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Após espreguiçar, Leona despertou.

Olhou para os dois lados ainda sonolenta e não viu Colin, se perguntando se ele havia ficado bebendo a noite toda ou levantou mais cedo para tomar café da manhã.

A maçaneta girou e Colin entrou, trazendo um cheiro horrível consigo. Sua armadura de couro leve estava coberta por sangue negro, havia sangue até em seu cabelo.

— Onde estava? — Indagou com os olhos arregalados.

— Matei o necromante que controlava as criaturas.

O semblante de dúvidas da pandoriana permanecia.

— Sério? Do nada?

— Ele não era tão forte, o problema, eram as criaturas quase infinitas que tinha sob controle. Preciso de um banho agora — Colin tirou a parte superior da armadura e jogou de lado, passando por Leona que continuava sem entender nada.

— Espera! — Ela foi para frente de Colin — Por que fez isso tão de repente? Devia ter me avisado.

— Leyvell é um caçador de espectros, e ele está atrás da Brighid. Ele também é amigo dos caçadores de monarcas, aqueles idiotas que Brighid matou no espelho. Depois do meu banho, a gente vai embora.

A cabeça dela estava dando um nó.

— E-Espera! Se ele está atrás da Brighid, então significa que ela está viva?

Colin passou por Leona novamente.

— Sim, já volto.

Sem dizer mais nada, ele foi para o banheiro. Entrou na sua antiga banheira e ficou de pé. Girou as torneiras e os cristais de mana no encanamento fizeram água quente cair em sua cabeça, levando o sangue negro embora.

Focou seu olhar no ralo que ficava escuro enquanto ele ficava mais limpo. Quanto mais tempo passava, mais extensa ficava sua lista de inimigos.

Após fazer muxoxo, Colin apoiou as mãos na parede enquanto seus olhos focavam no ralo do banheiro.

Parte dele achava aquilo ótimo, a outra parte estava com medo, não por ele, mas por aqueles que o cercavam. Brighid provavelmente estaria perto de parir, Alunys estava feliz em cuidar de um ducado, e mesmo que não parecesse, sentia que Ayla estava feliz por finalmente conseguir o feito de formar um país.

Tudo estava indo tão bem para aqueles com quem se importava que ele ficou com medo de estragar tudo, afinal, ele reconhecia o seu dom natural para confusão.

“Preciso recuperar minha mana e me tornar um monarca. Acho que negligenciei meus treinos, meus estudos…” Ele cerrou o punho, mantendo-o apoiado na parede “Brighid está com Morgana, mas Ayla e eu somos os únicos capazes de cuidar dos outros em Runyra… E se Ayla engravidar também? Merda!”

Após cinco minutos, ele desligou o chuveiro, enxugando com a toalha que deixavam para os hóspedes. A deixou sobre a cabeça e se olhou no espelho.

Suas olheiras haviam retornado de maneira mais sutil, sua barba estava rala e parte de seu cabelo bagunçado escapava da toalha sobre sua cabeça.

Aquela aparência o fez lembrar do passado, de quase dois anos atrás, quando ele chegou ao novo mundo. Seus objetivos de lá para cá tiveram mudanças significativas. Ele nunca teve um plano concreto sobre nada, deixou as coisas acontecerem naturalmente, mas ele finalmente tinha um objetivo claro.

Tendo a morte como uma certeza breve, Colin queria que as coisas ficassem boas para seus amigos e familiares antes de sua hora chegar, mas tinha medo de não dar tempo de concretizar isso.


Colin jogou sua armadura suja em uma bolsa e vestiu uma camisa preta de lã e por cima um sobretudo com capuz da mesma cor. Nas pernas iam calças de pano escuras e sapatos escuros também. Passou um cachecol pelo pescoço e desceu o capuz até a altura dos olhos.

Leona também trajou um sobretudo escuro com capuz de bordas felpudas. Suas pernas eram cobertas por calça de coro e seus pés por botas escuras. Usava um cachecol branco sobre o pescoço e usava luvas da mesma cor.

Antes de sair, Colin deu mais uma olhada no apartamento. Suspirou e fechou a porta, seguindo Leona pelo corredor.

Fizeram todo caminho de volta até o palácio. Cymuel ainda estava lá, conversando com seus curandeiros, e Bertina também, que desviou o olhar ao perceber o carniceiro.

Após se despedir do seu pessoal, Cymuel foi até Colin.

— Como foi a noite?

Colin deu de ombros.

— É bom dormir debaixo de um teto às vezes.

— Fico feliz que tenha gostado, tem mesmo que partir?

— Sim, a viagem é longa e não podemos perder tempo.

— Compreendo — Cymuel deu dois tapinhas no ombro de Colin — As coisas andam um pouco complicadas, mas a gente consegue dar a volta por cima como sempre. Mandei encherem seu alforje com algum suprimento. Não temos muita coisa, mas deve ser o suficiente até chegar ao seu destino.

— Obrigado, senhor Cymuel. — Colin olhou para os enfermos no chão — Por que há tantos feridos aqui?

— Bem… Criaturas não são o único problema que enfrentamos, também há mercenários e pequenas vilas que querem se tornar reino algum dia. — Ele coçou a nuca meio sem jeito — Temos que pagar o grupo do senhor Leyvell, então não nos sobra muito recurso para montarmos uma guarda própria. Para fazer isso os impostos teriam que subir, e isso seria desastroso em momentos como esse…

— Não precisa mais se preocupar com as criaturas que vagam pelas ruínas a noite, eu matei o invocador, então os caçadores de espectros não são mais necessários.

Atingido de surpresa por aquela notícia, Cymuel não soube o que dizer. Era comum que duvidassem de um estranho, mas ele não duvidou. O jeito mais sério de Colin e o fato de ele ser bem-visto por Leyvell o deu certa credibilidade.

