VS – Episódio 09 – Capítulo 04

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Episódio 09 / Capítulo 04 — Svartalfheim (4)

Tradutor: Erufailon | Editor: Erufailon

 

Tae Ho piscou, contudo o lobo de pelagem dourada ainda não havia desaparecido, tomando o lugar de Siri. Ela era menor do que um Silêncio Branco, mas grande o bastante para ser usada como uma montaria.

— Capitã Siri?

— Minha transformação é realmente tão surpreendente?

A voz que saiu da boca do lobo certamente pertencia a Siri. Além disso, os profundos olhos azuis da fera retinham grande similaridade aos da capitã.

— ‘Bem, se uma valquíria consegue se transformar em um dragão…’

Não obstante, Tae Ho também havia se transformado em um falcão, certo?

— ‘É por isso que ela se… despiu?’

Por ela não ter se transformado usando um item mágico auxiliar, como a capa das valquírias, Tae Ho supôs que a transfiguração só poderia ser feita sem roupas.

— Capitã, você era uma bruxa?

Ouvindo a pergunta de Tae Ho, a capitã sorriu, um gesto estranho quando consideradas as suas feições lupinas.

— Algo como isso. Mas primeiro, está tudo bem com o seu ombro? Sua capacidade regenerativa é maior do que eu pensava.

Tae Ho olhou para a ferida que ele recebera do Regenerador. Como Siri disse, ele possuía uma capacidade regenerativa incrível, isso graças ao Colar de Idun. Ainda sim, a ferida era grande demais. Ela começara a cicatrizar, mas Tae Ho ainda conseguia sentir pontadas de dor aguda ocasionalmente.

— Espere um pouco.

Tae Ho respirou fundo. Ele fechou os olhos e ativou o Poder de Idun. Conforme ele se concentrava, a aura de Idun envolveu seu corpo por completo em um instante, rastejando e se concentrando em cima da ferida em um curto espaço de tempo.

Pegando emprestado a termologia utilizada em jogos para explicar aquele fenômeno, era como se a luz sagrada de um paladino, ou clérigo, estivesse sendo utilizada para curar seus ferimentos. E tal como os deuses de Asgard representam diferentes atributos, seus poderes também variam de acordo.

— Essa é, sem dúvida alguma, o poder da Deusa da Vida, Idun — Siri sussurrou.

Tae Ho desgastou-se tanto mentalmente quanto fisicamente para exercer aquele poder, com o qual não estava acostumado, mas graças a isso ele havia conseguido fazer com que a ferida praticamente se fechasse.

— Ufa.

Ele realmente precisava treinar. Não era à toa que aquele tipo de poder só podia ser exercito por guerreiros de Classificação Intermediaria.

— ‘Ainda sim, ele tem seus usos.’

Tae Ho mexeu levemente o ombro. A dor ainda existia, mas a ferida não mais restringia seus movimentos como antes.

— Tae Ho se começarmos a nos mover a Benção de Furtividade vai enfraquecer. Eles irão nos perseguir imediatamente depois disso, então evitar um conflito é impossível — Siri disse.

Tae Ho ativou o olho do dragão e olhou envolta. Ele viu inúmeras palavras vermelhas andando pela grama.

Eram os basiliscos e outras cobras gigantes.

Ele sorriu amargamente, não tendo notado isso antes. Como Siri havia dito, evitar um conflito era impossível.

— Suba nas minhas costas. Eu não sou tão rápida quanto um Silêncio Branco, mas ainda sim sou bastante veloz.

Apesar das palavras dela, Tae Ho acreditava que Siri poderia ser ainda mais veloz. Afinal, entre os guerreiros de Classificação Inferior reunidos nessa expedição, ela era a que possuía a maior quantidade de runas.

— Você não pensou em escapar junto com o Rolph?

Se ela tivesse o escolhido, ao invés de Tae Ho, Siri poderia ter se transformado em um lobo muito antes.

Enquanto Tae Ho se levantava para expressar sua dúvida, Siri soltou um longo suspiro e olhou fixamente para ele.

— Eu sinto muito por Rolph, mas… Se eu tivesse de salvar apenas um de vocês dois, seria você, Tae Ho. Por Asgard e por Valhalla.

Tae Ho entendeu o que Siri quis dizer com aquelas palavras.

— Bem, ainda sim foi mais perigoso do que eu pensei, já que você demorou tanto pra acordar… — Siri disse com um sorriso brincalhão, tentando amenizar o clima tenso.

