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Jonas afundou um galho no lamacento chão vermelho a frente, onde a trilha de terra amarela terminava. O galho aparentava ter mais de um metro de comprimento, tendo a grossura de seu braço. Fora retirado por Leandro de uma árvore pequena por ordem do cavaleiro. 

— É um engolidor — disse Orland apontando para o chão a sua frente —, se pisarmos, seremos engolidos pela terra. 

O cavaleiro trajava sua armadura suja de terra, com o qual o haviam encontrado. 

— Então é areia movediça? Mas por que ela é vermelha? — Leandro perguntou. 

Orland levantou uma sobrancelha. 

— Areia movediça? — O cavaleiro levantou uma sobrancelha. 

— Se pisarmos aí, vamos afundar? — disse Eric, com uma voz cansada. 

— Sim, já vi homens perdidos que, descuidados, ficaram presos em nessa terra traiçoeira e morreram de forma miserável. Alguns estavam secos quando os achamos, outros tinham apenas a cabeça para fora. Uma morte para homens miseráveis. 

Graça pareceu horrorizada, muito provavelmente imaginando a cena descrita pelo cavaleiro. Seu rosto estava branco, e sua boca aberta. 

— Misericórdia, então, o que faremos? — lamentou-se. 

— Devemos tomar outro caminho e contorná-lo — respondeu o cavaleiro, dando meia volta e caminhando por onde vieram. 

— Diga se escutar algo — ordenou para Jonas. 

A audição aguçada de Jonas era bem valorizada pelo homem. Embora o próprio Jonas não gostasse de ser mandado assim, sentia que estava fazendo a sua parte, ou ao menos dizia a si mesmo. 

Ele olhou para a lama vermelha. 

O “engolidor” se estendia por todo o caminho a frente deles e ao redor, por algumas centenas de metros. Piscinas naturais, repletas de peixes carnívoros e sanguessugas o cercavam de ambos os lados. Para Jonas, não havia muita diferença entre ele e a lama normal que estava a margem da trilha. Mas Orland sabia diferenciar a ambos, e, muito além disso, ele sabia como sobreviver no meio daquele inferno úmido. Ainda que tudo o que fizesse fosse dar ordens, ainda os salvara meia centena de vezes. Seja os impedindo de entrar em um lago repleto de sanguessugas, ou de morrerem tocando a pele de um sapo venenoso. 

Jonas soltou o galho, o deixando se afundar, e então olhou para as costas do homem. 

O cavaleiro parecia saber de tudo um pouco sobre aquele lugar. Mas claro, ele sabia isso pois sempre atravessava aquele pântano com suas mercadorias. Peles e ossos de monstros, joias a que chamou “cristais bestiais”, e escravos capturados, tais como eles haviam sido. 

Jonas não conseguia não pensar que aquele homem fazia parte da comitiva que o manteve preso por tantos dias desde que chegaram a aquele mundo, Fora esbofeteado, humilhado e insultado todos os dias, enquanto fazia uma marcha forçada, por terrenos arenosos, pântanos lamosos, e rios que chegavam até a sua cintura. Graça quase se afogou atravessando um deles. Desejava batê-lo, xingá-lo, vingar-se, mas não podia, Eric fez questão de explicar o porquê, e toda a vez que o homem os alertava de algo, sua mente, por si própria, lhe fazia o favor de lembrar. 

Olhou para a espada que retirara de um soldado morto, na noite em que escaparam do cativeiro. A qual agora era carregada por Leandro. Eles a alternavam entre si quem a carregava. Não havia bainha, então precisam carregá-la pela empunhadura, algo extremamente cansativo. No entanto a forma relaxada que Leandro o fazia deixava Jonas inquieto. Daquele jeito, o cavaleiro não teria dificuldades em tomá-la para si. Embora, até aquele momento, não tenha demonstrado intenção de fazê-lo, o que só deixava Jonas mais inquieto sobre o homem. 

A trilha que seguiam era um estreito caminho de terra, que tornava possível atravessar o pântano sem atolar os pés nos traiçoeiros lamaçais, ou adentrar os lagos repletos de basiliscos. Segundo Orland, elas foram feitas por magos e alquimistas que costumeiramente cruzavam a região em busca de insumos para remédios, e artefatos perdidos em ruínas, deixando uma verdadeira teia de caminhos entre os brejos. Eles a utilizavam sempre que possível, caminhando na direção apontada pelo cavaleiro. 

— Merda, andamos por horas nessa porra de trilha, e agora teremos de voltar? Esse desgraçado está brincando com a nossa cara — resmungou Túlio – seu rosto rubro e suado – em voz baixa, para que o cavaleiro não o ouvisse. 

— Para de falar, só vai se cansar mais — repreendeu Eric. 

— Ah, vai se foder Eric, eu falo o quanto quiser. 

