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Maria ficou boquiaberta, olhando para o homem que estava poucos metros à sua frente. Sua figura alta, com os ombros largos, destacava-se em meio aos tecidos e roupas penduradas em uma das lojas no começo da rua. Ele segurava um lenço em cada uma das mãos, aparentemente escolhendo qual deveria comprar.

Martim olhava diretamente para ela. Depois olhou para cima, mirando a placa do estabelecimento. Provavelmente certificava-se de que realmente era o lugar que pensava ser. Certamente sabia que “Diversão e Arte” não tinha nada a ver com música, bebida, poesias ou pintura. Depois olhou para ela novamente, a perplexidade estampada em seu rosto.

A excitação e a dúvida de instantes atrás deram lugar a um sentimento de horror. O que ele estaria pensando a respeito dela, vendo-a sair de um prostíbulo? Não tinha como fingir que estava em outro lugar. Ela estava literalmente parada na frente da porta, com a mão ainda na maçaneta.

Por outro lado, veio um alívio. Ele não conhecia seu rosto, então não tinha como reconhecê-la. Provavelmente estaria pensando que se tratava de uma das moças que trabalha na limpeza ou na cozinha. Ou então, que era uma das prostitutas que estava em um dia de folga.

Depois de um longo tempo, que pareceu se arrastar por vários minutos, Maria decidiu que não poderia mais ficar ali. Desviou o olhar, ergueu o queixo e começou a andar apressadamente em direção à praça. Tentou apagar todas as expressões de seu rosto enquanto pisava duro, passo após passo.

Toque. Clanque. Toque. Clanque.

O som de seu pé metálico intercalado com as batidas ocas do solado de madeira de seu sapato lhe penetrou os ouvidos como o dobrar de um enorme sino. Será que ele podia ouvir? Ela estava tão acostumada com esses sons que não sabia dizer se outras pessoas conseguiam distingui-lo também. Deu o máximo de si para caprichar em sua caminhada de modo a disfarçar o andar e o som.

Ao passar a seu lado, mesmo sem olhar diretamente, sabia que ele a acompanhava. Ouviu o farfalhar dos tecidos que ele produziu ao virar seu corpo para vê-la.

Faltam apenas alguns metros.

Toque. Clanque. Toque. Clanque.

Era o som das batidas de seu coração ou de seus passos?

Só mais um pouco.

Em segundos poderia virar a esquina e desaparecer.

— Capitã?

Droga! Fodeu, droga, merda, droga!

Fechou os olhos em arrependimento, maldizendo sua sorte. Sem conseguir raciocinar direito, decidiu fazer de conta que não tinha ouvido nada. Apressou-se, não se importando mais em tentar disfarçar seus passos. Virou a esquina e entrou na primeira porta aberta que encontrou, a poucos metros dali. Foi diretamente até um canto mais escuro do estabelecimento e ficou ali quieta, de costas para a porta, sem enxergar direito onde estava.

E agora, quanto tempo tenho que esperar? Ele vem me procurar? Ele me reconheceu? Sim, reconheceu! Como é possível?

— Ei, moça, está perdida?

Um homem negro de cabelos e barba grisalhos a espiava do outro lado da sala.

— E-eu… na verdade estou procurando… — Olhou ao redor e tentou achar algo em que poderia fingir estar interessada, mas assim que percebeu onde estava, sua boca se abriu em espanto. Era a loja de um barbeiro. O homem estava terminando de cortar a barba de um cliente mal-encarado e desdentado, que a olhava com curiosidade.

— E-eu… bem… — Maria balbuciava, sem saber o que dizer.

— Capitã!

Martim apareceu. Ao vê-la, ele abriu um sorriso e disse:

— Capitã, preciso falar com você!

O dono da loja olhou para ele, depois para ela, sem entender nada. Maria então falou:

— Martim! Oi! S-sim, é claro.

Mexeu-se rapidamente e seguiu Martim para longe da loja, despedindo-se do proprietário com um aceno.

