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À medida que se aproximavam da vila, a neve branca exibia as máculas do intenso trânsito de pessoas. Mesmo sob a ausência do sol, alguns indivíduos ainda retornavam com suas roupas sujas e rostos marcados por uma fuligem preta. Em suas mãos, carregavam ferramentas antigas de mineração.

Os homens, sob as ordens do capitão, desmontaram de seus cavalos, marchando pela rua principal. Esta não era muito larga, sendo o suficiente apenas para permitir a passagem folgada de uma carruagem. O ar era impregnado pelo cheiro de estrume animal, e a iluminação escassa provinha apenas de algumas poucas casas.

Os soldados que flanqueavam a carruagem viam-se obrigados a cobrir seus rostos com panos, protegendo-se do fedor que pairava no ar.

Na parte mais pobre da vila, muitas pessoas estavam jogadas nas ruas, estendendo suas tigelinhas em um sinal universal de petição de esmola. As casas, modestas e agrupadas, pareciam se encolher sob o peso do tempo. Os telhados de palha desgastados davam ideia das dificuldades enfrentadas pelos moradores, enquanto ruas estreitas e sinuosas criavam um labirinto de destinos modestos.

À medida que se aventuravam mais profundamente na vila, a neve raramente era removida, criando uma cobertura irregular que ressaltava as dificuldades diárias. As janelas escassas emanavam uma luz fraca à noite, e o aroma de lenha queimando misturava-se ao cheiro persistente de fumaça das lareiras improvisadas.

Norman sabia que durante esta temporada específica do ano, as vilas eram frequentemente inundadas por visitantes em busca de oportunidades lucrativas. Algumas cidades, contudo, permaneciam fora da rota de abastecimento.

Bergen, apesar de não estar muito distante da capital, era negligenciada devido à sua população majoritariamente composta por indivíduos não nascidos no império, mas sim filhos de ex-escravos de guerra dos povos bárbaros.

O rigoroso inverno contribuía para que muitos mercadores evitassem essas rotas desafiadoras; no entanto, para os destemidos que se aventuravam a enfrentar tais obstáculos, a recompensa era a capacidade de precificar seus produtos de maneira exorbitante.

A máxima que impulsionava esses empreendedores era cristalina: “Quanto maior o risco, maior o lucro.”

Naturalmente, esses comerciantes não enfrentavam apenas as adversidades causadas pela neve; também encaravam a ameaça representada por ladrões de mercadorias. A política, de maneira direta ou indireta, permeava todas as formas de interações sociais, exercendo influência palpável no cotidiano das pessoas.

Entretanto, ao cruzar uma ponte de pedra desgastada, ele notou que a atmosfera começava a mudar. A vila revelava sua face mais próspera. As casas cresciam em tamanho e elegância, exibindo telhados de ardósia bem cuidados. Ruas mais largas ofereciam espaço para pedestres e carruagens, enquanto a arquitetura mostrava sinais de investimento e zelo. Norman ficou surpreso com tamanha discrepância.

Nessa área mais rica, as janelas brilhavam com cortinas finas e luzes acolhedoras. Jardins bem cuidados envolviam algumas das casas, contrastando vividamente com a paisagem mais árida da outra parte da vila. A discrepância social era evidente, mas o contraste entre essas duas facetas da vila criava uma narrativa visual que tocava o coração de qualquer indivíduo dotado de empatia.

O grupo de Heitor seguiu adiante em busca de um local para passar a noite, não muito adiante da ponte, um dos homens do capitão informou que havia um lugar onde poderiam ficar.

Na frente do local, todos desceram da carruagem.

O capitão deu ordens para o tenente levar os cavalos para um estábulo ali perto. No tempo em que o capitão dava ordens, Heitor entrou, juntamente com Yasmin e Norman.

A hospedaria se erguia modesta, mas acolhedora, na rua principal da vila. Na sua fachada, um letreiro desbotado anunciava “Estalagem Elenea”. Ao adentrar, os visitantes eram imediatamente envolvidos pelo barulho de boa música e calor aconchegante que emanava do restaurante situado na parte inferior do edifício.

