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Eram por volta das 13:30, o sol castigava o solo com os seus raios calorosos, fritando todos embaixo. O grupo caminhava por uma rota estreita no meio da mata, rodeados por imensas árvores que cobriam parcialmente a luz do sol. O chão coberto por folhagens dava sinal de que aquela rota não era usada há muito tempo. Vanessa ia na frente, guiando o resto do grupo, sendo Vidal o último na fila.

A barriga de Vidal não parava de roncar. Ele não tinha comido nada desde o café da manhã, que fora apenas uma xícara de café e ovos com pão. Ele ficava a queixar-se do calor infernal e dos mosquitos que o devoravam vivo.

— Ei, você tem algum doce ou algo do tipo? — perguntou Vidal.

— Shiu! — chiou Vanessa com o dedo indicador em sua boca. — Já estamos chegando, falem baixo.

— Certo, certo, foi mal — cochichou Vidal. 

Aline pôs as mãos nos bolsos, como se estivesse xeretando atrás de algo, tirando uma balinha de iogurte logo em seguida e entregando a Vidal, que agradeceu:

— Valeu, isso já serve para enganar um pouco a fome — agradeceu Vidal.

— De nada — disse Aline baixinho. — Há quanto tempo você trabalha com o Poti?

— Humm… — disse Vidal, fazendo um cálculo rápido com os dedos. — Se eu não estou enganado, vai fazer sete meses na próxima semana.

— Eu também entrei para os Vigilantes esse ano. Me formei no final do ano passado e desde então estou trabalhando com o Maycon.

Vanessa parou abruptamente, fazendo um gesto para os dois atrás dela agacharem, o que fizeram de imediato, sem hesitar. Por alguns segundos o grupo ficou em total silêncio, apenas se escutava o canto dos pássaros ao fundo. 

— Algum problema? — indagou Aline.

— Eu acho que escutei alguma coisa… parecia ser duas pessoas conversando — respondeu Vanessa, agachada atrás de uma árvore ao lado da trilha.

— Era apenas eu e a Aline conversando… 

— Além de você dois, burro — disse Vanessa, interrompendo Vidal. — Eu escutei dois homens conversando, tenho certeza.

“Ela me chamou de quê?” pensou Vidal, surpreso com a ofensa gratuita.

— Sim, verdade. Parece que estão discutindo sobre alguma coisa — salientou Aline.

— A-agora que você disse, eu também estou escutando — gaguejou Vidal.

“Merda, eu não escutei porra nenhuma. Como elas estão ouvindo os dois caras nessa distância. Será que sou eu que estou ficando mouco? Bem que eu devia parar de escutar música no volume máximo.” pensou Vidal com uma cara de paisagem.

— A uiraçu não consegue ver nada de cima, as árvores bloqueiam a visão. Vou ter que usar outro meio para investigar a área — disse Aline.

Ao ver várias formigas caminhando em fila indiana do seu lado, Aline agarrou uma delas, que carregava um grande pedaço de folha comparado ao seu tamanho minúsculo. Ela aproximou a formiga da sua boca e cochichou algo muito baixinho, sendo impossível para Vidal entender o que ela disse. Após fazer isso, Aline colocou delicadamente a formiga de volta no chão. 

— Foi mal pela ignorância, mas o que você acabou de fazer? — perguntou Vidal.

— Eu convenci a formiga a nos ajudar — disse Aline, sem mudar sua expressão séria.

— Huh? Como assim? — perguntou Vidal, aumentando o tom de voz.

Vanessa chamou a atenção de Vidal, dando um cascudo em sua cabeça antes de mandá-lo abaixar o tom de voz.

— Como você fez aquilo? — perguntou Vidal novamente, enquanto passava a mão no local onde levará o cocorote.

— Eu posso conversar com os animais telepaticamente. Uso isso para convencê-los a me ajudar de alguma forma. Geralmente eles pedem algo em troca, mas sempre são coisas simples como comida. A formiga, por exemplo: pediu um cubo de açúcar para sua colônia, em troca ela vai investigar o galpão para nós.

— Uau! Isso é do caralho. Um poder muito útil. — Vidal se mostrou surpreso com a habilidade de Aline.

Sua admiração por ela, que já era consideravelmente alta pelo seu jeito meigo e beleza exuberante, aumentou ainda mais.

Era raro encontrar mulheres que exerciam a profissão de vigilante, um trabalho considerado extremamente perigoso e era exercido, em maioria esmagadora, por homens. Não é como se fosse raro ter mulheres com habilidades sobre-humanas ao redor do mundo, mas a maioria preferia seguir uma vida normal ao invés de entrar para a organização. 