Por uns breves segundos, Maria ficou ensaiando o que dizer. Não tinha explicações para dar, mas falaria alguma coisa assim que tivesse recuperado o fôlego. Para seu alívio, Martim adiantou-se:

— Imagino que você deve estar bem confusa agora.

Ele não podia estar mais correto. Mas antes que ela conseguisse responder, ele continuou:

— Eu reconheci o seu rosto. Percebi que você não deveria estar esperando por isso, afinal sempre está usando aquele elmo, no castelo.

Será que ele me espionou? Me viu em algum momento de descuido?

— Só um momento, por favor. — Ele mais uma vez não deixou-a falar.

Tinham retornado à loja de tecidos no começo da rua. Martim entrou e pegou os dois lenços que estava segurando antes. Perguntou a Maria:

— Qual dos dois você acha mais bonito?

— Hã? E-eu não s-sei… — Ainda estava desnorteada.

— É para minha irmã, quero dar um presente para ela.

— Oh! Ah, sim. Bom, eu gosto mais do azul. — Dar uma opinião simples, sobre um assunto simples, ajudou-a a começar a se recompor.

— É? Eu ia levar o vermelho, mas eu não sei escolher muito bem. Vou seguir sua dica.

Ele afastou-se para pagar pela compra e deixou-a sozinha por alguns momentos. Quando ele voltou, foi ela quem retomou o assunto:

— Como você reconheceu o meu rosto?

Um pouco envergonhado, ele disse:

— Naquela noite, quando você quase morreu, eu estava lá. Fui eu quem a levou até a sala de cura. Me pediram para ajudar, para lhe dar um remédio, aí eu tive que tirar o seu elmo.

Maria colocou as mãos na boca e arregalou os olhos. Era óbvio. A lembrança fragmentada e enevoada finalmente ganhou nitidez tão logo ela processou a informação. Estava com muita dor, estava morrendo, e Martim estava lá, dando-lhe o remédio. Lembrou-se de muitos detalhes agora. Ele tinha um filete de sangue na testa, estava com os cabelos molhados de suor, usava o capacete da guarda, e segurava sua mão. E conversava com ela.

— É verdade. Eu tinha esquecido.

— Sim, por causa do remédio, eu sei. Por isso você não se lembra de mim.

— Me desculpe! Eu lembro sim, agora eu lembro. Até então eu tinha apenas uma sensação vaga, uma imagem borrada.

Ele pareceu esconder um sorriso. Disse:

— E você se lembrou de… tudo? Tudo mesmo? Estava meio grogue.

— O que? O que foi que eu fiz? Ai, eu falei alguma bobagem? Fiz alguma coisa estranha?

Ele sorriu, as covinhas adornando sua boca:

— Nada, não se preocupe. Foi uma surpresa para mim, na verdade.

— Como assim? — perguntou, intrigada.

— É que você é sempre tão durona… foi estranho vê-la em uma posição tão vulnerável. Parecia até que você era uma pessoa normal.

— Quer dizer que eu não pareço normal?

— Não, quero dizer… sim! É claro que parece. Mas antes, sei lá, você era meio que um mistério, sempre com sua armadura…

De repente, ela se tocou. Se ele ajudou os curandeiros, também ajudou a cuidar de seus ferimentos, o que significava que ele tinha visto-a não apenas sem o elmo, mas também sem roupa alguma.

— Oh, meu Deus! — Ela colocou as mãos na boca de novo, o terror lhe tomando conta do corpo.

— O que foi? — ele perguntou.

— Não é nada. — Tentou disfarçar. — É que as lembranças estão voltando e… bom, podemos mudar de assunto?

Ele assentiu com a cabeça e ficou quieto. Os dois caminhavam lentamente ao redor da praça, sem dizer nada. O silêncio era muito constrangedor, e Maria cogitou voltar ao assunto, ainda que fosse embaraçoso para ela. Martim enfim disse algo:

— Ei, hã, obrigado por mudar nosso treinamento. Eu realmente apreciei o gesto.

Ah, ótimo!

Falar de trabalho era tudo o que ela não queria. Um pouco irritada, deu uma resposta irônica:

— O que eu posso fazer, se você quer ser um soldado medíocre?