— I-Isso é ótimo! — Apertou as mãos de Colin — M-Muito obrigado, senhor!

— Devia fazer aliados — Colin olhou para os feridos sendo tratados — Aqui era a antiga Ultan, o número de mercenários querendo se apossar daqui irá aumentar. Mesmo se os caçadores quiserem fazer a função da guarda, você estará desperdiçando recurso em mantê-los com os tributos dos cidadãos.

Após engolir o seco, Cymuel desviou o olhar.

— Estamos isolados, senhor… Não acho que seria uma boa ideia fazer alianças no momento… Não temos muito a oferecer em troca, tudo que restou de Ultan foi uma cidade pela metade.

— Isso é o suficiente, devia falar com os carniceiros do centro-leste. Soube que eles formaram um país, e por lá vaguei faz algumas semanas. Acredite em mim, Runyra é o futuro.

— Mas… eles não estão em guerra com os religiosos de Thitorea?

— Estão, mas não deve durar muito tempo. Quando eles vencerem, estará nascendo oficialmente um império. Devia falar com a rainha Ayla, ela vai te ouvir.

Sem jeito, Cymuel assentiu.

— T-Tudo bem, escreverei uma carta a ela… espero que ela me responda…

Colin deu dois tapinhas no ombro de Cymuel.

— Tenho que ir, se cuida, e não esqueça de escrever a carta.

— P-Pode deixar.

— E onde está Leyvell e seus homens?

— Bom, eles costumam fazer patrulha assim que o sol nasce, devem voltar na hora do almoço, se quiser, mando prepararem algo para o senhor.

— Não precisa, nós já vamos indo.

— C-Certo — Cymuel olhou para Bertina — Leve-os até o cavalo. — Ela assentiu — Senhor, selamos o cavalo, colocamos também uma capa de inverno além das provisões!

— Senhor, me acompanhe por favor — disse Bertina tomando a dianteira.

Colin cumprimentou Cymuel uma última vez e seguiu Bertina pela cidade coberta por neve. Estava tudo tão branco que o sol fraco iluminando a neve fazia suas vistas doerem.

O trajeto todo foi silencioso, nem mesmo Leona deu um pio. Chegaram ao estábulo coberto por neve e Bertina adentrou, retornando com o cavalo de Colin, o puxando pelo cabresto.

Era um enorme garanhão de pelagem escura. O pelo das patas e da crina, eram volumosas e levemente frisadas. Ele estava coberto por uma capa escura, se destacando bastante em todo cenário níveo. Em suas costas robustas ia uma cela dupla, também enegrecida. Haviam também dois pares de alforjes da mesma cor, cheio de suprimentos.

— Aqui está… — Bertina entregou o cabresto nas mãos do carniceiro — Tenha uma boa viagem, senhor…

— Obrigado. — Colin apoiou o pé no estribo e subiu, dando a mão para Leona que subiu logo atrás — Convença Cymuel a escrever para Ayla, percebi que ele está relutante. Confie em mim, ela ajudará vocês.

— Como pode ter tanta certeza? — Indagou baixinho.

Colin nada disse, apenas balançou as rédeas e o cavalo trotou para longe até sair do vilarejo.

Com o cabelo e vestes escuras, os carniceiros não precisavam de palavras para parecerem intimidadores. De um morro coberto por neve e árvores secas, Leyvell observava Colin se afastar com o cenho franzido.

— Vamos atrás dele? — Perguntou um de seus homens fumando um cigarro.

— Devíamos! — Disse um caçador careca com a cabeça tatuada — O invocador era o nosso passe livre para fazermos o que quiséssemos na cidade, e aquele idiota estragou tudo. Não sei por que não o atacamos e acabamos com isso.

— Vocês são estúpidos? — Indagou Leyvell — Aquele é o rei de Runyra, a parceira dele exterminou os caçadores de monarcas sozinha. Sabem quem também estava na equipe dele? Elhad e Sashiri, os traficantes de informações mais perigosos do Oeste, além do filho mais novo de Jack Ubiytsy. Esse idiota era o líder de todos eles, temos que ter cautela, ou acabaremos mortos.

Seus companheiros cruzaram olhares e engoliram o seco.

— Então o que faremos?

— O que acha, Josan? — Indagou Leyvell encarando um rapaz coberto por uma capa escura, mal dava para ver seu rosto. — Você é o rastreador, quais suas opções?

— Vamos segui-los de uma distância segura. A pandoriana é uma raposa de nove caudas, ela pode nos farejar há quilômetros de distância, então seremos cautelosos. — Ele deu as costas — Dê a eles um dia de vantagem, o carniceiro também já deve ter suspeitado da gente.

Apesar de ter convicção do que dizia, seus companheiros o encaravam com um olhar não muito convidativo.

Enquanto Josan se afastava, um dos caçadores quebrou silêncio.

— Não devíamos confiar em um estranho. O garoto está conosco há somente uma quinzena.

— É! — afirmou Leyvell — E mesmo assim foi ele que nos alertou sobre intrusos nas ruínas, sobre aquele grupo de mercenários e organizou nossas rotas seguras. Ele é competente, vamos dar a ele esse voto de confiança.

Foi a vez de Leyvell se afastar. — Vamos lá aproveitar, beber um pouco, nos divertir com as meretrizes. Temos um dia de folga e Cymuel tem que nos pagar uma última vez.

A maioria estava ansiosa e impaciente.

As histórias que ouviram sobre Colin e sua brutalidade mexeram com eles de alguma forma. Seria a primeira vez que caçariam alguém com aquele histórico, e quanto mais pensavam, mais alimentavam suas inseguranças naquela caçada.

Olá, eu sou o Stuart Graciano!

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