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A luz da Lua minguante passava por entre as folhas das árvores e enchia a floresta de sombras. O clarão ao fundo ainda podia ser percebido, mas cada vez mais se tornava apenas um ponto na escuridão distante.

Os dois irmãos corriam em disparada, fugindo da patrulha Eterna. Tércio estava com dificuldade de acompanhar o ritmo, até que bambeou, perdeu a passada e caiu. Moito, que já havia percebido o estado dele, parou no mesmo instante e o forçou a se levantar.

— Não dá! Esquece… — disse o irmão mais velho, com a mandíbula cerrada e a expressão séria. — Vai, eu distraio eles.

— Tem certeza?

— Bem — e curvou-se, apoiando nos joelhos — se você também acha que é o único jeito.

— Tá certo — falou Moito, decido. Balançou a cabeça e se afastou, deixando ele para trás.

— Seja forte, irmão! Vou segurar eles o máximo que puder! — Sua voz era firme, mas carregada de pesar. — Pera! Onde você tá indo? Por aí vai voltar!

— Eu sei.

Jamais abandonaria o irmão. Tércio não retrucou, mas era possível imaginar o olhar em seu rosto. Moito retornou até uma distância em que não podia mais vê-lo, e se agachou sob uma folhagem ao lado de uma enorme raiz que surgia do solo. Acharia uma forma de escaparem, nem que tivesse que enfrentar todo mundo.

Acalmou a respiração e focalizou mais uma vez na imagem da Pedra-dos-Sonhos. Sentiu um peso ao tentar se conectar à energia do lagarto novamente, mas a adrenalina em seu corpo lhe deu um empurrão extra. Lentamente, experienciou a consciência deixar o corpo.

A floresta inteira acendeu de celeste, e ele flutuou na direção de onde vinham os perseguidores. Descobriu que eram apenas três: dois corriam juntos enquanto um na dianteira parecia os guiar. Os dois vestiam armaduras leves e carregavam armas na cintura, já o outro, usava roupas muito diferentes e tinha o cabelo longo.

Satisfeito, e mal conseguindo manter aquele estado, Moito fechou os olhos e permitiu à sua mente retornar ao corpo. Os sons dos passos ficavam cada vez mais altos e era possível escutar os homens conversando e passando orientações.

O fator surpresa era a única vantagem que ele tinha ao seu favor e esperava que fosse o suficiente; e apenas três perseguidores talvez pudesse derrotar sozinho. No final, a situação parecia estar melhor do que havia previsto.

Aguardou até eles aparecerem e se preparou. Porém, antes que os homens dessem outro passo, o primeiro abriu os braços e gritou:

— Tem um escondido logo à frente! Devem estar planejando algo.

Moito engoliu em seco. “Como podem saber onde estou?” Sem outra alternativa, mordeu os lábios e saiu do escuro. Os enfrentaria com coragem, e não como uma presa assustada.

— Bom garoto! — exclamou o homem mais adiantado, de roupas espalhafatosas. — Está pronto para se render, selvagem?

— Essa foi rápida, hein! — gritou um de trás. — Não crie problemas, espiãozinho. Vamos fazer do jeito simples.

— Não somos espiões.

Os três se enfileiraram lado a lado, o soldado mais baixo riu e falou: — Não é a mim que deve respostas. Poderá se explicar o quanto quiser ao general Odri de volta ao navio.

“Esse nome!?” Era ele, o mesmo general que havia liderado o ataque contra Moito e seus irmãos. Aquele mesmo que tinha controlado o vento. Seu sangue ferveu. Talvez ir ao navio não seria má ideia, pensou, sentindo o cheiro amargo da vingança no ar.

Mas não iria como prisioneiro.

— Amarre-o, e vamos logo atrás do outro.

Um dos soldados veio na sua direção, enquanto retirava uma corda presa na cintura. Moito juntou as mãos em sinal de consentimento.

