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O quarto estava escuro, as cortinas tremulavam com a brisa fresca da janela com a luz da lua iluminando Coen momento sim e momento não.

A expressão dele era fria e tinha aquele olhar penetrante que parecia ler a mente dela.

Ela sabia que não havia lugar seguro naquele quarto.

Brighid segurou a respiração enquanto o observava, seu coração batendo tão alto que ela podia ouvir o sangue pulsando em seus ouvidos. Ela se sentia fraca e vulnerável, sem saber o que fazer ou para onde correr. Só conseguia pensar em seus filhos, que estavam ali deitados, vulneráveis e à mercê daquele homem.

— Saia de perto dos meus filhos, agora! — A voz de Brighid exalava fúria e, ao mesmo tempo, medo.

Era desesperador não ter mana em um momento como aquele.

Coen ergueu a mão sobre a garota que berrava e ela parou de chorar, dormindo profundamente.

— O-O que você fez? Seu desgraçado! Se tiver a machucado, eu juro que-

— Não precisa ficar tão desesperada, eu vim conversar.

A passos lentos, Coen caminhava até ela. O coração de Brighid acelerou, sua respiração ficou ofegante e ela pôde sentir uma pressão no peito.

Era aterrorizante a sensação de impotência e vulnerabilidade diante a alguém como ele.

Coen passou por ela e enfiou as mãos nos bolsos, dando uma olhada naquela casa aconchegante. Caminhou mais um pouco e sentou-se na poltrona de Brighid.

Abriu um sorriso de canto e apontou com o queixo para um banco de madeira.

— Não vai se sentar? Se eu fosse fazer algo com você, já teria feito, e a propósito, não vai me oferecer nada? Eu gostaria de um pouco de chá.

— O que você fez com Morgana?

— A vampira? Ela está viva, mas está bem longe daqui.

— O-O que veio fazer aqui?

Coen deu de ombros.

— Sem chá então? Tanto faz, eu vim aqui ver os meus netos e te atualizar sobre o mundo lá fora, não quer notícias do seu querido Colin?

O semblante de fúria dela desapareceu, transformando-se em um semblante de preocupação.

— E-Ele está bem?

— Está. Ele se tornou rei, sabia? Casou-se com outra mulher e está expandindo seu território.

Brighid engoliu em seco. Ela não sabia se ele estava dizendo a verdade ou provocando-a. Mesmo que fosse mentira, ouvir aquilo a machucou, sentiu uma profunda tristeza misturada com desespero, como se o chão tivesse sido arrancado debaixo de seus pés.

Apesar disso, Brighid era leal, não considerou que Colin tivesse alguma culpa nisso, afinal, ele estava por conta própria. Brighid pensava que sem ela, a corrupção do homem que amava se tornaria iminente. 

— Não o culpe por isso — zombou Coen. — Está no sangue do garoto buscar coisas grandiosas assim, mas se serve de consolo, ele te procurou por muito tempo. Chegou a encontrar com os Caçadores de espectros e acabou com o líder deles só para proteger você — ele abriu um sorriso de canto. — Mas infelizmente o Colin que você conheceu não existe mais, o que restou foi outra coisa. Eu diria que o Colin de agora está rumando para ser o que nasceu para ser, não aquela coisa que você e seus amigos estavam o transformando.

Era aquilo que Brighid temia.

Começou a sentir-se culpada por estar tão longe, por nem ao menos se esforçar em procurá-lo, já que sua prioridade era a gestação.

Coen continuava sorrindo.

— Os gêmeos filhos de Ultan, Wiben, e o garoto ruivo, eles estão mortos, e sabe o pior? Eles foram mortos por Safira, e Colin viu tudo acontecer na frente dele, consegue imaginar o que ele deve ter sentido?

A notícia levou-a a um estado de profundo desamparo, fazendo-a sentir-se impotente diante das perdas.

O mais doloroso foi saber que a responsável foi Safira, e que Colin viu tudo.

Ela não conseguia imaginar a dor que ele sentiu.

