carruagem e, em um ar de autoridade e rosto rígido, foi até o guarda imperial que os havia barrado.   

— Seu saco de merda, por que está interrompendo a passagem da minha carruagem? Você, um mísero guarda, sabe quem eu sou? —  ele disse, enquanto lançava um tapa no rosto do guarda, fazendo o rosto do guarda virar totalmente para o lado, mostrando apenas uma vermelhidão.  

As pernas do guarda começaram a tremer com o pensamento que poderia ter ofendido alguém importante. Sua boca não conseguia produzir qualquer som além de grunhidos.  

Não recebendo resposta, Heitor repetiu a pergunta, desferindo outro tapa no rosto do sujeito, dessa vez girando sobre o quadril para adicionar mais força. O tapa fez o jovem guarda imperial cair no chão.  

Heitor gostaria de continuar, porém, mais iria chamar muita atenção. Tudo ainda estava correndo como ele havia planejado. O outro guarda, que estava com a expressão aterrorizada, correu para chamar a oficial de maior patente, Cátia.  

O guarda explicou parcialmente a situação, pois antes que ele pudesse terminar, ela havia se levantado da sua mesa de escritório e ido até onde estava ocorrendo a confusão.  Mesmo sem ouvir toda a história, seu rosto parecia nervoso, um suor frio escorria pelo seu rosto.  

Quando ela chegou no local, não pôde deixar de engolir em seco. Um homem vestido com um terno roxo vinho que aparentava valer mais do que ela recebia em um ano inteiro de serviço.

Ela logo começou a pensar a todo vapor: “Merda, merda, o que esses bastardos fizeram para ofender um maldito nobre? Eles não sabem que dentro da capital, suas palavras são lei?” Ela não podia externalizar suas preocupações, então apenas seguiu adiante.   

O jovem guarda ainda estava sentado no chão com o rosto aterrorizado. Porém, ao perceber a chegada da oficial Cátia, seu rosto tornou a ter cor. Ele se levantou rapidamente e correu. Seus olhos se encontraram com as do oficial, seus olhos emanavam agradecimento. Ele tinha certeza de que morreria ali mesmo, que ninguém o ajudaria.  

Cátia pôde sentir isso, o que fez a suas forças aparecerem de novo. Indo de encontro com o homem. Parando apenas a alguns metros de distância, questionou:   

— Por favor, senhor, permita-me entender o que está acontecendo aqui. Como oficial encarregada deste posto, é meu dever garantir a segurança e o cumprimento das regras dentro da capital. Agressões a membros da guarda imperial são um assunto sério, gostaria de resolver essa situação de forma apropriada.  

Vendo que o homem continuava sem falar nada, ela continuou:

— Senhor, se esteve na cidade nos últimos dias, deve saber o que aconteceu. Houve a execução do ex-estrategista de guerra, Giliard Vitoiesk, a corte imperial tinha motivos para acreditar que sua família ainda estava na capital escondida. Por esse motivo, foi ordenado para que vistoriassem as carruagens de todos que saem da capital.  

O semblante de Heitor endureceu, com um olhar sério, ele sugeriu:   

— Eu recomendo que você considere a autoridade que está lidando aqui, oficial — disse ele, dando uma ênfase especial ao posto dela.   

Cátia não recuou, mas engoliu em seco com a ameaça velada nas palavras do homem. Tudo só piorou para ela quando olhou para a luva branca dele, que continha um brasão de um corvo. O corvo era representado em um galho de uma árvore, em uma pose majestosa, com asas estendidas e bico aberto, como se estivesse prestes a levantar voo.    

— Senhor, mesmo que seja um membro da família Corbeau, tenho ordens explícitas para não deixar ninguém passar sem antes ser realizado o registro e a vistoria dentro do veícul…   

Ela se engasgou com suas palavras quando uma mão forte a segurou pelo pescoço, levantando-a do chão. Cátia tentou se desvencilhar, mas a mão do homem parecia como um aperto de aço para ela.   

Os soldados ficaram chocados e imediatamente cercaram o homem, sacando suas armas e apontando em direção a ele. Vendo aquilo, Cátia empalideceu mais ainda. 

— O que pensam que estão fazendo, seus idiotas!? Vão atacá-lo!? E depois? Vocês vão ser capturados e mortos, suas famílias, seus filhos e esposas vão ser mortos. Ofender um nobre é um crime punido duramente. Estão prontos para pagarem com as consequências!? —  falou ela nervosamente.  

Todos os guardas imperiais entenderam o que a oficial queria dizer, então um a um foram abaixando suas armas. Porém… cada um saiu com um gosto amargo na boca, pensando:  

“Como pode!? Devemos ficar aqui parados, enquanto um maldito nobre abusa de seus poderes!?”  

“Esse grupo de escória, pisam em nós como se fôssemos baratas! Não se importam de matar, pois para eles as leis são apenas palavras”, outro pensou, cerrando os dentes.

“Para eles não passamos de insetos que devem ser eliminados!”, um terceiro pensou. Os guardas se sentiam insignificantes e impotentes contra as garras dos fortes.

 Norman assistia toda a cena se desenrolar bem diante de seus olhos. Ele se surpreendeu com a sua própria reação indiferente. O que o deixou levemente assustado. Refletindo se o que tinha acontecido com o seu pai o havia mudado mais de uma maneira.

Fora da carruagem, Heitor sorriu de maneira marota. 

Cátia se sentiu como uma criança tentando medir força com um adulto, o aperto firme não deixava espaço para luta. O homem levantou a outra mão como se fosse desferir um tapa no rosto dela, e ela fechou os olhos, esperando o tapa vim. Depois de um segundo a mais, e o tapa não tinha vindo, ela resolveu abrir os olhos.    

Heitor a havia colocado no chão e estava arrumando o seu uniforme. Ele se aproximou perto da orelha da oficial e sussurrou algo quase inaudível. Os soldados que estavam longe, só poderiam ver o rosto da oficial mudar em uma expressão de raiva.  

Frustrada com o comando da corte imperial, Cátia pensou: “Para o inferno com todas essas ordens malditas. Não vou morrer por causa desse monte de ordens idiotas.”  

Ela levantou a voz e ordenou que todos os soldados abrissem o portão e retirassem-se da frente da carruagem. Os soldados ainda estavam chocados, mas, com o rígido treinamento, imediatamente acataram as ordens. 

De repente, um grupo com 20 homens apareceu montado a cavalo, cercando a carruagem por todos os lados. Um homem montado sobre um cavalo com roupas que eram mais adequadas para caça do que para ambientes formais tomou a frente, indo até onde estava Heitor. Este era o Capitão Winston.  

Heitor apontou e explicou para oficial Cátia: 

 — Deixe que esses homens passem também, eles estão acompanhados de mim. 

Cátia assentiu com a cabeça, pensando interiormente: “Eu já estou descumprindo ordens, mais algumas pessoas não fazem diferença.” 

Voltando para dentro da carruagem, pegou o livro, sentou-se cruzando as pernas e voltou à leitura. Norman estava lendo quando Heitor voltou, vendo o homem sentando tão calmamente como se nada tivesse acontecido. Fez com que Norman abrisse um pequeno sorriso satisfeito. 

Finalmente, o estalar do chicote do cocheiro foi ouvido novamente e, acompanhado do estalo, o som dos cascos dos cavalos tomavam a sinfonia novamente no ar. 

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Olá, eu sou o Kaua Paulino!

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