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1

            Beatrice, de braços cruzados andava ao lado das meninas Sannire pela cidade, observando a sua volta, a procura de algo em especial.

            — Nossa, mas tem tanta gente aqui agora né? — Beatrice comentou.

            — Parece que nessa época do ano essa região é bem movimentada. — Sannire respondeu o comentário de Beatrice. O rapaz parecia feliz com a aglomeração, por mais que Xodiks tivessem a fama de ser antissociais.

            — Tuphi! — a voz de Ayasaka surgiu atrás do grupo, chamando a atenção de Tuphi que balançou suas orelhas.

            — Mestra?

            — Me diz o nome de algum filosofo famoso de Ataraxia.

            Tuphi não entendeu a razão do pedido no começo, mesmo assim contribuiu com um nome:

            — Gouro, o sábio das sete letras, para quê?

            — Caracas, mais complexo do que eu imaginava, mas tudo bem — Ayasaka suspirou antes de continuar. —  Como dizia o sábio Gouro, estomago vazio não para em pé e nem derrota mensageira psicopata e mal-encarada né?!

            — Ayasaka, o grande mestre Gouro nunca disse nada disso…! — Beatrice retrucou Ayasaka com um cascudo.

            — Aí! Ei, espera aí como assim “grande mestre”? Você tem quantos anos afinal?!

            — Mestra, dessa vez você que começou…

            — E você vai ficar em cima do muro até quando?!

            Sannire observava Tuphi se desculpando para Ayasaka com uma forçada reverencia com um sorriso no rosto ao mesmo tempo que uma construção ao fundo lhe chamava a atenção.

            — Que tal tomarmos café por ali? — comentou Sannire enquanto chamava atenção das garotas que discutiam, incluindo Beatrice.

            — O que é aquilo? — Ayasaka forçou a vista na direção de onde Sannire apontava. — Não enxergo de tão longe sem meus óculos.

            — Você usa óculos? — Tuphi perguntou inclinando a cabeça levemente.

            — Ah? Sim sim. Só… nunca senti a necessidade de usar neste mundo, e nem tenho mais meus óculos né?

            Ayasaka deu de ombros a gargalhadas.

            — Acho melhor a gente ir indo né? Antes que fique muito tarde para o café.

            Enquanto caminhavam em uma ruela bem movimentada, Beatrice comentou:

            — Ayasaka, estamos atrasados porque você levou aproximadamente duas horas desde o nascer do Solus para levantar-se da cama.

            — Mestra, ela tem razão.

            — Tuphi, senta.

            Sannire observou Tuphi procurar em volta desesperada uma cadeira para se sentar.

            — Ayasaka, por que você está ensinando essas coisas para a Tuphi…? — Beatrice perguntou.

            — Em caso de emergência. Não questione.

            — Já posso levantar mestra?

            — Não! — A voz de Ayasaka pode ser ouvida a distância. Ela, Sannire e Beatrice já estavam de frente para o pequeno quiosque em que eles iriam comer.

            — Ayasaka! — Beatrice chamou atenção da garota com expressão levada com um beliscão leve no seu ombro.

            — Ai! Ai! Tuphi, pode vir! — Ayasaka gritou. — Era brincadeira!

2

            — Então Uevyat… vai deixar de existir?

            — Precisamente isso. — Tuphi afirmou observando as reações de Beatrice.

            — E tem uma Mensageira da Harmonia na cidade? — Sannire complementou.

            — Sim… — Ayasaka entrou no assunto.

            — Quanto tempo pretendíamos ficar na cidade?

            — Não sei, até o festival acabar?

            — Então partiremos amanhã.

            Ayasaka que estava olhando para o nada recobrou a atenção na frase de Sannire.

            — E deixar a cidade acabar? — Ayasaka indagou.

            — Estamos falando de Yuna, uma Cavaleira de Dragão que compunha a formação dos Quatro Maiores originais, representando a raça dos Xodiks, Ayasaka.

            Ayasaka estava pensando sobre a situação, com seus braços cruzados e olhando para o vazio. 

