Capítulo 04: Revelações

Odisseia de Zett

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Revelações


Estavam paralisados olhando para o espetáculo de horror à frente. Manchas de sangue fresco tingiam o chão. Havia três celas. Dentro delas estava escuro, mas o cheiro fétido de carne podre denunciava o que residia ali. Em certas partes da superfície via-se ossadas humanas e da cavidade ocular, insetos saiam rastejando. A cor de ferrugem das barras de ferro evidenciavam o estado de degradação.

Brun bateu com uma adaga nas barras de ferro de uma cela, o som ressoou por todo ambiente. Ninguém respondeu. Resolveu tirar uma tocha da parede para poder iluminar o interior dos compartimentos. Clareou a primeira, encontrou restos mortais encostados na parede e circundados por moscas que zumbiam ininterruptamente.

— Será que essa menina ainda está viva? — colocou as mãos na cabeça — Que porra doentia! 

Aumentou o ritmo, iluminou outra cela mas não encontrou nada, apenas manchas de sangue secas. Na terceira cela viu uma garota deitada no chão. A sujeira estava incrustada em seu rosto, seus olhos estavam fechados, mas inchados. Olheiras rodeavam as pálpebras inferiores. Os trapos rasgados que vestia estavam molhados pela urina e sujos de fezes, exalando um odor intenso.

— Brun, ali, porra! Olha a menina! — Arregalou os olhos e apontou — Arrombe logo essa cela. 

— Calma, Zelker! Caralho, mantenha o foco! — estalou os dedos — O foco porra! Primeiro vamos armar algum plano. Acho melhor passarmos a noite aqui para quando o filha da puta vier a gente o flagrar para o prender. Esse maníaco merece pena de morte…

— Tá, tá faça como quiser. Mas abre essa porra para podermos pelo menos dar algo de comer para ela… A gente tem pão e água, vamos dar, vai que ela bate as botas ainda hoje?! 

Brun conseguiu destrancar a cela. Zelker não esperou e entrou praticamente correndo. Balançou suavemente a menina, quando ela se movimentou, tampou a boca dela para evitar que ela gritasse.

— Calma, calma é o pai do Zett. Não se preocupe, isso vai acabar hoje. Tome, aqui está um pão. Coma e volte a . 

A menina não demonstrou resistência e com o rosto inexpressivo apenas assentiu. Ele continuou ao lado da menina e acariciava a cabeça de Lilly. Por conta da fome, comeu rapidamente e logo voltou a dormir.

— Agora vamos sentar e esperar o filho da puta aparecer. Brun… guarde bem o que eu tô falando; esse cara vai pagar tudo que fez.

— Nem precisa se preocupar — colocou a mão nos ombros do amigo — ele vai conhecer o inferno — respondeu

 Os dois se sentaram em um local seco, tiraram as máscaras por um momento para comer. Era possível ver suor na tez dos homens.

—  E aí, como vai ser? Vamos revezar a guarda? — perguntou Zelker

—  Pode descansar, você passou por muito hoje… Eu ficarei acordado.

Zelker, então, descansou as pupilas e se recostou na parede. O sono não vinha, mexia as pernas e mudava de posição a todo instante. Demorou uma hora até pregar em um sono raso.

Passaram-se algumas horas, o homem que estava em guarda acordou Zelker. Ouviram passos se aproximando. Quando a figura chegou mais perto, a sua aparência ficou visível. Zelker olhou para Brun e confirmou com a cabeça. Brun se levantou silenciosamente e começou a andar agachado.

— Acorda, sua imunda! — gritou Sakal

O homem pegou uma chave e destrancou a cela. Deu um pequeno chute para acordar a menina que dormia.

— Adianta, adianta! Levanta logo, sua desgraçada! — trovejou.

A menina levantou assustada, ainda desnorteada por conta do súbito despertar. Sakal a puxou pelos braços e a arrastou para fora da cela.

Brun se esgueirava pelas penumbras do ambiente e carregava consigo uma corda. Quando chegou em uma distância bem curta desferiu um golpe na nuca. Não deu tempo de reagir, Sakal caiu imediatamente no chão e apagou. Um som grave reverberou pelo local.

