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4º dia do mês, Grande Inverno. Vilarejo – 07:00 AM.

Os trabalhadores do campo são envoltos por um rumor poderoso: os serviçais de um nobre de grande importância estão chegando, rompendo seu isolamento. O sussurro circula, trazendo um sorriso tímido aos rostos dos que escutam atentamente.

No entanto, entre os camponeses, alguns permanecem céticos e hesitantes, sem acreditar plenamente nas informações recebidas. O vilarejo em que residem está situado nas cercanias da fronteira dos elfos, considerado um lugar imprudente pelos humanos e raramente visitado por nobres.

Enquanto o rumor desperta sorrisos amistosos em alguns, um trabalhador ergue a voz e expressa suas suposições. Suas palavras são recebidas com curiosidade por alguns, que acreditam em sua veracidade.

— Vocês realmente acreditam nesse boato? Olhem onde estamos! Um local sem nome e isolado de tudo. Leva um dia inteiro até chegar à cidade mais próxima! Acordem e parem de acreditar nesse rumor infundado!

Um jovem de cabelos finos e olhos afiados adverte seus colegas, que começam a diminuir o ritmo no plantio. Essa conduta o incomoda profundamente, pois cada minuto perdido significa um dia a mais de espera para o crescimento das plantações no futuro.

Os dois rapazes que discutiam o rumor o encaram com desconfiança e desaprovação. Não estão satisfeitos por receberem uma repreensão sobre seu trabalho de um colega que não é seu chefe, Balmor.

Ambos apresentam uma expressão de desagrado, talvez até um pouco ressentidos pela intromissão do outro. Afinal, o que eles têm a ver com a forma como executam suas atividades?

— Qual é o problema em acreditar nisso, afinal? Sabemos que vivemos em um local afastado, mas também recebemos visitantes de outros lugares. Não é impossível.

— Pois é!

O colega confirma a hipótese, deixando o outro rapaz enfurecido. Ele retruca rapidamente com leve tom de raiva.

— Que se dane, então! Fique no seu mundinho imaginário, mas não venha colocar a culpa nos outros quando a comida demorar a chegar à sua mesa!

O rapaz, claramente aborrecido, distancia-se dos dois com expressão irritada. Antes de partir, verifica rapidamente a umidade do solo que havia regado até então, talvez para se certificar de que o trabalho havia sido feito corretamente.

Enquanto isso, os jovens trocam olhares confusos entre si, sem entender muito bem o motivo daquela reação tão exaltada do rapaz. De fato, eles parecem surpresos com a intensidade de sua irritação.

Talvez se questionem se fizeram algo que possa ter contribuído para o comportamento do colega, mas não conseguem chegar a uma conclusão clara. Afinal, para eles, o que aconteceu para o rapaz ficar tão estressado é uma incógnita.

— O que deu nele hoje?

— Será que ele acordou com o pé esquerdo? Ele não é muito de conversar, mas agora…

— Bom, de qualquer forma, ele está certo. É melhor nos concentrarmos nisso primeiro! Porque, de certa forma, mesmo com um nobre nos visitando ou não, o trabalho é o mesmo.

— Você tem um ponto.

Concordando com as palavras do companheiro, os jovens continuam com suas tarefas, enquanto Balmor, que havia observado a cena, fita o rapaz irritado com certa curiosidade. Dentre todos os trabalhadores, aquele rapaz sempre foi o mais esforçado e diligente, mas, devido à política de compartilhamento igualitário, todo o grão produzido é dividido equitativamente. Para Balmor, essa deve ser a causa da irritação constante do jovem.

”Bom… não há muito o que fazer perante isso. É melhor deixá-lo se acalmar e conversar com ele mais tarde.”

Voltando seus olhos para os trabalhadores na plantação, Balmor sente uma grande satisfação, pois a inclusão dos cavalos realmente fez uma enorme diferença. Uma tarefa que levaria semanas para ser concluída através do arado agora é realizada diariamente com a irrigação, revitalização do solo e o plantio de sementes.

Inclinando-se para tocar o solo enquanto se ajoelha, o senhor de idade avançada se prepara para canalizar sua mana para a terra. Entretanto, um tumulto às suas costas interrompe sua ação.

Vozes exaltadas e suspiros audíveis o fazem virar rapidamente para ver o que está acontecendo, e ele nota uma multidão se aglomerando nas ruas de barro, seguindo quatro figuras.

