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“As sombras guardam segredos que a luz nunca pode revelar. Apenas os bravos ousam entrar na escuridão para buscar a verdade.”

Sussurros das Sombras LII, transmissão oral do Clã Adaga Arcana.


Harley havia perdido completamente a noção de tempo durante sua recuperação. A queda vertiginosa pelo abismo não deixou espaço para ele avaliar o real impacto em seu corpo. Seus ferimentos eram mais graves do que inicialmente, ele supusera, e a dor pulsante e suas limitações físicas tornavam-se cada vez mais evidentes com o passar dos dias. 

Como um véu que lentamente se erguia de seus olhos, o jovem começava a compreender a extensão das lesões que havia sofrido, e a árdua jornada em direção à recuperação se desenhava diante dele.

Enquanto se recuperava, o jovem tentava decifrar pistas mínimas em seu ambiente. As paredes de rocha que o cercavam, a luz que filtrava sutilmente, indicando as passagens dos dias e das noites. Entretanto, sua fraqueza e a incapacidade de se movimentar limitavam suas investigações.

Silas, o velho que lhe trazia refeições e cuidados médicos, tornara-se uma figura familiar e a única pessoa com quem Harley tinha algum contato nesse lugar que ele passara a chamar de Santuário da Adaga Arcana. 

Era possível que não houvesse mais ninguém além deles naquele local isolado. A conversa inicial com Silas, que havia revelado tanto, contrastava com todos os outros contatos que eles tiveram depois. Silas repetia constantemente, apenas: 

— Calma. No momento adequado, conversamos.

Essa frase deixava Harley ainda mais curioso e ansioso. Quanto mais tempo ele teria que aguentar até a chegado do “momento adequado”? Que outros segredos ele ainda iria revelar? Muitas incógnitas permaneciam sem solução, como esse Santuário que Silas identificou como pertencente ao seu clã. 

O jovem se sentia aprisionado em uma crescente incerteza, como se um véu misterioso separasse sua realidade da verdade que ele ansiava descobrir. Cada dia passado ali era uma promessa de respostas e desafios que ele ainda teria que enfrentar.

No entanto, Harley não era do tipo que se resignava facilmente. Sua determinação o impelia a buscar respostas, a desvendar os segredos que envolviam a Adaga Arcana e seu clã. Aquele lugar, isolado nas profundezas das rochas, guardava não apenas os segredos de seu pai e do artefato ancestral, mas também os segredos de sua própria existência.

Conforme os dias se estendiam, e sua força gradualmente retornava, Harley começou a explorar o ambiente com mais detalhes. Ele notou inscrições enigmáticas nas paredes da câmara, antigas runas que, embora incompreensíveis para ele, ele intuía que estas inscrições eram peças importantes do quebra-cabeça que ele estava montando.

Ele notou inscrições enigmáticas nas paredes da câmara, antigas runas que, embora incompreensíveis ​​para ele, intuitivamente sentiu que essas inscrições poderiam ser partes cruciais do quebra-cabeça que estava montando. Será que essa linguagem contava a história ou a origem da adaga? Ou do inventor, ou ainda, a história de como este artefato acabou sendo relegado ao seu clã?

Silas, por sua vez, parecia estar ciente do interesse de Harley pelas inscrições, mas permanecia reticente em explicar seu significado.

— Ainda não é o momento! — repetia Silas. A firmeza do guardião deixava Harley cada vez mais frustrado, como se a resposta estivesse sempre à vista, mas inacessível.

Enquanto a convalescença continuava, Harley começou a treinar sua mente e corpo, determinado a se tornar digno da Adaga Arcana. Ele não tinha a aprovação definitiva do artefato, e isso o incomodava profundamente. Sabia que a adaga era mais do que uma simples arma; era um elo entre seu passado e seu futuro, uma responsabilidade que ele estava disposto a aceitar.

Um som estranho e sutil ecoou nas profundezas do Santuário, chamando a atenção de Harley. As runas começaram a demonstrar uma luminosidade que indicava uma ordem ligando símbolos e possivelmente formando uma mensagem ou fazendo algum sentido, porém, para Harley era apenas um belo efeito luminoso que despertou sua atenção.