— Você tá fudido — amarrou Sakal — vai dar um passeio pelo inferno — rugiu —  Ei, Zelker! eixa que eu levo esse psicopata e você leva Lilly, ela deve estar fraca para caminhar por todo esse corredor.

Saíram do calabouço. Um levava Sakal em seus ombros e o outro carregava Lilly como uma criança de colo.  

Durante a caminhada, Sakal acordou e começou a se debater. Brun olhou para o amigo e apontou para frente. Zelker entendeu e logo apertou o passo para se afastar. 

— Fica quieto, desgraça! — Brun derruba Sakal no chão — Agora você tomou no cú, era melhor você ter se fingindo de morto! 

 Com Sakal no chão, chutou o estômago dele. O homem gemeu de dor e vomitou sobre o chão.

— P-pare! Por favor, eu juro, eu vou ficar… — recebeu outro chute no mesmo local —  o homem gritou desesperado enquanto remexia-se no chão.

— Se gritar vai ser pior… ou você já está querendo ir para o colo do capeta? — Apertou o rosto de Sakal.

Os olhos do padre arregalaram e a boca não parava de tremer. Tentava respirar, mas sempre que inspirava contorcia-se. Olhou para o homem em sua frente e, pela primeira vez, sentiu o sussurro da morte.

O homem em pé aplicou um mata-leão. Sakal tentou tirar os braços em volta do seu pescoço, porém não tinha forças. Quando apagou, foi carregado novamente. Brun saiu do corredor e na porta da catedral viu o rapaz de cabelos longos com Lilly dormindo em seus braços.

A alvorada clareava a natureza, no nascer do Sol, e o verde ganhava força na paisagem. O vento refrescou a sensação de calor sentida dentro do calabouço e o sereno gorjear dos pássaros aliviou a tensão da noite passada. 

— Zelker! Vá na guarda da vila e chame uns 5 soldados, lembre-se de tirar essa capa antes de ir. Não queremos mais problemas. Se o Sakal não for levado por uma tropa, a população pode achar que estamos agindo sem legitimidade.  

O homem de cabelo preto prestou continência. Dobrou a capa, colocou sob as axilas e seguiu rumo à guarda da vila carregando a garota de cabelo rosa.

—  Ah… quero logo encontrar Zett, ele deve ter ficado um pouco ansioso por ter dormido no dormitório da igreja. Como será que ele vai reagir? Espero que ele sinta orgulho de mim… Esse caso vai cair na boca do povo…  — Pensou.

Chegando na guarda da vila, encontrou dois guardas em posição de guarda. 

— Sentido! Preciso de dez homens, para ontem! Vamos prender um psicopata que deixou essa criança em cativeiro — vociferou Zelker.

— Sim, senhor! — responderam em conjunto.

Ele continuou o caminho, foi para a sala de seu superior. Estendeu a capa no chão e colocou o pequeno corpo da menina no chão.

Após alguns minutos, dez soldados haviam se posicionado na frente dele, todos em posição de sentido. 

— Vamos para a igreja! — gritou

Um grupo de três homens murmuravam entre eles. Após alguns instantes de conversa, um homem tirou o seu elmo e deu um passo à frente. 

— S-senhor… conversamos entre nós e não queremos nos meter com a Igreja. Seria a mesma coisa que assinar a nossa sentença de morte! — queixou-se enquanto abaixava a cabeça. A sua voz estava trêmula e baixa.

— Conseguimos reunir provas que são incontestáveis — aumentou o tom de voz — repito, incontestáveis!  Até mesmo para um membro da Igreja! Se alguém mais estiver insatisfeito que dê um passo à frente! Não irei obrigar que vocês me acompanhem nessa operação, porém entendo o lado daqueles que possuem medo.  Mas digo para vocês, o crime desse homem é imperdoável, temos prova que ele agredia fisicamente uma criança, não provia alimento   — rebateu Zelker com a voz firme. Estava com o semblante orgulhoso e com os punhos cerrados no peito.

