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O cheiro de carne voou pela mesa da sala de jantar. As crianças foram colocadas para dormir mais cedo, assim os convidados poderiam ficar mais tranquilos e se servir sem a zoada de um orfanato cheio. Haviam cinco pessoas sentadas à mesa, uma mimadinha de cabelo prateado, um garoto de cabelo curto semelhante a uma menina, um cavaleiro cansado do longo dia, um soldado sorridente e muito amigável, a responsável irmã ruiva e outros dois homens que não foram vistos anteriormente. 

Liane foi posto especificamente ao lado de Silva, por uma exigência da nobre e apoio de Zana que não queria mais dor de cabeça nessa situação já tensa. A mulher pegou um grande pote, a sopa com especiarias trazidas do grupo de Aymeric fez o aroma florescer de uma forma espetacular. 

Era a primeira vez de Liane sentindo um odor tão agradável, pois no dia a dia a sopa sequer tinha um cheiro discernível e o gosto se assemelhava a mingau. Ele reconhecia a habilidade da irmã em ainda tornar isso comestível, com os recursos disponíveis no orfanato seria impossível criar algo para se alimentarem diariamente, mas ainda assim as bocas dentro daquelas paredes eram satisfeitas.

Com uma larga concha de metal, a irmã pôs o cheiroso caldo com pedacinhos de carne nos pratos, no entanto, a feição de Silva se contorceu de uma maneira inexplicável. Era sua primeira vez experimentando uma refeição muito… simples. Também seria vergonhoso reclamar, levando em conta que foi pedido seu adicionar mais soldados no seu grupo ao invés de um cozinheiro, já que considerava uma luta com colheres e fogo totalmente inferior a um confronto de espadas. 

Quando sua colher encostou na superfície do líquido, a dúvida pairou sobre sua cabeça, se deveria engolir logo ou não, e para variar o garoto sentado ao seu lado via isso achando completamente estranho se comportar assim.

Ela é uma nobre, pequenino. Os nobres são exigentes demais com suas refeições, é de esperar uma reação assim. Tente beber da sopa e ver se te seguirá, é o que eu acho ser a saída mais funcional.

Liane mexeu um pouco no seu prato, retirou um pedacinho de carne em meio ao caldo e soprou, até estar frio o bastante para degustar. O plano funcionou de imediato, pois Silva era a única da mesa que não tocava na refeição, provavelmente atacando por pura vergonha o que estava diante de seus olhos. Na primeira colherada, ela queimou a ponta da língua porque assoprou muito pouco e a água quente se espalhou pela gengiva, o que quase fez ela chorar.

O garoto ao seu lado observou os olhos marejados, causando uma explosão dentro de sua cabeça, ou melhor, o desespero de Er’Ika se manifestando.

Será que ficou tão ruim assim? Mas não tem como, até mesmo eu, um ser de grandes critérios, confio minha alma que isso está bom! Hah, pelo amor, faça alguma coisa para impedir o choro, qualquer coisa!

De repente, uma memória veio à mente do garoto. Quando estava triste, era normal Zana afagar sua cabeça e dizer “Tudo bem, eu estou aqui”. Sempre acalmava, independente da circunstância e do quão ruim o dia fosse. Ele estendeu a mão até o topo do cabelo de Silva e fez um cafuné, o que imediatamente atraiu o olhar dela, aquele par de olhinhos arroxeados brilhavam com lágrimas prestes a escorrer.

— Tá tudo bem, eu tô aqui.

E essa mera ação quase fez Aymeric, Jay e os outros dois oficiais se engasgaram. Os homens conheciam muito bem o temperamento de Silva e sua relação com o toque de outras pessoas, uma repulsa extrema o bastante para ordenar a decapitação de quem ousou encostar num fio de cabelo seu. Era esperado uma retaliação imediata, um espancamento ou uma leva de xingamentos infantis e irritados que pareciam fofos, até a imagem ser obliterada pela ordem “Executem! Executem!”, só que os demais apenas observaram com olhos arregalados e de boca aberta derramando parte da sopa de volta ao prato.

A irritadiça Silva corou com o toque, querendo esconder o rosto pela vermelhidão suave em suas bochechas, mas não teve coragem de negar o carinho e muito menos o olhar compassivo de Liane, que lhe ofereceu uma mão amiga de maneira tão simples. Isso sem contar como seu interesse havia aumentado muito, levando em conta que encontrou a sua “parceira” de treino ideal. 

Um afeto assim não faria mal algum, especialmente quando houve tanta felicidade por perder de alguém a levando a sério, diferente dos demais oficiais na mesa, que sempre pegaram leve e acabaram recebendo um olhar de desdém com um alerta de “Ousem encostar num fio de cabelo dela e eu arranco a cabeça de vocês!”. Isso parecia tanto fofo quanto ameaçador, levando em conta que aquela menina possuía muita seriedade em seus avisos.

Enfim Silva tomou coragem de novo para beber a sopa, uma pena que sua pressa novamente causou uma queimadura na língua, e novamente Liane teve que consolá-la para evitar que chorasse. Os demais tiveram uma refeição silenciosa, Zana em especial temia pela reação de todos, alegrando-se ao encontrar um conjunto de sorrisos nos oficiais, pois eles não comeram nada além de carne em conserva extremamente salgada, logo, uma variação amplificou em milhares de vezes o sabor.

Quando todos se satisfizeram, a mulher tampou o pote vazio e o tirou de cima da mesa, esgueirando os olhos na direção do seu menino favorito, que se divertia muito dando cafunés na garota nobre. Os demais oficiais continuavam sem jeito, Zana até queria entender o porquê disso, mas preferiu manter-se quieta. Após limpar o restante das coisas, ela também levou cada um a seu respectivo quarto e deu o aviso de que estaria no andar acima caso precisassem. 

Liane estava prestes a se separar, até uma mão agarrar seu pulso e puxá-lo para perto.

— Vo-Vo-Você pode ir comigo? — disse Silva, ficando cada vez mais próxima.

— Hum? Por que?

— E-E-Eu…

— A senhorita tem medo do escuro — comentou Aymeric, vendo-os parado no corredor. — Vossa Graça, quer que eu lhe acompanhe? Não tenho problema nisso.

— Não! — A nobre demonstrou uma carreta feia e mostrou a língua. — Eu quero que ela me leve!

— Como quiser, Vossa Graça…

O garoto ao seu lado ficou meio sem jeito, mas ao reparar no pedido de ajuda de Aymeric transmitido pelo seu olhar pesaroso, não houve como negar. Os dois andaram lado a lado pelo corredor, Silva fez questão de bater a porta na cara de Aymeric para que ele não entrasse de jeito algum.

Com um suspiro, o cavaleiro cruzou os braços e jogou as costas contra a parede, esperando pacientemente que o amanhã viesse.

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Olá, eu sou o Zunnichi!

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