Uma sombra cobriu o semblante de Martim, fazendo Maria arrepender-se das palavras que saíram de sua boca. Aquela era uma resposta típica da capitã, perfeita para ser proferida na frente dos outros homens. Geraria risos ao redor, um certo constrangimento no rapaz, e um senso de desafio a ser considerado, ainda que por pirraça. Mas no momento, soou rude e arrogante. Tentando consertar, ela disse:

— Não, me desculpe, isso foi horrível! — Ela tocou em seu braço, em um gesto instintivo. Sentiu o calor de sua pele imediatamente, seguido por um arrepio instantâneo, o que a fez afastar a mão. — Eu não quis ofender, era uma provocação… eu só não… — Colocou a mão na testa enquanto franzia as sobrancelhas. — Só não queria falar de coisas da guarda hoje, me desculpe.

Ele pareceu aceitar as desculpas, pois seu rosto se iluminou um pouco. Ele respondeu:

— Sem problemas, eu posso falar de outra coisa. — Sua expressão mudou para um ar debochado. — Por exemplo, o que estava fazendo no “Diversão e Arte”? Procurando diversão? Ou arte?

Maria ficou sem reação. Martim não deixou-a pensar muito tempo:

— Não estou julgando. Eu sei como é difícil para um soldado… ou capitã, no seu caso… achar garotas no castelo que estejam dispostas a ir para a cama.

Ele ria, zombando da cara assustada dela. Era realmente atrevido. Já tinha demonstrado isso antes, mas agora parecia prestes a cruzar o limite do que era confortável. Talvez ele estivesse apenas nervoso, esforçando-se além da conta para parecer simpático. Mas ele não parecia nervoso. Pelo contrário, parecia bastante relaxado, como se estivesse jogando conversa fora com um de seus colegas homens. Será que ele estava embriagado? Era um dia de folga, afinal.

De qualquer forma, não queria contar a verdade, portanto mentiu o melhor que pôde, na esperança de dar um fim do assunto:

— Não que isso lhe diga respeito, mas eu fui visitar uma velha amiga.

Com um olhar desafiador, Martim perguntou:

— Ah é? E qual o nome dela?

— Por que quer saber? Por acaso você conhece o nome de todas as garotas que trabalham ali?

— Eu, não — ele respondeu, meio sem graça. — Quer dizer…

— Violeta — disse Maria. Era o único nome que lembrava. — Ela morava na mesma vila que eu, quando éramos crianças. Você a conhece? Bonita, cabelos castanhos longos, ondulados…

As sobrancelhas de Martim se ergueram. Ele pareceu impressionado. Provavelmente reconheceu o nome e a descrição. Será que ele realmente conhecia todas as prostitutas do local? Se ele perguntasse algum detalhe a mais sobre Violeta, teria que mentir. Para sorte de Maria, um grito chegou aos seus ouvidos, vindo do canto da praça, perto de onde estavam:

— Ei, Martim! Você vai voltar para cá ainda hoje?

Ele virou-se de costas e deu um aceno em direção à mesa de onde saiu o grito. Depois voltou-se para Maria:

— Eu estou tomando umas com o pessoal aqui.

Ela olhou para o animado grupo e mais uma vez sentiu vontade de ficar. Mesmo aliviada pelo fim do interrogatório, sua voz soou triste ao responder:

— Ah, sim. Então tá, a gente se vê depois.

Martim olhou para o chão por uns instantes, sem se mover. Coçou a cabeça, olhou-a de lado e disse:

— Não quer se juntar a nós?

Ela não respondeu, temerosa.

Será que devo?

— Eles não precisam saber quem você é – disse Martim, sério.

Não era apenas um convite educado. Ele parecia honestamente querer que ela ficasse. E ela queria ficar. Queria se aproximar dos soldados. Queria se aproximar de Martim.

Olhou mais uma vez para os homens, que riam e falavam alto.

O que poderia acontecer?

