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Algumas horas se passaram desde que Silver apresentou as mudanças de plano para Freud. Desde então, o raiju continuou dando replay na sua luta contra o gigante na floresta, vez ou outra revendo a batalha contra o dragão prateado anos atrás.

‘Eu deveria desafiar Seiji?’

Ser colocado no mesmo nível que aquele projeto de herói contribuiu enormemente para a frustração dele, o fazendo considerar seriamente desafiá-lo. Já sobre Mari, que foi tecnicamente posta como uma semelhante, esta sequer passou pela sua cabeça.

Um rangido chegou aos seus tímpanos, fazendo o jovem pausar seus pensamentos e levantar sua cabeça preparando-se para um possível combate.

— Você ficou aqui o tempo todo? — A voz familiar de Silver soou e, antes do raiju relaxar, ele continuou — Que postura é essa? Quer brigar?

Freud sentiu o desdém óbvio no último comentário, mas escolheu ignorar isso, se focando na aparência peculiar do recém-chegado.

Normalmente ele sempre deixava seus cabelos prateados em sua forma natural, fazendo com que eles permanecessem bagunçados. Hoje, no entanto, o homem os deixou bem penteados para trás, com uma única mecha solta repousando em sua testa.

Ele também vestia um haori preto, cortesia de Hikari que por algum motivo tinha um modelo com as proporções exatas dele guardado.

— Não me olhe assim. Hikari insistiu que eu estivesse ‘apresentável’. — Sinceramente, o jovem não via ponto nisso, mas cedeu graças à insistência da garota. — Descansou o suficiente? O banquete está para começar.

— Já? — perguntou o raiju, soando genuinamente surpreso.

Ele não poderia ser culpado por isso, a única iluminação presente no lugar vinha das lâmpadas de papel, então não houveram sinais da passagem do tempo.

— Sim.

‘Não sei o que dizer…’

Antes do silêncio perdurar o suficiente para deixar o clima estranho, uma série de rangidos ecoaram na sala.

Olhando para a origem do barulho, a dupla se deparou com três figuras distintas. A primeira a se aproximar foi Hikari, vestindo um kimono puramente preto, caminhando com as mãos juntas atrás das costas.

Seus cabelos pretos não estavam amarrados em um coque como o de praxe, mas sim soltos com algumas flores brancas adornando o piche de suas mechas. 

Suas pupilas banhadas no azul-gelo permaneceram travadas em Silver desde o primeiro momento em que ela entrou na sala, e um leve sorriso se espalhou em seu rosto.

Atrás dela, uma jovem se aproximou, saltitando enquanto segurava a mão da terceira recém-chegada. Os cabelos dela também eram pretos e, novamente assim como os da kunoichi, eles foram ornamentados por flores, desta vez compostos por uma gama muito mais variada de cores.

Acompanhando a pequena kunoichi estava outra jovem, vestindo um haori preto no topo, se tornando cada vez mais pálido até sua base se tornar branca. Assim como as outras duas, seus cabelos foram decorados com flores, porém nas suas jazia um tom de puro breu que destacava o policromático de suas mechas.

Iris esbanjou sua expressão neutra, mas seus olhos multicoloridos estavam se movendo constantemente em quatro direções diferentes. A primeira direção foi para sua própria mão, a qual era segurada pela de Nikkō.

Seu olhar se voltou para Silver e então pousou em Hikari, antes de voltar para a direção inicial. 

‘Isso é ter amigos?’

A jovem ponderou enquanto olhava para o trio, ignorando inconscientemente Freud. Seus pensamentos foram pausados quando Nikkō soltou sua mão, aproximando-se da kunoichi.

— Hihi! 

Tirando os olhos do dragão prateado, Hikari direcionou sua atenção para o objeto que lhe foi oferecido. Era uma coroa feita de galhos, provavelmente de alguma árvore estrangeira, pois seus galhos tinham uma cor mais pálida do que aqueles presentes nesta região.

Enquanto posicionava a coroa em sua cabeça, a kunoichi sentiu nitidamente os traços dos cortes que Nikkō fizera para esculpi-lo. 

