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Capítulo 41 – Para Sempre

Estava tudo escuro. Seus olhos estavam fechados, mas ele via muitas coisas em sua mente. Via imagens de sua infância, a casa cheia de gente, e sentia o cheiro de peixe fresco quando o pai trazia para casa.

Ele saía com Clara para brincar. Não queriam ficar em casa. Sua mãe o chamava, mas eles se escondiam, e ela tinha que sair procurando. Sempre aparecia com a cara brava, e eles entravam correndo e rindo.

A adolescência também passou por sua mente, em uma imagem específica. Era o dia em que Pascoal saiu para se alistar no exército. Martim já era grande, mas ele se lembra de ter chorado. Estava orgulhoso, mas também já sentia a saudade.

Agora era Martim quem vestia a armadura. Ele passou nos testes derrotando um soldado que tinha duas vezes o seu tamanho. Dessa vez era Clara quem chorava ao despedir-se. Martim lembra-se da dor nas costas quando a irmã pulou por trás dele, não querendo deixá-lo partir.

Se estava mesmo morto, não era tão ruim. Não havia dor. E estava com Maria. Sentia que ela o beijava, molhando-o com suas lágrimas.

Não chore. Eu estou bem.

Havia também imagens diferentes, meio embaçadas. Folhas contra um céu azul. Tochas. Uma caverna. Ele não se lembrava de ter entrado em uma caverna antes.

Maria estava com ele. Ela sempre olhava-o de cima para baixo. Ela falava com ele, mas Martim não entendia. Não conseguia responder.

De todas as lembranças que levaria de sua vida, ela era a que deixaria mais saudades. Seu rosto estava gravado em sua mente. Os cabelos escuros. O nariz reto, delicado, com uma pequena bolinha na ponta. A boca, apetitosa, que com um simples sorriso deixava-o sem ar. Os olhos amendoados. Sempre brilhavam quando ela o olhava.

Mas isso era tudo o que ele teria. Lembranças e imagens, que levaria consigo para onde estava indo. Não poderia mais senti-la. Seu cheiro nunca mais entraria em suas narinas. O suave aroma do seu perfume. O cheiro de seus cabelos, que ele só conseguia sentir quando estava muito perto. Podia quase senti-lo agora mesmo.

Não poderia mais abraçá-la, nem sentir seu toque suave, sua pele quente, seu corpo macio, tão apertado junto ao seu. A memória não era capaz de trazer esse tipo de sensação. Queria pelo menos segurar sua mão mais uma vez, dar um apertão de leve, e senti-la apertando de volta, sem motivo.

Queria beijá-la, sentir seu gosto, devorando-a com suavidade e paixão, e perder completamente os sentidos. Era impossível parar de beijá-la quando começava. Ele a agarrava pelos braços, pelos cabelos, puxava suas costas para perto de si. Ela não resistia e se entregava, apertando seus ombros, arranhando sua pele.

A imagem era muito forte. Ele quase sentia o toque dela em seu peito. Ela passava as mãos carinhosamente nos seus ombros, e apertava com força. Até chegava a doer um pouquinho. Depois descia as mãos pelo seu peito e barriga. A sensação de prazer aumentava. Ela o apertava, com desejo. Apertou um pouco demais a barriga, e dessa vez a dor não foi tão suave.

Ô, Maria, devagar aí!

Mas a dor passou, e ele sentia seus cabelos negros tocando de leve na pele nua de seu peito. Fazia cócegas e levava ondas de prazer e calor por todo seu corpo. Ainda estava tudo acontecendo em sua mente, pois estava morto. Só que as sensações pareciam vir de fora, e não de dentro. Mesmo sabendo que era impossível, ele começou a gemer e disse:

— Oh, Maria. Sim, continue…

Sentiu uma pontada de dor na barriga, e ouviu-a dizendo, com a voz um pouco irritada:

— É Marina.

Que bobagem, Maria, acha que eu não sei o seu nome?