Observando o tumulto que se forma, o senhor de idade avista Anastácia ao lado de dois rapazes trajando smokings e máscaras. Entre esses estranhos, uma jovem de beleza inebriante se destaca, branca como neve, capturando não só sua atenção, mas também a dos rapazes que trabalham na plantação, os quais suspiram com surpresa diante de tamanha deslumbrância.


4º dia do mês, Grande Inverno. Vilarejo – 06:45 AM.

Após deixarem a loja da ferreira para trás, Isabel, Lukas e Trevor atravessam as ruas de barro do vilarejo. Inicialmente, os aldeões mal dão atenção aos rapazes mascarados, mas, ao notarem a presença da jovem de beleza notável entre eles, tudo ao seu redor parece congelar, enquanto suspiros de surpresa e curiosidade escapam de suas bocas. A multidão se questiona se aquela é a nobre tão comentada que chegou com os visitantes misteriosos.

O rumor sobre a visita de um nobre não havia ganhado muita força, uma vez que não havia nenhuma evidência concreta ou testemunho que o comprovasse. Os visitantes parecem não ter notado nada fora do comum entre eles, o que leva muitos aldeões a desacreditar na história. No entanto, agora que veem a jovem de cabelos brancos e vestes elegantes andando junto com os mascarados, eles juntam dois mais dois e confirmam suas suspeitas.

— Então aquela jovem… é da casa nobre que está visitando o vilarejo? — Começam a surgir murmúrios entre as pessoas, todas se questionando sobre a presença da bela Isabel entre os rapazes mascarados, tentando entender se ela é a nobre visitante que tanto ouviram falar.

Enquanto alguns especulam sobre a veracidade da coincidência, outros espalham a notícia por todos os lados, confirmando que a nobre visitante é uma jovem de cabelos brancos com uma beleza que rivaliza com as das deusas.

Enquanto caminham pelas ruas, Isabel percebe uma mudança sutil no comportamento dos aldeões ao notarem sua presença. Ela olha para Trevor e Lukas com expressão confusa, sem entender como aquele véu em sua cabeça pode esconder sua identidade. Mas um balançar de cabeça e uma frase tranquilizadora dos rapazes a acalmam rapidamente.

— Está tudo bem, o véu não esconde completamente seu rosto, mas omite completamente a presença vista pelas pessoas. É como olhar no espelho e questionar quem é a pessoa do outro lado. É meio confuso, mas funciona.

— S-se o professor diz, irei confiar…

Voltando o olhar para frente, os três continuam o percurso até a plantação. 


Minutos passam e o rumor se espalha rapidamente, envolvendo completamente o pequeno vilarejo. A multidão de aldeões se aglomera nas ruas, abandonando suas tarefas para observar a beleza nívea que desfila em seu meio. Isabel, apreensiva, se encolhe ainda mais perto dos professores que, perceptivelmente, notam sua insegurança.

O ambiente fervilha com a excitação da multidão, que se agita em um frenesi por causa da presença da beldade nevada. Apesar da animação ao redor, Isabel permanece encolhida, sentindo-se cada vez mais desconfortável com a atenção focada em sua direção. Os professores percebem sua angústia e a protegem do turbilhão de olhares que a envolve.

Trevor lança um olhar rápido para Lukas e, sob a máscara, um sorriso de satisfação se forma em seus lábios ao receber o aceno de concordância do companheiro. Avançando alguns passos, ele para e inspira profundamente antes de liberar sua base mágica em todas as direções do vilarejo.

Uma poderosa pressão se abate sobre os aldeões que estavam próximos o suficiente para serem tocados por ela, deixando-os completamente amedrontados. Eles se afastam apressadamente, ofegantes e com a respiração acelerada, sob o efeito da mana que emana do rapaz.

A energia mágica de Trevor é tão intensa que exerce uma influência avassaladora sobre tudo ao seu redor, envolvendo a área inteira em seu poder. Os aldeões, incapazes de resistir ao domínio de sua magia, são forçados a se curvar diante dele, sentindo-se pequenos e insignificantes em sua presença.

Logo em seguida, ele desfaz a pressão para permitir que os aldeões respirem novamente. No entanto, uma voz surge atrás do trio.

— Isso não era necessário!

Anastácia chega por trás dos três logo após e repreende Trevor por sua ação impensada. Afinal, a maioria dos aldeões presentes não é composta por magos disciplinados, e muitos poderiam se ferir se ficassem expostos por muito tempo a uma base mágica tão forte como a dele.

— Não tive escolha, madame. Eles estavam muito próximos da senhorita…

”M-madame…?”