Brighid sentiu-se ainda mais culpada por não estar lá para ajudar ou proteger seus amigos, ou por não dizer adeus quando teve a oportunidade. O mais revoltante, era que o homem que havia levado a guerra até eles e o principal culpado pela morte dos seus amigos estava bem a sua frente.

A respiração dela ficou mais rápida e ofegante, o coração acelerou e a pressão arterial aumentou. Ela sentiu uma sensação de calor no rosto e nas mãos, com uma necessidade urgente de fazer algo para lidar com a raiva crescente.

— Isso é tudo culpa sua! — esbravejou.

— Não faça nada estúpido, fada — O olhar de Coen ficou sério de repente — Se me atacar, suas crianças sofrerão as consequências.

Os dentes dela estavam quase se partindo de tão cerrados.

— Ele é o seu filho, não é? Por que fazê-lo sofrer assim?

Seus pais sempre foram amorosos, Brighid não conseguia entender como um pai pode fazer tanto mal a sua prole, alguém que fazia parte dele.

— Sabe, quando encontrei com Colin em Ultan, fiquei admirado com a força dele. O garoto não era um monarca e mesmo assim me assustou por um instante. Não vou negar, fiquei com vontade de matá-lo, mas pensei melhor. Colin é forte, o garoto é como um cão raivoso que ataca quem o ameaça. Matar alguém assim seria um desperdício. Percebi que o garoto tem um dom especial, ele atrai pessoas poderosas, e quando a pessoa poderosa é um inimigo, ele o derrota.

— Onde você quer chegar com essa conversa?

— Bem… — Coen relaxou na poltrona. — Drez’gan está chegando, e você o conhece melhor que ninguém, certo? O véu fica cada vez mais perto de cair, e quando cair, ele virá, destruindo tudo como se fosse o próprio Deus da morte. O principal oponente de Colin no Centro-Leste, é um homem que chamam de Alexander, mas o Alexander verdadeiro já não existe há algum tempo. Sabe quem está o controlando? Outra criatura que você conhece muito bem, Braz’gallan.

Brighid ficou sem palavras, sem saber como reagir com aquela notícia. Ela começou a imaginar as piores possibilidades possíveis.

— I-Isso é impossível! Ele não teria influência o suficiente para controlar algum corpo neste plano residindo no abismo.

Coen ergueu o indicador.

— É aí que você se engana. Thaz’ geth está aqui, neste plano.

Os olhos dela arregalaram-se.

— Como isso…

— No dia que Ultan caiu. As rachaduras que abriram ao redor deste plano conseguiram trazê-la até aqui. Nossa sorte, é que ela está em uma ilha isolada no meio do oceano. Ela também não está tão forte, caso contrário, seria impossível ela atravessar para esse plano, mas é questão de tempo até que ela fique com seu poder original.

— Isso é tudo culpa sua! — esbravejou Brighid. — Se não tivesse atacado Ultan, nada disso estaria acontecendo, e agora você vem aqui me apavorar? Vem dizer que meu marido se tornou um monstro e que agora o inimigo dele é um dos apóstolos de Drez’gan?

— Como eu disse, vim atualizá-la — ele ergueu-se. — Nós não voltaremos a nos ver, fada, não por um tempo — ele esticou o braço abrindo um portal.

Coen ficou ali por alguns instantes, contemplando o seu portal aberto.

Foi quando ele abaixou a mão e o portal desapareceu.

Brighid engoliu em seco e suou frio, vendo as costas daquele homem na sua frente.

— Sinto muito, mas menti para você, fada, não se tratando do meu filho, mas sim quando eu disse que não a machucaria.

Crash!

Segurando uma adaga carmesim, Coen a apunhalou no abdômen.

Ele foi tão rápido quanto os passos fantasmas de Colin.

Brighid olhou para baixo, vendo que havia sido atingida. Segurou a mão de Coen e tentou tirá-la dali, mas sem sucesso.

Havia um abismo de força entre eles.

