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Sentia ardência nas juntas conforme subia e descia o corpo naquela posição. 

Era um treinamento intenso para o corpo de uma criança, mas Kurone seguia até os seus músculos falharem, sabia que precisava de mais massa muscular, por isso dedicava mais esforço naquela parte do que na técnica.

Ao lado, Loright, arfando, quase em seu limite, também ia ao limite — já estava na casa das duzentas flexões.

Mesmo não tão contente com isso, Sylford concordou em treinar o jovem de cabelos negros, a pedido do “Gênio da Geração”. Apesar da diferença de idade aparente, Kurone conseguia acompanhar Loright sem muitos problemas.

— O aquecimento acabou — Sylford falou com o seu tom de quem sentia-se superior aos seus pupilos. — Quero os dois dando socos, duzentos para cada lado.

Era o quinto dia de estadia nas terras de Sophiette, àquela altura, ambos os jovens já dominavam parcialmente o golpe, mas segundo o líder do clã, ainda estavam longe da perfeição.

Parecia apenas um soco comum, mas Sylford explicou como a aplicação da velocidade certa, do ângulo perfeito e da força podiam melhorá-lo para que causasse muito dano. Apesar de ter uma personalidade ruim, ele levava o treinamento a sério.

“Ele não parece ser alguém tão ruim, mas parece que é inevitável se tornar um bundão quando se nasce em um berço de ouro.”

Kurone tentava absorver o máximo possível das técnicas ensinadas, apesar de não ser o seu foco alcançar a execução perfeita do movimento.

Um treino tão pesado no combate de mãos limpas não fazia sentido, aquilo era algo de última instância, pois a maioria dos inimigos usaria uma arma ou magia para encerrar a batalha o mais rápido possível.

Estava um pouco imerso em seus pensamentos, por isso demorou para perceber aquela respiração leve nas costas do seu pescoço.

— Ei! Que porra você tá fazendo? Para de respirar no meu cangote, é estranho!

Sylford possuía um rosto bonito, mas ainda era um homem, e esse último fato foi a razão de ter ficado tão incomodado.

— Se não vai levar o treinamento a sério, é melhor que nem faça — repreendeu o jovem Sophiette. — Está claro que você pode melhorar o ângulo da sua mão se forçar um pouco mais o seu ombro, como o seu amigo ali está fazendo. E corrija a sua postura, está muito relaxada.

“Não sei pra quê tudo isso, não vou ser maluco de usar artes marciais contra um membro do Conselho do Inferno.”

Aquela lutar contra Graint Atrex foi uma exceção, era óbvio a inferioridade do guarda, mas sabia que em um combate real precisaria se esforçar ao máximo, e usar todas as cartas carregadas na manga.

Pensando daquela maneira, Kurone optou por praticar em segredo com as suas armas de fogo, pois eram o seu diferencial, raramente os inimigos esperavam por isso.

— Certamente… menino, você pode pensar que artes marciais são inúteis hoje em dia, mas saiba que está bem enganado. Você mesmo devia saber disso, afinal usou o estilo de luta dos Sophiette contra aquele pobre guarda.

{A Celestial também vê utilidade nesse estilo de combate, é algo que atiça os pontos em que a mana corre de maneira mais fluída pelo corpo.}

[Em outras palavras, meu caro Vassalo, a perfeição dos movimentos é a chave para um movimento explosivo e forte.]

“Ok, ok, vocês venceram, vou focar mais nas artes marciais também.”

Os donos daquelas vozes que tanto lhe perturbavam estavam começando a se dar bem, e facilmente convenciam Kurone a tomar algumas decisões importantes, pois estavam sempre em maioria nas votações.


Após dez horas de treino intenso, finalmente era hora do descanso.

Kurone voltava do banho, os empregados acostumaram-se com a sua presença no interior da mansão colossal. O menino já transitava por ali como se fosse um residente, apesar de ainda viver nas barracas com os órfãos.

Normalmente, devia deixar o local assim que tomasse o banho, porém, verificando se não havia qualquer empregado pelas proximidades, o menino entrou por um corredor um pouco escuro.

No outro lado, quem fosse pelo corredor sairia na vasta cozinha, contudo, foi diferente para Kurone. O garoto, após uma segunda verificação, afastou um arbusto da parede e entrou por algo que ainda parecia parede, mas não passava de magia de ilusão.

Desceu algumas escadas. Estava um pouco escuro, mas orientou-se pelo tato, tocando o corrimão suavemente.

Não demorou muito para chegar em um pequeno cômodo repleto de livros e uma cama de lençóis brancos. 

Mas o que mais destacava-se naquele cenário era uma moça refinada, sentada na cama e com os olhos fixos em um daqueles livros. Sua imersão na leitura desapareceu com a chegada do menino.

Oh, então você veio também hoje — falou a moça, ela possuía uma voz suave e doce, algo que combinava muito com a sua beleza.

O nome daquela beldade era Salas, irmã de Sylford, alguém bem reservada, tão reservada a ponto de usar aquele cômodo secreto como o seu esconderijo para leitura.

A maneira como a conheceu foi incomum. 