Ela continuava ali, acariciando-o, e cada vez mais a sensação parecia real e maravilhosa. Ele sorriu e disse:

— Desce um pouco mais essa mão aí, Maria, vai!

— Meu nome é Marina! Quantas vezes você vai falar errado?

Martim abriu os olhos, e os cabelos de Maria se transformaram. Eram loiros agora. Seu rosto também era diferente. Era outra mulher que estava ali em cima dele.

— O que? O que aconteceu, onde eu estou? — Ele tentou se levantar.

— Calma, fique deitado — disse a moça. — Você está muito ferido, não se mexa.

Martim piscou algumas vezes, tentando se localizar. Estava escuro, mas havia tochas iluminando o local. Olhou ao redor e viu paredes de pedra escura. Não estava no castelo ou em um lugar que reconhecia. Parecia uma caverna.

— Meu nome é Marina, Martim. Você me conhece, apesar de errar meu nome toda vez. Eu sou curandeira, trabalho no castelo.

Era verdade. Ele se lembrou. Já precisou se tratar com ela uma vez, quando se feriu com uma espada no treinamento.

— Olá Marina, me desculpe. Achei que era outra pessoa.

— É claro que achou.

— Onde eu estou?

— Em um lugar seguro. Nós o trouxemos para cá para tentar salvar sua vida. Graças a Deus está bem melhor agora. Ela ficou muito preocupada.

— Quem?

— Ora! Quem, Martim? Maria, é claro!

— Onde ela está?

— Ela saiu, foi buscar algumas coisas para a viagem.

— Viagem?

— Ela vai lhe explicar tudo, procure relaxar. Você perdeu muito sangue, mas por sorte seus ferimentos não foram fatais.

Ele levantou um pouco a cabeça e olhou para baixo. Marina terminava de limpar uma horrível ferida em sua barriga. Seu ombro também doeu quando ele tentou se levantar um pouco mais.

— Fique deitado, seu teimoso!

— Ai! Está bem.

Ele relaxou e ficou olhando para o teto, tentando se lembrar do que aconteceu. Lembrou-se da luta com Alvar, e de como tinha sido derrotado. Lembrou-se de vê-lo em pé, e Maria caída no chão. Ele estava prestes a matá-la.

— Maria está bem? Ela não está ferida? — ele perguntou.

— Ela está ótima, sofreu apenas um ferimento leve.

— E você sabe o que aconteceu? A gente estava lutando com Alvar.

— Ela o matou. Eu mesma a ajudei a esconder seu corpo.

Martim não conseguiu afastar um sentimento de assombro. Ele foi derrotado facilmente pelo habilidoso espadachim, e ela, sem uma perna, e lutando sozinha, conseguiu matá-lo. Sorriu e pensou:

É, meu amigo… Nunca deixe essa mulher de mau humor!

— Pronto — disse Marina. — Já troquei seu curativo, deve ser suficiente para segurar suas entranhas aí dentro até o fim da viagem.

— Está tão ruim assim?

— Não, estou brincando. É só para evitar que a cicatriz volte a se abrir. Fique o mais parado possível, está bem?

— Pode deixar.

— Eu vou deixá-lo sozinho um pouco, mas eu vou ficar por perto. Tente desc…

— Descansar, sim. Vou ficar quietinho.

Ela suspirou e deu uma última olhada para ele, mordendo seu lábio inferior antes de se levantar e sair de seu campo de visão.

Martim respirou fundo e sentiu o ar entrando em seus pulmões. O ar era úmido e agradável. Estava quente, pois havia uma fogueira ali perto. Seus olhos foram se fechando e ele se deixou levar pelo sono.


— Obrigada, muito obrigada, amigos.

— De nada, Maria. E lembre-se, dê um jeito de mandar uma mensagem assim que chegarem lá.

— Pode deixar, vocês ouvirão notícias em breve. Tchau Carlos, tchau Tomás, cuidem-se. E mandem um abraço para Teresa e Romena.