— Os pandorianos da vampira devem ter sentido a manifestação da minha mana com esse ataque, em breve eles estarão aqui.

Cof!

Os olhos dela exalavam fúria enquanto sangue escorria pelo seu nariz e os cantos de seus lábios.

Seu abdômen estava queimando e suas pernas começaram a bambear.

— Isso não é pessoal, garota.

Ele retirou a adaga e Brighid desabou no chão enquanto tossia sangue.

Coen caminhou em direção ao quarto das crianças quando a porta da entrada abriu.

— Senhorita Brighid, eu trouxe os livros que-

Ellie encarou Coen de pé, e seus olhos focaram em Brighid no chão.

Ela não sabia se corria para ajudá-la ou corria para chamar ajuda.

— Você — Coen apontou o indicador para ela enquanto a ponta de seu dedo energizava-se. — A garota que estava com a vampira. É bom te ver, mas você não tem mais utilidade para mim. Não se preocupe, você renascerá em um mundo abençoado pela magia.

Ellie ergueu as mãos em rendição e suas pernas bambearam. Brighid juntou todo ar em seus pulmões.

— Ellie, corre!

Crash!

Coen disparou, destruindo o crânio da garota.

O corpo ficou molenga e desabou.

A cabeça decepada esguichava sangue.

Brighid arregalou os olhos e quando se deu conta do que havia acontecido, assumiu um completo estado de choque.

As crianças acordaram com o disparo e começaram a chorar.

O choro foi o necessário para fazê-la voltar a si.

— Deixe os meus filhos em paz! — ela rastejava em direção ao quarto, deixando o chão manchado com seu sangue. — Se você encostar neles, eu juro que te mato!

Brighid usava toda força que tinha em seus braços, cravando suas unhas na madeira sem ligar para a dor lacerante que sentia no abdômen.

Coen não deu ouvidos, continuou caminhando até o quarto e pegou um dos garotos no colo. O bebezinho chorava sem parar, e Coen apoiou o indicador no umbigo do garoto, fazendo-o adormecer.

— Que tal vocês virem com o vovô? A gente vai se divertir, eu prometo.

— Seu maldito! — Brighid estava na porta do quarto.

Os lábios dela se contorceram em uma careta furiosa, mostrando os dentes apertados com força.

Suas mãos cerraram-se em punhos, e as veias saltaram em seus braços.

Ela respirava fundo e pesado, como se estivesse tentando controlar a fúria que a dominava.

Seu corpo tremia, como se uma energia invisível estivesse circulando através dela.

Tudo nela emanava uma intensa raiva, tão forte que podia ser sentida no ar ao seu redor. Era como se ela estivesse pronta para explodir a qualquer momento.

— Essa expressão — Coen sorria de orelha a orelha. — Isso me traz algumas lembranças. Enfim, pode deixar que cuido deles enquanto a mamãe se recupera.

As tatuagens dele brilharam e o garoto desapareceu.

Um grito agudo e de dor escapou dos lábios de Brighid enquanto ela se esforçava para levantar, batendo em uma mesa e caindo novamente no chão.

Em um ataque de força repentina, ela se levantou, atordoada, e avançou em direção a Coen com a intenção de matá-lo, mas suas pernas fraquejaram e ela caiu novamente ante aos pés dele.

— Que cena mais patética — ele desdenhou. — O apóstolo conhecido como “Anjo do Desespero” está em uma situação como essa. Qual seria a reação de Drez’gan ao ver seu brinquedinho quebrado desse jeito?

— Meus filhos, por favor… — Olhos que antes exalavam fúria, agora clamavam por piedade. — Não leve os meus filhos, por favor…

Era uma tortura se sentir incapaz de impedir a situação ou de fazer algo para protegê-los.

Lágrimas eram inevitáveis, fluindo incessantemente e sem controle por aquelas bochechas rosadas.

Brighid sentia que parte dela estava sendo arrancada, que uma parte vital de sua existência estava sendo tomada de forma dolorosa.

Coen virou-se de costas e foi para o berço onde dormia a garota. Tocou-a e a fez desaparecer.