Silas, que até então tinha sido seu único ponto de contato, apareceu e também começou a observar as runas com uma expressão séria e até assustada.

— Imaginei que teríamos mais tempo. O momento chegou! — disse Silas, enquanto ajustava um pouco bruscamente, os fios de sua barba.

Com movimentos cuidadosos, o velho se aproximou de uma das paredes rochosas e passou a mão sobre sua superfície irregular. Seus dedos encontraram uma saliência, uma protuberância que não estava ali antes. Com um toque cuidadoso, ele pressionou a saliência, e uma seção da parede rochosa se abriu silenciosamente, revelando uma passagem secreta.

O coração de Harley acelerou à medida que ele avançava seguindo atrás do velho pela passagem escura e estreita. 

A luz fraca que penetrava através das fendas revelava corredores subterrâneos, adornados com estranhas inscrições e símbolos que ele não conseguia compreender. Parecia que o Santuário tinha segredos ainda mais profundos do que ele imaginava.

Enquanto adentravam os corredores misteriosos, a escuridão aumentava, e Harley sabia que estava prestes a descobrir algo extraordinário, mas também perigoso. Silas finalmente parou diante de uma grande porta de pedra, coberta de símbolos que brilhavam em uma luminosidade que cortava a escuridão. 

— Chegamos ao coração do Santuário, Harley. — a voz de Silas estava carregada de gravidade — atrás desta porta está o que você precisa saber. Imaginei que teríamos mais tempo. 

Silas empurrou a porta, revelando uma vasta câmara que parecia ser o centro de poder do Santuário. No centro da sala, um grande portal pulsava com uma energia misteriosa e hipnotizante. 

Cada portal era uma estrutura monumental, erguendo-se a vários metros de altura e largura. Suas bordas eram adornadas com intrincadas inscrições rúnicas que cintilavam iluminando todo o local. 

As bordas dos portais pareciam ser feitas de uma mistura de pedra e cristal, dando-lhes uma qualidade translúcida e etérea. Eles pulsavam com uma energia hipnotizante, emitindo um suave zumbido que reverberava pela câmara, criando uma atmosfera quase mágica.

Diferentemente dos portais criados pela adaga, através desses portais fixos nas rochas, era possível vislumbrar visões fugazes de mundos desconhecidos antes de atravessá-los. 

As imagens eram como lampejos de realidades distantes, revelando paisagens exóticas, criaturas misteriosas e até mesmo batalhas titânicas. Cada portal parecia conduzir a um destino único e intrigante, como se fossem rasgos na realidade que se abriam como pontes para outros mundos ou dimensões, oferecendo vislumbres de realidades desconhecidas.

O efeito visual era tão impressionante que Harley se sentiu atraído para esses portais, como se estivesse sendo puxado para as profundezas de um mistério cósmico.

Silas se posicionou em frente a um dos portais, e Harley voltou sua atenção para o portal também, observando figuras em trajes estranhos e símbolos que ele não reconhecia.  Pareciam ser guerreiros, alguns com asas, outros com escamas e outros com chifres. Com certeza, eram uma junção de várias espécies que estavam atacando uma porta de pedra.

— Quem são eles? — Harley perguntou, com os olhos fixos no portal.

O velho suspirou profundamente.

— Esses são membros do Clã do Demônio Sombrio. — Silas fez uma careta de desgosto enquanto observava os seres estranhos através dos portais. — Uma raça híbrida que habita as profundezas do subterrâneo. Por séculos, eles têm tentado, incansavelmente, forçar a entrada aqui, ansiosos por desvendar os segredos que guardamos.

O velho apontou para o portal com firmeza e continuou:

— Embora eles desconheçam a existência da Adaga Arcana, desde tempos ancestrais, têm ciência de que este lugar possui conexões com outros mundos e representa a chave para escapar do continente, superando a enigmática barreira de neblina que o envolve.

