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O Cara de Pança foi o primeiro cadáver que viram ao chegar no pátio; sua garganta tinha sido aberta de tal modo que um bom puxão parecia ser capaz de separar a cabeça do corpo mole estirado na neve.

“Ele não deu combate”, percebeu Siegfried, ao ver a espada do guarda ainda no cinto.

Menos de dez metros à sua frente, as sombras se enfrentavam em uma tempestade de lâminas negras; dúzias delas. Não havia lua para iluminar a noite escura, e a neve caía vigorosamente, por isso era difícil distinguir inimigos de aliados. Tudo o que via era um mar de trevas, ondulando bem diante de seus olhos até se tornarem uma coisa só.

Por um momento, o vice-capitão temeu que os rebeldes tivessem invadido os portões com um pelotão, talvez uma tropa inteira.

“Como nos pegaram de surpresa?”

Não devia ser possível. Seus homens os teriam notado a quilômetros, e mesmo se não tivessem, nem mesmo duas centenas seriam capazes de romper os muros tão depressa.

E não romperam.

Notou que os portões ainda estavam fechados e, quando prestou mais atenção, percebeu também que não deviam haver mais de meia centena de sombras lutando. Uma parte tinham de ser homens seus e sabia disso, mesmo que não soubesse dizer quantos.

“O suficiente pra dar batalha, pelo menos.”

Isso era bom.

Se eram poucos, não podiam ser um exército. Assassinos, talvez. Uma infiltração que deu muito errado.

Siegfried sentiu seu sangue ferver e então pegou o escudo redondo do Cara de Pança. Uma força invisível o empurrava para o campo de batalha, mas assim que deu o primeiro passo, Emelia o agarrou assustada.

Tinha esquecido dela.

A garota abraçou seu braço da espada com força e não soltou, nem disse nada. O medo era claro em seus olhos, mas ela parecia ter se esquecido de como falar.

Enquanto isso, aço tilintava e homens gemiam de dor, morrendo na escuridão.

O que devia fazer com ela?

A entrada para o salão passava bem no meio da batalha e não haviam guardas por perto; todos se concentravam nos invasores, como esperado.

Foi então que viu o sacerdote parado em frente à sua cabana; mais confuso do que assustado.

— Ali! — ordenou o rapaz.

Emelia olhou de relance para Drew vestido com seu manto branco e segurando uma adaga de bronze. Então colou o seu corpo esguio ao do rapaz e suas unhas se enterraram mais fundo no braço dele, até fazê-lo sangrar. Parecia ter mais medo do sacerdote do que dos rebeldes:

— N-não… — disse. — Não posso! Ele não! Por favor.

— Anda!

Siegfried sacudiu o braço, se libertando, e então a deixou para trás, sacando a espada; a garota perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos quando tentou segurá-lo, perdida e com o rosto pálido, e Drew correu na direção dela ao ver a cena.

“Só espero que ele saiba usar aquela faca.”

A batalha não estava indo bem.

Seus olhos se acostumaram com a escuridão e, apesar de não conseguir ver os rostos, ainda era capaz de reconhecer as armaduras dos guardas, mesmo que apenas de relance.

Seus homens estavam em maior número. Eram quase três para cada rebelde, mas conseguiram ser superados de algum modo.

Individualmente, se saíam bem, mas estavam espalhados demais, sem saber o que fazer. Os invasores se reuniam em pequenos grupos e escolhiam os alvos mais dispersos, cercando e derrubando eles rapidamente, antes de partirem para o próximo.

Duas sombras abordaram um de seus guardas; a primeira deu combate e a segunda se esgueirou por trás dele, atravessando suas costas com a espada. Então passaram para o seguinte.

“Verdes demais”, pensou.

Tinham recebido o treinamento, mas aquele era o seu batismo de sangue, e estavam indo tão bem quanto se podia esperar de ‘soldados’ que nunca viram a guerra.

— Homens! — gritou, erguendo a espada para que o vissem. — Comigo!

Uma multidão de sombras correu em sua direção aos tropeções, abandonando a batalha sem nem questionar. Medo ou obediência? Não sabia dizer e nem se importava, não naquele momento.

— Capitão — disse um soldado qualquer. — São muitos.

— Não — respondeu calmamente —, não são!

E não eram.

Quando seus homens se reuniram atrás dele, a diferença se tornou gritante. Eles eram 27. O Inimigo?

“Seis!”, isso o deixou furioso. “Estão apanhando pra seis!?”

Os guardas também notaram. Na confusão, podem ter sido enganados; cada um viu dúzias ao seu redor, sem saber distinguir amigos de inimigos, até que um rebelde apareceu gritando no seu campo de visão, matando o homem à sua direita ou esquerda, e pensaram haver mais inimigos do que de fato havia. Conhecia bem a sensação.

