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Ponto de vista de Idalme.

No clã Zura, ocorria uma cerimônia de significância imensa para todos que alcançavam seus sete anos de existência. Seu desfecho determinaria a linhagem à qual cada um pertenceria. Agora, acompanhado por meu irmão mais velho, dirijo-me a um local conhecida como a sala do fogo. Desconheço os rituais que lá se desenrolam, mas meu irmão assegurou-me que seria uma experiência grandiosa, e eu depositava confiança em suas palavras.

— Estamos quase chegando.

— Sim, irmãozão.

Meu irmãozão sempre foi tão gentil comigo, e eu invariavelmente acreditava em cada palavra que ele dizia. Era como se fosse um anjo, constantemente me inspirando. No entanto, percebia que ocasionalmente ele se encontrava machucado, e isso me deixava confusa, pois não compreendia o motivo.

— Oi Zon, veio trazer mais um parente para passar vergonha?

— Vamos, Idalme. Ignore.

Esse homem era um amigo próximo do meu irmãozão. Ele costumava dizer coisas peculiares, mas meu irmãozão sempre afirmava que ele apenas buscava chamar atenção para si, e que deveríamos simplesmente ignorá-lo.

— Vai me ignorar, Zon? Igualzinho ao seu talento. Nada!

— Ninininini! O irmão é tão engraçado.

— Não é Mi, eu sou muito engraçado, Zazazazazaza!

Enquanto eles conversavam, meu irmãozão me puxou para longe, e sempre que isso acontecia, seu semblante se fechava. Ele insistia para que ignorássemos, mas eu podia sentir que isso o afetava profundamente, embora eu não entendesse completamente o motivo.

Chegamos à sala do fogo, onde várias crianças estavam acompanhadas por seus irmãos mais velhos ou outros parentes. Era tradição que cada criança fosse na companhia de um membro da família.

Naquele momento, percebi que muitos olhares se voltavam para nós, ou melhor, para o meu irmãozão. Era o mesmo tipo de olhar que todos dirigiam a ele quando eu estava ao seu lado.

A sala estava totalmente banhada pela cor do fogo e era espaçosa, porém vazia, exceto pelas pessoas que ali estavam. De repente, uma porta oposta àquela pela qual entramos se abriu, revelando um homem de idade avançada acompanhado por uma mulher de igual venerabilidade.

— Acendam!

Quando aquele homem gritou, o chão se inflamou e as chamas dançaram, como se toda a sala estivesse envolta em fogo. Um calor reconfortante irradiava dos meus pés, envolvendo-me em uma sensação acolhedora.

— Como todos já devem saber, sou Levi, o ancião do clã, e está é minha esposa, Matra, também uma anciã. Logo, algumas partes do piso vão parar de arder em chamas. Não pisem nelas. Entendido? — disse enquanto andava ao redor.

Quando ele concluiu suas palavras, todos assentiram em concordância, como se estivessem em perfeita harmonia. Poucos instantes depois, as chamas começaram a desaparecer em algumas partes da sala, dissipando-se suavemente.

— Vamos Idalme. Estamos no local errado.

— Sim, irmãozão!

A voz dele soava um tanto peculiar, talvez carregada de tensão, o que me pareceu estranho, afinal, o ritual estava voltado para mim.

— Voltou, filho indigno de Zon. Veio desonrar novamente a sua família?

— Me desculpe, ancião.

— Humpft! Pivete decepcionante.

Ele proferiu suas palavras e, em seguida, desviou o olhar, envolvendo-se em conversas com os outros presentes. Alguns ele tratava com a mesma consideração que dispensara ao meu irmãozão, enquanto outros pareciam passar despercebidos por ele. Havia também aqueles que ele elogiava, demonstrando sua aprovação de forma explícita.

— Irmãozão, por que ela te chamou de decepcionante?

— Isso é porque eles esperavam que eu fosse igualzinho ao meu pai — disse e continuou: — Mas olha, eu pareço mais com a minha irmã mais velha — com um sorriso ele acrescentou.

— Faz sentido irmãozão. Você é claramente o melhor — eu disse sorrindo.