Para o garoto, o restaurante, com suas mesas de madeira desgastada e cadeiras confortáveis, exalava um aroma reconfortante de especiarias e cozinha caseira. A luz suave das luminárias penduradas criava uma atmosfera acolhedora, convidando os hóspedes a se acomodarem e desfrutarem de uma refeição reconfortante. As paredes exibiam quadros desgastados, contando histórias de viajantes que passaram por ali ao longo dos anos.

Porém, o restaurante da hospedaria estava mergulhado em uma atmosfera peculiar naquela noite.

Na mesa mais ao fundo, um grupo de clientes acalorados discutia fervorosamente sobre os recentes acontecimentos na capital. O som de vozes elevadas e gestos enfáticos preenchia o ambiente, enquanto olhares sérios e expressões tensas indicavam a seriedade da conversa.

Entre os debatedores, um homem de aparência musculosa e pele pálida destacava-se, defendendo com paixão seu ponto de vista sobre os eventos na capital. Em contrapartida, um cliente visivelmente irritado rebatia suas palavras carregadas de desacordo e frustração. A tensão na mesa aumentava a cada momento, criando uma energia palpável ao redor deles.

Em uma mesa próxima, um cliente visivelmente embriagado buscava qualquer motivo para iniciar uma briga. Seus olhos vidrados e palavras desconexas eram indícios claros de sua embriaguez. Ele buscava atenção, provocando os demais clientes, esperando que alguém respondesse às suas provocações.

De canto dessa atmosfera tensa, vários indivíduos com uma estética discreta. Eles pareciam ocupados em suas próprias refeições, mas aqueles que os conheciam podiam notar um leve sorriso nos cantos de seus lábios, como se estivessem cientes da situação, mas escolhendo não se envolver.

Enquanto os ânimos se exaltavam, a equipe do restaurante observava atentamente a atmosfera, carregada de emoções conflitantes.

A tensão atingiu seu ápice quando o cliente embriagado, frustrado pela falta de atenção, decidiu agir. Com um repentino acesso de raiva, ele se levantou abruptamente, dirigindo-se à mesa onde o homem de aparência pálida debatia acaloradamente sobre os acontecimentos na capital.

— Eu agia sob as ordens daquele homem, afinal o que vocês sabem sobre ele, senão a merda dos rumores daquela “gentinha”? — ele rosnou, dirigindo-se ao grupo.

Os outros clientes na mesa olharam surpresos para o intruso. O homem que estava sendo discutido na conversa anterior ergueu um olhar intrigado, enquanto os debatedores ficaram momentaneamente em silêncio, observando o desenrolar da cena.

— Ninguém aqui parece se importar com o que eu tenho a dizer! — exclamou o embriagado, olhando ao redor em busca de alguma reação.

O silêncio tenso foi quebrado quando, sem aviso, ele desferiu um soco no ombro de um dos homens que estavam discutindo os acontecimentos da capital. O golpe, embora não fosse particularmente poderoso, surpreendeu o alvo, que recuou momentaneamente.

— O que você pensa que está fazendo?! — gritou o cara de aparência atlética atingido, esfregando o local do impacto.

A cena na hospedaria tornou-se caótica. Outros clientes, empolgados pela possibilidade de uma briga, levantaram suas canecas de cerveja, incentivando o confronto iminente.

— Vai, acaba logo com isso! — animou um dos espectadores, enquanto outros faziam coro, criando uma atmosfera quase festiva.

Os clientes das mesas vizinhas abriram espaço, formando uma espécie de ringue improvisado para os dois contendores. A pessoa que tomou o soco levantou a guarda e deslizou o pé para a frente para não dar abertura para o oponente, demonstrando que estava pronto para se defender.

O embriagado, vendo o adversário se preparando, regozijou-se com a perspectiva de finalmente conseguir uma briga. Seu semblante embriagado tornava-se ainda mais desafiador.

O indivíduo que havia levado o soco avançou, tentando acertar um golpe direto. No entanto, antes que pudesse perceber, encontrou-se caído no chão, com o nariz sangrando. O embriagado, habilmente, desviou-se do ataque e lançou um contra-ataque, aproveitando o peso do oponente contra ele.