O medo paralisa, mas agora a diferença era clara e ele podia ver também o ímpeto sumir nos olhos dos rebeldes, conforme a vantagem que tinham desaparecia e mudava de mãos.

— Em formação! — ordenou, ainda com a espada bem alto.

Uma fileira se formou atrás dele; uma parede de soldados irritados com espadas em punho. E os rebeldes recuaram um passo. Erro terrível. Não se deve mostrar covardia diante do inimigo.

O rapaz deu um grito de guerra e as vozes dos seus homens se juntaram a ele, enquanto todos avançavam; e dessa vez foram os invasores que congelaram.

Um dos rebeldes, o mais estúpido, avançou em direção a Siegfried com um rugido e desceu sua espada contra a cabeça do vice-capitão, que só precisou erguer o escudo; a sua espada afiada atravessou a madeira podre com um estalo e as lascas voaram, mas a lâmina ficou presa.

Um soldado mais experiente o teria chutado na mesma hora e tentado arrancar a arma, ou então a abandonado e recuado; seu adversário não fez nenhum dos dois. Ao invés disso, sorriu como se tivesse realizado um grande feito.

Siegfried levantou o escudo acima da cabeça e, com ele, os braços do idiota. Mas nem assim ele soltou o cabo, não até que Siegfried atravessasse sua garganta com a ponta da espada.

O cadáver caiu mole no chão e ele passou por cima sem cerimônias.

— Em frente!

Restavam cinco inimigos e todos recuaram, não como soldados, mas como crianças; viraram as costas e correram.

Um dos guardas se precipitou e avançou mais do que os outros, cortando um dos rebeldes nas costas e o derrubando no chão. Quando viram o seu sucesso, os demais fizeram o mesmo e logo a formação desapareceu, enquanto passavam por Siegfried.

“Idiotas!”

Mais uma vez o campo de batalha se tornou uma confusão de sombras jogando aço umas contra as outras.

— Comigo! — gritou, tomando distância para não ser pego na confusão. — Comigo!

A ordem se espalhou, mas desta vez levou mais tempo até todos se reunirem. Quando o fizeram, havia menos deles. Os 27 eram agora 24, quando não deviam ter perdido nem um; tudo para matar apenas dois rebeldes. Não tinha dúvidas de que alguns deles feriram uns aos outros na confusão, embora fosse pouco provável que soubessem disso.

— Em formação!

Novamente uma fileira se formou atrás dele, mas desta vez os rebeldes mantiveram suas posições; eram apenas três, mas ainda podiam levar mais uma dúzia com eles, se Siegfried permitisse.

— Envolver!

Por um breve momento, seus homens hesitaram, tentando raciocinar o que havia dito. Certamente esperavam outra investida, mas fizeram como foi ordenado e um círculo se fechou ao redor dos três sobreviventes; uma garota de dezoito anos, um rapaz de quinze e um homem bem para lá dos seus trinta anos.

— Rendam-se! — disse Siegfried aos rebeldes, que trocaram olhares entre si por um momento e então avançaram em sua direção.

Como que em resposta a isso, dois guardas com mingau de aveia no lugar do cérebro, quebraram a formação para enfrentá-los. Teria de gravar os seus rostos e lembrar de discipliná-los mais tarde.

Dois dos rebeldes foram interceptados no meio da corrida e se viram obrigados a lutar contra os seus homens; a garota e o rapaz mais novo, não que seu gênero ou falta de pelos na cara fossem algum impeditivo. Eram mais experientes, por isso tinham a vantagem.

Lutaram como uma dupla, enquanto os guardas disputavam entre si para atacá-los.

A garota tinha acabado de acertar o nariz de um dos seus homens com o botão da espada e feito ele perder o equilíbrio, quando o terceiro rebelde investiu contra a parede de soldados que o separava de Siegfried.

Viu os olhos do homem mais velho cintilarem de raiva e encontrarem os seus, sua boca aberta em um grito furioso, cuspindo e babando. E então se lançou contra o soldado que ficava entre ele e o seu prêmio; um garoto não muito mais velho do que Siegfried.

Ele nem reagiu.

A espada atravessou seu peito e o garoto caiu para trás, quebrando a formação. Só então notou o que havia acontecido; grunhiu, chorou e morreu, como a maioria fazia.

Siegfried observou o seu assassino se levantar, mas não moveu um músculo. Não precisou.

Antes que o rebelde se pusesse de pé, um dos seus homens vingou o irmão caído e o decapitou com um único golpe. A cabeça bateu no chão e rolou até os pés do vice-capitão, ainda o encarando com os olhos fervendo de ódio.

Voltou então a sua atenção aos dois rebeldes que restavam.

Os dois guardas que avançaram feito idiotas já haviam recuado, feridos, mas vivos, assim como seus inimigos.

— Rendam-se! — voltou a ordenar.

E desta vez eles largaram as armas.

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