 Nenhum outro soldado se manifestou. Todos prestaram continência ao mesmo tempo. 

Os homens foram marchando metodicamente, vestiam uma armadura de aço reluzente e uma longa lança. O tilintar do equipamento chamava a atenção das pessoas da vila acordadas. Todas olhavam confusas para essa cena, afinal não fazia parte do modus operandi da força de defesa. Rapidamente a notícia que a guarda estava fazendo uma grande operação se espalhou de maneira desproporcional, caiu na boca do povo. 

Chegando no local a tropa viu o homem careca sentado em Sakal. 

— Quero todos vocês segurando esse daqui! Zelker, venha comigo olhar dentro daquele cômodo. — Brun ordenou. 

— Sim, senhor!

A dupla retornou ao cômodo. Conseguiram olhar melhor o ambiente por conta da luz solar. Dessa vez, visualizaram uma gaveta trancada abaixo da mesa. A chave estava pendurada e, sem demora, Zelker a pegou. Abriu a fechadura e encontrou um diário de capa negra.

— Vamos ler — disse Zelker.

“Dia 134

Dia 135

Dia 136: HAHAHAHA, puta que pariu! É o fim… Kisha me contou como essa garota nasceu e já não bastava ser fruto de um taboo, ainda é um mutante! É uma aberração da natureza, deveria ser queimada em fogo para tentar purificar a alma impura. Parece que nasceu de um amor proibido entre um homem e uma mulher possuída por um espírito da água e os dois morreram durante o nascimento. Foi dito que a menina tinha mana quando nasceu e ficou instável, por isso houve uma explosão. Tiveram o que mereciam por quebrarem esse taboo. Kisha a encontrou numa casa 

Dia 137: Ahh, Kisha, você me faz perder a cabeça. O sentimento de quase ter sido pego enquanto espiava a minha irmã no banho me enlouqueceu. A cena ainda está em minha cabeça. Seus seios redondos e médios combinavam perfeitamente com o corpo. Os mamilos rosados eram pequenos e delicados. Só de pensar em suas curvas fico maluco. Seus pelos estavam aparados rente à sua púbis, eu queria tocar aquela região. Há tempos que eu não sentia essa sensação eletrizante, hoje o ato foi o mais excitante de todos! Quero fazer um filho nela. Eu largaria tudo para poder sentir o calor de seu corpo… Só de pensar nisso me vem uma vontade abrupta de me tocar novamente. Acho que um dia vou fazer isso na frente da Kisha, a expressão que o seu rosto irá fazer quando me ver nú em sua frente não sai da minha cabeça, ela definitivamente vai se deleitar. Quando ela dormiu eu me aproximei da cama e cheirei os seus macios cabelos cacheados e ruivos. Ah, ainda sinto o cheiro do aroma. Fiquei cerca de 30 minutos olhando para ela dormir tranquilamente. Eu te amo, Kisha.

Dia 150: Agora fudeu de vez. Descobriram que a Kisha adotou uma criança amaldiçoada. Ela decidiu que ia se entregar para ser punida por ter quebrado um tabu. Eu disse para ela largar essa desgraça de criança em qualquer lugar!  Não irei deixar que ela se entregue.

Dia 152: Não tenho mais motivos para viver. A Kisha se entregou enquanto eu dormia e deixou apenas um bilhete. Disse que iria contar que tinha matado a criança e que era para eu pegar a menina e sair da cidade. Desgraça. Desgraça. Desgraça. Kisha, eu juro, você foi a única mulher que eu amei e vou amar. Minha castidade pertenceu a você. Agora que você se foi, não há motivos para eu ter alguma relação com outra mulher. Mais tarde irei me castrar. Te amo e para sempre te amarei.”

Ficaram em silêncio por um momento. Precisavam de tempo para digerir tudo que haviam lido. Singelas lágrimas escorriam do rosto de Zelker e pingaram sobre as folhas do diário, deixando pequenas marcas.  

