Capítulo 37 – Fuga

Tales of Blood

Não carregou? Ative seu JavaScript
Atualizar

Fuga


Luciano olhou desesperadamente para os quase 40 porcos-espinhos na entrada da caverna. A coragem e determinação que ele recebeu antes foram todas por água abaixo, seria uma história diferente se fossem animais normais, porém, estes porcos-espinhos eram mutantes, mesmo que sua aparência no geral era quase a mesma, a diferença em suas proporções causavam temor até mesmo no líder mais corajoso.

Um porco-espinho normal tem de 20 a 40 centímetros de altura, pele marrom clara ou preta, e com espinhos pretos de 10 a 20 centímetros nas costas, fornecendo proteção e um modo de ataque. Já os animais na frente de Luciano eram muito mais assustadores. Sua altura aumentou para quase 1 metro, sua pele agora era amarelada e seus espinhos eram esparsos e maiores, chegando a meio metro cada. Seus olhos também se transformaram, agora emitem uma luz cinza que, à vista de Luciano, tinha um efeito hipnotizador. Em contrapartida, o líder do bando, que estava na vanguarda, tinha 1,5 metros de altura com seus maiores espinhos chegando a 1 metro.

“Aqui! Venham rápido!” Ele não hesitou em chamar seu grupo, pois estava confiante de que poderia superar esse desafio com a ajuda de sua equipe. Entretanto, não ficou parado esperando o socorro chegar, afinal, ele era o líder, cabe a ele tomar a iniciativa.

Assim, ele ativou sua mutação com o objetivo de transformar suas mãos numa forma parecida com uma espada, claro, ainda seria um braço feito de carne e osso, mas com a forma de uma lâmina. Porém, algo não estava normal, Luciano sentiu um leve formigamento por seu corpo, seu sangue fervia, ele pôde sentir uma energia avassaladora emergindo de suas células, entorpecendo seus sentidos por um curto momento, causando dormência em seus membros. 

No instante seguinte, essas sensações sumiram como se nunca existissem, permitindo que sua mente se focasse novamente na batalha que estava por vir. Desse modo, ele invocou novamente sua mutação, que o obedeceu imediatamente e revelou a consequência de suas sensações estranhas anteriores. Antes, seus braços tinham apenas sua estrutura óssea e músculos modificados, seus tecidos continuariam os mesmos, mas agora, sua pele recuou e seus ossos tomaram seu lugar, formando uma lâmina óssea em cada braço que refletia a luz do sol, a nitidez dessa lâmina, apesar de não se comparar com uma espada de metal, ainda era muito bem afiada. Além disso, ele percebeu que seus braços ficaram mais pesados, indicando que seus ossos tiveram um aumento da densidade, dando-lhe uma confiança ainda maior em seu combate à frente.

Luciano viu a nova transformaçao adiquirida por sua mutação e não pôde deixar de se perguntar o porquê, e seu primeiro instinto foi o cristal negro. Todavia, ele não teve tempo suficiente para pensar mais no assunto, pois um espinho preto gigante foi atirado na sua direção. O espinho voou muito rápido, o som agudo do ar abrindo espaço para sua passagem foi claramente ouvido, esse líder de equipe mal teve tempo para reagir, sua única ação permitida foi levantar ambos os braços, cruzando-os para proteger suas partes vitais.

Felizmente, para os porcos mutantes, o espinho furou diretamente os dois ossos de uma vez, parando a poucos centímetros do seu peito.

“Mas que porra!? Aaargh!” Apesar da dor, ele não gritou, sua voz foi abafada por sua aflição. A dor sentida foi imensa, dois de seus ossos foram perfurados ao mesmo tempo, algo que ele nunca sentiu antes. Seus olhos quase saltaram de suas órbitas, seus dentes pressionaram-se até quase se racharem, e seu suor escorria por todo o corpo, tamanha a dor sentida! Seus joelhos perderam forças, imediatamente o forçando a se ajoelhar.

Nesse momento, quase todos os outros integrantes de seu grupo chegaram, infelizmente a visão que eles receberam não foi nada agradável. Eles viram seu líder, a figura de quem deveriam seguir e buscar refúgio, ajoelhado no chão, lágrimas escorriam de seus olhos, seu rosto, contorcido pela dor, refletia o quão grande era seu sofrimento.