Embora fosse uma brincadeira, não deixava de ser, parcialmente, verdade. Caso Siri houvesse priorizado sua própria segurança, ela teria escolhido outro guerreiro ao invés dele.

Contudo, ela o escolheu. Bem como ela disse, Siri acreditava que tinha de salvar Tae Ho.

— Você fica fofa quando sorri. — Tae Ho disse inconscientemente e Siri começou a rir.

— Como você pode dizer isso olhando para a cara de um lobo?

Ela também estava certa dessa vez. Contudo, Tae Ho apenas sorriu e subiu nas costas de Siri. Por ela ser menor do que um Silêncio Branco, era muito mais fácil corrigir sua postura em cima dela.

— Eu vou confiar a luta à você.

A única coisa que Siri poderia fazer, agora que Tae Ho estava montado sobre ela, era correr. Ele seria o responsável por expulsar as cobras que os perseguissem.

Tae Ho assentiu. Ele apertou os punhos, inclinou-se e disse.

— Você deveria confiar o seu corpo a mim, também.

— Que?

【Saga: Aquele que Pode Manipular Dragões】

Tae Ho ativou sua saga ao invés de responder. E, assim como Rasgrid, Siri também estremeceu, mas eventualmente aceitou-o.

— Então essa é a sensação…

— É melhor do que você esperava, não é?

Ao invés de replicar, Siri preparou-se para investir. Tae Ho também começou a se concentrar ao invés de continuar a fazer piadas.

No momento em que eles começassem a se mover, a Benção da Furtividade iria desaparecer e batalhas começariam em seguida.

A respiração de Tae Ho e Siri começou a se sincronizar. Eles compartilharam seus sentidos através da saga.

Nervosismo e antecipação graças ao conflito que logo teria início.

Tae Ho apertou suas pernas ao redor da cintura de Siri e ela começou a se mexer.

Inúmeros sons foram ouvidos simultaneamente. O som de patas contra o solo e o de corpos se erguendo sobre a grama.

Os olhos de dragão perfuraram as trevas. Tae Ho ergueu sua mão tão logo ele sentiu as letras vermelhas se aproximando. A arma que ele escolheu foi, claro, A Lâmina do Carrasco.

Chwak!

Cobras atacaram pelos flancos, tão velozes quanto flechas.

Ele cortou uma das cobras e ao mesmo tempo se defendeu dos ataques usando o escudo em seu braço esquerdo. Algumas das cobras acabaram mordendo Siri, que grunhiu mas não abrandou.

Boom! Boom! Boom!

A terra tremeu. Os basiliscos estavam se mexendo e algumas enormes palavras vermelhas se misturaram com as pequenas.

【Saga: A Investida de um Guerreiro é como uma Tempestade】

A investida de Siri foi amplificada pela força do vento. Embora fosse uma habilidade barulhenta, era o bastante para empurrar as cobras pequenas e impedir que atacassem.

— ‘Ele está aqui!’

O primeiro basilisco. Tae Ho olhou para as palavras vermelhas ao invés de encará-lo nos olhos. Ele puxou o gatilho da Flecha Relampejante ao invés de usar a Lâmina do Carrasco, querendo ter certeza da posição da criatura.

Ele atirou inúmeras vezes, mas nenhum dos virotes atingiu o alvo. Entretanto, alguns deles foram ricocheteados, como se tivessem raspado contra as escamas.

— Não o olhe diretamente nos olhos! — Siri o avisou. O Basilisco, rei de todas as serpentes, possuía um olho maligno capaz de petrificar quem o encarasse.

Tae Ho acatou aos avisos de Siri. Ele continuou a olhar para as palavras vermelhas, ao invés dá cabeça do basilisco, para tentar estimar a distância.

Siri era veloz, mas o terreno não era propício para a corrida. As enormes raízes projetadas do solo eram grandes e grossas demais e além disso inúmeros buracos estavam espalhados pelo chão. Apesar disso, os basiliscos se moviam rapidamente pelo solo, como se estivessem deslizando através dele.

Havia um outro à direita deles e mais um avançava pela esquerda.

— Capitã Siri!

Ele gritou tarde demais. Siri pulou e tentou desviar, mas o basilisco foi mais rápido. O monstro, que deslizava como se estivesse saltando, se agarrou ao corpo da capitã.

Embora a criatura fosse tão enorme quanto uma anaconda, ela aparentava ainda ser um filhote. Ela se enrolou ao longo da parte inferior do corpo de Siri, tentando estrangulá-la.

— Urasha!

