Capítulo 36 – Minas

Tales of Blood

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Minas


Voltando no tempo, quase 24 horas antes do treinamento de Lucas e Asa, uma equipe de 5 homens e 2 mulheres estavam caminhando tranquilamente por uma planície devastada, que antes era usada como área de cultivo de vegetais, o sol, já escaldante, dificultava a expedição do grupo, mas ninguém parecia se importar. Dois desses homens eram mutantes deformados, um deles tinha apenas metade da cabeça presa ao pescoço, de seu nariz pra cima nada existia, sua aparência lembrava muito bem as estátuas gregas antigas. Sua pele também era única, tinha um tom marrom escuro cheio de rachaduras por todo lugar, atenuando sua aparência ímpar. O outro mutante deformado era mais ‘comum’, sua mutação afeta apenas suas mãos, elas perderam todas as características humanas, não havia mais dedos nem pele humana visíveis, tudo foi substituído ou ocultado por pêlos brancos e brilhantes, não era possível ver o que havia por baixo desses pêlos.

Essa era uma das duas únicas equipes de exploração que o acampamento liderado por Felipe possuía. Das sete pessoas na equipe, três ainda estavam em treinamento, sendo as duas mulheres e um homem não deformado. Essa era a primeira vez desses recrutas fora do acampamento, portanto a missão deles era simples, tinha apenas que explorar essa planície normalmente, ver se havia sobreviventes, se a terra ainda era boa para plantio e etc. Eles conversavam e trocavam ideias uns com os outros totalmente relaxados, infelizmente isso não durou muito tempo.

Andando pelo campo parcialmente destruído, o líder do grupo, Luciano, que não era nem gordo ou magro, moreno e usava um bastão como arma, de repente notou uma peculiaridade do terreno. A terra ao seu redor era amarelada como um todo, e as palhas secas acentuavam essa cor, porém, a alguns metros de distância, uma mancha negra com uma área de uns 10m² causava um grande contraste no terreno, sendo facilmente detectada.

“Parou a conversa! Olhem lá na frente, tem algo estranho, preparem-se.” Assim, ele decidiu averiguar o motivo da coloração diferente no terreno.

O grupo obedeceu ao comando e todos olharam para o terreno, os recrutas ficaram muito nervosos, afinal, na sua primeira missão de campo algo estranho apareceu, cabendo a eles analisar.

“Fred, você sente algo?” Luciano perguntou ao mutante de mãos peludas, que por sua vez, mesmo hesitante, apontou os dois braços para a área negra à frente, fechou os olhos e esperou sua mutação agir. Alguns segundos depois, seus pelos brancos enrijeceram, ficando duros e afiados. Para Fred, sua consciência recebeu várias informações sobre o ambiente, a maioria inúteis, entretanto ele também soube parte da situação naquela área negra.

“Senhor, só entendi parte do que aconteceu lá, parece que há algo muito errado com o terreno. Eu não consegui sentir muito, mas tenho certeza que tem algo muito grande abaixo do solo.” Ele respondeu com hesitação, apesar de garantir a presença de algo enorme.

Luciano tocou seu queixo, ele tinha que decidir se exploraria o terreno ou não, afinal, havia 3 recrutas na equipe e era a primeira missão deles. Havia muita responsabilidade em seus ombros, cada baixa na equipe seria sua culpa, então ele teve que tratar o assunto com seriedade.

Enquanto ele estava em profundo pensamento, um dos dois outros mutantes não deformados e experientes, chegou perto e disse algumas palavras no seu ouvido. Após ouvir a sugestão atentamente, ele decidiu.

“Fiquem atentos! Vamos ver o que tem lá.” Com uma voz autoritária, ele decidiu a próxima missão da equipe.

O grupo então seguiu em frente, indo na direção da mancha escura. Os três recrutas estavam muito tensos, mas seus veteranos disseram algumas frases motivadoras e diminuíram a tensão. Assim, eles se aproximaram do terrenho negro e ao verem mais de perto, notaram que havia grama preta crescendo e mesmo tendo essa cor, todos podiam ver que estava cheia de vitalidade. Isso era assustador, toda a área ao redor estava devastada pela guerra, no máximo apenas algumas ervas daninhas e cactos esparsos sobreviveram, porém, lá estava uma mancha negra nesta terra árida, quebrando totalmente a harmonia existente.

