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Torneio dos Campeões: uma competição ocorrida há cada alguns anos em todos os “reinos”, ou territórios, do reino inferior. Nela, vários aventureiros se enfrentavam em diferentes desafios para se tornarem campeões de seu reino, atingindo assim um patamar alto de importância em variadas áreas. E Cleiton visava usar isso.

A ideia do anão era tornar ao menos um de nós, incluindo ele mesmo, em um campeão, pois, embora ele nunca tenha se interessado nisso, acreditava que tendo alguém com tamanha importância em nosso grupo, isso aliviaria bastante o peso que minha infame alcunha de Anjo da Ruptura trazia. Mas por mais que isso fosse uma coisa interessante para nós no momento, não conseguia sequer pensar junto ao grupo sobre tal assunto. Minha cabeça estava, obviamente, em outro lugar.

Uma torre vermelha, pertencente ao Forte Carmesim, localizado na Cordilheira das Ferroadas, era lá que minha mente esteve todo o tempo desde minha visão.

Cleiton explicou antes de nos juntarmos com nossas três novas companheiras, que não deveríamos entregar nada de nossos planos para elas antes da hora certa, e também deu os detalhes do que faríamos.

A Cordilheira das Ferroadas, que ainda não era visível com a tempestade, era composta por uma cadeia de seis grandes montanhas, povoadas por algumas espécies de abelhas que fizeram do interior delas suas colmeias. Mas não precisaríamos nos preocupar com elas.

Com o Forte Carmesim estando localizado em algum lugar nessas montanhas, nós viajaríamos apenas por cima, para termos certeza de encontrá-lo, e por conta da tempestade, dificilmente haveriam abelhas na superfície. Pelo menos era o que Cleiton acreditava, ele deixou claro.

E apesar disso tudo ser de extrema importância para mim, minha mente também não conseguia pensar em tudo o que foi explicado. Constantemente eu olhava para a janela da carruagem, para o horizonte branco além da planície, onde brilhavam apenas os raios azuis entre a nevasca, e me perguntava: “quanto tempo ainda vai demorar?”

Mesmo enquanto contemplava o cair da neve em silêncio, concentrada nos sons do vento, minha visão periférica pegou minha não tão nova companheira despertando de seu sono.

No banco dos fundos da carroça, Mirinda levantava-se lentamente da posição em que estava, com os cabelos loiros pouco desarrumados e seus braços mantendo o grosso cobertor enrolado em si. Seus olhos semicerrados encontraram os meus após vagar um pouco e sua boca se abriu em um curto bocejo antes que ela se ajeitasse no banco.

— Poxa, como vocês conseguem dormir tão desconfortavelmente? E com esse frio?

— Desculpe. Vou fechar a janela — falei, já puxando a alça de madeira para impedir o vento de entrar. Os barulhos logo ficaram abafados lá fora.

— Obri… — Um bocejo interrompeu sua fala, mas ela continuou antes mesmo do fim do gesto espontâneo. — …gada.

— Queria viver como aventureira, mas nunca dormiu fora de sua cama quentinha? — ironizou Greeta, assim como ela tinha feito sempre que tinha chance desde o início da viagem.

— Não tenho culpa se eu… — Enquanto se virava, parou subitamente, cobrindo os olhos e virando o rosto de volta para o lado contrário de onde ia. — Pai Sagrado! Por que você está pelada?

— Hum? — Minha tão inocente irmã mais velha lançou um sincero olhar de dúvida à barda humana, apenas um segundo antes de olhar para baixo e reparar em seu peito nu. — Ah, só estou sem camisa — concluiu em um sorriso provocativo.

Ela sentava-se à minha frente, no banco ao lado da porta da carruagem. Suas vestes estavam emboladas no banco, próximas à sua cauda, que caía do seu lado para o chão, parcialmente enrolada para não tomar todo o espaço.

— Sim! Exatamente! Por quê?

— Eu só queria sentir um pouco da brisa. Não pensei que você ficaria envergonhada com isso. — Riu.