            — Ela é a irmã mais velha do meu tutor… que a sucedeu como um dos Quatro Maiores após a sua suposta “morte” por Emiko, dos Sens…

            — A Emiko realmente lutou com ela então?

            — Sim, e venceu.

            Ayasaka refletiu com a informação por alguns instantes.

            — Então aquela mulher é um museu ambulante… lutou com a Emiko…?

            — A luta de Emiko e Yuna foi uma batalha lendária. Primeira e última vez até o momento atual que dois dos Quatro Maiores lutaram entre si. Duas Cavaleiras de Dragão que tinham na época, poderes comparados aos de Divindades. Duas usuárias de técnicas celestiais. Foi algo catastrófico, que resultou na destruição da antiga capital de meu povo, Mortkar, a duzentos anos atrás.

            — Eu sinto muito — Ayasaka comentou.

            — Tudo bem, momentos de guerra, Emiko fez o que julgou necessário, não a julgo. O verdadeiro vencedor é quem permanece de pé no final da batalha.

            — A gente precisa daquele colar que Agnus falou para salvar a cidade, não? — Ayasaka ignorou Sannire e se voltou para Tuphi. 

            — Pelo que entendi, sim

            Ayasaka apoiou a mão sobre as bochechas com uma expressão pensativa.

            — Hum… e onde precisamos enfrentar a Yuna pra recuperar o colar?

            — Não precisamos — Tuphi respondeu

            — Mesmo assim! — Sannire se intrometeu.

            — Ah Sannire, somos bem forte poxa — Ayasaka indagou. — Eu como Cavaleira de Dragão, a Beatrice de maga, a Tuphi sendo o cachorro e você o herói a nossa trupe parece até de anime bom!

            — Pode ser que você tenha razão, mas quem vai botar em prova a tese? Na teoria é tudo certo.

            — Nós vamos colocar em prova! Deixem a gente ficar pelo menos até o final do festival, por favor.

            Sannire olhou para Ayasaka e em seguida para Beatrice que não parecia ter nenhum tipo de oposição.

            — Tá… vamos salvar essa cidade, até o fim do festival… — Sannire respondeu com uma expressão engraçada e braços cruzados, emburrado, reação que foi o suficiente para fazer Ayasaka rir e agradecer.

            — O que sabemos sobre esse tal colar? — Sannire perguntou.

            — Não sabemos muita coisa… — Tuphi começou a detalhar o encontro com a dupla misteriosa na taverna enquanto a manhã passava vagarosamente e o café da manhã pedido por cada um da trupe fizesse digestão em suas barrigas.

3

            Em seguida, já na volta pelo caminho de pedra pela viela que eles passaram no começo da manhã, Ayasaka avistou uma cena diferente.

             — Aquele menino…

            — Hã?

            — O que tem?

            — Ele vai roubar… ih, roubou mesmo — Ayasaka levou a mão a nuca com uma expressão culpada.

            — Ei, volta aqui! — Sannire imediatamente começou a correr atrás do pequeno larápio que roubou uma floricultura exposta ao ar livre e começou sua fuga em direção a multidão, se dirigindo a uma ruela não muito longe a pé.

            — Isso vai ser interessante… — Beatrice comentou.   

            Os passos de Sannire eram mais velozes que os do pequeno larápio graças as suas longas pernas devido a sua altura. Conforme o pequeno se esgueirava por lugares apertados onde Sannire não conseguia, a distância entre eles só aumentava.

            — Roubar flores eu até entendo, mas roubar um pedaço de mato como aquele?

            — Vamos esperar e ver, agora que Sannire já saiu correndo que nem louco.

            — Droga, que garoto rápido — Sannire resmungou em um tom baixo enquanto tentava acompanhar os passos do pequenino.

            Caixas de madeiras jogadas para atrapalhar o caminho, becos e vielas estreitas onde o sol se esgueirava pelas telhas quebradas das casas caídas tortas e esquecidas pelo tempo, animais abandonados e sujos que observavam com desconfiança a perseguição dos dois, todos esses itens contribuíam para a fuga desengonçada do jovem que não parecia ter fim.