Tae Ho gritou, balançando a Lâmina do Carrasco. Era um golpe que continha toda a sua força, o que resultou no filhote de basilisco sendo cortado. Embora não fosse uma ferida profunda o bastante para dividi-lo ao meio, o rasgo havia alcançado seus ossos.

— Kyak!

O basilisco gritou e começou a se debater, efetivamente soltando a parte inferior do corpo de Siri, que rolou pelo chão junto de Tae Ho.

— Chwak!

As cobras avançaram em direção a eles, como se estivessem apenas aguardando uma oportunidade para atacar, usando suas presas afiadas para perfurar as resistentes armaduras de couro que os dois usavam.

Tae Ho rangeu os dentes, resistindo a dor. Ele se moveu calmamente, ao invés de agir de forma brusca, enquanto usava sua espada para cortar e matar as cobras que o mordiam. Em seguida, olhou para Siri.

— Tae Ho!

Siri se levantou ajeitando sua postura e permitiu que Tae Ho subisse em cima dela novamente.

Ele se sentia tonto por conta do veneno e era perceptível que os movimentos de Siri também haviam sido retardados.

Mas agora não era hora de parar.

O basilisco à sua direita ergueu a cabeça, abrindo a boca. Ao invés de morder um deles, ele começou a verter ácido.

— Ventania!

Tae Ho evocou a magia rúnica. Usando o vento, ele repeliu tanto ácido quanto era possível e, ao achar uma abertura, Tae Ho atirou Runefang em direção à boca do basilisco.

A espada voou como uma flecha, perfurando o céu da boca da criatura.

O enorme basilisco, capaz de devorar um adulto inteiro, estremeceu de dor, fazendo com que a terra começasse a tremer. Siri não parou de se mexer, mesmo com a dor agonizante que se espalhava por seu corpo.

Tae Ho respirou fundo, determinado. Ele olhou para um local elevado, transmitindo seus pensamentos à Siri através da 【Saga: Aquele que Pode Manipular Dragões】.

— ‘Capitã Siri, feche seus olhos e corra com toda a sua velocidade. Deixe o resto comigo.’

Era algo imprudente a se fazer, mas ela confiava em Tae Ho. Siri fechou os olhos e começou a correr.

Depois de derrotar o Regenerador, sua taxa de sincronização havia chego a 15%. E, obviamente, o grau de completude da 【Saga: Espada de um Guerreiro】também havia aumentado. Tae Ho evocou a Lança Pesada que ele utilizara para matar o Lorde Ogro Gandoll.

No meio do caminho havia um enorme basilisco, duas vezes maior do que o normal, bloqueando a passagem. Era impossível evitá-lo correndo pelos flancos, como haviam feito até então.

Tae Ho olhou para a cabeça do basilisco, ao invés das palavras vermelhas, para mirar mais precisamente. Os olhos vermelhos da criatura eram visíveis abaixo da saliência se em muito se assemelhava a uma coroa.

Os olhos malignos brilharam e, ao mesmo tempo, Tae Ho concentrou o poder de Idun ao redor de seus próprios.

As duas entidades opostas se chocaram e o basilisco, que estava levantando a cabeça como uma serpente, vacilou ao sentir a lança de Tae Ho lhe perfurando.

Siri observou a cena através de Tae Ho, aumentado sua velocidade ao máximo com toda a força que lhe restava.

— Chwak!

O basilisco não desviou, investindo contra eles. Ele abriu a boca e ácido verteu como se fizesse parte de sua respiração.

Tae Ho também não desviou. Ele pulou por cima do ácido violeta, estocando com a lança em um ponto preciso e fatal do corpo da criatura.

Bang!

Um som forte ecoou pela floresta. Uma parte do corpo do basilisco explodiu ao entrar em contato com a lança, destruindo-a de imediato. Siri rolou pelo chão, caindo sem conseguir se estabilizar novamente.

O monstro havia sido morto pelo ataque, tombando contra o chão.

Tae Ho mordeu seus lábios, levantando-se. Ele conseguia enxergar o corpo nu de Siri a uma distância curta de onde estava, ainda parcamente consciente. Ela parecia estar usando toda a sua força para tentar se levantar, arrastando os braços e pernas trêmulos.

Eles haviam atravessado o ácido por apenas um instante e grande parte dele fora bloqueado pelo escudo de Tae Ho, mas Siri ainda havia ingerido algumas gotas da substância.

Siri se levantou por um momento, trêmula, mas logo caiu novamente. O ácido não era o único problema, pois o veneno das cobras ainda circulava por seu corpo, impedindo seus movimentos. Ela abriu um sorriso fraco para Tae Ho e disse.

— Vá.

