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A sensação era a de cair por um gigantesco poço, úmido e escuro. Não saber o tamanho da queda provocava uma angústia difícil de descrever, como se nunca fosse chegar ao fim.

Um grito de ameaça do irmão mais velho se sobrepôs ao ensurdecedor rugido da cachoeira:

— SE EU MORRER ASSIM EU TE MATO!

Moito aceitou toda a raiva de Tércio e se preparou para o inevitável. Esticou as pernas, mantendo-as unidas e firmes, e quando finalmente o impacto chegou, ele agradeceu por ser água e não pedras. A velocidade o jogou ao fundo, até que seus pés tocassem o leito. Tentou impulsionar-se de volta à superfície, mas a força do turbilhão da cachoeira o lançou para frente, submerso.

Enquanto lutava para retomar o controle, ele foi jogado de um lado para o outro igual a um boneco. Estava tão desorientado que sequer sabia qual lado era para cima. Focou em acalmar seus batimentos e se tranquilizar, para conservar o ar por mais tempo.

Aos poucos a força da água diminuiu e Moito pôde recuperar seu senso de direção. Quando já estava no limite da apneia, conseguiu emergir a cabeça e respirar, enquanto era levado pela correnteza. 

Chamou pelo irmão, mas a chuva e a cachoeira abafaram qualquer possibilidade de ouvir uma resposta. Nadou à deriva pela escuridão até perceber que já podia encostar os pés no fundo e estava próximo de uma das margens.

Continuou a chamar o nome de Tércio repetidas vezes na esperança de encontrá-lo. Sua garganta ardia quando ele caiu de joelhos no chão, e lágrimas quentes escorriam por seu rosto.

“É tudo minha culpa”. Agora estava sozinho de verdade. Talvez fosse um castigo ou algum tipo de maldição por terem saído juntos para o Rito de Passagem. No escuro, sentia a chuva lavar qualquer resquício de determinação e otimismo que ainda podia ter.

Quando finalmente se rendeu, sem forças para continuar, sentiu um pulsar constante sobre sua pele, e com isso, teve uma última ideia. Concentrou-se na vibração rítmica e mentalizou a imagem da Pedra-dos-sonhos, lembrando-se das instruções de Ainá.

Ao abrir novamente os olhos, todo o entorno estava iluminado por aquele brilho azul etéreo. A cachoeira era simplesmente gigantesca; ter sobrevivido à queda agora parecia um verdadeiro milagre. Aflito, Moito projetou-se para frente com seu corpo astral, sobrevoando o rio em busca de seu irmão.

Uma primeira busca rápida não trouxe nenhum resultado e ele já começava sentir a exaustão mental provocada pelo uso contínuo daquela habilidade. Mas não podia desistir.

Foi até a base da cachoeira e, lentamente, buscou pelo rio mais uma vez. Notou uma cor diferente reluzindo entre duas pedras, próximas a uma grande árvore,

na margem oposta a que estava. Ao se aproximar, descobriu que vinha do corpo de Tércio. Estava prensado contra as pedras pela força da correnteza, sem reagir.

Em um piscar de olhos, Moito estava de volta aos seus sentidos normais. Mergulhou sem pestanejar e nadou freneticamente, engolindo água e lutando contra a correnteza.

— Tércio! Tércio! — chamou entre as braçadas.

A correnteza insistia em empurrá-lo para longe e a chuva dificultava ainda mais sua respiração. Estava tão determinado que machucou a mão ao batê-la contra algo sólido. Ele se agarrou ao que devia ser uma grande rocha e se puxou para sair da água. Já em terra firme, correu desenfreado, sem se preocupar com as topadas e tropeços no escuro. Correu até se chocar em cheio contra um tronco e cair. Tinha que ser a árvore que havia visto antes, próxima de onde seu irmão estava.

Encontrou as duas grandes pedras e tateou rente à água, apoiando todo o corpo sobre elas e chamando por seu nome, até sentir o toque áspero de um tecido. Agarrou com ambas mãos e trouxe o pesado corpo para cima, arrastando-o pela face áspera da pedra.

