Capítulo 14 – Roxo

Tales of Blood

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Roxo


Autor: Vento Leste | Revisor: Glauber

A matilha de cães cercou Lucas sem dar espaço para se mover. Ele moveu rapidamente suas facas, realizando cortes e estocadas, mas não era algo bonito de se ver. Seus movimentos eram desordenados e não seguiam um fluxo contínuo. Muitos movimentos eram desnecessários e ineficientes.

Felizmente, nessa situação única, onde ele estava cercado por todos os lados, seus golpes nunca erraram o alvo. Simplesmente havia tantos cachorros à sua volta, que qualquer golpe com a faca acertaria um. No entanto, esses golpes vieram com um preço.

A cada segundo, a cada ação das facas, ele perdia pedaços de carne. Nem mesmo sua ‘armadura de sangue’ poderia protegê-lo de tantos mutantes ao mesmo tempo. Ele estava lutando contra treze simultaneamente, não havia como sobreviver sem ferimentos, não agora pelo menos.

Ele sentiu a dor de perder pedaços de carne a cada segundo. Por ter apenas dois braços, ele não podia impedir que os outros 11 cachorros o mordessem e mesmo com os outros dois, havia somente uma  pequena possibilidade de interrompê-los com os braços.

A dor era imensa e insuportável para qualquer ser humano. Seus olhos estavam quase totalmente vermelhos, quase não havia mais sinal de roupa em seu corpo e a única parte de seu corpo com pele era o rosto. Nem mesmo sua regeneração acelerada poderia competir com tantos ferimentos ao mesmo tempo. Era uma bagunça sangrenta Enquanto lutava, ele podia ver que seus arredores tinham um tom roxo, mas ele não se preocupou com isso.

Para piorar sua situação, os cães não usavam só os dentes e unhas como ferramentas de ataque. Os ossos visíveis, em forma de rosto, em suas costelas também podiam ser usados para isso. Os mutantes nem precisavam morder para ferir Lucas, apenas passar perto por sua lateral garantia que esses ossos o cortassem, arrancando boa parte de carne.

Em míseros dez segundos do começo da batalha ele já estava nesse estado, e apenas três de seus golpes foram fatais. Portanto, sua luta agora era contra dez cachorros, mas claramente ele não sobreviveria se a situação continuasse a mesma.

O pior de tudo era o tempo. Se fosse algum outro mutante que não tivesse uma regeneração rápida como ele, já teria morrido há muito tempo. No entanto, a cada perda de carne, outro lugar de seu corpo se regenera, apenas para que em alguns instantes depois fosse novamente dilacerado, esse ciclo parecia infinito. Sua mente estava quase entrando em colapso com tantos sinais de dor enviados ao cérebro.

Por sorte, sob o estado de aprimoramento da mente ao aumentar o fluxo sanguíneo, ele ainda podia pensar quase claramente e entender o estado que estava. Ele sabia que morreria se continuasse assim e mesmo já tendo absorvido todo o sangue da rua, não era suficiente para igualar a taxa de ferimentos. Sua mente também estava se cansando, parecia que sua ‘energia mental’ usada para controlar sua mutação estava acabando.

Nesse momento, uma abertura surgiu, ele se concentrou e pulou o mais longe que podia para o lado. Seu pulo o levou a cerca de sete metros do cachorro mais próximo e 9 metros de onde originalmente estava. Essa distância o permitiu ver o estado de seu corpo; sua visão o assustou.

Não havia mais pele ou roupa, suas costelas, coluna vertebral e qualquer outro osso estava à mostra. Ele podia ver seu coração e pulmões funcionando! Seu estômago já havia desaparecido a muito tempo, suas pernas possuíam apenas os ossos e poucos músculos, a única explicação de como ele ainda estava vivo era sua mutação.

No entanto, isso não foi o que mais lhe surpreendeu. Qualquer sangue humano conhecido é vermelho, não há variantes. Mas o sangue visto por Lucas agora, não era escarlate puro, havia uma coloração arroxeada misturada com tons escuros. Seu cheiro e aparência era muito parecido com o cheiro da cobra mutante que ele lutou recentemente.

Seja por sorte ou pela sua insistência em viver, Lucas se lembrou de algo ao ver seu próprio sangue. Ele nunca tentou manipulá-lo! Naquela pequena fração de segundo, ele juntou todo nome depravado que conhecia e se xingou mentalmente.

Sua próxima ação foi reunir toda e qualquer energia restante para absorver seu sangue e envolver-se com ele. Quando fez isso, percebeu que controlar todo aquele líquido roxo era muito mais simples e intuitivo do que controlar sangue estrangeiro. Rapidamente, todo aquele líquido perdido na batalha convergiu a Lucas, e dessa vez algo inédito ocorreu.

O líquido se reuniu sobre todo seu corpo, formando uma figura humanoide totalmente envolta de sangue roxo. Seus órgãos se regeneraram a uma velocidade insana, muito mais rápido que antes. Não havia palavras para definir corretamente o que Lucas estava sentindo. Era uma mistura de agonia, tortura, satisfação e relaxamento.