“Bem, a explicação mais óbvia para isso deve estar abaixo da terra, assim como Fred disse, mas vamos ver se encontramos algo antes de começarmos a cavar.” Luciano ordenou, ele e seu grupo começaram a verificar o terreno em busca de uma explicação plausível para esse evento incomum, mas mesmo após alguns minutos de busca nada ao redor parecia ser a explicação, sendo assim começaram a escavação.

Dos 7 presentes, apenas 3 tinham mutações que permitiam escavar mais rápido o terreno, enquanto os outros tinham que usar suas mãos ou pedras que havia ao redor. Evidentemente, cavar aquela área não foi fácil, mesmo com 7 pessoas e 3 delas usando sua mutação para acelerar o processo, 4 horas tiveram que se passar para que o primeiro sinal do motivo da anormalidade do terreno aparecesse.

Luiza, uma das recrutas, foi quem achou a primeira evidência, ela usava suas próprias mãos para cavar, já que sua mutação não a ajudava nesse assunto e não havia objetos ao redor para lhe ajudar. Ela conseguiu cavar uma área de 30 cm²  com profundidade de 1 metro nessas quatro horas quando de repente suas unhas tocaram em algo duro e liso.

Seu primeiro pensamento foi que uma pedra a estava impedindo de continuar, mas após tentar controlá-la para a puxar, ela viu que o problema não era isso. 

“Luciano! Aqui!” Imediatamente, ela chamou o líder da equipe para averiguar o assunto, ele era um dos que podia usar sua mutação para a escavação. Ouvindo o chamado e escutando Luiza, ele começou a cavar o dito local, para isso ele reativou sua mutação, seus braços começaram a se transformar a uma velocidade surpreendentemente rápida, passaram de mãos humanas para uma forma quadrada e achatada, assemelhando-se a uma pá feita de carne e osso.

Ele começou sua escavação, mas por mais forte que ele batia no chão, o material sólido não quebrava, nem Luciano achava suas bordas para tentar puxá-lo. Então, ele ordenou que todos o ajudassem a expandir o buraco cavado por Luiza. Assim, toda a área negra foi escavada até revelar todo o material resistente, o processo levou mais de 12 horas para ser concluído.

O resultado de suas ações os surpreenderam, não era uma pedra como pensavam, mas sim um cristal transparente com a superfície irregular, a distância para o nível do solo variava de acordo com o local, que em algumas partes apenas 30 centímetros eram suficientes para chegar à superfície, enquanto outros precisavam de metros, outra característica marcante era a refração da luz, que impedia ver o que havia do outro lado desse cristal. Mas, isso não tirou a determinação da equipe, seu líder prontamente disse:

“Vamos descansar, depois a gente quebra isso!”

Depois do descanso merecido após essas longas horas, eles retomaram sua tarefa de cavar e investigar o mineral. No entanto, a tarefa se provou muito mais difícil do que pensavam, mesmo depois de horas com todos se concentrando em quebrar ou pelo menos rachar um único metro quadrado, nem mesmo um arranhão foi deixado.

“Meu Deus! O que é isso?” Um dos homens do grupo perguntou.

“Eu não faço a minima ideia, mas se pudermos levar isso de volta, Jefferson vai ficar muito feliz.” Luciano respondeu.

Todo mundo já estava cansado, passaram horas a fio tentando quebrar esse cristal, mas não tiveram nenhum resultado favorável. Mas, inesperadamente, como se fosse um milagre, a situação mudou. Um dos mutantes deformados, num gesto de desistência, se sentou no cristal usando suas mãos como apoio, e nesse mesmo instante esse mineral ganhou propriedades líquidas, fazendo todos os presentes, que estavam em cima dele, afundarem, caindo diretamente em suas entranhas, não só eles afundaram, como também o teto desmoronou, deixando a passagem livre para entrar e sair.

