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6º dia do mês, Grande Inverno. Grande Floresta de Arrow [Periferia Leste] – 06:45 AM.

Ao amanhecer, a natureza se desperta em toda sua majestade, sob o véu da escuridão que gradativamente cede espaço para a luz. 

Os primeiros raios dourados do sol, como lâminas divinas de luz, varrem o horizonte das majestosas cordilheiras de Behemoth. Eles acariciam as árvores e o solo adormecido, iluminando a paisagem montanhosa.

Neste cenário espetacular, os sentidos dos animais despertam. 

As criaturas da noite, águias e gaviões, abandonam seus ninhos adornados com galhos e pedras, protegendo seus preciosos ovos. Cada raio de luz parece uma pincelada divina, revelando uma paleta de cores ocultas nas sombras dançantes entre as folhas e flores.

A temperatura, que outrora estava gélida, começa a subir gradualmente, como se a própria aurora exalasse calor. 

O frescor da madrugada cede espaço a uma promessa de calor reconfortante, envolvendo tudo com sua carícia gentil. 

As brisas gélidas da noite anterior varrem a terra, levando pequenas partículas de poeira e folhas consigo, espalhando o perfume das flores orvalhadas.

O ambiente é um êxtase de sensações, onde o frescor do vento contrasta com o crescente calor do sol. 

Em um foco próximo à floresta de Arrow, uma barraca se abre e um homem de meia-idade com barba grisalha emerge, bocejando vigorosamente após uma noite de sono.

— Yaaaun…! — Ele coça a barba suavemente e ajusta as dobras de sua blusa.

O homem olha para o céu, observando as nuvens brincalhonas que cruzam rapidamente o firmamento turquesa. 

Sua mente ainda sonolenta se pergunta se dormiu demais, mas ao procurar por sinais de atividade no acampamento, ele é surpreendido.

— O quê!?

Por todos os lados, homens, mulheres e jovens trajam armaduras completas de puro aço, carregam grandes mochilas e partes de uma besta mágica. 

”O quê? Quem é essa gente toda? Por que tem pessoas com armaduras andando pelo acampamento? Será que dormi demais e acabei esquecendo de acordar no horário certo?” Balmor, atônito, se pergunta se dormiu tanto a ponto de ser deixado para trás pelos outros e acabar em um acampamento desconhecido.

Balmor se move com calma pelo acampamento, observando a agitação frenética à sua volta. 

A cena revela a presença de soldados de um exército imperial, cada um deles adornado com impressionantes armaduras que ostentam brasões limpos e cores vívidas. 

O local está repleto de atividade incessante: soldados treinam a precisão de seus golpes de espada, enquanto outros realizam flexões com colegas montados em suas costas. Há aqueles que carregam imensas mochilas, contendo partes de bestas mágicas caçados na noite anterior.

Balmor, por sua vez, exibe um misto de confusão e surpresa em seu rosto. Ele se pergunta sobre a identidade daquelas pessoas e o que estão fazendo em seu acampamento, que outrora era tranquilo e sereno. Então, uma voz familiar o interrompe, trazendo-o de volta à realidade: 

— Senhor Balmor! O senhor já está de pé? — É Kamila, que nota que ele finalmente acordou.

A jovem exibe uma expressão de leve decepção, pois esperava que Lukas fosse o primeiro a acordar após ela. Ela desejava compartilhar com ele seus sentimentos, decidida a revelar o que nutre por ele em seu coração. No entanto, em vez de Lukas, é Balmor que se encontra diante dela, um dos chefes interinos do vilarejo.

— Che-chefe interina Kamila, graças aos deuses, ainda bem que está aqui. Já estava começando a imaginar que me largaram para trás e acabei num acampamento de outra pessoa.

— Heheh… me desculpe por isso, senhor Balmor. Eu sei que muito de repente, mas isso tem uma explicação. — Kamila rapidamente se aproxima de Balmor, explicando a situação confusa que se desenrola no acampamento.

— Ah, então por favor…

— Bem, deixa eu lhe contar desde o começo… — Ela descreve em detalhes o que aconteceu durante a noite, incluindo a luta feroz de Lukas e Isabel contra o Lobo da Noite Alfa e a chegada da misteriosa mulher de armadura que os resgatou.

Balmor fica atônito com as revelações, seus dentes cerrando em desgosto. Ele ouve com atenção cada palavra de Kamila, percebendo que enquanto estava em sono profundo, ignorante dos acontecimentos, quase perdeu sua neta de consideração em uma batalha perigosa.

Um sentimento de impotência começa a queimar em seu peito, semelhante aos raios do sol matinal que rompem a escuridão. 

