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Decidi passar a noite no apartamento onde minha equipe estava alojada. Bernardet, enfraquecida demais para se movimentar, tornou essa escolha inevitável. Dormir ali, no entanto, revelou-se uma provação, principalmente porque Pit, meu companheiro de equipe, tinha uma tendência séria a roncar durante o sono.

Com o raiar do dia, preparei um café da manhã rápido na cozinha improvisada. A TV estava ligada, ecoando as notícias dos eventos tumultuados que ocorreram no centro da cidade no dia anterior.

Os números eram assustadores: 1.234 feridos, dos quais 1.123 estavam em estado grave, e 890 pessoas simplesmente desaparecidas. A cada minuto que passava, o caótico número de desaparecidos continuava a crescer de maneira desenfreada, como se as sombras da tragédia estivessem se estendendo para engolir mais vidas.

Quanto aos mortos, a incerteza pairava no ar, pois as autoridades ainda não haviam conseguido averiguar o estado real do local do incidente. Uma contagem precisa das vítimas fatais permanecia elusiva, uma sombra sombria pendurada sobre a comunidade, aguardando para revelar a extensão total da tragédia. O desconhecido, às vezes, é mais assustador do que a própria adversidade.

Parece que a criatura está estendendo suas teias, transformando prédios e casas em seu ninho macabro. Hoje, sua expansão alcançou o quinto quarteirão, um avanço perturbador que só intensificava a atmosfera de terror.

Em seguida, uma reportagem transmitiu uma mensagem direta da redoma, ecoando pelos televisores enquanto os jornalistas tentavam manter a compostura diante da gravidade da situação. A redoma clamava pela compreensão da população e solicitava tempo para transportar corvos até a localização atual da criatura.

A complicação residia no fato de que a maioria dos corvos estava em missões, e aqueles que não estavam distantes do epicentro do acontecimento, retardando significativamente o envio dessas aves mensageiras.

O jornalista compartilhou uma revelação impactante: uma equipe de elite já havia sido despachada para as proximidades do local. A notícia me surpreendeu; era de se esperar que deixassem algumas pessoas nas proximidades, mas uma equipe de elite? Na minha experiência, só havia mais uma pessoa que comandava uma equipe considerada de elite, além de mim e Soares.

— Greta Smith, filha de Tony Smith e Sarah Smith. — O jornalista divulgou, revelando a imagem de Greta em um gesto obsceno direcionado a alguém. — Ela e sua equipe foram enviadas para investigar a situação e liderar as operações para uma possível intervenção no futuro.

No final das contas, tudo parece se encaixar, e a presença de Greta Smith nesse cenário faz sentido. Sua família, renomada por entregar corvos que se destacam em todas as situações, provavelmente a empurrou para essa missão, buscando elevar ainda mais o prestígio do nome Smith. Os Smith eram conhecidos por utilizar a mídia para ampliar sua influência, e Greta, mesmo desgostando da atenção midiática, se tornou uma ferramenta valiosa nessa busca incessante por renome.

A dinastia Smith prosperava com base na máxima: quanto mais renome, mais poder. Greta, uma figura espontânea e destemida, lembrava-me muito de Júlia, embora suas rédeas fossem notavelmente mais curtas. Era daquelas pessoas que expressavam seus pensamentos sem medo das consequências, convicta de sua própria importância.

Apesar da exposição na mídia, Greta era uma pessoa notavelmente competente e forte. Entre o trio de capitães mais poderosos, composto por ela, Soares e eu, eu a considerava a mais forte. A verdade, no entanto, era que, como líder, Greta deixava muito a desejar. 

Ela transferia a responsabilidade de liderança e estratégia para Nina, uma das integrantes de sua equipe, transformando-a, de fato, na estrategista de destaque do grupo. O paradoxo de força e liderança era evidente, e eu me perguntava como essa dinâmica complicada influenciaria a situação em evolução.

Na última vez em que colaboramos, observei Greta seguindo meticulosamente as instruções de Nina, intervindo apenas quando a situação exigia força bruta contra as ameaças que enfrentávamos.

Tomei um gole do meu café, deixando o sabor amargo misturar-se com a tensão no ar.