”S-senhorita…?!”

Sob o impacto da encenação de Trevor, Anastácia e Isabel percebem que é necessário interpretar seus papéis adequadamente, — como haviam falado antes, para evitar levantar suspeitas, diante das sobrancelhas que agora se arqueiam ao seu redor.

Ainda estupefata com a inesperada deferência, Anastácia fica momentaneamente sem palavras. Apesar de ter habilidade para atuar, ela não quer enganar o povo ao seu redor, ainda mais nessa situação. Contudo, observando sua mãe hesitante e quase estragando tudo, Isabel toma a dianteira e eleva sua voz.

— M-muito bem, meu servo… Não permita que eles se aproximem muito de mim, pois parecem muito sujos…

”D-desculpem…!’’

Os aldeões encaram Isabel com atenção, e ela sente um calafrio percorrer sua espinha, temendo ter dito algo ofensivo ou inadequado. Embora não seja do seu feitio enganar as pessoas, ela sabe que precisa manter a atuação para não levantar suspeitas, mas isso não impede que sinta o suor gelado escorrer por suas costas.

”Será que eu disse com um tom muito grosseiro?!”

Os aldeões rapidamente cedem espaço para o quarteto, trocando olhares que confirmam que o papel interpretado pelos jovens é convincente o suficiente. Anastácia, Trevor, Isabel e Lukas sentem o alívio tomando conta de seus corpos, sabendo que passaram no teste imaginário de atuação.

Enquanto se movem pelo local e se dirigem para a área de plantação, os aldeões ao redor começam a questionar o motivo de estarem indo para lá, e outros se perguntam sobre o envolvimento da ferreira com a nobre de cabelos brancos.

Anastácia começa a se sentir um pouco desconfortável com os olhares curiosos que a cercam de todos os lados, mas Lukas a chama para ficar perto dele, a fim de evitar ser interrompida pelos outros.

— Ahem! Madame, por favor, siga-nos com os mesmos passos. Esta plebe não deve nos interromper nesta missão.

Da mesma forma que Isabel mencionara os aldeões, muitos ali não se importam com a presença de nobres de alta classe, afinal, é comum que eles desprezem as pessoas de linhagem insignificante como essas. Eles apenas assentem com o comportamento esperado, sem questionar.

No entanto, Isabel não compartilha desse hábito e se limita a não dizer nada que comprometa a atuação, mantendo-se em silêncio para não levantar suspeitas.

”Relaxe… é só uma atuação… vai acabar logo…”

A pouca distância da primeira área de plantação, Balmor se aproxima do quarteto com uma expressão perplexa e confusa, já que para ele todo aquele alvoroço é algo novo. Diferente de seus empregados, a notícia sobre a visita de um nobre ainda não chegara aos seus ouvidos devido ao extenso trabalho que realizara em outros campos de plantação.

Dito isto, ele questiona-se:

”O que é essa multidão toda? E por que parecem seguir aquelas quatro pessoas…? Espera, aquela é Anastácia? Por que ela está seguindo aquelas pessoas? Onde está Isabel? Ela não deveria ter vindo hoje cedo para praticar a revitalização do solo como sempre faz?”

Diversas questões sobem na cabeça do homem de idade elevada, contudo, suas questões são freadas com a voz do rapaz de porte normal que se aproxima dele.

— Ah, bom dia, senhor. Minha senhorita veio de muito longe para este local para entregar sua bênção. Ela gostaria de oferecer seu poder para ajudá-los com sua plantação.

— Eh? Bênção? Ajudar com a plantação?

— Exatamente. Espero que compreenda e libere a área para este assunto, pois ela gostaria de depositar todo o seu poder no solo para fertilizá-lo da melhor forma possível. 

Ainda confuso, Balmor tenta questionar se ela entende como realizar tal ação:

— E, ela entende como funciona a revitalização do solo? Creio que alguém nobre como ela…

— Está sugerindo que ela é semelhante a pessoas inferiores como você?! Com ignorância como uma forma de colocação?! Ponha-se no seu lugar velho!

Uma pressão sutil cruza o ar, pressionando Balmor, que reflete uma expressão de medo.

— M-me desculpe… Não perguntei por mal, eu só…

— Ahem!

Um pigarro ecoa no ar, atraindo o olhar de Balmor e Lukas para Isabel, que ostenta uma expressão descontente com as palavras do rapaz. Ela decide falar, cortando a tensão reinante com sua límpida voz.