— Mutante? A menina é mutante só por causa da cor do cabelo! Não fode, porra! Tá na cara que a maldição dela são os humanos! — Zelker gritou com a voz trêmula.

— Filha da puta! Esse cara não tem limites, olha as merdas que ele escreve! — o homem careca gritou.

— E outra, o que vamos fazer com Lilly? Ela não tem nada… não tem uma casa, não tem família, tá largada sozinha no mundo. Tão nova… e olha o tanto que sofreu, o que ela fez para merecer isso? Porra! — falou Zelker.

— Não sei, a gente tem que dar um jeito com ela. Coitada… é realmente triste a situação dela. Acho melhor a gente conversar com a Irmã Domina

— Sim… Vamos falar com ela… 

— Outra coisa, mas que porra foi essa? O cara queria comer a irmã? Esse poço não tem final — disse Brun enquanto olhava para o diário.

— Puta merda! Que maníaco! O cara tava espiando a irmã! A irmã! — balançou os braços — Ainda por cima se tocou… Ao menos sabemos que ele não fez nada com Lilly… ele mesmo se castrou, fez um grande favor para a sociedade. Pega essa porra aí e vamos pregar essas páginas para todos verem, esse cara vai ser exposto!

Os dois foram para frente da catedral e encontraram os outros soldados segurando Sakal. Novos hematomas se destacavam e sangue escorria pela boca do homem amarrado, havia desmaiado novamente.

— Vamos voltar! — gritou Brun

Marchando de volta, a tropa viu uma multidão reunida defronte à sede da Guarda da Vila. Cerca de 20 pessoas estavam protestando sobre a operação feita mais cedo.

 — Eles tão ali! — apontou para a tropa — Ei, vocês estão malucos?! Eu achava que era mentira que vocês tinham prendido um padre,mas a situação é pior! Olha o estado do homem! É um padre! Um padre! O que um padre faria? Vocês exageraram! — gritou um homem loiro e vestido com roupas desgastadas de um agricultor. Várias outras pessoas ovacionaram a fala do camponês.

 Zelker sentiu o sangue correr para a cabeça e sua face ardia em cólera, ficando avermelhada. Estalou a língua e cerrou os dentes. Tentava se controlar para não perder a razão, mas as pessoas reunidas não paravam de falar desordenadamente.

 — Calem a porra da boca! Fiquem quietos!  — explodiu  — É uma ordem oficial e não um pedido, então quem descumprir terá consequências!  — a multidão vaiou  — Parem, caralho! Ou  — Brun tapou a boca de Zelker e falou no ouvido:

 — Mantenha a postura. Você não é criança, caralho!

 — Seguinte! Vou falar só uma vez! Se acalmem e esperem o relatório oficial! Vou dar minha palavra a vocês; duvido alguém ter a pachorra de defender esse monstro após os crimes serem expostos! — gritou Brun para a população. Seu tom de voz era tão alto que se assemelhava ao som de um trovão. Imediatamente, as pessoas pararam de falar. O mesmo agricultor gritou: 

— Nós queremos uma explicação! Iremos nos acalmar, mas acho bom não demorarem muito! — Levantou o punho. — Ainda estamos correndo risco da Igreja retaliar a nossa Vila! Não temos o luxo de sermos prejudicados pela Igreja, nossa vida já é bem árdua! Adiantem aí! 

Após isso, a multidão se acalmou. Todos os homens entraram na estrutura com o semblante ríspido, estavam indignados por terem sido crucificados e pela falta de confiança que possuíam perante à população.


Nota do autor:

Queria agradecer quem acompanhou até aqui! Esses foram os primeiros cinco capítulos de minha obra narrativa, consegui fazer o que queria de introduzir um pouco do mundo de Odisseia de Zett. Sou muito grato à Vulcan. Arkus, Vento Leste, Tsuki, Ender e Tomtom têm um lugar no céu por sempre estarem tirando minhas 102393189 dúvidas! Vou tentar manter o ritmo de 1 capítulo por semana, valeu quem leu essa nota e os 5 capítulos <3.
Arquiteto Kruelinhas, não esqueci de você hehe.

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