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Seguindo aquilo que Arimã lhe dissera, Renato foi até o fóton de luz, que deveria ser uma partícula microscópica, mas estava do tamanho de uma bola de futebol. Tremeluzia e ondulava no espaço vazio, como uma faísca gigantesca. Renato se perguntou se o fóton tinha ficado gigante ou era ele quem tinha encolhido.

Meteu as duas mãos dentro do fóton. O interior era quentinho, fazendo contraste com todo o ambiente sem temperatura em volta; e brilhava tanto que Renato mal pôde olhar diretamente.

Forçou as duas mãos em em direções opostas, rasgando o fóton como um tecido velho, e então um flash de luz o cegou, e a luz cruzou o espaço, como numa onda de choque brilhante, e em seguida ele ouviu um estrondo ensurdecedor, e Renato foi arremessado para longe.

Renato nunca usou nenhuma droga alucinógena, mas achou que não devia ser muito diferente do que experienciou nesse momento. Enquanto seu corpo cruzava o vazio, sendo arremessado pela força da explosão do fóton, ele começou a ver pontos flutuantes, e linhas, e curvas, como os rabiscos feitos à lápis por uma criança numa folha de papel. Eram os rascunhos da criação.

E então os rabiscos começaram a ficar cada vez mais organizados, e desenhavam formas geométricas. Eram círculos, quadrados, triângulos. E Renato teve a impressão de estar subindo, em espiral, numa sequência de fibonacci, como se fosse sugado para o centro infinito dela.

Em algum momento ouviu música. Ela começou suave, com um ritmo compassado, que era acompanhado por mais alguns rabiscos que cruzavam a imensidão do nada.

Olhou para o alto e viu estruturas esféricas girando, percorrendo um imenso espaço vazio. Era difícil definir onde estavam, às vezes pareciam num lugar, às vezes em outro, e até pareciam desaparecer e reaparecer num local distante. Primeiro ele achou que pudessem ser planetas, mas aí se lembrou de uma imagem que viu num livro de física uma vez.

“Elétrons” pensou.

As esferas eram muito maiores do que ele, mas enquanto Renato continuava subindo o espiral de fibonacci, ele ficou maior que os elétrons, e então, Renato já não os pôde ver mais.

A partir daí, ele viu várias estruturas diferentes, com todos os formatos possíveis. Apareciam gigantescas e sumiam microscópicas, conforme Renato ia ficando cada vez maior, de volta ao universo criado por Deus.

*

No Inferno, na arena  usada para a Tercina, a batalha continuava feroz. No céu, anjos e demônios voavam, cruzando espadas, lançando magias, trocando socos e atirando lanças. No chão, a cena não era menos periclitante. O caos estava instaurado. Havia cadáveres de anjos e demônios, e os combatentes em terra tinham que se esquivar das bolas de fogo e várias outras magias que caiam do céu.

Clara estava procurando por Renato, mas não o encontrava em lugar nenhum. Estava ficando preocupada pensando que ele pudesse estar morto, ou capturado.

Foi quando a terra tremeu, e um terremoto assolou o Inferno pela primeira vez na história. E do chão explodiu um imenso pilar de fogo, como um gêiser. Ninguém viu, mas Renato foi lançado ao alto junto das chamas, com o magma do Gehena ainda impregnado em seus cabelos. Até que ele caiu, batendo nas areias e erguendo poeira.

Bateu nos cabelos para apagar o resquício de fogo e se pôs de pé. A dor que sentia era como se todos os seus ossos tivessem sido quebrados várias vezes, e sua pele ainda sentia o calor das chamas, e ardia como se ainda queimasse.

— Clara.

A voz saiu fraca, quase inaudível, mas ela ouviu, mesmo estando longe. Talvez não tenha ouvido de fato o som da voz, mas a alma dele chamando por ela. E num instante, a súcubo estava ao lado dele, materializando-se em meio à névoa vermelha-escura.

— Onde esteve? — Ela o encarou com aqueles olhos vermelhos brilhantes. Eram bonitos, pensou ele. Lembravam o fogo.

— Num lugar horrível.

— Renato… — Ela notou as marcas no espírito dele. Apenas o fogo eterno do Gehena deixaria marcas como aquela.

Ela o abraçou e, no meio da batalha, houve paz. Mesmo com o barulho dos gritos, das espadas, das explosões retumbando forte, a única coisa que os dois ouviram foram as batidas do coração um do outro.

— Vamos pra casa — disse ela.

— Vamos.

Clara tirou o dente que havia guardado no sutiã, entre os seios, e entregou a ele.

— Então esse é o objeto que Abigor ligou ao feitiço?

— É.

— E como voltamos?

— Você só precisa desejar.

— Certo.

Ela esperou. Ela iria assim que ele fosse.

— Clara, vai na frente.

— O quê?

— Como eu já tenho o objeto, significa que você também tá livre pra voltar, não é?