Harley engoliu em seco, agora ciente da gravidade da situação. O velho havia explicado que ele fazia parte do Clã da Adaga Arcana, o clã original da ilha, enquanto os outros clãs haviam surgido ao longo do tempo. Alguns eram resultado de missões de outros clãs em busca de poder que conseguiram atravessar a neblina com sucesso, enquanto outros clãs tinham origem em eventos fortuitos, como naufrágios ou encontros inesperados com a neblina, que, após cruzá-la, impossibilitava o retorno.

Silas olhou para ele com seriedade e continuou explicando:

— O Santuário também é uma espécie de artefato, embora seus poderes sejam mais limitados do que os da Adaga Arcana. Aqui, há inúmeros portais abertos que só podem ser atravessados pelo lado do Santuário. Diferentemente dos portais da Adaga, esses não podem ser usados para retornar. 

— Mas como podemos proteger este lugar? — Harley perguntou com preocupação evidente em sua voz.

O velho suspirou pesadamente, antes de responder: 

— Não podemos, Harley. — Silas suspirou, seu olhar carregado de preocupação. — Sem seu pai, sem os guerreiros do nosso clã e sem um portador completo da adaga, é impossível. Além do Clã do Demônio Sombrio, temos outro grande inimigo, o Clã do Dragão de Sangue. Eles também tentam invadir este santuário há muito tempo e possivelmente estão relacionados ao desaparecimento de seu pai.

Silas pausou por um momento, sua expressão tornando-se sombria antes de continuar: 

— Foram eles que exterminaram cada membro de nosso clã, deixando você e seu irmão temporariamente vivos e eu, porque desconheciam minha existência. O Clã do Dragão de Sangue queimou cada vestígio de nosso clã como vingança por anos de frustração por não conseguirem entrar aqui. É um clã do qual, se tiver forças, você deve se vingar por todos nós.

O jovem se sentia cada vez mais perplexo e perdido na complexidade da situação, mas o jovem estava tão absorto pela gravidade das revelações que o velho continuou, sem que ele se desse conta:

— Harley? Preste atenção. Esqueça a raiva. Não temos tempo para isso agora. 

— Harley? Isso é de extrema importância — insistiu o velho, cada vez mais apressado. — Enfia a adaga em cada um dos portais aqui para que suas referências e localizações não se percam. Foram incontáveis anos de exploração para descobrirmos esses mundos.

— Ah!? — questionou o jovem, ainda confuso.

— Vá, faça isso logo. Se não o fizer, todo o esforço de nosso clã ao longo desses inúmeros anos será em vão. Não temos muito tempo. Faça isso agora!

Embora confuso, Harley obedeceu. A cada vez que ele inseria a adaga em um portal, pequenas runas na lâmina brilhavam até que a luminosidade cessava, indicando que a referência daquele portal havia sido registrada.

— KA-BOOM

Uma explosão poderosa irrompeu nas rochas do Santuário da Adaga Arcana, sacudindo violentamente o ambiente. Poeira e detritos se levantaram em uma nuvem espessa, obscurecendo momentaneamente todo o espaço. O estrondo ensurdecedor ecoou pelos corredores pontiagudos, fazendo as paredes tremerem.

Os pedaços de rochas foram dizimados, transformando-se em projetos mortais que voavam pelo ar, causando estragos por onde passavam. As runas antigas, que adornavam as paredes e o chão, foram cortadas abruptamente pela explosão, fragmentando-se em consideráveis ​​pedaços.

No centro da explosão, uma abertura gigantesca foi criada, revelando uma passagem para o Santuário. A luz do lado de fora brilhava intensamente, contrastando com a escuridão da espessura.

O Clã do Demônio Sombrio conseguiu finalmente invadir o Santuário. Uma sensação de pânico tomou conta de Harley e Silas, que se encontravam no epicentro dessa ameaça iminente. 

O velho reuniu suas últimas reservas de força e empurrou Harley com toda a sua determinação em direção ao portal mais próximo. O jovem foi lançado pelo ar, impulsionado pela energia do velho, enquanto as palavras de Silas ecoavam em seus ouvidos:

— Vá, Harley! Encontre as respostas que procura e vingue-nos! Eu vou ganhar tempo e

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Olá, eu sou Val Ferri Sant. Ana!

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