Ela certificou-se que seu vestido estava de fato cobrindo seu pé. Respirou fundo e disse:

— Por que não? Pode ser … interessante.

— Definitivamente. Vamos?

Martim estendeu-lhe o braço. Sorrindo, ela entrelaçou o seu junto ao dele. O toque macio e quente mais uma vez provocou uma sensação de arrepio em seu corpo todo, mas lhe deu o restante de coragem que faltava. Lado a lado, aproximaram-se da grande mesa.

— Olhem só, Martim trouxe uma garota. — Ricardo levantou-se e abriu os braços em direção aos dois. — Deus abençoe este milagre.

Muitas risadas e vivas se seguiram ao gracejo de Ricardo. Martim guiou Maria por trás das cadeiras até um local onde havia uma vazia. Puxou-a para que ela se sentasse ao lado de Ricardo e dos outros dois amigos que sabia serem próximos de Martim — Carlos e Tomás. Em poucos instantes, Martim voltou trazendo mais uma cadeira. Fazendo um gesto para que os amigos abrissem espaço, posicionou-a ao lado de Maria e sentou-se também.

— Obrigado, Ricardo, por deixar a dama constrangida — disse Martim.

— Perdão, meu caro. Era para eu ter falado que você está cada dia com uma garota diferente? Além de uma mentira, acho que ela não ia gostar muito… 

Maria sorriu, sendo acompanhada por Ricardo, que lhe estendeu a mão:

— Qual é o seu nome, minha cara?

— É Maria — disse, segurando sua mão. Decidiu usar seu verdadeiro nome. Não tinha porque inventar outro.

— E nós não somos namorados — interveio Martim. — Ela é amiga da minha irmã.

Maria ficou imaginando se aquilo não despertaria suspeitas. Por que a irmã não estaria junto de sua amiga? Mas ninguém pareceu achar a explicação estranha. Olhando de Martim para Maria, Ricardo fez um gesto exagerado de alívio.

— Oh, que bom para você, Maria. — Beijou-lhe a mão. — Namorar Martim é uma péssima ideia. Eu sou Ricardo, ao seu dispor.

— O prazer é meu — ela respondeu. Olhando em seguida para os outros homens ao seu redor, disse:

— Vocês devem ser Carlos e Tomás. Martim sempre fala muito de vocês. É um prazer conhecê-los pessoalmente.

Enquanto eles respondiam ao cumprimento, Maria olhou para Martim e viu que este estava com um sorriso nervoso. Estava certamente com medo do que ela poderia aprontar.

Junto a eles nessa parte da mesa havia duas outras mulheres, que lhe foram apresentadas como Teresa e Romena. Eram namoradas de Carlos e de Tomás, respectivamente. Elas sorriram simpáticas para Maria, tirando momentaneamente suas mãos das costas de seus namorados para apertar a dela.

Em seguida, Ricardo levantou-se e fez questão de apresentar Maria a todos os soldados à mesa. Os homens sorriam e cumprimentavam-na educadamente. Alguns já estavam muito bêbados, e nenhum pareceu reconhecê-la.

Assim que voltaram aos seus assentos, Martim perguntou:

— Quer comer ou beber alguma coisa, Maria?

Ele pareceu se divertir chamando-a pelo seu nome, ao invés de capitã. Gostando de ouvi-lo chamar assim, ela respondeu:

— Sim, Martim. O que vocês pediram?

— Frango e cerveja — disse Romena. — Mais cerveja do que frango, na verdade.

— Parece ótimo — ela respondeu, olhando para Martim.

Ele levantou-se e foi até a taverna para fazer o pedido de Maria. Neste momento, Romena levantou-se de seu lugar e foi sentar ao lado dela. Disse:

— Diga-me, Maria, de onde você é?

Apreciando a tentativa da mulher em fazê-la se enturmar, Maria começou a contar sobre sua cidade natal. Não demorou para que Teresa se juntasse às duas e começassem a bater papo. Martim voltou e, vendo seu lugar ocupado, juntou-se aos outros homens, não sem antes sorrir para Maria.