— Dá pra perceber — Jonas murmurou, recebendo outro xingamento de Túlio. 

Eles continuaram até encontrar um lugar em que pudessem descansar, antes que a luz cessasse, sobre as raízes de uma grande árvore, parecida com as árvores de mangue que Jonas vira em suas aulas de geografia, porém maior do que qualquer uma que já houvesse visto. Ficava no centro de uma clareira, seus galhos eram finos e longos, com os cipós espalhados entre eles dando-lhes uma aparência grotesca. Tinha grossas raízes, que se espalhavam por dezenas de metros no chão, se entrelaçando como cabelos de mulher no ralo do banheiro. 

“Solitária”, assim Orland a chamou. Jonas achou o apelido adequado. 

O cavaleiro juntou algumas pedras que encontraram pelo caminho, reuniu-as em um círculo sobre as raízes, e no meio delas, pôs uma pequena rubra. Ele a tocou, recitando uma palavra estranha e uma chama pálida apareceu logo em seguida. 

A chama mudava de cor de tempos em tempos, provavelmente para marcar as horas. Queimaria até que a pedra se consumisse, o que conveniente levava a noite inteira. Eric perguntou ao cavaleiro o que era aquilo, e foi respondido por um “Não sabes nem o que é uma pedra ígnea, plebeu?”, acompanhado de outros comentários do tipo. Eric não se intimidou e perguntou onde ele a tinha conseguido, o que Orland respondeu com outra resposta grosseira, o que Eric apenas agradeceu. Jonas não teria tamanha paciência. 

Orland retirou um pouco de carne de sua bolsa, caçada por eles mais cedo, e improvisou alguns espetos na fogueira. Era de uma criatura parecida com uma salamandra gigante, o qual o cavaleiro alegou ser comestível. 

As reações ao prato foram unanimes. Ninguém se animou em comer, mas a fome os venceu. Graça fazia uma prece silenciosa, acompanhada de uma careta diferente, a cada mordida. Leandro forçava tudo garganta abaixo, engolindo quase sem mastigar. Túlio reclamava mais do que comia. Eric comia sem reclamar e demostrar desgosto, embora demorasse algum tempo pare criar coragem, e levar a carne novamente a boca. Jonas não se importava tanto assim. A carne não tinha um gosto bom, mas era macia e fácil de engolir. Tinha lembrança de gostos piores de quando sua mãe cozinhara. 

O próprio Orland não mostrou qualquer reação, mastigando indiferente, ainda trajado de sua armadura. Apesar de ainda suja, agora Jonas podia vê-la melhor. Tinha uma cor prata fosca, e estranhos símbolos laranjas por todo o corpo. Parecia bem desgastada, estando tendo buracos na barriga e nas costas, além de escoriações na cintura, braços e peito. Mesmo assim, o homem nunca a tirava, a não ser para limpar os ferimentos, que embora não sangrassem, ainda eram bem feios, sendo duas crateras de carne vermelha, um na barriga, e outro nas costas, como se algo o tivesse atravessado. Mesmo assim, estavam fechados, mesmo que superficialmente. Pareciam terem sido cauterizados por algo bem quente. Embora Orland não parecesse se importar com as feridas em seu corpo, Jonas imaginava o quanto deviam doer. 

— Ei, quanto tempo vai levar para sairmos desse lugar — Túlio perguntou ao cavaleiro. 

Orland o encarou, com seus olhos verdes brilhando junto a luz pálida da chama entre eles. Algo naqueles olhos causava um arrepio em Jonas, que se esforçava para sufocá-lo. 

— Quem sabe? — O cavaleiro respondeu, voltando a sua refeição. 

— Como assim? Não é tu quem está guiando o caminho? — insistiu Túlio. 

Leandro e Graça mostraram preocupação em seus rostos ao ouvir a resposta do cavaleiro. Eric permaneceu quieto, enquanto Jonas sentiu-se confuso. 

— Sigo em uma direção, e acredito que ela vai nos levar a algum lugar, mas se vamos ou não sair daqui isso não posso dizer — respondeu insipidamente Orland. 

Túlio franziu as sobrancelhas. 

— Se já acabou de falar, termine de comer, precisámos dormir, e a primeira guarda é sua — Anunciou o cavaleiro, se levantando e afastando-se deles. 

Jonas podia ouvir seus passos diminuindo enquanto se afastava. O cavaleiro se distanciava deles sempre que dormia. Parecia nutrir o mesmo grau de confiança neles que Jonas tinha por ele. 

— Arrombado arrogante — Túlio resmungou. 

— Não fale assim querido — pediu Graça. — Ele pode ser indelicado, mas nos ajuda bastante. 

— Ele manda bastante, isso sim — Túlio retrucou. — Tudo o que esse corno faz é nos dar ordens. 

Ele tomou a precaução de sussurrar, ao menos. 