Ela ficaria naquele lugar e compraria tanto tempo quanto possível para que ele escapasse.

Aquelas palavras não eram engraçadas. Siri mal conseguia se manter de pé e estava desarmada. Tae Ho respirou fundo ao invés de responder, seus dedos apertando-se com força contra o cabo de Runefang.

Siri o olhou, surpresa, mas ela entendeu. Ela sabia que, se suas posições estivessem trocadas, ela também não fugiria.

— Eu ainda consigo atirar algumas vezes.

Mesmo sem sua besta, Siri ainda podia usar sua saga. Ela apanhou uma pedra particularmente afiada do chão e Tae Ho encarou a escuridão.

As palavras vermelhas. No total, eram cinco basiliscos.

Tae Ho sorriu amargamente ao perceber que preferia encarar aquela situação de frente, ao invés de fugir. Quanto tempo havia se passado para ele ter mudado tanto, desde que chegara ali?

— Eu estou feliz que estamos juntos — disse Tae Ho.

Por não estar sozinho, ele tinha um motivo para lutar.

— Vamos nos encontrar em Valhalla novamente — disse Siri.

Os dois compartilharam um sorriso, ao invés de se amedrontarem, olhando para frente. As palavras vermelhas investiram em direção à eles e Tae Ho clamou por Idun. E, por causa disso, ele não notou algo importante.

— Uoooo!

— Ullr!

— Valhalla!

— Capitã Siri, eu estou aqui!

Vozes foram ouvidas em sequência. Os olhos de Siri e de Tae Ho se arregalaram graças aos gritos atrás deles. Os guerreiros podiam ser vistos mesmo sem que eles se virassem.

Montados em Silêncios Brancos, os guerreiros passaram por Siri e Tae Ho, investindo na direção do basilisco. Mesmo correndo pela grama, os lobos eram incrivelmente silenciosos. E, no fronte, estava a valquíria Gandur, montada em cima de um dos Silêncios Brancos e trajada em armadura de couro.

— Matem todos eles!

Ela gritou e os guerreiros de Ullr seguiram sua ordem.

Além disso, eles não estavam sozinhos. Havia outro alguém. O homem, que se movia como uma tempestade, decepou a cabeça de um dos basiliscos.

Tae Ho olhou para ele, supreso. O nome daquela figura desconhecida era a única coisa que seus olhos de dragão conseguiam distinguir.

[Ragnar Loðbrók] [1]

Um guerreiro de Classificação Intermediária. Não, talvez até mesmo mais forte.

Tae Ho soltou um suspiro de alívio, se sentando no chão. Siri também parecia ter relaxado, sua cabeça tão inclinada que ela aparentava estar prestes a cair.

Eles haviam sobrevivido. Talvez a ajuda tivesse chego por conta dos sons de batalha ecoando pela floresta, ou a talvez valquíria Gandur tivesse outros métodos para localizá-los. De qualquer forma, a ajuda chegara em uma hora oportuna.

— ‘Heda.’

Ela sentia muito por Idun, mas a única pessoa que lhe vinha a mente nesse tipo de situação era Heda. Tae Ho respirou fundo novamente e então olhou para o guerreiro que havia cortado o pescoço do basilisco como se fosse feito de palha. Contudo, algo entrou em sua linha de visão primeiro.

— ‘Huh?’

No corpo do basilisco morto por ele, letras iluminadas por um brilho semelhante ao de um arco-iris estavam suspensas logo abaixo das palavras vermelhas que representavam o nome da criatura.

Ele engasgou, esquecendo-se de todo o cansaço que estava sentindo.

— ‘Por que essas letras estão ali?’

Em Dark Age, todos os itens tinham seus nomes representados por cores diferentes para melhor serem identificados.

Equipamentos normais eram brancos;

Equipamentos raros, imbuídos em magia, eram azuis;

Equipamentos ainda mais poderosos eram dourados e, acima deles, haviam os equipamentos em ouro branco;

No pináculo de todos os itens estava a luz do arco íris que representava a classificação ‘épica’.

[Fragmento de uma Espada Desconhecida]

O cabo de uma espada velha e usada estava enfincado entre as escamas do basilisco. Tae Ho estendeu sua mão, os dedos se envolvendo ao redor do cabo.


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[1] Ragnar Lodbrok foi um rei lendário da Dinamarca e da Suécia, que reinou durante os séculos VIII e IX. De acordo com o cronista dinamarquês Saxão Gramático, Ragnar pertencia à dinastia sueca dos Inglingos. Ele também é retratado como um dos personagens centrais da série ‘Vikings’.

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