Esse sentimento cresce rapidamente, como uma tempestade furiosa que toma conta de seu coração. Balmor se sente impotente diante da ameaça que pairou sobre o acampamento, uma sensação que o faz relembrar o momento em que sua própria filha foi levada pelos elfos, quando ele não pôde fazer nada para impedir.

Kamila observa a expressão de Balmor enquanto o descontentamento toma conta de seu semblante. Ela sabe que o sentimento de impotência o está dominando, e decide agir. 

— Senhor Balmor… — Com mãos suaves como seda e delicadas como algodão, ela repousa sua mão sobre o ombro do homem, em uma tentativa de acalmar suas emoções.

Ela compreende profundamente o que Balmor está sentindo. 

A sensação de impotência não é estranha para ela, mas sabe que Balmor carrega cicatrizes em seu coração, profundas feridas causadas por sua incapacidade de agir, não apenas na noite anterior, mas também em um passado sombrio, quando ele perdeu um membro de sua família devido à sua falta de coragem.

Balmor sente a mão de Kamila sobre seu ombro, mas seu orgulho é mais forte que a gentileza da jovem. Ele retira bruscamente a mão dela, seus calos, fruto de anos de árduo trabalho no campo, arranham a pele macia de Kamila, deixando um rastro de sensações contrastantes. 

— Chefe interina, não precisa fazer isso… — Seu orgulho ferido o impede de aceitar ajuda, mas ele revela um gesto surpreendente. Em um momento, ele segura a mão da jovem e a retira de seu ombro.

— Entendo o que você está tentando fazer. Mas isto não é algo que pode ser relevado assim tão facilmente, estive dormindo enquanto os nossos amigos estavam arriscando suas vidas. Porém, não é isso que me deixa nesse estado, e sim o fato de que, se eu estivesse acordado e lutando ao lado deles, eu não seria alguém forte o suficiente para ajudá-los

Os olhos de Balmor queimam com fúria, uma fúria alimentada por sua fraqueza e impotência. Ele olha intensamente nos olhos de Kamila, sua determinação gritando em seu âmago, prometendo em sua alma mudar a situação.

— Eu entendo o senhor… entendo completamente o que está sentindo, senhor Balmor… — Kamila o observa chocada, lágrimas ameaçando brotar de seus olhos. Ela compreende plenamente as emoções de seu amigo, pois também deseja desesperadamente se fortalecer.

Enquanto eles compartilham um vislumbre de esperança em seu futuro de fortalecimento mútuo, Balmor volta seus olhos para uma garota de cabelos brancos que observa atentamente os soldados treinando. 

Uma sensação de familiaridade perturba sua mente, mas ele sabe que não é o momento de explorar esse sentimento. Afinal, Isabel, uma jovem que ele considera como sua neta, arriscou a própria vida para salvar a dele, um homem que se vê como um covarde impotente.

Balmor, quase como se estivesse sendo guiado por uma força maior, se aproxima de Isabel.

Isabel, percebe a aproximação de Balmor com seus sentidos aguçados. 

— Avô Balmor, o senhor já despertou? Que bom qu… — Ela tenta cumprimentá-lo, mas o homem sente instinto protetor crescer, e ele estende os braços para abraçá-la com força.

Confusão se espalha pelo rosto de Isabel enquanto ela lança um olhar confuso a Kamila. A jovem responde com um sorriso doce e fecha os olhos, apoiando a decisão de Balmor.

A expressão de confusão na face de Isabel se transforma em surpresa, e suas bochechas pálidas coram ligeiramente. Ela sente o calor e a segurança do abraço de Balmor, e em resposta, ela também o abraça, retribuindo o gesto com carinho e gratidão, fazendo uma lágrima de alegria escapar dos olhos do homem.

Balmor, atormentado pela culpa por não proteger Isabel na noite passada, é surpreendido pela voz da própria garota.

— Avô Balmor, não se preocupe, está tudo bem… — Ela o conforta, dissipando parte desse sentimento de impotência. 

Seu abraço caloroso se transforma em um gesto de cuidado, quando ele ajusta as roupas amarrotadas de Isabel com mãos calejadas pelo trabalho árduo. Com gentileza, ele pergunta se ela está bem:

— Você realmente está bem? Não se machucou, se feriu gravemente…? — Sua voz soando como um sussurro de carinho destinado a uma frágil boneca de pano.

A resposta de Isabel vem na forma de um sorriso, mas seus gestos revelam uma nuance mais profunda.

— Relaxe, avô Balmor eu não sou tão fraca assim, eu consegui dá um certo trabalho para aquela besta! — Ela ergue os braços para mostrar que não é tão fraca quanto ele possa pensar, mas logo sua postura muda, e ela abaixa a cabeça.