Sem ter como fazer algo, Brighid apoiou a testa no chão e chorou em demasia, sentindo fortes pontadas no abdômen.

— Não precisa ficar tão magoada, não vou machucá-los, não muito.

Foi a vez de tocar o garoto restante, fazendo-o desaparecer.

— No tempo perfeito.

Baam!

Sentiu-se um tremor do lado de fora.

O portal de Coen abriu-se do lado e ele viu os três pandorianos de Morgana. A serpente e o Lobo estavam enormes, mas a baleia era a mais assustadora.

Ela se mantinha de pé com seis enormes braços, olhos sinistros e uma boca cheia de dentes pontiagudos.

— Você é muito feia, sabia?

[Roar!]

Rugiu a baleia partindo para cima de Coen em uma corrida desengonçada enquanto estava com a língua para fora, movendo-a de um lado para o outro.

“Hehe, essas aberrações são grandes demais, e enfrentá-los sem um plano seria complicado. Isso doerá, mas resolverá o meu problema!”

Coen flexionou os joelhos e esquivou-se da pata da baleia. A enorme criatura não parou, tentou golpeá-lo de todas as maneiras, mas a velocidade de Coen era assustadora.

Foi quando sua mão direita tocou o braço da baleia e a fez desaparecer em um passe de mágica.

Woosh!

Fazer uma coisa daquele tamanho desaparecer daquela maneira trouxe uma brutal rajada de vento que destruiu a entrada da casa de Brighid que estava logo atrás.

— Agora faltam dois!

Mana Carmesim começou a envolver seu corpo, e sua velocidade sobrenatural permitiu que ele fosse em direção a serpente e ao lobo, tocando-os sem que eles percebessem.

WooSh! Woosh!

No chão, Brighid viu aquela cena pelo buraco enorme feito na parede. Tudo que ela havia construído por meses havia sido arrancado dela de repente.

Desolada, ela não teve reação alguma.

Coen aproximou-se dela a passos lentos e ficou em cócoras, encarando-a no fundo dos olhos.

— Não os matei, só os mandei para longe, quando chegarem aqui, a ilha das fadas terá se tornado uma pilha de escombros.

Erguendo-se, ele apontou o braço esquerdo em direção a floresta, e uma de suas tatuagens começou a brilhar.

Do meio da floresta viu-se o laranja do fogo, que lentamente começava a avançar.

O Errante havia invocado outra criatura de seu arsenal, o Caos Rastejante.

Seu corpo era longo e serpenteante, com escamas vermelho-escuro que brilhavam sob o brilho do magma que corria dentro dele e escorria por sua boca cheia de dentes afiados como lâminas, e suas garras eram tão afiadas quanto as de uma espada.

Seus olhos eram de um amarelo ardente, que pareciam incendiar-se em meio à fúria e ao calor que emanavam de seu corpo.

Quando respira, o ar ao seu redor é aquecido instantaneamente, e pequenas chamas dançam em suas narinas.

O chão tremia sob seus pés, e a lava que escorria em sua volta parecia obedecer ao seu comando.

— Quando amanhecer, meu bichinho desaparecerá, junto com essa ilha e essas fadas — ele encarou-a com um sorriso. — Alegre-se, quando isso terminar, você deverá ser a última fada viva.

 Esticando a mão, ele abriu um portal.

— A gente se vê, fada.

A criatura ao longe queimava a ilha inteira, Ellie estava morta no que já foi sua sala e suas três crianças foram levadas. Era como se todo pesadelo que viveu em Ultan tivesse multiplicado em centenas de vezes.

Lágrimas inundaram seus olhos, enquanto ela se arrastava pelo chão, implorando pela volta de seus filhos.

Seus soluços e gritos ecoavam pela floresta enquanto ela lutava para se levantar e ir atrás deles.

O desespero e a angústia tomaram conta dela, e ela se sentiu completamente impotente enquanto aos poucos ficava inconsciente.

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Olá, eu sou Stuart Graciano!

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