— Sim… Eu sou o melhor…

— Irmãozão?

— Silencio Idalme.

Quando meu irmãozão terminou de falar, um silêncio permeou a sala e todos os presentes voltaram sua atenção para o ancião. Ele estava posicionado no centro do recinto, em um círculo desprovido de chamas. De repente, ele começou a ser envolto pelo fogo, contudo, não aparentava sentir nenhum dano.

Erguendo as mãos até quase formarem um ângulo reto, os dedos do ancião começaram a criar bolas de fogo, que se acendiam repetidamente antes de serem lançadas nos lugares onde o fogo ainda não havia se espalhado. Embora não pudesse determinar exatamente quantos eram, certamente eram mais de vinte.

— Agora, prossigam!

— Vamos, Idalme. — Meu irmãozão segurou minha mão e me conduziu até um dos cantos.

Ao me aproximar de um dos locais onde as chamas circundavam, pude perceber o fogo dançante ao redor da área designada. No entanto, dentro desse círculo em chamas, nada parecia acontecer.

— Entrem!

Meu irmãozão me puxou para dentro do círculo em chamas, mas para minha surpresa, o fogo não queimava nem emanava calor. Era como se estivesse atravessando algo intangível, algo que não existia. Tentei tocar novamente e, desta vez, encontrei uma resistência sólida, como se estivesse diante de uma parede. Percebi que não conseguia sair.

— Irmãozão, estamos presos?

— Não se preocupe, isso vai terminar logo — disse enquanto me abraçava.

— Irmãozão?

— Idalme, o irmãozão vai estar ao seu lado, não importa o que aconteça. Acredita?

— Sim.

Não importava o motivo pelo qual ele estava dizendo aquilo, eu sempre acreditaria nele. Meu irmãozão era a pessoa mais importante para mim, e sua palavra era lei.

— Certo, comecemos. Queimem!

As chamas começaram a circundar meus pés e logo começaram a subir, envolvendo meu corpo até alcançar minha cabeça e chegar ao topo. A sensação de calor aumentava gradativamente, tornando-se cada vez mais intensa e abrasadora.

— Irmãozão, está ficando quente.

— Acabará logo, aguente por mim, Idalme.

— Sim, irmãozão…

À medida que o calor aumentava, eu podia ouvir os gritos e choros angustiados de outras crianças ao meu redor. Eles deviam estar sofrendo tanto quanto eu. 

— Irmãozão… eu não aguento mais… está muito quente.

— Aguente Idalme, já vai acabar.

— Eu não aguento… tá doendo… tá doendo muito. Faz parar, irmãozão, faz parar.

Enquanto lágrimas ardiam em meu rosto, eu chorava em desespero. Não suportava mais aquela tormenta, mas meu irmãozão insistia para eu aguentar. Será que ele estava mentindo para mim? Por que ele não parecia sofrer como eu? Essas perguntas atormentavam minha mente enquanto eu lutava para suportar a dor insuportável das chamas.

Irmãozão seu mentiroso!

As vozes ao meu redor cessaram, e nem mesmo a minha própria voz saía mais. Meu corpo ardia em um calor insuportável. Será que estava morrendo? O desespero tomava conta de mim enquanto eu lutava para entender o que estava acontecendo.

Isso é sangue?

Compreendi então que não era o meu próprio sangue, mas sim o do meu irmãozão que jorrava ali. Ele também estava sofrendo, talvez até mais do que eu? Uma onda de culpa e desespero me envolveu. Meu coração se encheu de arrependimento e eu sussurrei em minha mente: “Me desculpe, irmãozão, me desculpe.” Mesmo assim, a dor era avassaladora.

Tentei gritar, mas minha voz não saía. Sangue começou a jorrar de minha garganta e a sensação de queimação em meu corpo intensificou-se ainda mais. Era uma agonia indescritível.

Essa é a sensação de morte? Irmãozão, vamos realmente morrer?