O homem se aproximou e, assim que segurou a corda com ambas as mãos e demonstrou desatenção, Moito o atingiu tão rápido com o cotovelo na ponta do queixo que ele simplesmente desmontou no chão, inconsciente.

— Desgraçado! — esbravejou o companheiro mais afastado, puxando a espada do coldre.

— Que golpe baixo! — zombou o cabeludo. — Não esperava menos de um animal como você.

Moito pegou a corda e começou a amarrar o homem caído. — Sei que são apenas vocês dois agora, estão em desvantagem.

— Irei chamar reforços! — ameaçou o guarda.

— Não seja idiota, não quero passar vergonha por causa de um caipira. Ele está blefando —  inclinou a cabeça para trás e o nariz para cima — eu sinto cheiro de sangue. São apenas dois, e o outro ainda está ferido. Proteja a retaguarda que eu cuido desse moleque.

“Droga!” Nenhuma de suas tentativas de forçar uma vantagem funcionaram. O olfato dele era assustador, como se pudesse distinguir tudo ao redor com exatidão.

Quando aquele homem chegou mais perto, foi possível vê-lo melhor. O cabelo longo e cheio caía em ondas sobre os ombros, um sobretudo de gosto duvidoso, roxo com detalhes prateados, e uma calça verde completavam o visual. Ele se curvou e disse:

— Diferente de você, eu tenho educação. Muito prazer, sou Xaul, o maior rastreador do Império. E modelo nas horas vagas.

Ele permaneceu um tempo naquela posição, com o rosto voltado para o chão, indicando não se importar em deixar uma abertura para ser atacado; sinal claro de extrema confiança. Continuou:

— Alguém precisa te ensinar bons modos. E te dar roupas novas também… — completou, analisando-o de cima a baixo.

“Quem esse cara pensa que é?” Moito cerrou os olhos e fechou os punhos, posicionando-se em uma postura defensiva.

— Irei te oferecer a primeira aula de brinde. Esse é o Estilo da Terra, uma das artes Umbras de combate.

“Um guerreiro Umbro!” A firmeza de Moito tinha começado a vacilar. Xaul retirou o sobretudo e pendurou-o com um arremesso sobre um galho. Aproveitou para flexionar o peito e os braços, exibindo seus músculos. Depois, afastou as pernas e dobrou os joelhos, soltando um urro.

Moito recuou alguns passos, alargando a distância entre eles. Sabia que a chance de derrotar um Umbro experiente em um combate individual era quase nula. Lembrou de como seu irmão Primo foi facilmente morto por um deles, e estremeceu.

Xaul levantou uma das pernas e em seguida a desceu com tanta força que um estrondo ressoou e o chão tremeu, o suficiente para Moito perder o equilíbrio. Com o mesmo pé que usou para causar o tremor, Xaul deu um impulso para frente e, com ambas palmas abertas, acertou em cheio as costelas de Moito, lançando-o longe, até bater contra o tronco de uma árvore.

Foi como se um bisão o tivesse atropelado a toda velocidade. O ar dos pulmões foi expulso de uma só vez e ele sentiu uma dor perfurar-lhe o peito. Caiu sentado, sem conseguir respirar. Manchas negras cobriam sua vista enquanto ele observava o guerreiro Umbro se aproximar velozmente.

Reunindo o restante das forças, Moito rolou para o lado no último momento, passando sob a perna esticado do inimigo, que acertou com um chute destruidor o tronco. A árvore estalou e cedeu sobre rachadura.

— Você vai matar ele desse jeito! — gritou o soldado, em meio ao som de galhos quebrando e do impacto do tronco no chão.

— Desculpa! Acho que me empolguei.

Aproveitando a confusão, Moito rastejou para um canto escuro e tentou recuperar o fôlego, mas toda vez que puxava o ar, sentia seu peito arder. “O que eu faço agora, aquele cara é um monstro.”

Olá, eu sou o 2omeu!

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