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Os guardas tinham acabado de render os dois últimos rebeldes e estavam amarrando as suas mãos quando Siegfried ouviu um grito vindo do salão e seu coração disparou.

“Idiota!”

O rapaz se virou de imediato e atravessou o pátio em uma corrida desesperada; alguns guardas o viram e seguiram seu vice-capitão, mesmo antes de compreender o que havia acontecido.

“Claro que o pátio era só uma distração”, resmungou entre dentes cerrados.

Esticou a mão para a porta dupla do salão e elas se abriram abruptamente, antes mesmo que tivesse a chance de tocar a maçaneta. Então tudo foi muito rápido.

Seus olhos ainda estavam acostumados com a escuridão da noite e a claridade repentina fez a sua vista ficar embaçada. Cego àquilo que o rodeava, deu de cara com uma sombra disforme vindo em sua direção.

Só notou que tinha sacado a espada quando ela atravessou a garganta do homem e, por um momento, o rapaz congelou. Que os deuses fossem bons. Se aquilo não fosse um rebelde…

Mas era.

Quando o corpo caiu no chão, Siegfried cerrou os olhos e enxergou as roupas velhas desgastadas, a barba suja e o rosto meio enrugado. Não usava a armadura dos guardas e nem as roupas de um servo, por isso se permitiu um momento de alívio. Idiota.

Uma flecha passou zunindo pelo seu ouvido e se perdeu na escuridão, acordando-o para a nova batalha.

Mas não houve uma.

Viu Sam bloquear o ataque de um rebelde com a espada e perder o equilíbrio, caindo de bunda no chão. Mirabel deu um grito de guerra e o atacou, mas abriu demais o golpe; o homem desviou com um pequeno passo para o lado e teria arrancado sua cabeça, se um guarda não tivesse acertado uma flecha na sua garganta e outro o empurrado para longe das crianças.

Então restava apenas um rebelde de pé; um garoto de não mais do que doze anos. Quando viu Siegfried entrar no salão com oito homens atrás de si, segurou a espada curta que tinha com ambas as mãos, fechou os olhos e gritou, cortando o ar, mesmo que ninguém estivesse dentro do seu alcance.

De alguma forma, o garoto conseguiu deixar a lâmina escorregar por entre seus dedos e ela voou longe. Então se rendeu.

— É a primeira vez que eu vejo alguém desarmar a si mesmo — brincou um dos guardas, e os demais riram.

Siegfried mandou que o prendessem e levassem os rebeldes mortos. Só então descobriram que nem todos estavam mortos, apenas dois; aquele que matou quando entrou no salão e o outro com a flecha na garganta.

Encontraram um rapaz de quinze anos com uma flecha espetada no estômago e uma garota da mesma idade, tendo uma convulsão e sangrando pelos olhos de um golpe qualquer na cabeça. Meio-mortos, mas também meio-vivos.

— Leve os feridos e separe os mortos — ordenou a um soldado qualquer que passava por perto. — Chame Drew e mande-o tratar dos nossos homens.

— Sim, senhor.

— A Emelia deve estar com ele. Traga-a aqui e avise a Elly que eu quero guardas patrulhando e vasculhando cada canto dessa fortaleza, até que alguém me diga como eles entraram. E façam uma contagem, quero saber quantos homens perdemos.

— Agora mesmo, capitão.

— Você! — A condessa avançou a passos largos, com Dorian, o seu fiel cão de guarda, logo atrás, segurando um arco-e-flecha. — A culpa é sua! Como permitiu que esses rebeldes entrassem aqui!? Sabia que meu marido nunca devia tê-lo deixado no comando. É um incompetente! Inútil! Igmar nunca teria deixado isso acontecer!

“Mas deixou”, lembrou. “Duas vezes. Quando eu tentei matar o conde e quando a Gwen invadiu só por diversão.”

Ainda assim, conteve a língua.

Pouco bem lhe fez. A condessa estava furiosa e o repreendeu por quase cinco minutos inteiros, sem nem parar para respirar. Quando terminou, o seu rosto estava vermelho e parecia enjoada.

Duas servas correram para ajudá-la a se sentar, enquanto outra ia buscar um jarro d’água.