—  Como eu estou? — Seu sorriso aumentou ao sentir o cuidado que sua pupila colocou na criação desta obra.

— Só um pouquinho mais perfeita que o de sempre — respondeu Silver, com um sorriso estampado no rosto.

Neste momento, a pequena kunoichi cutucou Iris, gesticulando na direção do dragão prateado. Entendendo o gesto, a jovem aproximou-se dele e, diferente de sua amiga, ela mesma colocou a coroa nele.

— O que vocês acham? — Levando uma mão ao queixo, ele questionou, embora estivesse impossibilitado de ver o objeto.

— Só um pouquinho mais elegante que o normal — respondeu Hikari, empinando o nariz orgulhosamente.

— Você está bonitão Silv! — Nikkō lançou um joinha na direção do jovem — Não é, Iri?

Iris assentiu em confirmação e, apesar da situação calorosa, Freud estava novamente questionando sua existência.

‘Nunca pensei que sentiria saudade daqueles idiotas’

Comumente ele apenas tinha que lidar com as idiotices de Mari e Seiji com o ocasional desafio do último, junto às ‘ordens’ de Lina para comprar ou trazer algo para ela. Também haviam as brigas entre Mia e sua futura chefe, mas era semelhante a rivalidade dele com o projeto de herói então não era um problema.

— Sei que o desfile está legal e tudo mas, não temos que ir para o banquete? — O raiju questionou.

Ele recebeu um olhar significativo de Silver e Hikari, mas nenhum dos dois comentou sobre e o primeiro deu de ombros começando a caminhar na direção da porta.

O grupo então seguiu rumo ao evento mais importante desta noite: O banquete.

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Centenas de lanternas de papel iluminaram completamente o lugar, permitindo uma visão completa e sem restrições para aqueles presentes. 

A visão de uma mansão grandiosa preencheu a vista dos convidados, exigindo silenciosamente que eles a observassem. O telhado foi feito com cerâmica escura, as quais se curvaram elegantemente em direção ao céu, enquanto suas paredes de madeira polida refletiram as luzes das lanternas.

As janelas foram rodeadas por detalhes esculpidos à mão, sugerindo um cuidado em sua implementação.

Um caminho de pedra serpenteou pelo jardim, direcionando seus visitantes a uma área repleta de mesas de madeira, onde algumas centenas de pessoas se encontravam, aguardando pelo início da cerimônia.

— Eles são… Hmmm, como eu posso dizer? — Dentre as pessoas presentes, o quinteto estava sentado em uma das mesas, aguardando como todos os outros.

— Fechados? Deprimentes? Emos? — Apresentando algumas opções, Silver voltou seus olhos para os habitantes do vilarejo.

Todos eles vestiam preto e conversavam apenas com aqueles presentes na própria mesa, preservando uma calmaria relaxante no lugar.

— Isso não é importante. Observe-os bem, pois eles vão ser seus oponentes hoje. — Hikari aconselhou.

— Oponentes? Do que você está falando Hihi? — Nikkō olhou para a kunoichi surpresa, ela pensou que sua mestra havia voltado por saudade dela.

— Não se preocupe, vamos aproveitar o banquete. 

A garota não esqueceu completamente, mas deixou o assunto de lado por enquanto. 

— Há quanto tempo Kix1, finalmente decidiu retornar ao clã? — Um homem com a aparência semelhante a Nikkō se aproximou, mantendo sua cabeça levantada e olhando-os de cima.

Um silêncio percorreu a mesa por alguns instantes, o suficiente para fazer ambos, Freud e o recém-chegado desconfortáveis.

— Quem é você mesmo? — Hikari perguntou, soando genuinamente curiosa.

‘Cara, é assustador o quanto isso parece com algo que Silver diria’

Pensou o raiju, observando a expressão do homem se contorcer em pura descrença.

‘Pobre coitado’

— C-como assim?! Você não se lembra de mim? Sou eu, Hideaki — Apontando para si, sua voz alcançou um novo tom enquanto dizia.

— O que acha, Silver. Lembra dele? — A jovem passou a bola para o dragão prateado.