A batalha da noite passada ainda atormenta seus pensamentos, a culpa por não conseguir evitar que Lukas se ferisse tão gravemente a sufoca. Ela luta para superar esses sentimentos pesados, esforçando-se para não deixar que Balmor perceba.

— Isso é incrível, Isabel! Você realmente é bem forte, bem mais forte do que eu! Estou orgulhoso de você, pequena, você foi muito corajosa em lutar contra aquele Lobo da Noite junto a Lukas. Estou completamente orgulhoso. — O orgulho de Balmor em sua coragem durante a batalha é evidente.

— Obrigada… — Ela concorda com um sorriso doce, embora seus olhos frios revelem que essa bravura não a livrou da culpa que carrega em seu coração.


6º dia do mês, Grande Inverno. Grande Floresta de Arrow [Periferia Leste] – 07:05 AM.

— I-Ivetya Monteblade!? — Lukas, na barraca ao lado, desperta, chamando por Ivetya com um grito que faz Kamila se preocupar do lado de fora.

Quando ele compreende finalmente a identidade de Ivetya Monteblade, a mulher que o ajudou na noite anterior, sua expressão se torna pálida. 

”A imperatriz da Espada… ela é realmente a Imperatriz da Espada… e ela me ajudou… Preciso agradecer ela novamente!” Ele tenta se mover, mas a dor repentina em suas costelas e pernas o lembra da realidade dos acontecimentos da noite anterior.

Kamila, alertada pelo grito de Lukas, invade a barraca com o rosto ruborizado, lembrando-se vividamente dos eventos da noite.

— Senhorita… Kamila…? Algum problema…? — Confuso, Lukas questiona o motivo da pressa de Kamila, mas a dor em seu corpo o silencia rapidamente.

— Eh? Bem… eu… problema… — Kamila fica vermelha, tentando encontrar uma desculpa, mas sua mente está cheia de pensamentos sobre Lukas e o que aconteceu entre eles.

— Argh…! Bem… você deve está um pouco confuso, não é?

— Um pouco… o que aconteceu depois que eu apaguei?

— A-a-ah… bom… Foi assim… 

Ele escuta atentamente enquanto Kamila lhe conta o que aconteceu depois que ele desmaiou em seu colo. De começo, Lukas fica envergonhado, ajeitando seus óculos no rosto, uma expressão desconfortável marcando seu semblante ao ouvir que havia desmaiado sobre os seios de Kamila.

Kamila continua a narrativa, explicando como fez um acordo com Ivetya para proteger o acampamento até a ida a Nakkie, em troca de suprimentos para a mesma.

— Ah… então foi isso que você fez… foi muito bem. Com a proteção dela será mais fácil seguir caminho até Nakkie. Minha condição atual não me permite fazer muito esforço, com a ajuda dela, será mais fácil nos livrar do perigo que se aproximar. — Ele compreende o acordo que Kamila fez com Ivetya ao acrescentar sua própria condição.

Após a revelação de Kamila sobre a noite anterior, um silêncio desconfortável preenche o ar entre Lukas e ela.

Ambos se encaram, palavras não sendo necessárias para compreender o turbilhão de pensamentos que os invade. 

‘’Então eram os seios dela… bem que eu senti algo macio quando eu cai, mas eu pensei que fosse a grama…’’ Lukas, com um olhar discreto, recorda os seios macios de Kamila, lembrando-se das palavras dela e da sensação que teve ao desmaiar em seus braços.

”Estamos sozinhos agora, será que é certo eu dizer o que sinto para ele…? Será que vai ser muito estranho…?”  A jovem, por sua vez, se debate internamente, avaliando se este é o momento adequado para expressar seus sentimentos por Lukas. 

Ela deseja enfatizar o quanto se preocupou com ele quando soube que ele arriscou sua vida para salvá-la, e como um sentimento desconhecido despertou em seu coração naquela noite.

— Lu-Lukas… eu… — Kamila se prepara para abrir seu coração, seus lábios cerrados e trêmulos, suas mãos apertadas nas coxas. 

Mas é abruptamente interrompida pela voz de Ivetya do lado de fora da barraca.

— Garota do vilarejo, que é a chefe, está aí dentro com o garoto do vilarejo de óculos?

”Ah, não! Eu não acredito!” A jovem desaba em frustração, sentindo que estava prestes a revelar seus sentimentos a Lukas, mas foi impedida no último instante.

”Garoto do vilarejo de óculos…? Ela não tinha me chamado de quatro-olhos antes…?”