A cena, que começara com uma discussão acalorada, agora se desenrolava em uma luta improvisada, com os espectadores assistindo com uma mistura de excitação e curiosidade.

Norman, vendo aquela cena, perguntou a um dos funcionários do lugar:

— O que está acontecendo? Quem é aquela pessoa bêbada?

— Muitas perguntas, garoto. Eu também não sei por que eles estão brigando. Mas está vendo aquele cara ali?

— Sim, por quê?

— Ele foi um capitão que serviu ao deus da estratégia. Quando ouviu falar que ele foi executado, desertou e entrou em um ciclo de bebedeira. Desde então, nunca o vi sóbrio.

— Entendo, obrigado por me explicar — Norman disse, ficando com uma expressão ensombrada.

A respiração pesada do embriagado era como tambores no ambiente enquanto ele olhava para o homem caído com um sorriso debochado. Ele se aproximou, inclinando-se levemente para falar diretamente para o homem que ainda tentava se recuperar.

— Ah, por favor, não me diga que isso é tudo? — provocou o embriagado, fazendo um gesto desafiador de “Vem cá” com a mão, indicando para que o homem caído se levantasse e continuasse a briga.

Com o gesto cheio de insolência do embriagado, os espectadores não conseguiram conter suas emoções. Gritos e comentários ferviam na platéia improvisada.

— Pelos deuses, vai mesmo deixar ele falar assim com você? — exclamou um dos espectadores, expressando incredulidade diante da cena.

— Tu viu o soco que ele tomou? — disse um homem careca para um cara negro de cavanhaque, trocando olhares de surpresa diante da virada inesperada.

O homem que estava sentado, ouviu esses comentários e ficou vermelho. Veias saltavam de seu pescoço, indicando a raiva que estava prestes a explodir. Limpando o sangue do nariz, ele se levantou abruptamente e correu na direção do embriagado.

O embriagado, vendo o homem se aproximando com determinação, tomou uma posição de luta estranha, preparando-se para o confronto iminente.

O homem, semelhante a um touro furioso, correu em direção ao embriagado, visando alcançar suas pernas para levar a briga para o chão, onde talvez tivesse mais chance de recuperar o controle da situação. O clima tenso da hospedaria atingia seu ápice, com os espectadores agitando-se em antecipação ao desfecho da briga.

Enquanto a briga se desenrolava no centro da hospedaria, o garçom, empolgado com a cena, elevou a voz para entreter ainda mais os espectadores:

— Façam suas apostas! Quem vocês acham que vai ganhar?

A atmosfera se tornou ainda mais intensa com as apostas sendo lançadas entre os clientes, alguns escolhendo o homem caído, enquanto outros torciam pelo embriagado. Risadas e murmúrios preenchiam o espaço, criando uma atmosfera peculiar de excitação. 

No entanto, Heitor, aparentemente alheio à agitação, concentrava-se em seus próprios assuntos. Ao reservar dois quartos na hospedaria e entregar uma chave, ele pediu a Yasmin que subisse primeiro, garantindo-lhe um momento de paz e distância da confusão. Comprometeu-se a levar Norman para junto dela em breve.

Ela o abraçou fortemente, sussurrando palavras de agradecimento em seu ouvido. Heitor ficou surpreso com a ação dela, ficando com os braços abertos, mas logo retribuiu o abraço. Yasmin virou-se, subindo as escadas por um corredor estreito que levava a quartos simples, mas limpos.

O embate na hospedaria continuava, com as apostas e os gritos dos espectadores criando um verdadeiro clima de bar. Enquanto isso, Heitor guiava Norman até o balcão da recepção, afastando-o da confusão.

— Não se preocupe, meu amigo. Acalme-se um pouco aqui enquanto eu resolvo os detalhes dos quartos — Heitor aconselhou, mantendo uma expressão calma diante da agitação.

Norman assentiu, observando a luta de longe.

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Olá, eu sou Kaua Paulino!

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