— E o cachorrão? Será que já acordou? Queria me despedir.

Nesse momento, Martim falou:

— Quem está aí?

Depois de alguns segundos, ele viu quando seus amigos se aproximaram. Seus rostos estavam alegres, e eles se abaixaram para ficar perto dele.

— Martim, você está bem? — era Carlos.

— Estou, e vocês?

— Tudo ótimo — respondeu Tomás. — Você não tinha que ter morrido, não?

— Fazer o quê? Eu sou teimoso.

Eles sorriram. Martim perguntou:

— E como estão as coisas? O que aconteceu?

— Ih, cara, foi uma bagunça geral — disse Carlos. — Ficamos andando pela região, procurando vocês por horas, mas infelizmente não encontramos nada.

— A rainha surtou quando soube que a guarda ficou sem a capitã — disse Tomás. — Mandou chamar Fernão, mas ele está ocupado com a guerra.

— Nossa!

— Acho que vai demorar para as coisas se acalmarem um pouco. E fique grato por isso. Vocês agora são procurados, Catarina colocou um prêmio em suas cabeças.

— É, acho que vamos ter que sumir por uns tempos.

— Não se preocupe. Maria conhece um lugar para vocês se esconderem. E já está tudo preparado, nós acabamos de trazer um monte de suprimentos para vocês — disse Carlos.

— Obrigado, amigos. De verdade, nem tenho como agradecer.

— Tomás, temos que ir. Vão sentir nossa falta.

— Sim. Martim, cachorrão, se cuida. — O amigo se abaixou e deu um abraço em Martim.

— Adeus, Martim. — Agora foi Carlos quem se despediu.

— Eu não sei para onde vou, mas a gente ainda vai se encontrar, não é?

— Claro que vai. — Tomás deu um sorriso enigmático. — A gente fez aquela promessa, lembra?

— Promessa? O que quer dizer?

— Parece que alguém roubou o tal livro de registros que você achou. A rainha está tentando abafar o caso, mas não está conseguindo.

— Não me fale desse livro maldito — disse Martim. — Não tenho mais o menor interesse em saber se a rainha matou ou não o marido.

— Tem certeza?

— Tenho.

— E se a gente dissesse que talvez o Ricardo não tenha morrido em vão?

— Como assim? — perguntou Martim, curioso.

— Bem, parece que antes de morrer o nosso amigo poeta deu um jeito de espalhar o conteúdo do livro por aí — disse Tomás. — Ninguém sabe ao certo se existe alguma coisa concreta, mas foi o suficiente para fazer as teorias de conspiração voltarem com tudo.

— E pelo jeito como as notícias correm — disse Carlos —, eu diria que você e Maria estão no topo da fila dos traidores da coroa, não é mesmo? Não se assuste se alguém for procurá-los em breve.

Uma faísca de alívio se acendeu no peito de Martim. Lembrou-se da ocasião em que os quatro amigos juraram permanecer juntos. Em sua mente formou-se a imagem de Ricardo, dizendo: “Parece que a coroa está prestes a mudar de cabeça”. Martim sorriu e disse:

— Juntos, então? — estendeu a mão.

— Juntos! — disseram os outros, colocando suas mãos sobre a dele.

Depois disso, Tomás e Carlos saíram da caverna.

Martim tentou se levantar. Queria muito ir até o lado de fora, ver onde estava, participar do planejamento dessa tal viagem. Conseguiu, com muito custo, sentar-se. Ouviu Maria gritando, do lado de fora:

— Não! Não deixe ela entrar! Volte aqui!

Martim se assustou por um breve instante, receoso do que estava acontecendo. Um vulto apareceu voando em sua direção, e ele sentiu toda a sua cara sendo molhada.

— Sereia! Ah, que saudades, minha amiguinha.

A cachorrinha pulava e lambia Martim sem parar. Ele sentiu dor em seus ferimentos, mas não ligou. Acariciava e coçava suas orelhas, enquanto ela gemia e chorava, com o rabo balançando loucamente.