— Talvez eles acabem me chamando também… — murmurei, deixando as palavras escaparem como fumaça, pairando no ambiente carregado de incertezas. O futuro se desenhava cada vez mais complexo, e a possibilidade de minha presença ser requisitada nesse cenário não era algo que pudesse ser ignorado. O destino parecia tecer suas teias ao nosso redor, e eu me perguntava como poderia ajudar mais. 

“Ajuda mais” ecoou repetidamente na minha mente, como um eco insistente. Era estranho, como se houvesse uma necessidade constante de provar algo a mim mesmo. Não conseguia compreender totalmente o motivo por trás desse sentimento persistente, por que ainda me pegava pensando tanto nisso, revivendo a mesma cena ou evento em meus sonhos.

— Chefinho…? Arg… tá acordado, já…? — murmurou Júlia, esticando-se preguiçosamente ao acordar.

— Hm… Júlia, vai colocar uma calça.

Ela me lançou um olhar rápido, avaliando-se por um momento, antes de sorrir em resposta. Um sorriso que transmitia uma compreensão silenciosa, como se soubesse que eu estava incomodado com o que via. 

Júlia emergiu de seu quarto usando um conjunto de pijama, uma regata de algodão cor-de-rosa e uma roupa de baixo vermelha. Ela sabia que eu, Vitor e Pit ainda estávamos no apartamento, então, por que ela agia assim, mesmo com três homens presentes? 

Igor, o recém-chegado ao nosso grupo, estava no quarto ao lado, ainda adormecido. 

Ele não ficou muito satisfeito com a ideia de compartilhar um espaço com pessoas que mal conhecia, expressando sua preferência por alugar seu próprio quarto, uma opção que seu bolso permitia. 

A sugestão de dividir quartos partira de Pit, que sempre estava em busca de economizar dinheiro.

— Capitãoooo? Não fica me encarando assim não, poxa. — Júlia brincou, um sorriso malicioso dançando em seus lábios.

— Eu não estou olhando… e vai colocar uma calça.

— Deixa disso, cap, nos conhecemos há muito tempo. — ela disse, abrindo a geladeira e retirando uma caixa de leite.

— Ah… — murmurei, decidindo encerrar o assunto enquanto terminava de beber meu café. O ambiente descontraído era um contraste intrigante com a tensão que pairava anteriormente na minha cabeça. 

Em breve, todos da equipe se reuniram novamente para debater os eventos tumultuados do dia anterior. Dedicamos um tempo considerável para explicar minuciosamente a Pit o que havia ocorrido, esclarecendo qualquer dúvida que ele ainda pudesse ter em relação ao resumo feito por Júlia na noite anterior.

Pit, com sua habilidade única de manipulação de invocação, realizou um exame detalhado em Bernardet, neutralizando os efeitos debilitantes do veneno que a haviam enfraquecido. A presença de Pit, com suas habilidades de cura, era inestimável nessas situações críticas.

Sua manipulação de invocação, transmitido de seu pai para ele, permitia a Pit invocar cinco criaturas únicas, cada uma dotada de poderes singulares. Naquela noite, em busca de uma segurança adicional, Pit convocou uma de suas cinco criaturas. Mosca vigilante, com olhos atentos, assumiu a responsabilidade de vigiar silenciosamente nosso perímetro. 

Caso qualquer entidade hostil se aproximasse, ela alertaria Pit instantaneamente, garantindo nossa proteção enquanto descansávamos para enfrentar o que quer que o amanhecer nos trouxesse.

Com pouco mais de um metro de altura, a criatura convocada por Pit podia assumir diversas dimensões, desde o tamanho de uma criança até atingir impressionantes dois metros ou, inversamente, diminuir até o tamanho de uma moeda. Essa versatilidade não era sua única característica notável; um sensor embutido permitia que ela detectasse seres vivos em um raio de até seis quilômetros. 

Era a escolha perfeita para uma vigília noturna eficiente e discreta, oferecendo uma camada adicional de segurança ao grupo.

