Selecione o tipo de erro abaixo

O seu conhecimento a respeito de Astarte foi nublado devido ao efeito da manipulação de memórias. Mesmo o poder divino não a impediu de ser assolada por aquele fenômeno que se alastrou pelo mundo após a morte da Deusa da Lua — por isso havia coisas fora do entendimento de Cecily.

Inicialmente, essa garotinha à sua frente chamava-se Luminus, foi assim desde o seu nascimento. Se a deusa de cabelos loiros usasse sua Análise nela, na época do seu nascimento, veria o nome “Luminus” surgindo em seu campo de visão.

Apesar de que a garotinha devia ter a proteção de Astarte desde o seu nascimento.

O que entregava o fato da menina ser a Reencarnação de Astarte eram os padrões tatuados nas costas do seu pescoço, ocultos pelo cabelo com misto de preto e branco. 

O Sigilo de Astarte era a marca da reencarnação daquela deusa.

Conforme foi crescendo, os aspectos físicos de Luminus foram mudando, desde seu cabelo à sua estatura. Tudo isso para aproximar sua aparência à da Deusa da Lua.

Nesse momento, ambos os olhos da menina começavam a ficar iguais — as íris vermelhos-carmesim, com a pupila em um formato incomum de algo semelhante a um losango. 

Receber o título de “Luminus streix Astarte” sinalizava a chegada à fase intermediária, onde a coleta dos Fragmentos de Astarte não poderia mais ser postergada. 

Cecily pensou em tudo isso enquanto se deslocava.

O destino das duas garotas eram os vilarejos nas proximidades de Dart. Permanecer no monte Kuryo só traria problemas — havia a alta possibilidade da localização delas ser de conhecimento dos membros da Seita de Érebos ou até mesmo de Azazel van Elsie.

A beldade loira sabia que nunca deixou de ser perseguida por aquela demônia sádica. Azazel devia estar buscando uma oportunidade para atacar. Mesmo que os poderes dela fossem foram do comum, Cecily ainda era uma deusa, a filha de Astarte!

No canto do olho, podia ver Luminus, com a cabeça baixa e os ombros rígidos.

Desde o acontecimento de alguns dias atrás, quando descobriram sobre o título “Luminus streix Astarte”, a menina limitou-se a proferir apenas palavras curtas e rápidas, a interação entre elas teve uma baixa visível.

Veja bem, não é como se Cecily precisasse interagir com a garotinha para completar a sua missão, ela achava até melhor o silêncio… ou será que não?

Os sentimentos da deusa estiveram confusos, isso começou após a luta no orfanato, a relação entre o jovem Loright e Luminus a incomodou um pouco. Até alguns anos, Cecily não era muito presenciar as emoções dos seres humanos.

Ela treinou por muito tempo antes de iniciar sua busca pela Reencarnação de Astarte, ou teria sido morta por aberrações como Azazel van Elsie. Nesse mundo, sempre haveria alguém mais forte, não importava o tempo dedicado ao treino.

— O que está pensando, pirralha? — Ela não resistiu, precisava quebrar aquele silêncio constrangedor.

Luminus não levantou a cabeça para responder, sua voz saiu um pouco trêmula e arranhada. Se fosse outra pessoa, Cecily diria que ela estava resfriada:

— O irmão Loright vai vir me buscar…

As palavras fizeram a beldade loira levantar a linda sobrancelha que compartilhava do tom dourado dos fios adornando sua cabeça. Era a primeira vez que ouvia a menina dizer algo assim.

No orfanato, a garotinha entregou-se para Cecily porque sabia que o seu “irmão” jamais seria páreo para ela ou Azazel van Elsie, a única opção que tinham era deixar Luminus ir, para Loright ficar mais forte e ir tentar tomá-la no futuro.

A garotinha sempre teve um ar de maturidade, ela compreendia bem a situação e sabia separar sonhos da sua realidade… então por que ela proferiu palavras sem sentido?

Se fosse para analisar de maneira lógica, Loright nunca ficaria a par da deusa ou da demônia sádica, havia determinação em seus olhos e vontade queimando em seu coração, porém apenas isso não era suficiente par alcançar Azazel ou Cecily.

Loright era comum, isso era fato.

Luminus era madura o suficiente para ter ciência disso, mas ainda assim se agarrava desesperadamente à fantasia de que a pessoa que considerava como um irmão viria salvá-la, assim ela não precisaria mais tirar vidas.