— Tércio!

Mas ele estava imóvel e gelado. Sem desistir, Moito apoiou ambas mãos sobre o tórax dele e pressionou seguidas vezes, lembrando de quando um dos instrutores salvou a vida de outro irmão que quase havia se afogado durante um exercício.

Tércio se moveu, tossiu com um som gorgolejante, e seu corpo inteiro tremeu. Moito o virou de lado para que escorresse toda a água dos pulmões. Percebendo que ele voltava a respirar, sentou-se e sentiu os ombros ficarem mais leves.

A chuva aos poucos diminuiu sua intensidade, o céu se abriu e uma lua quase pela metade iluminou o rio e as árvores com uma luz tênue. Moito, que havia permanecido ao lado do irmão durante todo tempo, não pode deixar de achar que ela estava atrasada. O brilho, por mais suave que fosse, teria ajudado contra o breu.

— O que… aconteceu? — A voz de Tércio estava fraca e áspera.

— Irmão… — Mal conseguia falar. Ainda não tinha resposta para aquela pergunta.

— A cachoeira! — ele gritou, acometido subitamente pela lembrança. Tentou levantar, mas apenas se revirou, gemendo de dor.

— Já passou. Você bateu a cabeça e o braço, mas parece estar bem.

Encolhido em posição fetal, Tércio resmungou enquanto apertava o braço direito com a outra mão: — Ah não, meu braço de novo? Já estava quase bom…

Moito olhou para o lado e enxugou os olhos mareados. Um esboço de sorriso surgiu em seus lábios.

— Fico feliz que esteja de volta.

— Ó céus! Tudo dói! O que quer dizer com “de volta”? Não fui a lugar nenhum. — Ele se esforçou para se sentar e, em seguida, levantar.

— Não, você tem que ficar de repouso! — Moito foi incisivo.

— Parece que eu fiquei deitado por anos, preciso me mexer, fazer qualquer coisa. — Poderia dizer muitas coisas sobre seu irmão, menos que era molenga. — Vamos seguir!

— Está maluco! Senta aí, pelo menos até amanhecer. E seguir pra onde?

Tércio olhou em volta. — Ééé… Onde estamos mesmo? — Ele parou, pensativo. — Já sei, estou faminto, vamos atrás de algo.

Não era má ideia. Qualquer coisa para ocupar a cabeça seria melhor do que ficar ali esperando e remoendo lembranças; dormir também estava fora de cogitação.

— Só não me pede pra cozinhar.

— O mestre Farkas teria feito isso com a gente, eu não sou tão exigente assim. — A risada honesta dele trouxe um pouco de conforto para a situação.

Enquanto se preparavam para entrar na floresta atrás de comida, um clarão surgiu vindo do rio, e iluminou de branco tudo ao redor. As pedras e árvores acenderam como lamparinas, fortes iguais ao próprio Sol. 

Em um salto, Moito se virou para encarar de onde vinha a luz, porém, sua visão, acostumada ao escuro, foi atingida por um raio e ele ficou cego, apenas mesclas de cores que se misturavam como tinta na água pintaram sua visão.

Uma voz metálica ressoou.

— Entreguem-se. Tudo que fizerem a partir de agora será usado contra vocês. — Era calma, mas direta e firme. Embora apenas falasse, o volume do som parecia artificialmente alto.

Todos os seus pelos arrepiaram, ele cobriu os olhos com um braço e se virou. Tremeu ao lembrar das histórias sobre as patrulhas dos Eternos nas fronteiras. E isso só podia significar que estavam no lugar errado. 

A mão de Tércio apertou seu braço. — Nós estamos nas Terras Baixas? O que se passa na sua cabeça!?

— E-eu… — O jovem tentou responder, mas foi impossível pensar em algo.

— Rápido, corre.

Mal conseguindo enxergar, voaram por entre as árvores.

— Não deixem que os espiões fujam! — Ordenou a voz por trás da luz.

Olá, eu sou o 2omeu!

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