Os três permaneceram em silêncio, Aline estava com os olhos fechados, profundamente concentrada em manter contato telepático com a formiga, que se aproximava cada vez mais do covil. O galpão se encontrava apenas a alguns metros de onde o grupo estava. Não demorou muito para a formiga chegar na frente do local, que estava tomado pela vegetação.

— Parece que o portão principal está trancado — disse Aline, com as mãos na testa. 

— Talvez nos fundos tenha uma saída, tente dar uma olhada — disse Vidal.

A formiga dirigiu-se para os fundos do galpão, encontrando uma porta de metal semi aberta. 

— Achei uma entrada. Vou pedir para ela dar uma olhada lá dentro, para termos uma melhor ideia do que nos espera — disse Aline, ficando em silêncio logo em seguida.

Ela começou a fazer gestos de negação com a cabeça. Vidal logo percebeu que algo tinha dado errado.

— O que aconteceu? — perguntou Vidal baixinho.

— Ela se recusa a entrar no esconderijo. Disse que é arriscado demais e que não vale um bloco de açúcar — respondeu Aline frustrada.

— Agora deu o caralho. Formiguinha exigente da porra. Faz o seguinte: oferece mais um bloco de açúcar para ela. Pode deixar que é por minha conta — ofereceu Vidal.

— Três blocos de açúcar — respondeu Aline após alguns segundos em silêncio. — Ela está exigindo mais três blocos para entrar no galpão.

— Tá, que seja. Se ela quiser, eu arrumo um caminhão cheio de açúcar para ela.

Após mais alguns segundos de negociação, o inseto aceitou a proposta, entrando no esconderijo. 

— É um ambiente mal iluminado, não dá para ver o que tem nos cantos. O chão está coberto por seringas e ampolas, completamente imundas. Nenhum sinal dos suspeitos — descrevia Aline. — Tem um buraco no teto, bastante grande, duas pessoas podiam passar por ele com facilidade, é a única saída possível além das outras duas entradas. 

— Perfeito, já pode chamar ela de volta — disse Vidal, tirando o excesso suor da cara. — Vou usar o meu poder para bloquear o portão principal. Se esses caras ainda estiverem lá, a única saída deles será pela porta dos fundos, onde eu vou estar esperando eles. O plano infalível. 

— E o buraco no teto? — indagou Aline.

— O que tem ele? — disse Vidal, levantando-se.

O vigilante já estava alongando-se, se preparando para a ação, quando Aline gemeu de dor, tirando as mãos de sua testa.

— A formiga… eles a mataram — disse Aline com os olhos lacrimejando.

— Droga! Eles nos descobriram. Vamos recuar, é a melhor decisão agora — comentou Vidal, tirando o bastão preso em suas costas.

— Não! Não precisa — disse Aline, respirando fundo.

Ao entrar em contato telecinético com um animal, Aline podia sentir todos os seus sentimentos, suas dores, tristezas e felicidades, tudo. Nos últimos segundos daquele inseto, Aline sentiu todo o seu desespero e agonia enquanto era esmagada pela bota de um dos suspeitos.

— Eles não nos perceberam. Apenas mataram-na por coincidência — explicou Aline, enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto.

— Tem certeza? Não podemos arriscar atacar sem o fator surpresa. Não temos ideia do que esses caras são capazes — disse Vidal, claramente preocupado com a situação. A mão que segurava o bastão tremia sem parar.

— Eu tenho, confie em mim. Vamos seguir com o plano — disse Aline, dando tapinhas no ombro de Vidal.

— Certo, vamos — disse Vidal, assentindo com a cabeça.

De cócoras, Vidal seguiu em direção ao galpão, abrindo caminho pela mata usando o seu bastão. Decidiu que seria mais seguro ir ao local por uma rota alternativa, prevendo uma suposta armadilha na trilha em que o grupo seguia.

Todo o seu corpo estava ensopado de suor. O bafo escaldante da floresta propagava-se pelo seu corpo, assando-o feito um frango no espeto.

Ao chegar na frente do galpão, Vidal seguiu o caminho até a porta dos fundos, andando a passos curtos e com o ombro encostado na parede descascada da construção.

Durante o pequeno percurso, que não parecia não acabar, Vidal tomava cuidado com cada passo, atento para não pisar em falso em algum graveto que pudesse revelar sua presença aos inimigos. Quando já estava ao lado da porta semi-aberta, Vidal virou um pouco a cabeça, olhando pela pequena fresta da porta, vendo o galpão por dentro. 

Era exatamente como Aline descreveu, sem tirar nem pôr. Ele deu uma rápida olhada atrás dos suspeitos, mas não os viu em lugar nenhum. 

“Certo, é agora ou nunca. Vamos lá, você consegue.” pensou Vidal, tomando coragem.

Olá, eu sou o Madsam!

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