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Era uma manhã fria e escura quando Siegfried deixou o salão e atravessou o pátio em direção aos estábulos. A nevasca tinha amenizado, mas deixou para trás um manto branco de quase dez centímetros que cobria seus tornozelos e tornava cada passo um desafio.

Sete guardas o esperavam do lado de fora. Todos montados e vestindo armaduras de escamas. A fortaleza estava silenciosa, mas aqueles homens eram só sorrisos e gracejos, como rapazes prestes a cavalgar para sua primeira batalha.

“Verdes demais.”

Um deles notou que o vice-capitão se aproximava e chamou a atenção dos outros, que puxaram as rédeas de imediato e abriram espaço para que passasse, enquanto endireitavam a postura e o saudavam:

— Um belo dia pra uma caçada, capitão.

— Ainda mais belo pra resgatar uma donzela, eu diria. Soube que elas dão sua primeira vez como recompensa quando são salvas. É tipo um costume nobre ou sei lá.

— Então ela vai ter uma noite bem agitada com oito de nós.

E todos riram.

Todos, menos Siegfried.

Não levavam a missão a sério. A pequena vitória que conquistaram na noite anterior os tornou um tanto quanto arrogantes. Alguns gabavam-se de terem matado esse ou aquele, outros apenas por terem ferido alguém, embora fosse difícil dizer se suas palavras eram verdadeiras.

Nas suas histórias, matavam homens ferozes de dois metros de altura com machados e espadas maiores que uma criança. Mas não havia mais do que três ou quatro homens entre os rebeldes que invadiram o salão; a maioria deles eram mulheres e garotos que bem poderiam ter sido seus filhos. Não que qualquer um deles fosse admitir isso. Havia muito pouco do que se orgulhar em matar mulheres e crianças.

O palafreneiro lhe entregou as rédeas do cavalo e Siegfried montou, fazendo sua capa de lã negra esvoaçar com o movimento repentino e expôr a brigantina por baixo dela.

“Perdemos meio dia de viagem, mas a neve deve tê-los atrasado também. Posso recuperar… Se o que ele disse for verdade.”

Não achava que o garoto estivesse mentindo, era covarde demais para isso, mas se estivesse…

Podia muito bem estar indo na direção errada, ou pior, levando os seus homens a uma armadilha. Só descobriria quando chegassem ao Forte dos Demônios.

Em uma semana.

Cerrou os punhos e apertou as rédeas. Se fosse uma armadilha, poderia haver um batalhão inteiro esperando por eles no meio da floresta, ou talvez ali mesmo no vilarejo; tinham aguardado o conde partir antes de raptarem Dara e podiam muito bem estar planejando o mesmo novamente.

Foram precisos quarenta soldados para afugentar pouco mais de uma dúzia de rebeldes, e agora só tinham metade disso. Se voltassem a invadir, seus homens cairiam.

E a Elly fez bem pouco para diminuir suas preocupações. Quando disse a ela que partiria para resgatar Dara, seu rosto empalideceu e levou um bom tempo até que a garota encontrasse a voz:

— S-senhor… N-não acho que devia ir. O conde deixou a fortaleza em suas mãos.

— Ele deixou bem mais do que isso. Não são apenas esses muros que tenho de proteger.

— Então mande outro! Temos vários soldados… E-eu posso ir. No seu lugar, quero dizer.

— Se eles chegarem às ruínas antes de nós, quem quer que esteja no comando das buscas vai ter de coordenar um ataque. Já assaltou uma fortaleza antes, Elly?

— N-não senhor…

— Então eu irei. Deixo o salão nas suas mãos.

— E-eu!?

— Ora, é claro. Quem pensou que seria?

— E-eu nunca comandei uma fortaleza…

— Não é diferente do que tem feito até agora. É só continuar mandando todo mundo fazer o seu trabalho e garantir que os suprimentos durem até voltarmos. Só que agora cê não precisa mais da minha opinião.

— E se nos atacarem?

— Mate-os. Aguente tanto tempo quanto puder e, se parecer que vão perder, reúna o máximo de soldados que conseguir. Envie uma carga para limpar os portões e tire a condessa e os outros daqui. Não importa o que aconteça com o salão, desde que a família do conde escape. Depois disso, bem, pergunte a ela. Algum vassalo irá acolhê-los. Cavalguem depressa, evitem as estradas, não façam fogueiras e vão ficar bem.