Depois de várias rodadas de cerveja, Maria já estava se sentindo muito à vontade. O papo entre as três mulheres girava ao redor dos homens, agora. Teresa contava uma história engraçada sobre Carlos:

— …e ele chegou chorando, sem calças, com as duas mãos machucadas, e com a bunda toda ralada.

— Ei! — Carlos tinha ouvido as últimas palavras. — Você não está contando a história da carroça, está, meu amor?

— Pode apostar que estou! — ela riu, antes de continuar. — Enfim, tive que passar uma semana ajudando ele a fazer de tudo, até mijar. Não conseguia segurar nada nas mãos, coitado.

Maria gargalhava, junto com Romena, que já devia conhecer a história, mas acompanhava com muito bom humor. Carlos continuava gritando ao fundo:

— Não tem graça. Os cavalos dispararam. Eu podia ter morrido.

— Deixa pra lá Carlos. — disse Ricardo. — Enquanto falam mal de você, elas estão felizes.

— Eu vou é voltar para o castelo — Carlos emendou. — Pelo menos lá não tem mulher para ficar zoando com a nossa cara.

— Não há mulheres no castelo? — Maria perguntou, curiosa.

— Eu quase não vejo — disse Tomás, com a voz bastante embriagada.

— Bom, tem pelo menos uma — emendou Carlos.

— Ah, é, tem uma, sim senhor — Ricardo disse. — E que “uma” — gargalhou.

Maria desconfiava que estavam falando dela. Curiosa, insistiu:

— E o que tem de especial, essa “uma” mulher?

Martim parecia preocupado com o rumo do assunto. Maria sentiu que ele tentava evitar algum comentário quando disse:

— É que nossa capitã é uma mulher, é só isso que eles querem dizer.

Sem conseguir se conter, Maria falou:

— Uma mulher no comando? — Fingiu surpresa. — Contem mais sobre essa tal capitã. — Nunca teria coragem de fazer essa pergunta estando sóbria, mas as várias rodadas de cerveja removeram sua inibição natural.

— Ela tem o mesmo nome que você — soluçou Carlos, também já apresentando sinais de embriaguez. — E ela é… como posso dizer…

— O capeta — disse Tomás, rindo.

— Mandona — respondeu Carlos.

— Meio maluca, também — disse Ricardo.

Maria olhou para Martim, que parecia muito assustado. Carlos continuou:

— Ela nos colocou para treinar dobrado e fica dando ordens para todo mundo, o tempo todo. Sei que é nossa chefe, mas peraí, dá um descanso né? Em resumo, é uma vaca.

Martim baixou os olhos. Maria não queria continuar ouvindo aquilo. Ela tinha noção que não era uma unanimidade entre os soldados, mas doía escutar esse tipo de comentário. Carlos continuou falando, agora em um tom de voz sério:

— Mas… por outro lado, ela salvou minha vida… — Soluçou.

— Salvou as NOSSAS vidas — corrigiu Ricardo. — A gente tinha certeza que ia morrer. Já estávamos prontos para virar a casaca junto com o Bento, mas ela não sentiu medo… simplesmente correu, praticamente sozinha, contra um batalhão de homens.

— É, a gente tem que admitir que a capitã é mais corajosa que muitos homens por aí — disse Tomás.

Teresa disse, em voz baixa:

— Eles gostam dela. Xingam mas também elogiam o tempo todo.

— No fundo, no fundo, eles a respeitam muito — completou Romena. — Eu tenho muita curiosidade de conhecer essa mulher.

— Eu também — disse Teresa. — Parece durona.

Enquanto Teresa e Romena falavam sobre a capitã, Maria procurou Martim com os olhos. Ele a encarava com um sorriso orgulhoso no rosto. Ergueu sua caneca em direção a ela, levantando os ombros. Ela sorriu e levantou a sua também, e eles beberam juntos o próximo gole.


— Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! — repetiam em um coro ritmado.

Maria engolia o líquido amargo junto com o máximo de ar que conseguia misturar em sua boca. Conhecia aquele truque há tempos. Tinha que engolir rápido e sem pensar, enchendo seu estômago de bolhas e cerveja.