            Os passos rápidos de Sannire ecoavam pelas ruas estreitas, seus olhos fixos na figura ágil do garoto que se movia com a destreza de um rato de rua. O menino desaparecia e reaparecia em becos e vielas, sempre um passo à frente de Sannire, que começava a sentir a frustração crescer.

            — Volta aqui, seu moleque! — gritou Sannire, sua voz reverberando nas paredes dos edifícios ao redor. A determinação em sua voz não deixava dúvidas sobre sua intenção de capturar o pequeno ladrão.

            Ayasaka e Beatrice seguiram a uma distância segura, observando a perseguição. Ayasaka, com sua expressão normalmente séria, estava visivelmente intrigado.

            — Por que se importar tanto com um furto? — murmurou Ayasaka, observando a cena.

            — Xodiks odeiam furtos, ladrões e coisas do tipo, também deveríamos odiar, mas claramente não ligamos tanto para moralidades, né? — respondeu Beatrice, com um leve sorriso de curiosidade.

            O garoto, percebendo que a vantagem estava diminuindo, lançou um olhar rápido para trás, seus olhos arregalados de medo ao ver a figura alta de Sannire se aproximando. Ele rapidamente se esgueirou por uma abertura estreita entre dois edifícios, emergindo em uma praça pequena e menos movimentada. As flores roubadas ainda estavam firmemente agarradas em suas mãos pequenas.

            Sannire, sem perder tempo, também se espremeu pela abertura, mas foi obrigado a desacelerar ao sair do outro lado. O garoto estava agora a uma curta distância, respirando pesadamente, seus olhos buscando desesperadamente uma rota de escape.

            — Acabou pra você, garoto — disse Sannire, com uma voz baixa e ameaçadora.

            Antes que Sannire pudesse dar mais um passo, uma figura sombria emergiu da sombra de um edifício próximo, bloqueando o caminho entre ele e o garoto. A figura, envolta em um manto escuro, ergueu uma mão em um gesto de advertência.

            — Deixe o menino em paz — disse a figura com uma voz grave e autoritária.

            Sannire parou, surpreso pela súbita aparição. Ayasaka e Beatrice chegaram a tempo de testemunhar o confronto, com Ayasaka estreitando os olhos ao tentar discernir a identidade da figura misteriosa.

            — Quem é você? — exigiu Sannire, sua postura ainda agressiva.

            — Não importa quem eu sou. O que importa é que você não deve tocar nessa garota — respondeu a figura.

            — Garota?! — Sannire olhou surpreso.

            A menina, aproveitando a distração, se escondeu atrás da figura misteriosa, seus olhos cheios de gratidão e medo.

            Beatrice se aproximou, a curiosidade brilhando em seus olhos.

            — Isso está ficando interessante de verdade…

            — Qual é a sua relação com a pirralha? — perguntou Ayasaka, seu tom frio e calculista.

            A figura sombria olhou diretamente para Ayasaka, um brilho perigoso em seus olhos. — Esta menina tem um papel importante a desempenhar. Mais do que você pode imaginar. Se você valoriza a sua vida e a de seus amigos, recomendo que recuem agora.

            A tensão no ar era palpável. Sannire olhou para Beatrice em busca de orientação, enquanto Tuphi observava atentamente, pronta para intervir se necessário.

            — Vamos deixar isso por aqui, Sannire — disse Ayasaka finalmente.

            — Mas não pense que vamos esquecer disso. — Ele lançou um olhar frio para a figura sombria e para a garota.

            Com um aceno, Ayasaka sinalizou para Sannire e Beatrice recuarem. A figura sombria observou enquanto os três se afastavam, mantendo sua postura protetora sobre a menina

            — Espero que saiba o que está fazendo — murmurou Beatrice para Ayasaka enquanto eles se afastavam.

            — Tenho certeza que ainda vamos descobrir — respondeu Ayasaka, sem tirar os olhos da figura sombria até que ela desaparecesse de vista.