— Achei que nunca mais ia ver você, menina.

Ela pulou em seu colo e Martim a segurou, apertando forte seu corpinho enquanto acariciava suas orelhas.

— Martim, solte-a! Você não pode ficar fazendo esforço.

— Clara!

Sua irmã se aproximou, e Sereia foi para o chão. Voltou a correr para fora da caverna, saltitando.

— Venha, irmão, vou te ajudar a se levantar. Vocês precisam partir.

Ela deu as duas mãos para Martim e ele conseguiu ficar em pé. Estava um pouco tonto. Precisou apoiar-se em Clara para não cair. Segurando-a pelos ombros, olhou para seu rosto sorridente.

— Não acredito que está aqui.

Ela o abraçou, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Achei que tinha te perdido, irmãozão.

— Eu também, irmãzinha — ele disse, abraçando-a forte.

— Eu vim me despedir, mas não é um adeus. Eu vou visitá-lo no Sul, sempre.

— Sul?

— É para lá que vocês vão, Maria conhece um cara, parece. Eu não sei exatamente onde é, mas vocês vão ficar bem.

— Eu já estou com saudades. Não quero deixá-la sozinha.

— Martim, eu sei me virar.

— Eu sei, eu sei. É só uma mania de irmão mais velho. Escute…

— Já sei o que vai dizer, fique longe dos babacas.

— É.

— Vamos? Eu te ajudo.

Começaram a caminhar para fora da caverna. Martim se apoiava em Clara, e eles avançavam devagar. Ouviu Maria dizendo, sua voz cada vez mais clara à medida que se aproximavam da entrada:

— Obrigada, senhor Tiago, já está tudo aqui dentro. Podemos partir, então?

— Quando quiser, Maria, mas não podemos demorar, pois o mensageiro mandou avisar que o cordeiro já está no fogo.

— Não podemos deixar nosso anfitrião esperando.

Martim sentiu seus olhos ficarem cegos por alguns instantes, quando a claridade do dia tomou conta de sua visão. Aos poucos foi reconhecendo as formas. Estavam em uma floresta, perto de uma clareira. Um rio corria a poucos metros dali. Havia uma carruagem parada em frente à entrada da caverna. Sereia corria ao redor dela, brincando e latindo para os cavalos, que davam patadas no chão para afastá-la.

Ao lado da carruagem estava Marina. Ela estava em pé, entregando uma sacola para a mulher morena à sua frente.

— Aqui tem tudo o que vão precisar — disse Marina. — Tem um remédio para a dor, se piorar muito, ataduras e um líquido para a limpeza. Daqui a seis horas, mais ou menos, precisa limpar e trocar tudo, está bem?

— Entendi — respondeu Maria. — Obrigada, Marina. Por tudo.

Elas se abraçaram. Marina disse:

— Oi Martim, está se sentindo bem?

— Estou.

Nesse momento, Maria se virou.

Ela sorriu para ele. Seus olhos brilharam e seus dentes apareceram por baixo da boca vermelha, esticada de um lado até o outro do rosto. 

Que sorriso maravilhoso!

Maria começou a andar em sua direção. Ao se aproximar, Clara soltou o braço de Martim que estava apoiado nela e o entregou a Maria. Ela sustentou seu peso, segurando em sua outra mão, e o abraçou. Martim a abraçou de volta.

Sentiu seu cheiro.

Sentiu seu toque, seu calor.

Ouviu sua respiração, seu coração batendo.

Afastou-se um pouco e pegou seu rosto com as duas mãos. Ela ainda sorria. Ele abriu a boca levemente e tocou em seus lábios, saboreando aquele momento. Maria o beijou, e ele fechou os olhos.

Não sentia mais dor, nem cansaço, nem tontura. Nada mais existia, exceto Maria.

Estavam enfim juntos de verdade.

Fim

Olá, eu sou o Daniel.Lucredio!

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