Deixei escapar uma curta risadinha também. Era claro que Mirinda ficaria incomodada, humanos não tinham o costume de serem tão “abertos” quanto Greeta, apesar de que mesmo a mulher lagarto só fizesse isso quando com outras mulheres.

— Greeta, ponha sua blusa. Não é a melhor forma de dar bom dia para alguém — pedi.

— Mas você gosta. — Ela pegou as vestes ao lado, ainda com o mesmo tom provocativo e um pouco alegre.

— Quem disse isso? — retruquei tentando não demonstrar emoção.

— O quê? — perguntou visivelmente surpresa após passar a cabeça pelo buraco da blusa. — Não gosta?

— Por favor, deixem-me de fora de suas intimidades — pediu Mirinda, removendo a mão dos olhos devagar.

Eu ri e Greeta apenas respondeu: — Tá… Mas você não gosta? — perguntou uns momentos após vestir totalmente a blusa, fazendo-me dar mais uma risadinha.

Mirinda espreguiçou-se enquanto Greeta acendia uma luz para nós em um jarro de vidro pendurado na parede utilizando uma pedra mágica vermelha.

A carruagem não era tão escura, mas também estava longe de ser clara, tendo apenas a pouca iluminação concedida pelas grades pouco espaçadas da janela da porta, e uma janela retangular semelhante que dava para o lado de fora onde Cleiton conduzia. Podia vê-lo de onde eu estava, apenas parte de suas costas e um braço.

— Obrigada. Não estou acostumada com o escuro… — Seus olhos repousaram sobre mim, mas eu não entendi o motivo até que ela perguntou. — Você gosta de ler, Amyrrh?

— Ler? Ah. Não. Sim, quero dizer, gosto de ler, mas eu estava escrevendo, na verdade…

Peguei a pena que repousava no centro de meu livro, entre as páginas, e levantei para que ela pudesse ver.

— Você escreve?! — O espanto em sua voz não foi nem um pouco controlado. — Caramba, que surpresa. Eu nunca iria imaginar.

— É, Cleiton tem ensinado ela desde que chegamos em Gáinel, e ela já aprendeu bastante. — Greeta pareceu mais orgulhosa do que deveria com isso.

— Sério? Mas isso não tem nem três meses direito. Como aprendeu tão rápido?

— Greeta só está querendo impressionar… — Olhei para o livro sobre meu colo, os garranchos em tinta preta iluminados pelo laranja da pequena chama no vidro. — Não aprendi quase nada ainda, só o suficiente para eu mesma entender… as vezes nem isso. — Soltei uma risadinha ao me virar de volta para a humana, que para minha surpresa, já havia se movido para muito perto.

Fechei o livro com velocidade ao notar que ela estava olhando, mas não sabia o quanto ela já tinha visto.

— Isso é incrível, Amyrrh. Sabe quantas pessoas sabem escrever em Gáinel? Te garanto que muito menos do que você imagina. — Seus olhos, bem próximos aos meus, brilhavam com uma admiração notável.

— Eu falei — disse Greeta, com um ar orgulhoso literalmente saindo de seu focinho.

— Me disseram que eram poucas, mas… Você não sabe? — perguntei meio sem jeito.

— Uff — bufou. Afastando-se e cruzando os braços, o brilho nos olhos diminuindo consideravelmente. — Claro que não. Professores são muito raros e caros, me admira muito esse anão velho saber escrever e ainda ter a capacidade de ensinar…

— Saiba que uma gracinha como você precisaria de mais que isso para me ofender. — A voz de Cleiton soou dentro da carruagem vinda do lado de fora, carregada pelo vento que entrava constantemente pela janela da frente.

— Como ele consegue fazer isso? — Apontou um dedo para onde o anão estava do outro lado.

Eu e Greeta demos de ombros então ela continuou.

— Mas então eu só aprendi à contar. Era o essencial para ter qualquer trabalho bom naquele lugar, fosse uma vendedora de legumes ou recepcionista de guilda. Agora, com a tempestade, as garotas normais só poderão lutar pela vaga de recepcionista.

