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As próximas duas semanas foram chatas, mas não de uma forma ruim.

Depois de perder o elemento surpresa na última missão, o conde decidiu por enviar grupos de batedores atrás do esconderijo dos rebeldes e mais algumas moedas de prata para convencer os plebeus a ajudarem.

— A violência é boa em soltar línguas, mas é com prata que encontramos aqueles que sabem algo que realmente valha a pena descobrir — explicou o lorde.

O rapaz já suspeitava disso há algum tempo, mas Alwyn Gaelor parecia realmente o estar tratando como seu escudeiro. Podia jurar que o título não era nada além de uma formalidade e que fosse, na verdade, um escravo.

Essas suspeitas desapareceram rápido.

Treinavam do nascer do sol até o meio-dia. Então o acompanhava em suas reuniões, junto de Sam, servindo-no como copeiro nas ocasiões em que tratavam de assuntos militares e outras questões delicadas que não permitiam a presença de servos.

A bem da verdade, ficou realmente impressionado com a sua articulação política.

O conde falava sobre diminuir impostos para atrair mais refugiados e repôr os camponeses mortos por bandidos, animais selvagens, doenças ou que simplesmente decidiram por se juntar aos rebeldes.

— Vossa graça lembra o que aconteceu da última vez que permitimos a escória em nossas terras? — advertiu Kellen Essel. — Esconderam Eradan e seus homens, enquanto matavam e saqueavam os nossos.

— E foram devidamente punidos — assegurou o conde.

— Se começarmos a acolher os indesejados, logo teremos uma infestação. Os plebeus já mal toleram uns aos outros. Garanto que não morrerão de amores por estes… Párias. E se diminuirmos os impostos, verão isso como sinal de fraqueza. Homens descontentes e arrogantes são a receita para mais rebeldes.

— E menos impostos significa mais dinheiro nas mãos deles — acrescentou a condessa. — O número de roubos vai aumentar de forma absurda, assim como os assassinatos. Será mais seguro para todos se deixarmos como está.

— Os roubos já estão grandes o bastante, assim como os assassinatos — disse o conde. — Algo me diz que não faz diferença quanto dinheiro eles têm. E nossa arrecadação está abaixo do esperado. Precisamos cobrar mais impostos, ou atrair mais camponeses. Qual dos dois vocês acham que vai começar uma revolta?

— Espera-se que aumentemos os impostos — disse Kellen. — Mas não que infestemos suas casas com mendigos e ciganos. Se permitirmos que esta escória ande livre por aí, a criminalidade irá disparar, isso eu garanto. Se não por parte dos refugiados, então pelos moradores.

— Por que estamos discutindo isso, quando a resposta está bem na nossa frente? — começou o barão Frost. — Se precisamos de mais ouro e plebeus, só temos que conquistar mais terras. E as minhas–

— Você quer que eu ponha em marcha meus homens… — disse o conde. — No fim do outono?

— Mortos-vivos não sentem frio… Vossa graça.

— Eles também não constroem catapultas, nem balistas ou qualquer coisa útil. Nem são capazes de operá-las. Precisamos de homens para isso. Homens vivos! Nossos suprimentos não serão o suficiente e não teremos o que saquear quando a neve cobrir toda a vegetação. Congelaremos até a morte, enquanto nossos inimigos se banqueteiam, dia e noite, em seus salões. É isso o que quer?! Então pare de falar besteiras!

Houveram outras questões e sugestões menos importantes, como a demissão de certos guardas que não estavam mais à altura de suas tarefas, por essa ou aquela razão; também a respeito de alguns camponeses que vinham oferecendo seus filhos como servos.

Com o inverno chegando, todos tinham de fazer o que podiam para sobreviver. Durante a época de plantagem e colheita, ter muitas crianças jovens e fortes para ajudar, era uma vantagem; quando chegava o inverno, no entanto, elas não passavam de bocas extras para se alimentar.

Para estes, havia duas opções: enviá-los para o Salão dos Poucos, onde poderiam servir por um tempo em troca de comida e abrigo, ou para a floresta, onde seriam abandonados à própria sorte.

Teria de ser a segunda, pois o conde não tinha espaço para mais servos.

No fim das contas, decidiram por manter os impostos no valor atual e permitir a imigração controlada de refugiados em pequenas vilas ao longo do condado; principalmente aquelas mais perigosas, onde a quantidade de camponeses escasseava.

Como as colheitas já estavam terminadas ou quase no fim, os novos moradores receberiam tarefas mais desagradáveis para pagar pela gentileza do lorde.

— Essa é a época em que os desabrigados se tornam bandidos ou congelam até a morte — disse o conde. — Todas as portas estarão fechadas para eles, exceto as nossas. Ficarão gratos por isso, mesmo que signifique perder um ou dois dedos consertando as casas de seus vizinhos. E se alguém reclamar deles? Bem, então podem ficar à vontade para assumir suas funções.

Sua palavra era sempre final.

Vez ou outra, cavalgava ao seu lado pela vila mais abaixo, visitando o templo de Elyon, algum comércio local ou a casa de plebeus. Mas não se tratava apenas de um mero passeio; de prata para o conserto, comida para os famintos e homens para a segurança, o conde podia ser bem generoso.

— Como lorde dessas terras, tenho de saber em que pé andam meus servos. E eles devem saber a quem servem.

Daquela vez, compraram todos os pães de uma padaria local e distribuíram dois para cada um na multidão que se formou. Não foi o suficiente para todos, é claro, mas nunca era. De qualquer forma, o padeiro ficou agradecido e aqueles que ganharam pão, também.