— O que meu servo está tentando pedir é para me deixar revitalizar o solo com meu poder. Nos últimos dias ele tem crescido, e como compensação aos deuses da mana, decidi presentear um povo que necessite. Chegamos a este vilarejo para realizar isso. Espero que o senhor entenda.

Anastácia, Trevor e Lukas olham incrédulos para Isabel, impressionados com sua atuação impecável, sentindo-se um tanto desconfortáveis com a ideia de que ela pudesse ter habilidades dramáticas. Para eles, Isabel nunca demonstrara qualquer inclinação para a atuação. No entanto, estavam agora sendo surpreendidos por sua desenvoltura.

Todavia, diferente do que eles pensam sobre ela, Isabel mal se aguenta ao observar as expressões surpresas de sua mãe e mentores.

”Pffhahahah! Olha só para as expressões deles… Eu não entendo, será que eu disse algo errado de novo? Bom, melhor eu me concentrar mais um pouco ou arruinarei as coisas…”

Balmor, por sua vez, compreende com clareza o pedido de Isabel e ordena que os trabalhadores da plantação se retirem, explicando detalhadamente a situação. Alguns sentem-se contentes com o fim do expediente, enquanto outros parecem um pouco confusos, mas todos acatam a ordem e deixam o local para que Isabel possa realizar sua tarefa.

Balmor se curva desajeitadamente na direção de Isabel e informa que os três campos estão agora completamente vazios, permitindo-lhe que realize sua tarefa com maior tranquilidade e eficiência.

— Senhorita… pode realizar sua benção agora. Espero que consiga completar o que veio fazer aqui.

”Não entendo exatamente o nível de poder dela, e muito menos sei quem ela é, mas revitalizar três áreas inteiras de plantação vai demorar um certo tempo. Retirar todo o pessoal foi uma ideia boa, se não eles acabariam absorvendo o mana por acidente.”

Com um gesto de cabeça em concordância, Isabel caminha em direção à plantação e para próxima da beirada da cerca. Balmor e os demais trabalhadores observam com surpresa, pois para revitalizar uma área por completo, é necessário que alguém se posicione precisamente no campo de plantação.

”Tsk…! Quem diria, eu pensando que ela poderia ser alguém mais esperta que nós, mas parece que é só uma garotinha de berço elevado. Não entende nem o mínimo de revitalização…”

‘’Mas olha só, parece que ela só tem beleza no final das contas. Esperar algo inteligente sair de pessoas assim é muita coisa…’’

Sorrisos de escárnio começam a se formar nos lábios de alguns rapazes da plantação, enquanto outros simplesmente observam atentamente, assim como Balmor.


Isabel curva-se cuidadosamente no chão, movendo suas mãos até o solo com destreza para evitar sujar suas roupas. Para ela, manchar aquelas vestes seria um completo desrespeito com o professor que as adquiriu para ela.

”Preciso me concentrar para não respingar nenhuma terra quando eu enviar meu poder para o solo…”

Isabel sente-se um pouco insegura com o processo, mas fecha os olhos e se concentra em seu núcleo mágico. Quando ela acessa todo o seu poder, uma poderosa pressão cai sobre todos no vilarejo. O ar torna-se pesado e a gravidade em um grande raio torna-se densa, como se estivessem carregando diversas pedras nas costas. Muitos próximos não aguentam a pressão e caem de joelhos, enquanto outros desmaiam imediatamente.

‘’Ah, não! Preciso me concentrar mais!’’

Percebendo o erro que cometeu ao ver os aldeões feridos pelo poder liberado, Isabel se concentra em reunir todo o seu poder em suas mãos, tornando-as brilhantes e intensas.

A pressão sobre as pessoas começa a diminuir até se extinguir completamente. Mas toda a atenção agora se concentra na jovem de véu, com o poder concentrado na palma das mãos, que incita um leve temor instintivo no coração de todos os telespectadores.

Isabel é cercada por muitos olhares atônitos, todos aguardando ansiosamente para ver o que ela fará com todo aquele poder. Em resposta, a jovem coloca as mãos sobre o solo e um leve tremor percorre as terras do vilarejo, fazendo com que muitos visitantes simulem expressões preocupadas com um possível terremoto.

— O que será esses tremores? Um terremoto?

— Creio que seja possível. Ontem mesmo senti alguns vindo da floresta…

Porém, não se trata de um tremor convencional, mas algo que faz todos os aldeões em volta da plantação arfarem em uníssono.

Olá, eu sou o HOWL!

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