Ver uma pessoa sábia tornando-se irracional perante uma situação difícil deixou a deusa loira muito intrigada. Os sentimentos dos mortais eram complicados… embora Luminus, ou melhor, Luminus streix Astarte, não pudesse mais ser considerada uma mortal.

“Creio que em breve a consciência dela vai ser tomada por Astarte, conforme a quantidade de Fragmentos absorvidos for aumentando… me pergunto quanto tempo vai levar até ela deixar de ser essa garotinha…”

Era até melhor assim. 

Cecily não sabia o quão doloroso era ser afastada da família, levada por uma completa estranha, e, de um dia para o outro, precisar matar outros seres vivos — sem citar que a menina ainda era uma criança.  

Ela realmente não conseguia compreender os sentimentos da garotinha, mas algo incomodava o seu peito, um aperto que nunca sentiu antes. Começava a pensar que poderia estar doente, mesmo sendo uma divindade.

Não queria ser a primeira deusa a experimentar uma doença ainda sem cura…

◈◆◇◆◇◆◈

Em três dias, chegaram nas redondezas de Dart, após darem a volta em uma cadeia de vilarejos. Se seguissem pela horizontal, chegariam na área da floresta de Hyze.

Cecily e Luminus pararam para descansar em um bosque próximo a um vilarejo como os outros visto ao longo do caminho, elas não se aproximaram e nem fizeram contato com qualquer humano desde que deixaram o monte Kuryo.

A garotinha de cabelos negros mudou nos últimos dias, ela falava cada vez mais sobre como o seu irmão viria salvá-la quando ficasse mais forte. Havia algo muito errado ali, o olhar dela estava brilhante, mas não de uma forma boa.

O poder de Astarte não se manifestou e não houve sinais da movimentação dos seguidores da Seita de Érebos, a probabilidade da notícia sobre a morte daquelas pessoas e do despertar dos poderes de Luminus se espalhar era alta, pois o líder daquele grupo fugiu.

Considerando que aquele homem, o invocador da serpente responsável por nublar os sentidos de Cecily, fugiu e chegou em segurança ao esconderijo dos seus companheiros, ele devia estar se preparando para um segunda investida.

Isso preocupava a deusa loira. 

Ainda não cria na existência de um artefato capaz de romper a sua barreira. Ultimamente, ela acordava quando escutava qualquer barulho pelas redondezas e reduziu a área de alcance de sua barreira, asso, seria mais fácil notar movimentações suspeitas.

Seria problemático se Azazel van Elsie também portasse algo assim, existiam Tesouros de Karllos Sophiette capazes de roubar a vida de deuses, ela não podia baixar a sua guarda e precisava de um plano para um cenário em que teria que encarar um inimigo com uma arma dessas.

Ao pensar no Sophiette Fundador, veio à sua mente a figura do líder do clã Sophiette da geração, também não queria ter problemas com ele, esse foi um dos motivos por evitar os reinos do Continente Ocidental.

Ela teria problemas se ficasse muito próxima de Saint Tower ou Andeavor. 

Sphynx era o lar da Besta Negra e Nova Canaan só possuía bárbaros sedentos por sangue. Eragon era perigoso devido à religião, então só lhe restava perambular pelo oriente.

Cecily decidiu que se houvesse alguma calamidade no ocidente, agiria. Quando o foco das grandes potências fosse algum ser poderoso ou um desastre natural, ela poderia viajar por lá sem chamar atenção.

— Amanhã… amanhã vamos visitar um dos vilarejos. — A deusa hesitou um pouco ao ver a figura de Luminus, encolhida, com as costas apoiadas em uma pedra. Seu coração apertou ao ver a expressão dela.

Aquelas sensações tornaram-se mais fortes nos últimos dias.

Um dos motivos para se aproximar de mais humanos era saber qual seria a sua reação, talvez ela estivesse tendo aqueles sentimentos apenas por não conviver muito tempo com um mortal antes.

— Como a senhorita desejar. — Luminus virou-se e fingiu pegar no sono.

Mas ela não dormia. 

Cecily sabia que, quando a garotinha tentava pregar os olhos e descansar, as memórias sobre o incidente de alguns dias atrás a assediavam. Havia vezes em que a menina acordava aos prantos.

A garotinha podia tentar fugir, mas sabia que seria inútil. 

Talvez tentar lutar contra Cecily para ganhar sua liberdade? Não, ela não queria mais saber de lutar, a última coisa que precisava nesse momento era de outra situação em que precisaria tirar vidas.