Essas palavras fizeram a atenção do garoto se focar completamente no homem por alguns segundos.

Os olhos dourados que o encararam fizeram Hideaki dar um passo atrás, as memórias de seu último embate o fez recuar e isso criou uma fagulha de raiva em seu coração.

— Hmm… Não sei. Ele pode ou não estar no grupo que veio atrás de mim naquela época mas, é difícil lembrar de todos os vermes que esmaguei. — Desviando o olhar, Silver deu de ombros.

Com a raiva abrindo caminho em seu peito, o homem levou sua mão até a cintura, preparando-se para atacar.

‘Nesse ritmo, eles vão destruí-lo antes que eu tenha a chance de lutar’

Pensando nisso, Freud olhou para a dupla restante, buscando saber o que eles pensavam sobre isso.

Iris parecia estar pensando profundamente, e quando ela não parecia? Com uma expressão sempre neutra no rosto era impossível dizer. Já Nikkō, estava incrivelmente concentrada na interação do trio, quase como se estivesse…

‘Aprendendo com isso. Na falta desses dois agora vai ter uma terceira. Sinto pena pelos seus futuros inimigos’

Antes da situação escalar, uma nova pessoa se aproximou da mesa.

— Ora, vocês parecem animados para o banquete — A voz de Natsumi soou, fazendo Hideaki tirar a mão da cintura e ajustar sua aparência rapidamente.

 — Srta. Natsumi! Como foi a viagem? — Os lábios do homem revelaram um largo sorriso, recepcionando calorosamente a mulher.

— O de sempre. Alguns idiotas pedindo para morrer e outros conseguindo o que merecem. — Respondendo de maneira perfunctória, ela seguiu — Vejo que você se adiantou em dar as boas-vindas a Hikari. Eu gosto disso, mas lembre-se que somos todos ‘família’.

A ênfase na palavra família carregava uma ameaça disfarçada, e ambos perceberam isso. Hideaki rapidamente expressou sua concordância no assunto enquanto Hikari permaneceu em silêncio.

Era inevitável que eles acabassem entrando em conflito no fim da noite, então ela não viu motivo em ser amigável.

— Coroa bonita, Silver. Onde eu consigo uma? — perguntou Natsumi, olhando também para a coroa na cabeça da kunoichi.

— Não é assim fácil, você tem que merece…

— Eu faço uma para você tia! — Cortando a frase de Silver, Nikkō ofereceu diretamente.

— Hmm. Nesse caso vou agradecer antecipadamente. — A mulher sorriu, mas logo após franziu — Parece que ele não me escutou.

O grupo seguiu a linha de visão dela, encontrando uma pessoa bastante familiar para alguns deles.

Seus cabelos eram curtos o suficiente para mal alcançarem o meio de sua testa, e a compleição pálida do homem atestou seu laço com os habitantes do vilarejo.

Desde o topo de seu nariz até a base de seu queixo foram cobertos por uma máscara de metal, exibindo um preto profundo que salientou os demais detalhes do objeto. 

— Vou direto ao ponto. Sei que vocês vieram atrás de Mutsuri, mas espero que se contenham até o fim do banquete — disse Natsumi com uma expressão séria.

Enquanto Hideaki e Nikkō digeriam esta nova informação, Silver levou uma mão ao queixo antes de responder.

— Não precisa se preocupar… — Suas palavras se estenderam enquanto ele deslizava o dedo pela sua bochecha e, no próximo instante, uma intenção assassina cobriu o local por alguns segundos, chamando a atenção de todos incluindo Mutsuri para ele.

— Se alguém vai queimar a largada vai ser ele.

O homem agora tinha os olhos grudados em Silver, com os punhos cerrados e corpo trêmulo. Ele parecia estar a um fio de saltar no pescoço do jovem.

Mas ele não foi o único afetado, todos os demais convidados incluindo Natsumi, Hideaki e Nikkō, os quais foram pegos de surpresa, estavam olhando na direção do dragão prateado.

A tensão no clima se dissipou brevemente com a aproximação de uma nova série de passos, acompanhando a chegada da figura mais respeitada do local.

  1. Kix = Raposa ↩︎
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