Em meio aos espasmos, consegui me desvencilhar do meu irmãozão, debatendo-me freneticamente contra a parede de fogo que me aprisionava. Apesar dos seus esforços para me segurar, eu ainda lutava desesperadamente para escapar. Meu cabelo já estava completamente consumido pelas chamas, e eu sentia que estava morrendo, minha consciência escorregando para longe, minhas forças se esvaecendo a cada instante. Era uma luta inglória contra a inevitável fúria das chamas.

Eu vou morrer, irmãozão? Porque me deixas morrer, eu te odeio!

— Terminado!

Terminado? Acabou?

No meio da escuridão e da insensibilidade que me envolviam, meus ouvidos ainda captavam os sons ao redor. Era como se minha mente estivesse isolada em um vácuo, enquanto vozes e ruídos ecoavam distantes, mas nítidos.

— Que decepção, filho de Zun, novamente falhou.

— Uuughh!

— Mas parabéns, pelo menos dessa vez aguentaste melhor, mas essa será a última vez. Vocês dois estão desclassificados.

Irmãozão, como assim, não eras o melhor? Seu mentiroso.

Quando minha consciência se esvaiu, mergulhei em um abismo de escuridão sem fim. 


Não sei quanto tempo se passou nesse estado de vazio absoluto, mas quando finalmente despertei, encontrei-me em um lugar estranho. Estava deitado em uma cama desconhecida, e meu corpo inteiro latejava de dor, mas não era a mesma dor abrasadora das chamas.

— Seu inútil! Perdi meu tempo botando fé em um fracasso como você. Até quando vais humilhar a mim? Sua aberração decepcionante!

— Me… desculpe…

A voz que ecoava era a do meu pai, porém, suas palavras não eram dirigidas a mim, mas sim ao meu irmão. Antes eu não compreendia, mas agora tudo se tornava claro. Meu irmãozão não era o herói que eu imaginava. Ele havia me enganado durante toda a minha vida, revelando-se um fracasso.

Eu realmente odeio ele!

— E agora tenho que aturar mais uma inútil nessa família. Nem pense aparecer com aquela inútil novamente na minha casa, para mim vocês estão mortos.

— Espere, pai! Dê uma chance para ela!

— Cale-se! Não cometerei o mesmo erro de novo.

— Pai espere!

— Não me chame assim! Criatura inferior! — gritou e depois disse: — E a sua situação já foi decidida, vais servir como um membro coletivo de agora em diante.

— Não, não pode ser…

— Pode fazer o que quiser, fugir ou aceitar. Eu não me importo.

Com as portas batendo, percebi que meu pai havia provavelmente partido. Não consegui captar todas as palavras trocadas entre meu pai e meu irmão, mas uma certeza ecoava em minha mente: eu era tão fracassada quanto meu irmão.

— Idalme, acordou?

— Não fale comigo! Você não é mais o meu irmão, seu mentiroso.

— Você ouviu é? Me desculpe, seu irmãozão…

— Vai embora, eu te odeio! Não és mais o meu irmãozão!

— Sim… me desculpe.

Enquanto as horas se arrastavam, uma mulher apareceu para me oferecer refeições. Embora eu pudesse me mover, minha mobilidade ainda estava limitada. Quando a noite caiu, entreguei-me ao sono.

Então, no meio da noite, percebi alguém adentrando silenciosamente meu quarto. Não pude distinguir quem era, mas senti a presença de alguém se sentando à beira da minha cama.

— Idalme, está dormindo?

Ao reconhecer a figura sentada à beira da minha cama, meu coração se encheu de uma mistura de emoções. Era meu irmão. Ele tinha coragem de aparecer ali depois de todas as mentiras que me contou.

— Me desculpe, o seu irmãozão é um fracassado. Bem, eu não queria que fosses como eu, por isso menti para você. Eu sempre acreditei que se fizesse isso, poderias se tornar alguém mais forte, mas eu falhei. Me desculpe.

Isso não vai mudar nada, por sua culpa, eu me tornei uma fracassada.

— Sabe, o seu irmãozão veio se despedir.

Despedir?

— O meu destino já foi decidido.

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Olá, eu sou o Black Shadow!

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