Capítulo 38 – Decisão

Tales of Blood

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Decisão


“Opa! Eae mano! Tudo bom?” Um homem com algumas características répteis em seu torso, levantou o braço e acenou para alguém à sua frente.

“Eae cara! Já tá na hora da troca de turno?” Respondeu outro homem, este por sua vez não apresentava nenhuma mutação visível.

Os dois trocaram algumas palavras antes de ambos notarem uma figura humana andando lentamente em sua direção. Os dois guardas já haviam sido orientados sobre o que fazer caso um sobrevivente chegasse aos portões, então apesar da troca de turno, os dois permaneceram lá para receber esse novo integrante.

Entretanto, não ficaram parados por muito tempo, pois logo perceberam que havia algo errado com esse sobrevivente.

“Ei, olha! Ele tem só um braço?” Perguntou o mutante deformado.

“Não é só isso! Ele mal está andando! Vamos, ele pode estar ferido!” Depois dessas palavras, eles correram em socorro ao sobrevivente à distância.

Quase uma hora depois, numa sala de enfermaria, Asa e Roberto estavam de frente para um mutante acamado. Ele não apresentava muitos ferimentos, mas o único que ele tinha já era suficiente para tomar sua vida se não fosse tratado corretamente, todo seu torso estava enfaixado, seu braço direito estava longe de ser visto e sua pele, apesar de apresentar muitos pêlos, estava muito pálida. Esse mutante era Fred, ele levou muito tempo para retornar a base, e a condição de seu corpo piorou sua jornada à base, a perda de sangue foi imensa, ele até tentou parar o sangue com o que sobrou de suas roupas, mas não deu certo e logo não teve mais forças para pressionar o ferimento e impedir a vazão do sangue.

Por fim, depois de finalmente chegar ao assentamento ele recebeu os cuidados de Morgana, que prontamente usou sua gosma vermelha e seus galhos para tratar o ferimento. No entanto, Fred, por escolha própria, não teve muito tempo de descanso, ele fez um excelente papel como membro da equipe de exploração, pois mesmo estando nesse estado quase fatal, pediu que chamassem Asa ou Roberto imediatamente após recobrar alguma força, resumindo previamente os acontecimentos para que ambos chegassem o mais rápido possível após receber a mensagem.

Assim, os dois treinadores entraram no quarto ao mesmo tempo, atordoados e preocupados com a situação, tanto de Fred quanto com o resto da equipe.

Roberto não suprimiu sua ansiedade e curiosidade, perguntando apressadamente:

“O que aconteceu? Como você se machucou tanto? E onde está o resto da equipe?” Seu semblante irradiava profundo arrependimento e preocupação. Afinal, ele costumava ir explorar com as equipes, poucas vezes ele não ia, e dessa vez, uma dessas raras situações, aconteceu essa tragédia, e apesar de não saber o estado dos outros do grupo, só por ver o estado de Fred ele já tinha largado suas esperanças de que tinham sobrevivido.

Asa colocou a mão no ombro de seu amigo e disse baixinho no seu ouvido:

“Calma, lembre-se que o que ele está passando é muito pior do que você está, temos que ser o apoio que ele precisa agora.”

Roberto se acalmou um pouco ao ouvir essas palavras e tentou ser essa fonte de consolo e apoio para Fred.

Fred se assustou um pouco com a enxurrada de perguntas e mesmo muito ferido, fez seu melhor para relatar a situação o mais claro possível.

“S-Senhor, estávamos explorando normalmente, então vimos uma área preta no solo-” Sua voz estava fraca e devido aos ferimentos, não conseguiu terminar a frase.

“Calma, calma, não se apresse, fale no seu tempo, estamos aqui pra te ajudar.” Asa, como sempre um bom orador, contornou a situação e acalmou Fred.

Para comprovar sua fala, Asa puxou uma cadeira para ele e Roberto, e com ambos sentados, esperaram que o mutante recuperasse suas forças.

Depois de alguns segundos, Fred retomou sua história, mas dessa vez com mais calma, o que facilitou o relato de mais detalhes.

“A gente estava patrulhando a área como de costume, mas então Luciano viu uma terra negra na frente. Eu usei meus pêlos para ver se tinha algo lá, eu só senti uma coisa grande, não sabia explicar direito… A gente começou a escavar o local e só depois de muito tempo que algo apareceu. Havia uma espécie de cristal gigante muito duro que nos impediu de continuar cavando, mesmo depois de muitos minutos tentando, nem mesmo um arranhão tinha naquilo… Mas, do nada o cristal desapareceu, e todos nós caímos, eu me senti como se estivesse afundando na água.” 

Os treinadores ouviram tudo com a máxima atenção, e quanto mais ouviam, maior era seu espanto. Suas expressões lutaram para não transparecer seus sentimentos, mas não havia como evitar. 

‘Será?’ Tanto Asa quanto Roberto tinham a mesma dúvida, um dos objetivos da equipe de exploração era achar certos itens muito importantes e a história de Fred até o momento os fizeram ter esperanças nesses itens.