O aspecto mais surpreendente era que as invocações não dependiam da consciência contínua do invocador para permanecerem no mundo. Uma vez invocadas, tornavam-se parte da realidade até serem destruídas, retiradas pelo invocador ou, no caso da morte deste, anuladas. 

Essa peculiaridade garantia que todos nós pudéssemos desfrutar de uma noite de sono tranquila, sem a constante preocupação de sermos surpreendidos por ameaças durante a escuridão.

Além da mosca vigilante, Pit também evocou outra de suas invocações notáveis: o sanguessuga. Este monstro singular fixava seus dentes em uma pessoa, alimentando-se de seu sangue. 

Enquanto absorvia o líquido vital, o sanguessuga restaurava o corpo da vítima ao máximo possível. Graças a essa invocação, Bernardet, mesmo ainda um pouco tonta devido ao sangue drenado, viu todos os ferimentos do dia anterior cicatrizarem, e o veneno em seu corpo se dissipou. 

— Agradeço a você, Pit. Suas invocações são de grande ajuda em momentos como esse. — expressando minha gratidão, ofereci um sorriso sincero.

— Que isso, capitão… somos companheiros aqui, faria isso por qualquer um de vocês. — ele respondeu, um pouco sem graça, mas com um caloroso senso de camaradagem.

— Por isso mesmo eu lhe agradeço. Bernardet não faz parte oficialmente da nossa equipe e se machucou durante uma missão não oficial. Você não tinha obrigação de ajudá-la, mas mesmo assim o fez, e eu agradeço por isso.

— Não é como se eu não fosse fazer isso por qualquer pessoa que eu visse machucada, o problema é que a sanguessuga pode acabar matando pessoas comuns… então só funciona corretamente com pessoas que já foram ou são corvos.

— Vocês arrumaram um problemão ontem, hein. — comentou Igor, o novo integrante do grupo.

— Que criança enxerida… — Júlia resmungou, revirando os olhos.

— Tivemos um encontro inesperado com membros da Colher. Isso só reforça o quão perigosos eles são. O problema é que não podemos compartilhar essas informações com a redoma no momento. — comentei, recordando a ligação que recebi no dia anterior.

— Fala isso por conta do Soares? — questionou Júlia.

— Exatamente. Não teria sentido repassar informações para a redoma se Soares não estiver vivo para conduzir a investigação sobre a Colher. Se divulgarmos essas informações, perderíamos nossos empregos por agir à margem das regras, e, no máximo, a redoma atribuiria a responsabilidade a qualquer outra equipe.

— Isso seria péssimo… — murmurou Vitor, o nervosismo estampado em seu rosto revelando mais do que suas palavras. — Acabei confrontando alguns membros da Colher; dois deles eram formidáveis o suficiente para equilibrar uma luta em termos de habilidade de combate e manipulação. Já o outro…

— O cara de chapéu coco, é isso? — interrompeu Igor.

— Exato. Esse cara é diferente. Se a redoma repassar esse caso para uma equipe qualquer, já que a equipe do Soares está impedida de agir, eles podem acabar sendo massacrados ao enfrentar esses membros da Colher. Vou ser um pouco arrogante agora, mas as únicas equipes preparadas para lidar com esse caso são a do capitão, a do Soares e a da professora Greta.

Olhei para Vitor com uma sobrancelha arqueada, enquanto Júlia começava a rir dele.

— Ainda chama a Greta de professora?! Kukuku, é um virjão mesmo. — ela zombou dele.

— O que foi?! Mas é verdade! Ela foi nossa instrutora antes de entrarmos na equipe do capitão, não?!

— Normalmente, não gosto de concordar com Júlia… mas é meio estranho ouvir alguém chamando aquela maluca de professora… — murmurei num tom leve.

— Viu? Até o capitão concorda comigo. — ela continuou rindo dele.

— Essa Greta é da família Smith? — perguntou Igor.

— Exatamente — confirmei —, você a conhece?

— Só ouvi falar. Ela não tem uma boa reputação, não. Diferente da família dela, lembro-me vagamente de uma matéria que dizia que ela roubou um carro e o jogou no mar durante uma perseguição policial intensa.

— Ah, lembro-me disso… — balbuciei, relembrando do dia citado.

Olá, eu sou o Gebs!

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