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Entre todos os demônios que enfrentei até aquele momento, este provou ser o desafio mais árduo. Por um instante, duvidei da minha capacidade de realmente sair vitorioso.

Mesmo após o término da batalha, meu corpo ardia intensamente. Minhas roupas estavam em frangalhos, a camisa praticamente desfeita pelas chamas, e as pernas da calça visivelmente mais danificadas, mas ainda usável.

Examinando mais atentamente o ambiente ao meu redor, percebi que este cenário era distinto dos andares zero e um, que eram praticamente idênticos. Aqui, havia várias aberturas nas paredes, permitindo que a luz entrasse, mas o ambiente ainda mantinha uma atmosfera ligeiramente sombria.

— Cure Iz.

— Izumi?

— Desça.

— Ok.

Lamentavelmente, minha habilidade de cura não afetava as roupas, o que teria sido muito útil. Decidi remover minha armadura e minhas botas, ficando apenas de calça, que parecia mais um calção naquele momento. A situação era um pouco estranha, mas não havia muito o que fazer.

— Izumi. Seu safado — Ui murmurou timidamente, corando levemente, talvez constrangida ao notar meu peitoral bem definido. Pelo que eu sabia, as mulheres apreciavam essa característica nos homens. Quanto ao meu conhecimento sobre o assunto, bem, isso era uma história à parte e não vem ao caso.

— Se não quer ver, afaste.

— Não! — gritou, empolgada, erguendo as mãos cerradas próximas aos seus generosos seios.

— Quê?

— Ah! Hum! Quero dizer… gosto… de ver você! — murmurou, seu rosto vermelho, olhando timidamente ao redor.

— Tanto faz — falei. — Você não sente dor?

Ao observar os ferimentos em suas mãos, ficou claro que eram graves. Ambas as mãos estavam gravemente feridas. O ferimento no braço esquerdo provavelmente era da queimadura que sofreu quando chegamos a esse andar, enquanto o outro devia ser resultado do soco nas chamas do cadáver do demônio. 

— Dói um pouco, mas consigo aguentar — exibiu um sorriso tímido enquanto segurava seu braço esquerdo e desviava o olhar.

Por um momento, lamentava que meu Cure Iz fosse uma técnica de cura exclusiva para mim, mas logo percebi que não havia nada que eu pudesse fazer a respeito. No entanto, algo parecia errado comigo. Por que estava me preocupando tanto com isso? Algo dentro de mim estava mudando, e eu sabia que precisava recuperar meu antigo eu.

— Eu não me importo com isso — sentei-me no chão, aguardando que minhas queimaduras fossem curadas. — Faça o que você quiser.

— Ok — respondeu com uma voz mais suave do que o habitual.

Eu precisava concluir o processo de cura, mas considerando o grau das queimaduras, isso levaria alguns minutos para ser concluído.

— Izumi. Eu sempre te olhei, mas nunca te vi comendo nada e nem dormindo. Podias me dizer o porquê?

Ela me encarou com intensidade, aguardando uma resposta que considerasse satisfatória. Não me importava em compartilhar isso, afinal, não era nada de grande relevância.

— Os demônios não têm essa necessidade de humanos.

— Mas és um humano também! — Com convicção, expressou em voz alta.

Ela demonstrava um genuíno cuidado por mim, mas eu tinha limites bem definidos e não permitiria que ultrapassasse uma certa linha. Aceitaria apenas um pouco, em respeito à minha mãe.

— Eu posso fazer ou não. Isso não mudará se eu não o fizer.

— Mas! — gritou. — Eu queria dormir contigo e tu provar a minha comida. — murmurou enquanto juntava os dedos indicadores.

— Isso nunca vai acontecer.

— Mas um dia pode acontecer.

— Espero que esse dia nunca chegue.

— Não!!! — gritou bem alto. — Vou fazer somente para você quando a fome te apertar. Me promete?

Se eu prometer, isso demonstrará que me importava com ela e eu não permitiria que isso acontecesse. Negarei com todas as minhas forças.

— Não.

— Me promete! — Novamente, elevou sua voz.

— Não.