Sentir seus órgãos sendo regenerados era delicioso, mas sentir cada fibra se curando a uma velocidade extrema era agoniante, como se milhões de formigas o devorassem.

Os mutantes que viram aquela cena pararam. Ao de repente sentir uma pressão forte vinda de uma presa que originalmente já deveria estar morta, não foi relaxante. Os dez cães mutantes restantes hesitaram em atacar. A forma de Lucas agora era muito estranha, seu sangue o envolvia totalmente e sua superfície era cheia de ondulações. Era visualmente um manequim feito de água roxa.

Apesar de estar experimentando uma miríade de sensações, o jovem não esqueceu de seu objetivo. Ele tinha que sobreviver agora, continuar a vida que seu pai deixou e se houvesse um céu onde ele o via, mostrar para Ferdinando que ele não desperdiçou sua vida.

Os mutantes perceberam que sua caça não fez nada, como se estivesse perdido. Nesse momento, um uivo alto soou atrás da matilha. Ao ouvir esse som, os cães, como se tivessem treinado antes, posicionaram-se em algo parecido com uma formação de batalha. Dos dez cachorros presentes, três ficaram na frente assumindo a liderança, cinco rodearam Lucas para tentar cercá-lo e os últimos dois, que estavam mais feridos, recuaram e ficaram atrás dos três líderes, com a formação completa eles atacaram.

Lamentavelmente, para os mutantes, a formação não durou mais de dois segundos intacta, pois um dos três líderes de repente caiu no chão. Em sua cabeça um furo de aproximadamente 3cm de diâmetro. O incrível era que os cães não pararam, mesmo vendo um de seus líderes morrer, seu ataque continuou sem problema.

Quando Lucas viu a matilha não interromper o ímpeto, entendeu que a luta estava apenas começando, pois percebeu que o grupo estava sendo controlado por quem ou o que uivou antes. Portanto, decidiu terminar a luta o mais rápido possível, para ter energia suficiente quando fosse lutar contra os dez cães mutantes que estavam escondidos.

Ele segurou suas facas e se concentrou, fazendo o sangue roxo envolver as facas e seu comprimento aumentar. Seu comprimento aumentou para um metro na faca maior e meio metro a faca menor. Por ter o sangue envolvendo seu corpo, não havia rosto em sua figura, havia apenas dois buracos na parte superior da face que davam aos olhos visibilidade e por aqueles olhos, uma luz vermelha e branca saiu, e por baixo dessa ‘máscara’ um sorriso estava presente.

A figura roxa correu, avançou nos cães mutantes sem piedade. Seu primeiro alvo foi um dos dois líderes restantes. Ele se inclinou para baixo e posicionou sua faca maior na vertical enquanto a menor ficou fixada na sua lateral com o propósito de defesa. Sua velocidade agora era imensamente maior do que antes, se ele quisesse, poderia fugir sem se preocupar com os cães. Só não fez isso porque não conhecia os outros dez espécimes escondidos.

Seu cérebro também teve um aprimoramento gigante, Lucas podia ver tudo muito mais lento novamente e não perdeu a oportunidade. Ao chegar a menos de um metro do seu alvo, ele cortou com sua faca, que agora era melhor chamar de espada. Seu corte desceu diagonalmente de forma limpa e suave, como uma faca quente na manteiga, ele não sentiu nenhuma obstrução no golpe.

Enquanto partia um dos líderes ao meio, o resto da matilha não ficou parada e pulou na figura humanoide sem hesitação. Seus dentes morderam os braços, pernas e torso de Lucas, mas o resultado não foi o esperado. Em vez de morder e arrancar pedaços de carne, os cães mutantes soltaram rapidamente e choraram de dor.

Foram cinco mutantes que o morderam ao mesmo tempo e eles quase imediatamente largaram sua presa. Seu choro era insuportável aos ouvidos e assustou os outros que ainda tinham de atacar a figura roxa. Tanto Lucas quanto os mutantes observaram aqueles cinco cães uivarem de dor, parecendo ser a maior dor já sentida. Seus dentes começaram a se dissolver a uma velocidade visível a olho nu!

Toda a região bucal começou a virar um líquido formado por uma mistura de osso e carne, sinais de fumaça também saíram de cada mutante afetado pelo sangue.

Lucas se surpreendeu, mas não perdeu tempo e usou essa brecha para atacar os outros cães. Sua decisão acabou por estar correta, mesmo com o uivo comandando a matilha, eles ficaram parados ao ver tanta dor e sofrimento de seus companheiros, seus gritos de agonia foram demais mesmo para essas criaturas irracionais.

As espadas da figura roxa cortaram todos os quatro mutantes restantes facilmente. Sua velocidade junto com o estupor dos cães, colaboraram para uma matança fácil, apenas os cinco que sofreram com o sangue ácido demoraram um pouco mais para morrer. Logo todos os 13 cachorros mutantes visíveis morreram e o jovem finalmente teve algum tempo para respirar.

No entanto, seu tempo de descanso ainda não tinha chegado. Segundo seus sentidos com o [Intuição do Sangue], os outros dez mutantes escondidos ainda estavam ao redor.

Aviso do Autor:

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