O evento foi muito repentino e ninguém pôde fazer nada para pará-lo ou se preparar. A queda não durou muito, apenas 2 metros separavam o fundo do buraco da superfície. Ao cair no chão, ainda um pouco desorientado e confuso, Luciano prontamente olhou ao redor, procurou primeiro por qualquer coisa que apresentasse perigo. Entretanto, seus olhos estavam longe de encontrar algo hostil, na verdade seria difícil para ele ver outra coisa na sua vida que fosse tão belo quanto isso.

A caverna era escura, mal dava para ver suas entranhas, mas uma vista muito mais linda preencheu a visão de todos. Onde era para ser as paredes da caverna, pontos brilhantes de luz a cobriam, assemelhando-se ao céu estrelado. Nem o líder da equipe nem seu grupo se controlaram ao observar esse brilho, todos foram em direção a ele e os tocaram, seus próprios instintos e subconsciente ansiavam por isso, e finalmente, aprenderam sobre o que se tratava esse brilho, ou pelo menos parte do motivo.

O que parecia ser as estrelas na parede, era na verdade o reflexo da luz do sol vindo da entrada. Ao tocar na ‘parede’, o grupo percebeu que na verdade, se tratava de vários cristais grudados na parede, refletindo a luz, que dava a impressão de um céu estrelado. Todos esses cristais eram negros, possuindo uma superficie lisa que dava a eles uma aparencia muito similiar a cristais raros como jade e diamante não lapidados, sendo a única diferença a cor do mineral. Todavia, não foi apenas isso que eles descobriram após tocar a parede, no momento que seus dedos, ou pelos, entraram em contato com o mineral preto, suas consciências soavam um alarme, não era um de perigo, mas sim de euforia ou alegria.

Os olhos de cada um escureceram, porém, sua excitação não desapareceu, seus corpos começaram a tremer involuntariamente, seus músculos enrijeceram, parecia que todos sofreram paralisia. Felizmente, a sensação não durou muito, depois de alguns segundos o primeiro a soltar o cristal foi Marcos, o mutante deformado com apenas metade da cabeça presa ao pescoço e de pele marrom. Assim que ele soltou o cristal, suas pernas perderam a força, seus joelhos dobraram e seus braços amoleceram. Sem surpresas, seu corpo desabou no chão, e o cristal se soltou da parede, sua cor, antes preta, agora era desprovida de tonalidade, transformando-se num cristal totalmente transparente, muito parecido com um diamante.

Seguindo Marcos, Luciano foi o próximo, ele teve os mesmo efeitos colaterais do toque, a única diferença era que ele possuía olhos, que por sua vez, ao contrário do seu corpo sem forças, emitem uma luz de satisfação, excitação e euforia, como se um peso fosse tirado de suas costas depois de longos períodos. Um por um, todos caíram no chão e seus cristais, agora transparentes, se soltaram da parede, todos desse grupo de mutantes estavam cativados com o efeito ‘alucinante’ desse cristal.

Felizmente, essa sensação de fraqueza não durou muito, apenas alguns segundos depois seus corpos retomaram a energia que tinham e até mesmo ultrapassaram essa marca. Cada um se levantou e notou, com uma expressão confusa, mas feliz ao perceber a onda de energia que passava por seu corpo. Nenhum deles se sentiu tão forte e cheio de vitalidade como agora.

Infelizmente, não tiveram tempo para analisar os efeitos desse cristal desconhecido, pois cada um deles sentiu uma aura opressora vindo de fora da caverna. Luciano, como um bom líder de equipe, rapidamente tomou a vanguarda da situação e sem dizer uma palavra, correu na frente do grupo, indo em direção ao buraco de onde caíram e mesmo com a forte pressão vindo de fora, ele transformou seus braços em ganchos e pulou, prendendo-os firmemente no solo.

Ele saiu do buraco e finalmente pôde observar a fonte da forte pressão que sentia, e sua visão atendeu às expectativas geradas, visto que um grande grupo de porcos-espinhos mutantes estavam rodeando a entrada da mina de cristais.

Aviso do Autor:

Vento_Leste

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