“Líder!” Luiza, a mutante que encontrou a barreira de cristal, gritou e correu em seu auxílio, ela nem notou os porcos mutantes de olhos cinzas ao redor. Desde quando essa equipe chegou à superfície, os porcos mutantes ficaram alertas. Não havia motivo para isso antes, afinal, eram dezenas deles contra 1 humano, sendo assim, seu líder tratou isso como uma diversão mesmo sendo animais irracionais. Assim, todos seguiram seus instintos e se preparam para uma verdadeira batalha quando viram mais humanos chegarem.

Desse modo, antes que Luiza pudesse sequer andar alguns metros, vários espinhos foram disparados em sua direção. Ela ainda teve tempo para perceber a ‘nuvem’ preta voando em sua direção, mas infelizmente para ela, não tinha reflexos ágeis como Luciano, nem sua mutação reagiu a tempo quando ela a ativou. No intante seguinte, seu corpo foi perfurado por varios ferrões negros, sangue jorrou por toda parte de seu corpo, não havia membro dele que não apresentasse um espeto gigante atravessando-o, por estar ainda próxima ao seu grupo, seu sangue espirrou neles, manchando-os e lhes causando terror..

Com um baque, seu corpo caiu no chão. Todos vendo isso ficaram paralisados, a vista era horrenda, não havia nenhum filme de terror que pudesse replicar a mesma experiência de ver aquele tipo de morte presencialmente, ainda mais com o sangue jorrando em seus rostos. Nenhum deles jamais observou tal cena, portanto, não sabiam o que fazer. Seu líder estava ajoelhado e chorando de dor, enquanto sua companheira parecia um cacto de carne caído no chão, e antes que pudessem voltar a si, outra nuvem de ferrões tomou conta de seu horizonte. O ataque anterior foi lançado por apenas alguns porcos, mas dessa vez todo o bando disparou no grupo.

Ao verem o ataque se aproximando, os mais experientes do grupo ativaram às pressas suas mutações, mas nada adiantou. Os espinhos cavaram fundo na carne de cada um, matando-os instantaneamente, além de finalizar Luciano, que nem havia se levantado. O líder do bando nem precisou participar da batalha, seu grupo poderia lidar com esse assunto por conta própria.

Alguns segundos antes, Fred, o mutante com pêlos nas mãos, sentiu sua mutação evoluir. Pêlos cresceram nos seus pés, rosto e peito, já os que estavam nas mãos aumentaram seu tamanho. Foi nesse momento que todos sentiram uma forte pressão vindo de fora da caverna, e Luciano correu para averiguar o assunto. No curto intervalo entre isso e o chamado de seu líder, todos os integrantes da equipe ganharam uma breve noção do ocorrido com sua mutação, porém, quem mais se beneficiou disso foi Fred, pois pôde ‘ver’ o que estava acontecendo do lado de fora.

‘Não… Droga! Tenho que sair!’ Esse foi seu primeiro pensamento ao detectar o massivo grupo de animais mutantes ao redor da entrada. Assim, seu primeiro instinto foi tentar achar uma saída, mas sua mutação, por meio de seus pêlos, o informou que a caverna não tinha uma segunda entrada por onde ele poderia sair, sua única opção estava à sua frente.

Por um breve momento, seu rosto se contorceu em desespero, ele podia sentir uma quantidade imensa de perigo vindo de fora, algo que tinha certeza de que não sobreviveria se enfrentasse. Exatamente quando suas esperanças pareciam acabar, Luciano chamou sua equipe.

‘Pode dar certo!’ Assim, ele viu uma luz no fim do túnel. Apenas quando todos subiram para a superfície, Fred deu seu primeiro passo, ele propositalmente ficou para trás e decidiu subir por último.

Depois de escalar a caverna e chegar à superfície, ele nem sequer olhou para os porcos mutantes, sua mutação já lhe deu todas as informações necessárias, perder tempo dando uma segunda olhada seria extremamente fatal. Assim, apenas ouviu o grito de Luiza e sua posterior morte, ele começou a correr imediatamente no sentido oposto dos porcos após chegar ao solo, o aprimoramento dado pelo cristal tornou seu corpo um pouco mais forte e rápido, permitindo que ele se afastasse mais de 10 metros nesses curtos instantes, mas mesmo com toda sua velocidade não conseguiu escapar dos sentidos dos porcos-espinhos.

