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— Ai, agora doeu! — chorou Maria.

— Calma, é difícil prender isso aqui!

Era Bárbara, uma das serviçais do castelo. Seu rosto redondo e jovial contorcia-se em uma careta de concentração. Tentava prender uma peça de armadura no braço de Maria. A tira de couro que tinha acabado de apertar estava muito perto do ferimento em seu ombro.

— Eu não vou conseguir prender isso aqui sem colocar por cima do machucado.

— Deixa que eu aperto então, é melhor!

Maria pegou a tira de couro, passou-a pela fivela e puxou-a, fixando a pesada peça metálica no local certo. Viu estrelas por alguns segundos. Quando a dor diminuiu, ela girou o ombro, testando o movimento. Não conseguiria mexer-se muito, mas não importava. Não estava indo para a batalha.

— Ótimo, agora do outro lado — disse Bárbara.

Maria deixou a serviçal continuar o trabalho e voltou a distrair-se com seus pensamentos. Tentava limpar sua mente dos sentimentos ruins que lhe assombravam sempre que tinha uma função tão macabra a cumprir.

Uma das primeiras coisas que aprendeu ao entrar no exército foi que um bom soldado não pode sentir pena de seu inimigo, caso contrário não será um bom soldado. Apesar de concordar com esse princípio sob os pontos de vista prático e de sobrevivência, sempre que se deixava levar por reflexões mais profundas sobre o assunto, acabava perdida em um terrível conflito interno do qual não conseguia sair. Por isso, disciplinou-se para suprimir esses pensamentos sempre que eles raiavam no horizonte.

Quando estava em campanhas, na linha de frente, guerreando contra outro exército, era mais fácil. Matar ou morrer. Matar ou ver seus irmãos morrer. Mas agora, no posto de liderança em que se encontrava, não era tão simples. Se ela decidisse não matar ninguém, ela provavelmente não morreria. Seria reprimida ou encarcerada. Torturada, talvez, mas não morreria. Não era um equilíbrio, e com isso o ato de matar se embebia de uma parcela muito maior de culpa. Em alguns minutos, beberia dessa culpa mais uma vez.

“Traidores! Assassinos!” — repetia, em sua mente. — “São perigosos para o reino! Para o povo!”. Continuou repetindo até que sentiu o conflito desaparecer, para recuperar a calma e a certeza que lhe permitiam fazer seu serviço.

— Pronto, só falta o elmo.

— Obrigada! — disse Maria, levantando-se. Sentia muita dor ainda, nas pernas e no ombro ferido.

— Não vá se mexer muito! Lembre-se do que a Marina disse…

— Sim, eu sei. Os ferimentos podem abrir. Obrigada por se preocupar.

Bárbara segurava o elmo em suas mãos, à espera de que Maria o pegasse. Olhava-o com curiosidade, passando os dedos pelas curvas e sentindo os pequenos amassados ao longo de sua superfície. Enfim perguntou:

— Você é tão bonita, Maria! Por que usa esse elmo o tempo todo?

Maria pegou a peça e colocou-a na cabeça. Imediatamente, todos os sons ficaram abafados e um calor envolveu seu rosto. Disse:

— É uma coisa minha! Eu não queria falar sobre isso agora, me desculpe!

Ela colocou a mão sobre a da amiga, que correspondeu com um leve apertão.

— Mas é claro!

As duas começaram a caminhar.

O caminho era um pouco longo. Tinham que descer da torre onde ficava a sala de cura, sair do castelo e caminhar até um pequeno monte que ficava a algumas centenas de metros a oeste dos muros. Havia tempo de sobra, então as duas não se apressaram muito.

— Então, quer saber se temos novidades?

Maria sabia a que a amiga se referia. Não era o tipo de conversa leve, sobre amenidades e fofocas, as quais já tinham se esgotado após as longas horas de conversa que tiveram oportunidade de passar juntas nos últimos dias. Ela estava oferecendo o costumeiro relatório profissional ao qual lhe cabia.

— Sim! Por favor, pode falar!

— Nenhuma das meninas ouviu mais nada de suspeito pelos corredores. Parece que, se ainda tem outros traidores por aqui, estão quietos.