Kurone voltava de banho quando viu aquela moça presa na passagem do corredor — aparentemente foi uma falha na magia de ilusão.

Foi algo um pouco estranho empurrar a bunda da jovem até ele atravessar a passagem, mas isso rendeu boas risadas quando a magia de ilusão estabilizou-se e o garoto foi convidado para conhecer aquele cômodo secreto.

Não entendia muito bem o motivo de Salas não querer se mostrar para o público, nem o de Sylford ou Cynthia comentarem sobre a existência dela, mas decidiu deixar aquilo de lado, pois a jovem era uma boa companhia e tinha sempre pautas interessantes.

— Como está o seu treinamento?

— Da mesma maneira, sinto que tô evoluindo, mas o teu irmão tá focando muito nas técnicas de artes marciais, esse tempo podia ser dedicado pro treino de espadas…

— Ora, não subestima o poder do estilo Sophiette. — Salas ficou de pé, fechando o seu livro. — Há muitos guerreiros lendários que nasceram sem uma gota de mana, e entraram para a história usando artes marciais para vencer suas campanhas.

A moça tocou gentilmente as mãos do menino e começou a conduzi-lo suavemente pelo quarto estreito.

— Imagine que você é um inimigo com um punhal, pronto para perfurar meu peito. — Salas levantou a sua mão e trouxe a de Kurone para perto. — Há muitas maneiras de evitar o ataque, mas a melhor é sempre a que é mais eficiente, rápida e econômica.

Conforme a gravidade agia sobre a mão do menino, Salas acompanhava o membro com o seu braço, girando e dispersando os movimentos. Quem visse de longe pensaria que ambos estavam dançando valsa, apesar da postura estranha devido à diferença de altura entre os dois.

— Conduzir a força do oponente contra ele, executar movimentos perfeitos, respirar corretamente. Tudo isso é necessário para vencer uma luta apenas com artes marciais. E não serve apenas para ataque, mas para defesa também, há movimentos que são capazes até mesmo de dissipar ataques mágicos…

“Parece que essa tara por artes marciais tá no sangue dessa família…”

— Desculpe, Iolite, eu me empolguei um pouco, — Salas parou ao perceber a expressão do menino — mas creio que você entendeu o que eu quis dizer. Não ouse desvalorizar o estilo Sophiette.

Kurone assentiu com a cabeça, apesar de ser um pouco estranha, gostava de passar aquele tempo com a jovem. 

Quando preparou-se para dizer que voltaria para o exterior, Salas sugeriu algo repentino:

— Ei, amanhã o meu irmão vai ter que sair para uma missão, não é? 

— Sim, eu comentei isso com você?

Ah, não, eu escutei ele comentando com um dos empregados mais cedo. Enfim, já que ele não vai estar aqui para o treino, o que acha de me acompanhar até a cidade vizinha, Fallen? Eu preciso comprar algumas coisas.

Foi uma sugestão estranha, e realmente não queria ter que perder um dia de treino, mas algo lhe incomodou: Salas era reclusa.

Ver o jovem mencionando uma saída da mansão era inesperado, pois, nos diálogos que teve com ela, a moça falou sobre a sua ansiedade social. Kurone entendia bem aquilo, apesar de que a dela estava em um estágio bem avançado.

Não podia negar aquilo, pois não sabia quando Salas teria coragem novamente para se arriscar na interação com o mundo exterior, sem falar que ela não poderia ir sozinha.

— E aí, você vai comigo? Sei que te falei que fico apreensiva, mas eu decidi que quero mudar aos pouco, e você é o único que confio para me acompanhar.

“Até porque eu devo ser a única pessoa que você trocou mais de duas palavras em todos esses anos…”

Suspirou.

— Tá bom, eu vou com você, mas tem que ser uma visita rápida, eu não posso relaxar tanto no meu treino.

— Muito obrigado, Iolite!  Não preciso nem dizer que isso vai ficar em segredo, certo? Eu vou arrumar uma carruagem e vou deixar ela no jardim bem cedo, em um horário que todos ainda estão dormindo.

— Certo, certo, vou ser discreto.

Kurone simplesmente assentiu e virou-se para a porta, pronto para ir embora.

— Será um encontro bem divertido…

Quando pensou em virar-se para encará-la, foi tarde demais, a porta do pequeno cômodo foi fechada rapidamente, e escutou o som de ferrolhos. Certamente, Salas gastou toda a sua energia para dizer aquilo, o que o deixou um pouco preocupado.

“Ela deve ficar bem… eu acho.”

{A Celestial fica impressionada com o fato de que você consegue atrair o olhar de todos desse clã, dessa maneira haverá muitos genes seus nas futuras gerações dos Sophiette.}

“Isso foi desnecessário… e eu tô mais preocupado com Fallen, as coisas não acabaram bem da última vez que fui lá com a Sophia, tô sentindo um negócio ruim no estômago agora.”

{A Celestial acredita que seja a quantidade absurda de comida que você ingeriu mais cedo, similar a um mendigo esfomeado.} 

“Isso também foi desnecessário…”

Olá, eu sou o NekoYasha!

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