Ela se lançou em minha direção sem aviso prévio. Normalmente, eu teria conseguido desviar, mas devido aos meus ferimentos graves, esquivar-se seria uma tarefa difícil. No entanto, eu nem tentei, e essa decisão clareou minha mente. Essa garota era a única que eu não conseguia controlar.

— Me promete! — disse observando bem perto dos meus olhos.

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Tudo parecia estranho, essa mulher que antes seria fácil de matar, mas agora eu me sentia fraco perto dela, incapaz de tal ação. Não tinha outra escolha senão aceitar essa punição.

— Ok. Agora sai de cima.

— Sim! — respondeu, com felicidade evidente, enquanto permanecia em cima de mim.

— Mal posso esperar pelo dia da sua fome. Xixixixixi!

Lamento te dizer, mas esse dia nunca irá acontecer. A fome nunca chegará para um demônio. Eu nunca senti fome e não irá ser hoje que sentirei tal necessidade. Essa promessa foi uma coisa vaga que será esquecida na sua morte.

— Hum! Eu me sinto fraca — caiu no chão, mas isso era algo esperado, considerando que ela havia permanecido por um longo tempo em meio a um calor abrasador e sem respirar.

Demorou um tempo considerável para desmaiar, e isso me fez suspeitar que ela não era uma humana comum. A maioria das pessoas não conseguiria permanecer por tanto tempo naquele lugar sem possuir um corpo excepcionalmente resistente ou se defender de um ataque com as mãos nuas.

O que será que ela é?

— Izumi. Acho que precisarei da sua ajuda novamente. — Sua voz estava muito suave.

— És realmente um peso morto.

— O seu peso morto — sorriu.

Essa mulher sempre me pegava de surpresa. Talvez fosse meu inimigo natural e, ironicamente, estava apaixonada por mim. Seria isso um tipo de karma? Refletindo sobre o assunto, a cor de seu cabelo era branca, assim como o meu. 

Seria possível que ela fosse um mestiço como eu? No entanto, parecia improvável, dado o fato de que ela precisava realizar funções humanas, algo que eu não precisava. Além disso, sua pele era rosada, o que deixava claro que minha hipótese estava errada.

— Me carregue — disse, erguendo as mãos.

— Você acha que irei fazer isso?

— Sim.

Ela deve confiar muito em mim. Se houvesse reencarnação, eu poderia pensar que fomos um casal em vidas passadas.

— Que mulher impertinente.

— Sua mulher impertinente.

Tamanha audácia. Melhor parar de conversar, pois a cada diálogo, percebia que uma parte da humanidade que não conhecia crescia dentro de mim. Isso preenchia meu coração e era irritante. Para alcançar minha vingança, não podia me permitir sentir essas emoções humanas.

— Vou te carregar como uma carga.

— Eu não ligo, caso seja você.

Peguei-a pela cintura e a pendurei no meu ombro. Talvez, até chegar ao próximo andar, todas as minhas feridas estariam curadas. Comecei a andar e encontrei uma escada bastante comum. Eu esperava algo mais extravagante, mas, na verdade, não era. Quando alcancei o terceiro andar, encontrei Max e Peitos Caídos conversando com um humano.

— Izumi? O que aconteceu com suas roupas? Achei que vocês tivessem lá na frente.

— Estávamos lutando com o demônio no andar anterior, no inferno.

— Inferno?

— Ui! O que aconteceu?!  — Peitos Caídos se aproximou. — Estás toda queimada!

Coloquei Ui no chão e continuei a andar. Atravessei o humano que não impediu minha passagem.

— Então era verdade que somente Izumi podia passar? — perguntou Max.

— De fato. Fui instruído a deixar somente ele passar. E vocês ficarão aqui até tudo terminar.

Não imaginei que destemido desejasse uma audiência privada comigo, mas isso facilitava as coisas. Não estava a fim de lutar com um humano que, à primeira vista, parecia um fracote. Continuei a andar e entrei em uma sala enorme. O que mais se destacava ali era o relógio sobre um trono vazio e algumas estátuas de demônios e humanos ao redor.

— Bem-vindo, minha fiel cobaia.

Olá, eu sou o Black Shadow!

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