— Perfeito, como esperado. E os amigos dos traidores? Não estão lamentando, reclamando de alguma coisa?

— Estamos prestando bastante atenção. Tem alguns sussurros aqui e ali. As pessoas estão apreensivas com o destino deles, mas parece ser apenas curiosidade e medo.

— O que quer dizer? — perguntou Maria.

— Bem… pela punição que a rainha deu aos conspiradores de fora… — disse Bárbara, receosa. — Eles têm medo de que aconteça o mesmo com os soldados da guarda.

Maria estremeceu ao responder:

— Não farei aquilo!

— Eu sei! — disse Bárbara, compreensivamente. — Mas eles têm medo. Eram todos colegas, alguns eram amigos… 

— Eu entendo. Logo esse medo será dissipado.

Ficaram em silêncio por um tempo. Maria tomou coragem e fez a pergunta que queria fazer. Sentia um pouco de vergonha, mas sabia que a amiga a entenderia e não faria nenhum julgamento:

— E o que falam de mim?

Bárbara sorriu. Ela sabia que a pergunta viria. Disse:

— No geral, falam bem. Os soldados estão satisfeitos com sua… conduta. — O relato parecia estranhamente simples e sucinto.

Maria tentou reprimir o sentimento de vaidade que acompanhou a notícia. Não queria aplausos e vivas, queria apenas respeito. Acenou levemente com a cabeça.

Ainda com um sorriso no rosto, Bárbara olhava para Maria enquanto andavam, claramente segurando um comentário. Depois de um tempo em silêncio, recitou em uma imitação de voz masculina:

— “A capitã correu sozinha contra um paredão de homens e saiu viva do outro lado!”

— Pare, não quero…

— “Ela matou pelo menos dez, pelo que eu soube!” — continuou, zombeteira.

— Chega, Bárbara, já está bom! — Começou a irritar-se.

— Tá bom, desculpe. — Fez uma pausa. — Quer ouvir uns comentários mais… picantes?

Não queria mais bajulação, mas a curiosidade sobre esse tema falou mais alto. Sorrindo, disse:

— Ai, pode falar, vai!

— Um soldado, que eu não vou dizer o nome, disse que você deve ter o rosto horroroso. Ninguém pode lutar tão bem e ser bonita ao mesmo tempo.

Maria ficou encabulada. E Bárbara desembestou a rir, não conseguindo mais falar. Enfim disse, entre um riso e outro:

— Aí um outro… Ah! Ah! Ah! Um outro disse assim: “Se a cara for feia, é só deixar o elmo dela na cabeça enquanto manda ver na cama!”

— Ah, sim, pronto! — desabafou Maria. — Excelente o seu trabalho de espionagem. Serviu para lembrar que os homens são idiotas. 


Assim que saíram dos arredores do castelo, Maria pôde ver o local para onde se dirigiam.

O monte de pedra era circundado por uma cerca alta de madeira. No topo havia uma grande área descoberta e uma pequena cabana, destinada ao armazenamento de equipamentos de tortura e de execução. Estava nublado, e nessas condições o local ficava bastante escuro, principalmente por causa do chão negro, coberto por lama, terra, pedras e sujeira. A pouca vegetação que ali crescia não era capaz de melhorar a atmosfera fúnebre do lugar.

Ao longo do terreno, erguiam-se longas estacas e postes. A maioria exibia corpos pendurados em decomposição, alguns em estágio inicial e outros que eram pouco mais do que ossos. Balançavam ao sabor da forte ventania que assolava a região naquele dia. O destino destes tinha sido a forca.

Mais ao lado, havia uma grande pilha de madeira queimada. Maria sentiu um arrepio que a fez tremer da cabeça aos pés. Ela tinha ouvido o relato do que aconteceu ali, sobre como a rainha mandou queimar, um de cada vez, todos os conspiradores que não eram da guarda. Primeiro ela mandou cortar-lhes a língua. Depois mandou que eles fossem enfileirados, primeiro os mais jovens, e por último o suposto pretendente ao trono, que tramou a revolta junto com Bento. Um a um, tinham as mãos amarradas com correntes e eram jogados na enorme fogueira. Somente quando um desaparecia no fogo é que o próximo teria o seu suplício iniciado. Disseram que a rainha ficou horas ali até que o último homem morresse.

