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As estrelas decoraram o céu em uma valsa celestial. A lua, grandiosa e com seu brilho mágico, iluminou o vilarejo e o acampamento dos soldados, que pincelaram a escuridão com as cores amareladas de suas lamparinas. Liane, revestido até o pescoço de roupas para enfrentar a geada noturna, invejou os que esfregavam as mãos perto de uma fogueira. 

Ele andou pelas planícies nevadas, levando consigo um punhado de carcaças de pequenos animais dentro de uma sacola para alimentar tanto a si quanto aos seus companheiros no orfanato. Por causa da habilidade e precisão de Er’Ika, foi fácil caçá-los e derrotar a fome durante o inverno, uma pena que certas crianças não tiveram a mesma sorte, sendo levadas pelas doenças que a estação fria trouxe.

As pernas do garotinho foram protegidas por um par de botas, confiado especialmente pela irmã Zana para arranjar mais comida e para evitar ferir ainda mais os pés cheios de cicatrizes, pois ele era o único capaz de trazer mais comida às bocas famintas do Orfanato da Macieira. Sua vida era tão valorizada que as crianças inclusive lhe entregaram uma parte das suas roupas, como cachecois e gorros, para lutar contra a baixa temperatura, mas aquela armadura de pano pesava demais sobre os ombros.

O ar fugindo de sua garganta parecia cortar a carne, como se estilhaços de gelo se acumulassem cada vez que respirava, mas com uma resiliência de ferro, chegou à porta do orfanato e bateu repetidas vezes.

Está ficando cada vez melhor, sei praticamente de tudo sobre a floresta e comecei a registrar um pouco das partes mais externas. Reanalisando minha estratégia, creio que levará 10 anos ou mais para sairmos daqui, isso se considerar a sua evolução corporal e amadurecimento.

— Erika, eu não pretendo ir embora.

Liane, eu preciso disso, e você deve a sua vida a mim. Só temos que encontrar uma forma de se separar, assim seguiremos nossos próprios caminhos. Nossa saída será o mais breve possível, quando encontrarmos um jeito para me tirar de ti, nunca mais escutará minha voz te ordenando.

— Você tem certeza? Certeza absoluta que dará certo e que eu posso viver em paz depois?

Sim, com plenitude. Apenas me dê essa chance.

— Tudo bem…

Liane ofereceria a oportunidade, jurou de mindinho consigo mesmo. Não queria sair, muito menos se afastar de sua terra natal, independente dos ressentimentos e memórias ruins, pois existiam também os momentos bons e inesquecíveis de sua infância. Seus dias eram difíceis, mas ele não queria abandonar, e qualquer humano crescido diria que era um desejo idiota de uma criança se manter na sarjeta quando a escapatória estava pendurada diante de seus olhos.

Passos ecoaram no lado de dentro do casarão, Zana abriu a porta e se deparou com um garotinho de cabeça baixa segurando um saco no ombro.

— Finalmente, você demorou mais do que deveria… — Ela pegou em sua mão e o puxou para dentro, em seguida trancando a entrada. — Temos convidados, então seja respeitoso com cada um deles, certo? É sua responsabilidade se comportar por tê-los trazido para dentro.

A criança acenou positivamente, sendo foi levado a cozinha para tratar do serviço de preparar o jantar, uma saborosa sopa. A irmã estendeu as carcaças para pingar o sangue e deu início a preparação da refeição, escolhendo os melhores vegetais e legumes disponíveis na cozinha, enquanto o garoto ficou com o trabalho de arrumar água. Saindo pela porta lateral da cozinha com diversos vasos abaixo dos braços, Liane andou rumo ao poço em que um balde bambeava no topo. 

Ele agarrou a corda presa ao balde, mas por algum motivo hesitou em puxá-la para descer. Permaneceu estático, olhando para as constelações acima, admirando os fulgores destes corpos celestes tão distantes e mortos, mas que ainda demonstravam fagulhas de sua existência.

Eu vim de lá.

— Você veio de lá? Se refere às estrelas?

Sim, eu desci dali. Não sei como era antes, só sei que desci e fui perseguido, mas eu morava lá, vivia lá e observava cada coisa acontecendo de cima. Acho que não tinha muitos amigos, lembro de sentir solidão em meio a diversas coisas ao meu redor, e os outros sequer me ajudavam como um bom amigo. Às vezes, te invejei pela sua relação com Zana, porque sou incapaz de compreender o que levam vocês dois a cuidarem de si, quando é óbvio que não vale a pena.

Liane emudeceu. Inveja? De todos os sentimentos, o que menos esperava era isso vindo de Er’Ika, mas entendia o significado. Outras pessoas também o invejaram um dia, seja por sua aparência ou por como era bem tratado. As assombrações constantes do passado se repetiam em eco diariamente em sua cabeça. 

Ele não teria coragem de proteger a entidade, muito pelo contrário, seus ideais conflitantes e seus desejos opostos só lhe causavam mais dúvidas e receios. A essa altura, a vontade de ser ignorante e apenas desobedecer quaisquer pedidos para evitar a responsabilidade de retribuir o favor era um desejo real.

— Mudar o seu jeito talvez ajudaria, Erika.

Mudar meu jeito? Pft, não diga besteiras, seres como eu não mudam, somos estáticos e eternos.

— Mas nada impede de responder e tratar os outros de forma diferente. Ninguém se interessa por uma pessoa que apenas se importa com vantagens, é mais provável que alguém assim seja abandonado do qxue amado. Você deve encontrar as coisas boas nos outros e ficar com eles por causa disso.

… Seguindo a sua lógica, sua fofura conta como algo bom, então?

— Hehe, eu não sei. Se for assim, o seu jeito de me ajudar também é algo bom.

Um sorrisinho bobo surgiu em sua face, Er’Ika conseguia imaginar a forma pelo jeito que os músculos se contraíram. Seus processos e análises queriam compreender o que isso queria dizer, e também entender o motivo de crianças serem tão emocionalmente complicadas.

Em uma questão de manipulação, o ideal seria contornar problemas e sentimentos conflitantes, mas sua impaciência era um fator essencial. O relógio estava correndo, o tempo acabaria e ele não fazia ideia do que aconteceria a si quando isso acontecesse. Essa sensação de enfrentar o desconhecido lhe dava medo, e mais ainda, temia que desconhecer Liane trouxesse mais problemas.

No entanto, sem nem mesmo reparar, seu maior erro foi apontado. Por um momento, Liane teve a impressão de que algo estava aquecendo dentro de sua mente, um calor semelhante a quando estava envergonhado e suas bochechas ganhavam o tom rosa. 

— Hum, Erika, você tá bem?

E-Eu estou sim!

De fato, Er’Ika não estava nada bem.

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Olá, eu sou o Zunnichi!

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