Quando terminou de falar, ela estava com o rosto empapado de suor e precisou de uma caneca de leite quente para se acalmar. Não foi bem a reação que esperava.

“Os homens estão mais corajosos depois da luta”, disse a si mesmo. “A coragem vai torná-los mais fortes.”

Mas sabia que bastava apenas um covarde para tudo dar errado. Fosse como fosse, aquilo que podia fazer, já havia sido feito, então deixou de lado as dúvidas e conduziu o cavalo até os portões, com seus homens logo atrás.

Uma pequena multidão se formou, enquanto as servas interrompiam suas tarefas e se reuniam para vê-los partir. O clima era tenso, mas ainda havia algumas garotas animadas o bastante para gritar pequenos incentivos e elogios:

— Já estamos com saudades.

— Acaba com aqueles rebeldes!

— Vou sonhar com o senhor hoje a noite, capitão.

— Se o rostinho do capitão Siegfried tiver um arranhão sequer, cês vão se ver com a gente quando voltarem!

— Isso mesmo!

Emelia estava quase invisível atrás delas, quieta e com uma expressão ansiosa, enquanto Sam e Mirabel abriam caminho por entre as pernas das servas, até saírem do outro lado, acenando com vontade e gritando mais alto do que todas elas; o rapaz sorriu e acenou de volta.

Já tinham atravessado o portão, quando Dorian apareceu em seu palafrém marrom, vestindo orgulhosamente sua armadura de batalha recém polida, com a cruz prateada em seu peito.

Siegfried puxou as rédeas e interrompeu o trote, enquanto estudava o garoto:

— O que cê tá fazendo?

— Não achou que eu fosse confiar a segurança da minha irmã a você, não é? A condessa me pediu pra acompanhá-los. Ela teve a impressão de que os rebeldes talvez fossem um pouco demais pra você. — Ele sorriu. — Não consigo imaginar o motivo.

Seus homens o olharam com dúvida. Tinha feito um bom trabalho em doutriná-los para obedecer, mas aquele idiota estava pondo tudo em risco ao desafiar sua autoridade tão descaradamente. Não podia deixar isso passar.

— Se isso vai acalmar o coração da milady, não tenho qualquer objeção. Apenas tente não perder o outro olho no caminho.

Então virou o cavalo e seus homens o seguiram, rindo, antes que Dorian pudesse pensar em uma resposta.

Não foi uma viagem agradável.

Siegfried impôs o ritmo, mas estava indo lento demais. A neve caía tão preguiçosamente que o rapaz pensou que ela fosse parar a qualquer momento, mas isso não aconteceu. Tudo que via era um manto branco cobrindo as árvores e, pior, as raízes.

“Nesse ritmo, vamos perdê-los.”

Talvez pudesse ter forçado um pouco mais a sua montaria, mas não os seus homens. Já estavam ficando para trás e, se acelerassem cegamente naquele terreno traiçoeiro, mais provavelmente acabariam com um pescoço quebrado, por isso se viu obrigado a manter o trote de inverno.

— Cavalo idiota! — gritou Dorian, bem no fim da coluna. — Mais rápido! Anda!

O idiota bateu nos estribos e balançou mais as rédeas, forçando o pobre animal a continuar, mas tudo o que conseguiu foi um pequeno impulso momentâneo, antes de voltar a diminuir o ritmo.

Ainda tinham muitas horas de sol, mas o animal já havia chegado ao seu limite. E como poderia ser diferente? Seu cavaleiro insistia em vestir a armadura completa, mesmo sem nenhuma batalha por perto.

Quando percebeu que estavam perdendo o ritmo, Siegfried levou a montaria para perto de um dos seus homens:

— Chame mais um e fiquem de olho no garoto. Garantam que ele não morra. Eu vou na frente com os outros.

— Sim, senhor.

Não levou mais do que uma hora para Dorian desaparecer de vista. Aos poucos o seu cavalo foi desistindo e reduzindo o passo, até que não aguentasse mais acompanhar o ritmo do grupo. Então Dorian percebeu o que estava acontecendo:

— Seu desgraçado! — gritou. — Volta aqui! A condessa mandou eu ir com você! Ei! Tá me ouvindo!? Ela vai ficar sabendo disso, ouviu!?

Encontraram os rebeldes ao entardecer do dia seguinte.

Olá, eu sou o Coldraz!

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