Balançou a cabeça para tentar dissipar a imagem sombria e olhou para as pessoas que estavam ali. Toda a guarda real esperava-a, enfileirada de um lado. À frente da guarda havia seis homens em pé, com as mãos amarradas para trás e as cabeças abaixadas. Havia também algumas mulheres que trabalhavam na limpeza dos arredores do castelo. Maria se compadeceu com o terrível trabalho que aquelas pobres serviçais teriam que fazer em poucos minutos.

Ao se aproximar, identificou André. Ele olhou-a com um leve sorriso e cumprimentou com a cabeça. Maria sentiu uma grande onda de calor aquecendo-lhe o peito. Ver um amigo de verdade em meio a um cenário de tanta morte e hostilidade a fortaleceu. E ainda havia o fato de que ele aceitou seu pedido. Um pedido que nunca se atreveria a fazer se não estivesse ainda muito fraca para empunhar a espada.

— Saúdem a capitã! — Um dos soldados anunciou sua chegada.

Em uníssono, o batalhão produziu um estrondoso baque, quando todos os soldados bateram suas manoplas no peito, em sinal de reconhecimento à autoridade.

Maria caminhou até a frente do batalhão e saudou-os com o mesmo gesto de bater no peito. Depois virou-se de costas. Tinha decidido não demorar um minuto a mais do que o necessário ali. Começou a falar:

— Soldados! Vocês conspiraram abertamente contra a coroa, o reino e o povo de Évora! Foram capturados no ato e sumariamente condenados à morte. Se têm algo a dizer, façam-no em suas preces e peçam a Deus para ouvi-las, pois não há mais direito algum para vocês aqui na Terra.

O batalhão estava em silêncio, aguardando pela decisão de Maria. Os traidores continuavam com a cabeça baixa, também quietos. Esperavam aquele destino há muitos dias. Maria queria acabar logo com seu sofrimento, mas ouviu um barulho, um riso debochado. Era Bento.

Nervosa, ela disse, com a voz ríspida:

— Silêncio, soldado!

Ao invés de obedecer, Bento levantou a cabeça e disse, dirigindo-se ao batalhão à sua frente:

— Cuidado com essa daí! Ela é dissimulada! Me enganou. Ela está enganando a todos nós! Todos vocês, o tempo todo! Não caiam na conversa dela, não… 

Uma bofetada lhe acertou o rosto. Maria se arrependeu por golpear aquele homem, pois seu ferimento no ombro imediatamente se abriu. Sentiu o sangue começando a escorrer, mas pelo menos conseguiu fazê-lo calar a boca. Apressou-se, querendo acabar logo com aquilo:

— Segundo o nosso código, é a sua capitã quem deve executar um soldado condenado, escolhendo o método. Eu já escolhi. Vocês serão decapitados.

Um burburinho se fez às suas costas. Os traidores pareceram relaxar um pouco. Ela continuou:

— Infelizmente eu ainda estou me recuperando da batalha e não consigo empunhar uma espada. Então confio a tarefa a André, mestre de armas! André, seja minha mão, por favor. E que o Senhor seja testemunha disto: a culpa do ato recai sobre mim, e não você.

André aproximou-se e pegou uma longa espada que estava apoiada em um toco de madeira próximo. Um a um, e com rapidez e destreza, ele foi decepando a cabeça dos traidores. Quando chegou a sua vez, Bento disse, com o olhar cheio de ódio:

— Vaca! Você é quem deveria fazer o seu trabalho sujo!

Antes que André golpeasse, Maria ergueu a mão. Ela disse, baixinho, para que somente Bento a ouvisse:

— Acho que você vai achar isso engraçado. Como era mesmo? Você ficou repetindo isso pelos salões e rindo de mim… ah, sim. Eu, agora, preciso de um homem!

Bento não riu quando sua cabeça foi separada de seu corpo.

Olá, eu sou o Daniel.Lucredio!

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