Por algum motivo, a deusa conseguia sentir que era isso que a Reencarnação de Astarte estava pensando, lia ela como um livro aberto à sua frente.

Fuuuu…

Um longo suspiro escapou da boca de Cecily — o ar daquela região começava a ficar frio, um vapor branco subiu quando ela fez aquele ato.

Mesmo não tendo necessidade, decidiu dormir, assim parava de pensar sobre aquela dor emergindo no peito sempre que observava a figura daquela garotinha.

◈◆◇◆◇◆◈

— Ei, pirralha, até quando você vai dormir? — Cutucou a testa pálida da menina.

O tom alaranjado dava lugar ao azul vívido. Fazia pelo menos duas horas após o amanhecer. 

Normalmente, já estariam na estrada àquela altura, mas como iam a um vilarejo próximo, deixou Luminus dormir por mais tempo. Mas, por algum motivo…

— Ela não acorda. — A deusa olhou intrigada para o corpo magro da menina abaixo roupas simples, em seguida, sua atenção voltou-se para o rosto delicado. — O que você…

Lágrimas desciam dos olhos cerrados da menina, era uma torrente infindável de água salgada.

Com o que a menina poderia estar sua sonhando? Seus pais? Loright? Ou talvez estivesse vendo, mais uma vez, o assassinato dos seguidores da Seita de Érebos?

Embora fosse uma criança, havia muitos motivos para ela se sentir daquela maneira, e um era mais pesado que o outro.

Cecily soprou ar de forma audível, tentando livrar-se de todos aqueles pensamentos. Os sentimentos de Luminus não eram de sua conta, precisava ter isso em mente. 

Por bem ou por mal, logo a existência daquela menina seria sobreposta pela de Astarte.

Organizando seus pensamentos, ela tocou o ombro frágil da garotinha, acordando-a.

As mãos pálidas foram levadas ao rosto, limpando as lágrimas que dificultavam a visão. A menina não disse mais nada, apenas se sentou e cuidou de se hidratar com a água da cabaça da deusa loira.

Cecily possuía uma expressão difícil no rosto, e isso chamou a atenção da garotinha, que a encarou por alguns segundos, tentando desvendar qual era o problema.

Um segundou suspiro — a deusa esteve fazendo muito isso ultimamente.

— Ei, pirralha, eu estive pensando em uma coisa… Hã?

A sentença da beldade foi interrompida pelo farfalhar de um arbusto próximo. Ela moveu o seu corpo rapidamente, já levando a mão à cintura, pronta para sacar sua lâmina.

Ao lado, Luminus pareceu entrar em pânico, todo o seu corpo tremeu, os olhos dela gritavam “De novo não! Não quero mais ter que matar ninguém!”, e isso fez aquele aperto no peito da deusa aumentar ainda mais.

Ambas relaxaram quando uma figura surgiu dos arbustos.

Era um idoso, segurando um tronco em uma mão e um machado em outra, sua expressão era a de alguém confuso. 

Bem, Cecily e Luminus formavam uma dupla estranha, ainda mais pelo fato da deusa trajar uma armadura chamativa.

Aquele idoso estava próximo à barreira, mas ainda não estava dentro, ele poderia ser arremessado se desse mais um ou dois passos. 

Não era da conta da deusa avisar sobre isso.

No fundo, ela estava até feliz. Todo o combate desnecessário devia ser evitado, não encontrar inimigos era bom… repetiu isso vários vezes, internamente, negando a ideia de que estava aliviada por Luminus não precisar presenciar mais uma morte.

Estava prestes a virar para a garotinha, contudo uma presença incomum chamou sua atenção — não apenas a dela, a menina ao seu lado arregalou os olhos ao ver uma segunda pessoa surgindo.

Era uma criança, uma garotinha com um sorriso inocente enquanto abraçava o idoso. Ela notou após alguns segundos a presença das duas estranhas e pôs o dedo no queixo de forma inocente, dizendo “Ei, avô…” e mais algumas coisas, as quais Cecily não prestou atenção, em seguida.

Qualquer um diria que aquela era apenas um criança comum, mas as duas ali conseguiam ver algo que as pessoas normais não conseguiam…

— Um Fragmento de Astarte — balbuciou Cecily.

Picture of Olá, eu sou NekoYasha!

Olá, eu sou NekoYasha!

Comentem e avaliem o capítulo! Se quiser me apoiar de alguma forma, entre em nosso Discord para conversarmos!

Clique aqui para entrar em nosso Discord ➥