O maior porco-espinho viu tudo acontecer, e quando viu que uma de suas presas estava tentando fugir, imediatamente ordenou com um rugido que seus sub-membros o perseguissem. O bando então começou a correr atrás de Fred, que não pensava em outra coisa a não ser fugir daquele lugar, e quando sentiu que aquela matilha de porcos mutantes estava perseguindo-o, seu coração parou por um instante, o medo, que já estava grande, atingiu alturas inimagináveis. Seu rosto contorcido estava à beira do colapso e lágrimas começaram a sair de seus olhos descontroladamente.

Por sorte, os porcos-espinhos mutantes não eram tão rápidos, mesmo com sua estatura melhorada pela mutação, eles não conseguiram alcançar sua presa, havia cerca de 20 metros separando-os. No entanto, o líder não desistiu e ordenou que todos de seu bando disparassem seus espinhos na presa fugitiva. Sem sombras de duvidas, eles obedeceram prontamente e atiraram seus ferrões negros para frente, nesse instante, o humano mutante à frente sentiu outra onda de perigo, sua mente, já instavel, quase desmoronou devido a isso.

Felizmente, para Fred, todos seus pelos se enrijeceram e enviaram informações de seu entorno para sua mente. Ele sentiu mais 60 ferrões pretos voando em sua direção, cobrindo quase todo o céu atrás dele. Entretanto, graças a sua mutação, ele pôde recuperar parte de seu autocontrole e posteriormente um fio de determinação foi emitido de seus olhos. Desse modo, ele atiçou ainda mais sua mutação, e o resultado obtido o surpreendeu naqueles curtos instantes, mesmo não podendo ver o que havia nas suas costas, seus pêlos cuidaram para que ele pudesse sentir tudo, ainda melhor do que seria se ele confiasse em sua visão. Cada espinho e cada besta mutante foram percebidos claramente em sua consciência, ele não desperdiçou essa vantagem.

Como uma chuva torrencial, os ferrões chegaram a sua posição rapidamente, mas o que os porcos não esperavam era que sua presa desviasse de cada espinho, seus movimentos não eram bonitos de se ver, mas cumpriram com seu objetivo. Mesmo correndo a uma alta velocidade, nenhum espinho foi capaz de atingi-lo, Fred sentiu a posição de cada um com uma extrema precisão, tornando quase impossível que algo escapasse de sua percepção; já que as bestas diminuem sua velocidade para lançar o ataque, a distância entre eles aumentou.

Quando o líder do bando viu isso, sua raiva se intensificou, como se já não bastasse que sua presa tentasse fugir, seus subalternos não conseguiram nem machucá-lo, permitindo que ela escapasse. Portanto, ele mesmo decidiu agir e usou seu maior espinho como arma. Ele desacelerou um pouco sua velocidade e mirou na sua presa com pêlos, disparando o ferrão com extrema precisão. O ferrão de quase 1 metro de comprimento dividiu o ar durante seu voo, o som causado poderia ser ouvido a dezenas de metros, sua velocidade era surpreendente.

Claro, Fred não deixou de perceber isso, seus sentidos gritaram ainda mais alto, ele sabia que morreria se aquilo o acertasse, ainda mais sabendo que a velocidade do ataque era muito rápida, ele mal podia senti-lo se aproximando. Desse modo, sua única e alcançável ação foi se mover para a direita, esperando que o ataque o errasse. O ferrão então chegou na sua posição e dessa vez não deixou de acertá-lo, mas graças aos seus reflexos rápidos, o espinho só atingiu seu ombro esquerdo, decepando instantaneamente seu braço

O impacto foi tão grande que fez Fred dar duas cambalhotas no chão, enchendo sua boca de terra, mas por sorte, ou melhor, devido a inércia, mesmo com suas piruetas ele conseguiu retomar seu equilíbrio e continuar sua fuga, a força do impacto se dispersou exatamente quando seus pés tocaram o chão. Apesar de que a situação de sua fuga agora fosse muito melhor, seu corpo clamava para desistir.

Fred estava a beira do desmaio devido a imensidão de sua dor, ele acabou de perder um braço, o sangue jorrava como uma cachoeira de seu ombro. Ele nunca havia sentido tal dor antes, seu semblante estava deformado num ponto em que era impossível reconhecê-lo, porém, ele não parou de correr, seguiu apenas seus instintos de sobrevivência, obrigando-o a correr o mais rápido possível por sua vida. Assim, com um rugido raivoso, o porco-espinho líder observou sua presa fugir, nada podendo fazer para impedi-la.

Aviso do Autor:

Vento_Leste

Vento_Leste

Chave Pix copiada!
Rolar para o topo