Fred continuou a explicação:

“Quando a gente caiu, eu vi que caímos numa caverna grande… Tinha uns cristais pretos nas paredes, eram muito bonitos. Eu nem sei o que deu em mim, só tive vontade de ir lá e pegar aquilo com minhas mãos e realmente eu fui, não foi só eu, todo o grupo também fez isso!… Olha, quando eu toquei, eu senti como se estivesse nas estrelas, mas de repente voltei ao normal e foi quando tudo começou a piorar…” Sua voz enfraqueceu nessa última parte, foi extremamente doloroso começar a contar o que ocorreu a partir desse momento.

Roberto e Asa arregalaram os olhos cada vez mais ao ouvirem a historia, todas suas duvidas se dissiparam quando Fred mencionou os cristais negros. Euforia poderia ser vista nesses dois pares de olhos fixos no mutante acamado. Mas, de repente notaram algo que haviam despercebido à princípio no relato.

“Você disse caverna?” Nem mesmo Asa controlou sua inquietação e perguntou apressadamente. Uma caverna cheia de cristais negros… nunca passou por sua cabeça que algo assim pudesse existir.

“Sim, uma caverna.” Fred não entendeu muito bem o por quê essa pressa, mas ainda respondeu com sua voz fraca.

“Você sabe quantos metros tinha?” Roberto finalmente percebeu a nuance da questão e também se juntou ao questionamento.

“Uns 10 metros, eu acho…” Fred respondeu.

Os treinadores estavam com seus olhos esbugalhados e pasmos, confusão e alegria enchiam seus corpos e até mesmo suas mãos começaram a tremer, eles não sabiam como reagir a essa situação. Eles encontraram no máximo 2 a 5 cristais até esse momento e ficaram chocados com seus efeitos, tornando-os alvos de suas explorações. Assim, ouvir que há uma caverna cheia desse mineral fez com que suas mentes quase explodissem.

Porém, essa alegria não durou muito, pois Fred, que não entendeu a situação, continuou a narrar os acontecimentos.

“Logo depois de soltarmos os cristais, não sei explicar muito bem, mas uma espécie de pressão ou sentimento apareceu… Era muito forte e me deu muito medo, meus pêlos se ativaram sozinhos e eu finalmente vi o que estava lá fora… Tinha cerca de 30 animais mutantes do lado de fora da caverna…” Fred continuou a relatar o ocorrido, desde seu plano para sair da caverna até a perda de seu braço, e cada vez mais a alegria dos treinadores se dissipava.

Antes, quando receberam um pequeno resumo, pensavam que seria apenas uma situação de resgate, Asa até mesmo chamou Lucas para participar, já que confiava em suas habilidades. No entanto, depois de ouvir a terrível morte de Luiza e o estado de Luciano, ele tinha certeza que o resto do grupo estava morto. Roberto também perdeu sua animação de antes, após saber tudo isso, pesou os prós e contras, chegando à conclusão de que não valia a pena o esforço que teriam de fazer para chegar aos cristais.

No lado de fora do quarto, uma mulher negra com algumas raízes saindo de suas mãos estava usando seu ombro como apoio para se encostar na parede. Essa mulher era Morgana, a médica chefe e quem atendeu Ruby quando se machucou na luta com Lucas. A médica tinha um brilho afiado nos olhos, até mesmo uma lasca de loucura podia ser vista neles.

‘É isso! Não posso perder!’ Com esses pensamentos, ela saiu correndo apressadamente, se dirigindo a um local desconhecido.

Os dois treinadores saíram do quarto com suas cabeças baixas, sabiam que voltar era, além de perigoso, uma perda de tempo.

“Mesmo que a gente vá, é muito improvável que eles ainda estejam vivos, ainda mais com aqueles animais transformados ao redor.” Asa comentou desamparadamente.

“Sim, e é o mesmo com os cristais, como vamos chegar lá com todos eles protegendo a mina? O pior é se eles comerem os cristais, definitivamente não temos nenhuma chance.” Roberto complementou.

Nesse momento, uma menininha de no máximo 9 anos chegou até eles, ela carregava em suas mãos uma cesta de palha, na qual algumas frutas estavam à vista. Ela possuía alguns traços deformados, sendo o mais aparente seu cabelo, que em vez de fios de cabelos com composição normal, eram constituídos de um líquido azul claro. Visualmente, seu cabelo era feito de água.

“Tios, vocês querem uma fruta? Acabei de pegar essas.” Ela ofereceu as frutas com o rosto mais amável e com os olhos mais fofos do mundo.

Os dois homens, apesar de estarem tensos e num momento crítico para a tomada de decisões, aceitaram as frutas, simplesmente não havia como negar isso àquela criança.

Portanto, Asa e Roberto pegaram respectivamente uma maçã e uma pera. A menina esbanjou um grande sorriso encantador no rosto depois que viu suas frutas serem apreciadas e rapidamente correu para continuar oferecendo suas frutas para outros.

Os dois homens voltaram a discutir após comer suas frutas.

“Pensando bem, acho que temos alguma chance, afinal temos muitos mutantes aqui, e mesmo que eles não sejam bons lutadores, podemos compensar com a quantidade. O que acha?” O homem de mãos negras, Roberto, perguntou.

“Concordo, vamos encontrar os 20 melhores daqui e partir. Eu já falei com o novo recruta do sangue, ele já está se preparando.” Asa complementou e ambos chegaram a um consenso.

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