            Os três se afastaram lentamente, a tensão ainda pairando no ar enquanto a figura sombria e o menino desapareciam nas sombras das vielas. Sannire olhou para Ayasaka, esperando uma explicação ou uma decisão sobre o que fazer a seguir.

            — E agora? — perguntou Sannire, sua frustração evidente.

            — Vamos seguir outra abordagem — respondeu Beatrice, sua mente já trabalhando em um plano. — Há mais coisas acontecendo aqui do que aparenta. Precisamos descobrir quem é essa figura e qual é o papel do menino,

            — Menina. — Ayasaka corrigiu.

            Beatrice assentiu, seu olhar ainda focado na direção em que a menina e a figura desapareceram. — Devemos começar perguntando aos comerciantes da área. Alguém deve saber algo sobre essa figura sombria ou sobre o garoto.

            Ayasaka concordou, dessa vez sem corrigir Beatrice.

            — Dividam-se e comecem a coletar informações. Encontrem-me na taverna ao pôr do sol.

            Com um plano em mente, o trio se separou. Sannire foi em direção ao mercado principal, onde os comerciantes e vendedores ambulantes poderiam ter visto o menino antes. Beatrice dirigiu-se ao porto, um lugar movimentado onde rumores e informações circulavam rapidamente. Ayasaka e Tuphi, por sua vez, decidiram investigar os becos e ruas menos frequentadas, onde a figura sombria poderia estar se escondendo.

            ——

            Sannire caminhava rapidamente pelo mercado, seus olhos atentos a qualquer movimento suspeito. Ele abordou um vendedor de frutas, perguntando sobre a menina que havia roubado as flores.

            — Ah, aquele pequeno larápio? — disse o vendedor, franzindo a testa. — Já o vi por aqui algumas vezes. Ele sempre aparece e desaparece como um fantasma. Mas, recentemente, tenho notado uma figura sombria acompanhando-o. Ninguém sabe quem é, mas todos ficam longe.

            Sannire agradeceu e continuou sua busca, abordando outros comerciantes e reunindo informações semelhantes. A figura sombria parecia ser um mistério para todos, mas a presença constante dela com o menino era uma pista importante.

            —–

            Beatrice, no porto, conversava com os despachantes e trabalhadores. Um velho pescador lhe deu uma informação valiosa.

            — Ouvi dizer que aquela figura sombria é um antigo guerreiro da Ordem, alguém que traiu seus companheiros e agora vive nas sombras. Dizem que ele protege o menino porque o garoto possui um poder especial, algo que poderia mudar o destino de muitos.

            Beatrice agradeceu e guardou a informação, ciente de que isso poderia ser crucial para entender o que estava acontecendo.

            —

            Ayasaka e Tuphi, nos becos, encontraram um mendigo que parecia saber mais do que os outros. Após algumas moedas e uma promessa de proteção, o mendigo revelou.

            — A figura sombria é conhecida como O Guardião das Sombras. Ele protege aqueles que são importantes para o futuro. O menino… ele não é comum. Dizem que tem uma habilidade rara que pode curar ou destruir, dependendo de como for usada.

            — É uma menina, e obrigado pelas informações — Ayasaka assentiu.

            Com essas novas informações, Ayasaka e Tuphi reuniu-se com Sannire e Beatrice na taverna ao pôr do sol. Eles compartilharam o que haviam descoberto, cada peça do quebra-cabeça se encaixando lentamente.

            — Precisamos encontrar mais sobre essa habilidade da menina e sobre o Guardião das Sombras — disse Tuphi. — Isso pode ser maior do que pensamos.

            — Concordo — respondeu Beatrice. — Mas precisamos ser cuidadosos. Se essa habilidade é tão poderosa quanto dizem, não seremos os únicos atrás do garoto.

            Sannire assentiu, sua determinação renovada. — Então, vamos nos preparar. A noite ainda é jovem, e temos muito trabalho a fazer.

            Com um novo plano traçado e informações valiosas em mãos, o trio estava pronto para enfrentar os desafios que se apresentariam. A perseguição havia apenas começado, e o mistério em torno do menino e do Guardião das Sombras estava longe de ser resolvido.

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