— Sim, mas…

— Vai na frente, por favor. Eu vou logo atrás de você.

— Não! Vamos juntos!

— Eu tenho só mais uma coisa pra fazer. Por favor. Confia em mim. Eu tô logo atrás.

— Renato… não…

— Por favor.

— Droga! Droga! Não demora! Se você demorar, eu vou fazer muitas maldades com aquelas duas pirralhas!

Renato tentou sorrir, mas seus lábios não se mexeram.

— Certo. Eu não vou demorar.

Assim que Clara desapareceu em sua névoa, Renato girou nos calcanhares e correu em direção à arquibancada. Dentro do túnel de pedra que servia de saída, viu o corpo sem vida de Kazov, com um buraco no peito, e lamentou por ele.

— Anjo maldito.

Chegou à arquibancada, desviando das bolas de fogo que caíam do céu como chuva, e encontrou a demi-humana encolhida num cantinho, escondida atrás dos grandes assentos que antes eram ocupados por Angélica, Baalat e Belfegor. Ela estava completamente apavorada.

.— Você, garota-gato. Te achei.

— Humano?! — Ela se encolheu ainda mais. — Você… eu vasculhei mentalmente todo o lugar, mas não te encontrei. Você estava morto! Só podia estar morto!

— E estava mesmo. Mas voltei.

— Hã? — Ela o olhou, chocada,  e se encolheu mais. — Os anjos vão nos ver! Eles vão…

— Eles estão ocupados demais com os demônios pra se importar conosco. Eu vou voltar pra terra. Volte comigo.

— O quê? Como assim… voltar com… você? Isso… isso é impossível! Não dá! Você enlouqueceu!

— Eu acabei de escapar do Gehena. Talvez meus miolos tenham fritado mesmo. Mas volte comigo! Aqui… chamaria isso de lar? Você é uma escrava aqui! Lá você poderia ser livre!

— Escapou do Gehena? Mas isso é impossível! Humano, por acaso você faz milagres?

— Talvez eu faça. Venha comigo.

— Mas… eu não posso… o Belfegor… tem o feitiço… tem a punição…

— Ele não te alcançaria lá! E nós podemos te proteger. Eu já enfrentei alguns demônios, sabe? Mais um pra lista não é nada demais.

— Acha mesmo que é possível? Eu não ser mais uma escrava? Acha? — Os olhinhos dela brilhavam e suas orelhinhas estavam caídas, tristes.

— Tenho certeza.

A demi-humana se levantou. Limpou as lágrimas dos olhos e sorriu.

— Então… podemos mesmo?

— Sim.

Ela sorriu com os olhos brilhando muito.

— Estou feliz.

Ela o abraçou. Nessa hora, Renato desejou voltar à Terra, enquanto segurava forte a demi-humana em seu abraço. E, enquanto a paisagem em volta ficava borrada, e a batalha desaparecia lentamente, ele sentiu o cheiro dela. Era adocicado. Lembrava morango.

— Estamos indo — disse ele.

— Sim. — Ela apenas apertou ainda mais o abraço. Tinha medo de cair, de ficar para trás. Aquela esperança que ela sentiu quando viu Renato pela primeira vez finalmente tomou forma.

E então seus pés sentiram algo duro e quente sob a sola e então viram as casas e prédios, e carros na estrada, e ouviram buzinas. Estavam de pé, na calçada.

Clara arregalou os olhos de surpresa quando viu a demi-humana, e então franziu o cenho e balançou a cabeça.

— Renato, não devia…

— Mas eu precisava…

Nessa hora, a demi-humana gritou bem alto, o suficiente para fazer as cordas vocais doerem, e caiu no chão se contorcendo de dor. Ela quase não conseguia verbalizar nenhuma palavra, apenas se movia em espasmos, batendo os dentes, babando e gritando muito.

— Faça… faça parar! — gritava ela, em agonia.

— O que está acontecendo? — disse Renato, aterrorizado.

— Não devia trazê-la, Renato. A maldição da escravidão pune com dor se o escravo se afastar demais de seu mestre. Quanto mais longe, mais dor.
Imagine a distância que existe entre o Inferno e a Terra! A dor que ela tá sentindo é… não há palavras para descrever.

— Mas eu… eu só queria ajudar… eu só queria…

— Parabéns, Renato. Você fez merda.

*

“Palavras do autor:

Quero agradecer a todos que acompanham Pacto com a Súcubo; especialmente aqueles que deixam comentários. Vocês me dão força. Eu sei que nem sempre eu respondo os comentários, mas isso é porque nem sempre eu consigo pensar em algo legal pra dizer, porém eu leio todos. E, mais uma vez: vocês me dão força. Por aqui chegamos ao fim de mais uma fase, que eu carinhosamente chamo de Livro II. A partir de semana que vem, começamos o Livro III. Espero que tenham curtido o rolê pelo Inferno, pessoal. Até semana que vem!

Olá, eu sou o Max Sthainy!

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