Já estava escuro quando retornaram à fortaleza. Assim que cruzaram o portão, ouviu-se um trovão que fez a terra estremecer como se o próprio céu estivesse prestes a desabar sobre eles.

Pouca diferença fez.

Os guardas seguiram com suas patrulhas e os servos com suas tarefas. Garotas indo e vindo da cozinha, ou recolhendo as roupas que secavam em volta de uma fogueira. Viu também cavalariços acalmando os animais assustados e um ou outro fazendo qualquer coisa.

O conde lhe entregou as rédeas dos cavalos e se retirou, indo até à condessa em seus aposentos. Desde que cessou suas viagens de caça, fazia isso com frequência.

— O inverno é a estação dos bebês — explicou Dara, certa vez. — Quando os homens ficam em casa e a lareira não é quente o suficiente, o resultado não poderia ser outro. Pelo menos duas ou três vão estar grávidas antes da neve derreter. A condessa, certamente e… Bem, vamos ver.

Siegfried guardou as selas e deu água aos animais. Quando terminou, uma leve neblina já se formava na altura dos joelhos, escondendo o chão.

Viu dois servos magros e pálidos saírem da cabana do sacerdote, carregando baldes de madeira. Por um momento, pensou que fossem zumbis, mas… Bem, talvez fossem. Exceto que mortos-vivos não pareceriam tão assustados como eles.

— Curioso?

Siegfried se virou de sobressalto. Não tinha notado o sacerdote, e nem o teria reconhecido se não fosse por sua voz; estava coberto da cabeça aos pés por um sobretudo negro manchado de sangue, suas mãos estavam enluvadas e usava uma máscara de bico de pássaro por baixo do capuz.

— Que merda cê tá usando?

— Hum? Ah! Isso? — Ele retirou a máscara e sorriu; um jovem adulto, dono de um rosto limpo, sem qualquer cicatriz, marca ou imperfeição. Alguém que viveu sua vida preso aos livros, sem nunca conhecer a violência ou a miséria. Ao seu próprio modo, era um pouco inquietante. — Sinto muito, me esqueci dela.

Por um momento, Drew congelou em um sorriso de olhos vazios, enquanto observava o escudeiro à sua frente. Então continuou:

— Carne.

— … Quê?

— Os baldes. Estava curioso quanto ao que tinha neles, não?

— Na verdade, não–

— Sua graça foi muito gentil em me trazer tantos corpos da sua última caçada. Dezoito, para ser mais exato. Uma pena que já estavam tão frios. Tive de derreter a carne de seus ossos. Não foi uma tarefa muito agradável. Exige muito tempo e materiais difíceis de se produzir, caso contrário, poderia danificá-los e então me seriam inúteis. Muito trabalhoso, de fato, mas tem de ser feito. Carne podre atrai todo o tipo de praga e seria uma pena se uma epidemia se espalhasse dentro destes muros, não concorda?

— … Hum.

Seu olhar divagou enquanto assistia os servos atravessando os portões, carregando os baldes até o rio. Não deu atenção a Siegfried, até que se fossem:

— Devo muito ao conde. Ele salvou minha vida, sabe? Não que pareça se importar, é claro. Tudo o que quer de mim, é o seu exército de mortos-vivos. Não estou reclamando, é claro. É um homem prático, respeito isso. Mesmo que ele valorize coisas menos… Sofisticadas.

— Por que você tá me contando tudo isso?

— Eu só tô tentando puxar assunto. Nossa, a Darinha tem razão, você pode ser bem babaca às vezes.

— …

— Ah, é mesmo. — O sacerdote sorriu como uma criança e seus olhos brilharam, fazendo um calafrio percorrer a espinha do escudeiro. — Estou trabalhando em uma coisa nova. Acho que será minha obra-prima. Não posso dizer o que é, mas quando eu terminar, não vai haver soldado no mundo capaz de rivalizar com sua força.

Então o sacerdote o encarou, fazendo o melhor que pôde para conter sua empolgação, não que tenha sido bem-sucedido. Sorria de orelha a orelha, como que aguardando por uma resposta. Quando Siegfried nada disse, ele continuou:

— Quer ver?

Antes que precisasse inventar uma desculpa, no entanto, o pequeno Sam veio correndo em sua direção, com sua fiel amiga logo atrás.

— Ei! — gritou o garotinho, se atirando no seu colo e o abraçando. — Sieg! Você demorou pra caramba!

Mirabel também o abraçou e concordou com um aceno. Então o escudeiro afagou a cabeça de ambos e sorriu.

— Talvez uma outra hora — disse o sacerdote, antes de se retirar com um olhar gelado e inexpressivo.

As crianças agarraram uma mão cada e então o arrastaram às pressas para o pátio de treinamento.

Sam tinha tomado um grande interesse por Siegfried, desde que ouviu sobre a sua batalha na Torre Solitária, quando não era muito mais velho que ele. Desde então, queria que treinassem juntos sempre que estava livre; desnecessário dizer que Igmar, seu mestre de esgrima, não gostava nada disso.

Mirabel também parecia gostar dele. A princípio a garota via o treino como uma brincadeira e apenas imitava Sam, até que Siegfried a elogiou por sua maestria; uma mentira inofensiva, para fazê-la se sentir melhor, mas ela realmente progrediu bastante desde então. Tinha se tornado mais motivada e seu talento logo floresceu. Já até falava em se tornar uma cavaleira da guarda real ou da Ordem das Almas Brancas; ainda não havia se decidido sobre qual armadura era a mais bonita.

Assim que chegaram ao local, no entanto, encontraram uma sombra esperando por eles na escuridão.

Olá, eu sou o Coldraz!

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