— Eu tô bem — ela garantiu, embora parecesse a ponto de vomitar. — Quero ir pro meu quarto. Não aguento mais olhar pra… Só. Me ajudem.

Os guardas trouxeram Emelia assim que a mãe da garota tinha partido, mas quando o viu, ficou apreensiva e manteve a cabeça baixa, tentando ficar o mais longe possível.

Siegfried ordenou que as servas preparassem um pouco de leite quente para as crianças e então foi tratar dos rebeldes.

Lá fora, a nevasca tinha recomeçado, agora mais intensa e com fortes rajadas de vento que gelavam até os ossos.

Um fino manto de gelo cobria os homens caídos, embora nem todos fossem homens e nem todos estivessem mortos.

Entre os rebeldes haviam mulheres e crianças em números muito superiores aos homens em idade militar; alguns ainda vivos e agonizando de dor por esse ou aquele ferimento.

Quando os guardas reuniram os cadáveres, pôde ter uma noção da real força de ataque que quase lhe custou tudo e ficou irritado. Apenas 5 estavam mortos, outros 5 rebeldes estavam morrendo e os 3 últimos pareciam fortes o bastante.

“Tsc! Eles nunca deviam ter chegado tão longe!”

Ainda estava olhando para os cadáveres quando Elly apareceu; Siegfried deu a ela um breve olhar de soslaio e então voltou a assistir a neve cobrir os olhos de uma garota mais ou menos da sua idade, morta com uma dúzia de estocadas no estômago, enquanto sua sargento o observava meio apreensiva.

Quando ficou claro que não lhe daria atenção, a garota tomou coragem e o chamou:

— C-capitão? O senhor está bem?

— Quantos homens?

— Ah! Hum… B-bem. N-nós temos 6 mortos e 8 feridos. Alguns ossos quebrados e hemorragias, mas o sacerdote me garantiu que eles estão fora de perigo. Vão estar bem até o fim da primavera, ou pelo começo do verão, no máximo. A maioria sofreu apenas ferimentos leves.

— Como eles entraram aqui?

— A-ainda estamos investigando, senhor. Mas não parece que tenham escalado e as sentinelas juram que não viram ninguém subir a colina. Eu posso mandar alguns homens darem a volta pelo lado de fora, atrás de–

— Não! Nesse escuro e com essa nevasca, o mais provável é que algum deles torça o pé ou caia e quebre o pescoço. Mantenha as patrulhas e deixe a investigação pra quando amanhecer.

— Sim, senhor.

Mas logo a nevasca ficou intensa demais e foram obrigados a diminuir as patrulhas.

Os rebeldes foram levados para a prisão e os que estavam fortes o bastante para fugir usaram as correntes.

— Eles precisam de cuidados! — gritou a garota mais velha. Tinha dezoito anos, cabelos negros e sardas, mas o que chamou sua atenção foram os olhos; ela não tinha medo.

— Receberão os devidos cuidados quando amanhecer.

— Até lá já vão ter morrido de frio!

Era verdade.

Os feridos tremiam compulsivamente e mal se moviam; suas roupas encharcadas de sangue, suor e neve derretida. Uma rajada de vento passou pelas grades e os gemidos ficaram piores. Eram 5 e seria um milagre se um deles sobrevivesse à noite.

— Ao menos dê a eles algo pra se cobrir!

— Não!

— O quê…? E-eles vão morrer!

— Deviam ter pensado nisso antes de nos atacar.

E foi embora.

O salão estava cheio e movimentado quando ele chegou, mas ninguém parecia muito contente. Tinha posto os feridos em um canto para serem tratados, mas o sacerdote se recusava a usar suas poções.

— Bom Elyon, está louco?! — disse. — Tem ideia do tempo e dinheiro que são necessários para se confeccionar um único frasco? Seria um pecado desperdiçá-los em alguns guardas. De todo modo, eu não teria o suficiente para todos eles mesmo que quisesse.

Aceitou um copo de leite quente de uma serva e já bocejava de sono quando Mirabel apareceu:

— M-mestre…

— O que foi?

— E-eu não tô achando a minha irmã.

Olá, eu sou o Coldraz!

Olá, eu sou o Coldraz!

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