Ignorei o comentário triste. Ela não tinha como saber, mas ainda assim, senti como um ataque pessoal, um que eu merecia.

— Ué — Greeta quebrou o silêncio que se formava —, se você só sabe contar, como lê as missões do mural?

— Ah, eu e as garotas aprendemos também à interpretar os desenhos desde o início do treinamento. E quem faz os cartazes sempre nos dizem direitinho o que cada um diz, daí é só gravar — explicava enquanto procurava por roupas quentes em sua mala retirada debaixo do banco.

— Então você grava cada uma daquelas missões? Fiu… Que coisa.

— Não parece algo fácil — completei.

A humana passou a se vestir, sem trocar a roupa debaixo, que ela não tirava desde o início da viagem, há três dias.

— Nunca foi difícil para mim — disse ao terminar de se vestir, com um sorriso sereno sem olhar para nenhuma de nós em específico —, quero dizer, desde pequena eu precisei ter boa memória para gravar as letras e notas das músicas que queria tocar.

— Já que tocou nesse assunto — dizia Greeta, nada discreta —, por que você virou recepcionista invés de barda? Não tem talento?

— É claro que tenho talento! — retrucou ofendida. — Virei recepcionista porque não tive outra escolha. É o que acontece com todo bardo.

— Viram recepcionistas? — perguntei confusa.

— Não. — Suspirou. — “Bardo” não é exatamente uma profissão, nem mesmo uma classe de aventureiro, por isso não dá para ganhar dinheiro assim, pelo menos, não é fácil como tendo um “trabalho de verdade”. Então, por causa da família, a maioria de nós escolhe trabalhos comuns para nos sustentarmos, pelo menos até alguém nos resgatar de nossas vidas ordinárias.

— E esse alguém é um Cleiton — brincou Greeta.

— Nem sempre um Cleiton, mas dessa vez, sim. Por isso vou dar o meu melhor para alegrar a viagem de vocês. — Fechou o punho levantado à sua frente, o símbolo de quando se fecha uma promessa.

— Ha! Até agora não vi nada disso — provocou.

— Posso não ter começado ainda por ainda estar me acostumando com tudo isso, mas quando eu começar, vocês não vão se arrepender de ter me acolhido, é sério. — Sorriu.

— Acredito em você. — Toquei seu ombro, sorrindo também, depois soltando-a.

— Vou escrever canções sobre você, pequena Amyrrh. — Bateu em meu ombro, um soco fraco. — Já vejo o título: “Aquela que vem dos céus e comanda a terra”. — Olhou para frente com aquele brilho no olhar e abriu os braços erguidos conforme falava, como se as palavras surgissem no espaço deixado por suas mãos. Depois, olhou para mim ainda com os braços abertos. — Bem legal, né?

“Aquela que vem dos céus…”

— Por eu ser uma harpia e usar magia de terra.

— Lógico… Não gostou? — Baixou os braços, seu sorriso baixando também.

— Eu adorei! — disse o mais espontânea possível. — Quero muito ouvir quando estiver pronta.

Ela sorriu novamente, muito mais alegre que antes.

— Eu também espero ouvir logo, hein. O nome é foda — disse Greeta, sua longa cauda balançando um pouco no meio do chão.

— Claro! E Amyrrh…

Olhei para ela em espera.

— Você vai escrever essa música para mim, já que eu não sei — concluiu com um sorriso simpático.

— É claro. — Abri meu livro novamente, vendo meus últimos garranchos sombrios que colocavam meus pensamentos sobre o Forte Carmesim em palavras…

Continuamos conversando após, mesmo enquanto eu dava atenção para minhas anotações recentes e imaginava como seria escrever algo tão alegre quanto uma música.

Minha escrita ainda teria de evoluir muito para fazer algo digno disso… “Aquela que vem dos céus e comanda a terra.” Mal podia esperar.

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