— Vai! Vai! Vai! Vai! Vai!

Os rostos dos homens já tinham há muito tempo assumido um ar sonolento e preguiçoso. As vozes, pastosas e arrastadas, tinham dificuldade em enunciar os sons corretamente. Maria olhava-os por trás da grande caneca de metal que estava quase na horizontal. Faltava pouco agora. Esforçou-se para não vomitar tudo de uma vez. Quando o último gole desceu por sua garganta, ela abaixou a caneca e concentrou-se, olhando levemente para cima. Fez-se um grande silêncio na mesa. As cabeças olhavam-na com curiosidade. Sorrisos ansiosos e incrédulos aguardavam por seu movimento.

Sentindo que o momento se aproximava, ela estufou o peito e fez uma cara de preocupada. Ainda tentando não vomitar, concentrou-se na conhecida sensação e em soltar tudo no momento certo. Três. Dois. Um.

Um demorado e sonoro arroto saiu de sua boca.

Gritaria, aplausos, gargalhadas e batidas na mesa seguiram-se à exibição. Maria ergueu os braços em sinal de vitória, mas um dos homens à sua frente falou:

— Eu contei seis segundos.

— Então eu ganhei — disse outro.

— Mas ela é mulher, o arroto dela vale em dobro.

— Não, eu admito — disse Maria. — Assumo a minha derrota. Palmas para o campeão aqui! — Apontou para o sorridente homem barbudo que comemorava à sua frente, levantando sua mão e agitando-a no ar.

Sentindo uma enorme tontura, ela se esforçou para descer da cadeira em que tinha subido. Foi ajudada por mãos fortes que provavelmente evitaram que ela caísse de cabeça no chão.

— Opa. Cuidado.

— O-ooi, Martim. O-obrigada.

Ele a olhava com certo pesar nos olhos, mas ainda sorria. Ele disse:

— Eu acho que a gente deveria ir embora. Está começando a ficar perigoso por aqui.

— Eu sei me cuidar — ela respondeu, em tom de bravura.

— É claro que sim, mas contra esse tipo de perigo? — ele disse, enquanto dava-lhe o braço para que ela se apoiasse nele. — Está vendo? Só sobraram os piores tipos de homens aqui, que vão fazer de tudo para entrar em seu vestido.

Ela olhou ao redor e não viu mais Ricardo, nem Carlos, nem Tomás, nem as suas namoradas. Somente Martim lhe era familiar. O resto eram soldados desconhecidos.

— Eu não quero que entrem em meu vestido, Martim — Fez uma cara de choro fingido.

— Então, vamos embora, né?

Ela assentiu e eles começaram a caminhar.

Caminhar era um modo de dizer. Se tinha alguém caminhando, era Martim, e Maria era carregada por ele. Ela estava muito zonza e não conseguia colocar os pés de uma forma controlada no chão.

— Sabe, Martim? — ela falou, com a voz pastosa. — Eu não deveria ter bebido tanto.

— Não me diga. Muito inteligente de sua parte perceber isso.

— Ha! Ha! Não precisa zombar. Você nunca ficou bêbado assim antes?

— Já, várias vezes.

— Mentira! Você está mentindo.

Maria percebeu que ele ficou sem graça. Não querendo parecer arrogante, completou:

— Bom pra você. Eu me sinto péssima.

— Quer que eu leve você a algum lugar?

Maria pensou por um instante, sem saber o que responder. Só tinha um lugar para ir — o castelo. Mas ela não podia chegar naquele estado. Ela disse:

— Eu… eu… 

— Sim? — Martim falou, preocupado.

— Eu… preciso vomitar.

Soltou o braço de Martim e caiu de joelhos, ao mesmo tempo em que a cerveja acumulada saía de sua boca em um jorro quente e amargo.

— Eca. Ai. Eu… n-não estou b-bem… 

O mundo estava girando muito. E de repente, tudo ficou preto.

Olá, eu sou o Daniel.Lucredio!

Olá, eu sou o Daniel.Lucredio!

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