Lukas, por outro lado, pede a Ivetya para entrar e compartilhar o que tem a dizer:

— Senhorita Ivetya, há algo que queira dizer? Por favor, entre.

”Entrar? Por que ele ta pedindo para ela entrar!? Mande ela embora!” 

— Oh…? Tem certeza? Não estou atrapalhando nada?

”Sim! Você está me atrapalhando, senhorita Monteblade, por favor vá embora!”

— Ah… bem… creio que não, eu acho…

”Argh…! Seria mais fácil se vocês ouvissem meus pensamentos…”

Com um gesto suave, Ivetya adentra a barraca, deslizando os dedos pela entrada e entrando com destreza, sem deixar que a luz solar do lado de fora se revele. Dentro, Lukas e Kamila estão sentados de frente um para o outro. Ivetya percebe a angústia no rosto de Kamila e compreende sua intenção.

”Droga… será que ela ia se declarar para ele ou algo do tipo? Essa expressão aí com certeza é desse tipo… Mas… mas eu não sabia… ele que me pediu para entrar… Será que esse pamonha não percebeu a situação em que tá?” 

— Argh…! — No entanto, essa situação não estava nos seus planos, e um pequeno suspiro escapa de seus lábios.

— Okay… certo então. Primeiramente, quero agradecer pelos suprimentos que nos deram. Para ser sincera, eles são bem melhores dos que perdemos para os lobos da noite, e segundo… — Ivetya agradece pela ajuda com os suprimentos e depois apresenta sua informação.

— Vocês vieram do vilarejo e não tem esse entendimento, penso eu. Porém, essas estradas não estarão mais seguras daqui para frente. Vocês já se perguntaram por que um grupo de soldados passava por aqui, não é?

Kamila e Lukas se encaram, buscando respostas nas expressões um do outro. Seus olhares se encontram, mas, em meio à confusão, ambos apenas apertam os lábios e balançam a cabeça, negando com veemência, sem proferir uma única palavra, a falta de compreensão da situação em que se encontram.

— Bem… a princípio eu não havia pensado sobre isso, mas realmente a senhorita trouxe um bom grupo de soldados. A senhorita disse que também estava se encaminhando para Nakkie. Vai acontecer alguma coisa? — Kamila, rememorando as palavras proferidas por Ivetya na noite anterior, traz à tona uma questão, expressando sua curiosidade sobre a complexidade da situação que a Ivetya sugeriu em sua pergunta anterior. 

Seu olhar perspicaz busca entender mais do que as palavras revelam.

— Não posso revelar muita coisa sobre isso, mas, as estradas vão ser ocupadas por mais soldados em breve, algo que complicará nas viagens. Sugiro para partimos logo para Nakkie, para assim vocês evitarem esse desconforto. Posso ser uma comandante desse pelotão, mas há patentes mais altas que a minha que irão chegar aqui, e prefiro evitar relatórios sobre o que aconteceu ontem, se é que vocês me entendem…

Lukas e Kamila relembram com intensidade a noite passada, revivendo a tensa batalha que Lukas e Isabel travaram contra o Lobo da Noite Alfa. Apesar de ser uma defesa justificada contra a ameaça monstruosa, caçar e enfrentar monstros classificados como Rank D+ é estritamente proibido pela Lei Imperial, reservado apenas para mercenários e aventureiros devidamente licenciados. 

Eles compreendem a situação; apesar da intervenção de Ivetya em seu favor, é mais sensato evitar complicações legais e partir o mais rápido possível.

— Compreendemos, e já agradeço pelo aviso, senhorita Ivetya.

— Sim, senhorita Monteblade, eu não entendo o que vai acontecer ou o motivo disso, mas compreendo a importância de seguimos nosso caminho o mais rápido possível.

— Muito bem, vocês dois são espertos, entenderam com poucas palavras. Me desculpo por não poder revelar o motivo, mas quanto antes formos, será melhor.

— Certo.

O acampamento se transforma em uma frenética atividade, com os soldados empacotando e desmontando barracas, apagando a fogueira, e subindo nas carruagens que transportam as carroças de carga.

A caravana começa a se mover pela estrada de terra, as rodas de madeira criando um som de grãos de areia e pedras rolando. Ao lado, os soldados de Ivetya marcham em formação, protegendo a caravana de possíveis ameaças. 

Devido à presença dos soldados a pé, a caravana diminui a velocidade para garantir que todos cheguem à cidade de Nakkie em segurança. 

O ar está carregado de expectativa e incerteza enquanto eles avançam pelo caminho sinuoso em direção ao seu destino.

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Olá, eu sou HOWL!

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