— Ordens necessárias, pois duvido que tivéssemos durado mais de um dia sem elas — disse Erick em tom cortante. 

Túlio franziu as sobrancelhas. 

— Tu gosta tanto assim de ser mandado é? 

— Cara, cê tem de entender a situação que a gente tá — Tentou explicar Jonas. 

Túlio apenas bufou. 

— Vai ficar do lado dele? Ah claro, afinal tudo o que esse puto fala, tu faz, né seu lambe bolas — Túlio ergueu o tom da voz. 

— Fica quieto — pediu Jonas, com medo de que o cavaleiro escutasse. 

— Me obriga — Túlio se levantou, o que obrigou Jonas a fazer o mesmo. Não suportava a sensação de ser visto de cima. 

— Gente, vamos ter calma — Leandro pôs as mãos nos ombros de ambos, tentando apaziguá-los, mesmo que Túlio fosse o único alterado. 

— Me solta! — Túlio grunhiu, tirando a mão de Leandro de seu ombro. 

— Garotos, acalmem-se agora, está tarde demais para isso — Graça rosnou, como se estivesse brigando com crianças. 

— Ah, desculpa dona Graça — Jonas disse em tom monótono, tentando mostrar constrangimento. Era assim que evitava ser repreendido pelos avós. Ele se sentou. 

Túlio apenas bufou, e depois fez o mesmo, se sentando novamente. 

— Foi mal cara — Ele falou. — Eu só tô… cansado. 

— Todos estamos — observou Erick – seus olhos caídos e roxos por conta das noites sem dormir – retirando o último pedaço de carne ainda preso no espeto com a mão, e o pondo na boca. 

— Acho melhor tu dormir cara — aconselhou Leandro — Parece até que pintaram os teus olhos de preto. 

— É mais fácil falar do que fazer, mas acho melhor tentar mesmo — Eric se levantou de forma desajeitada. — Ah, a primeira vigília é tua, não esquece — disse, olhando para Túlio, que apenas estalou a língua e bufou. 

— Aqui — Leandro estendeu a espada para Túlio — Me acorda quando isso aí mudar de cor duas vezes — disse Leandro se aninhando em uma fenda entre duas grossas raízes. 

— Se me dão licença, jovens, preciso fazer minha própria vigília — anunciou Graça, erguendo-se com dificuldade. 

Jonas se moveu de forma quase automática em seu auxílio, a ajudando a ficar em pé. A mulher agradeceu, e se afastou. Ela não dormiria. Mesmo tendo experimentado um pós-morte bem diferente do que devia imaginar, a senhora ainda mantinha seus hábitos religiosos. Talvez a ajudasse a se manter sã. Jonas não sabia o que pensar quanto aquilo, nunca foi muito religioso, mas acreditava em Deus. A figura que alegou ser ele, no entanto, era bem questionável. 

“Ajudem-me, e eu os devolverei ao seu mundo”, tinha dito ele, mas por que Deus precisaria de ajuda? Algo naquilo não fazia sentido. 

Jonas se levantou, surpreendendo Túlio, que resmungava consigo mesmo sobre qualquer coisa. 

— Valeu, cuidado aí — disse, se espreguiçando. 

Ele iria atrás de algum lugar, mais confortável, para descansar, mas antes, parou por um momento, voltando-se de novo para Túlio. 

— Cuidado também, com ele — olhou na direção do cavaleiro. 

Túlio bufou. 

Viu através da penumbra mal iluminada pela pequena fogueira a silhueta de Erick, que estava sentado com as pernas cruzadas. Comumente fazia aquilo antes de dormir, dizia que o ajudava a relaxar. 

Jonas se recostou sobre o tronco da bizarra árvore, tentando ficar o mais confortável que conseguisse, fechou os olhos, e esperou o sono vir enquanto escutava os sons de tudo que o cercava. Podia escutar os sussurros de Graça, os resmungos de Túlio, e o ronco de Leandro. Ouvia os sons do pântano, desde os grilos, até os silvos do que pensou serem serpentes. Escutava tudo muito mais do que os outros. Ouvia sussurros como se fossem gritos, e passos como se fossem batidas de martelo. Era útil para saber o que se aproximava, evitando assim muitos perigos. E no silêncio da noite, os sons se amplificavam. Porém, o que o incomodava não era o que escutava lá fora, mas o que ouvia dentro de sua mente. Quando os pensamentos, e as lembranças que eles traziam, a invadiam. 

Pensou em seus avós, como deveriam estar? Como reagiram quando souberam que ele tinha…? 

Pensou em sua mãe. Ela soube? Ela chorou por ele? Não sabia, não a via a muito tempo, talvez ela nem se lembrasse. 

Seu pai? Quando fora a última vez que o vira? Não lembrava. Talvez o tivesse encontrado naquela sala com as estátuas, ou talvez naquela praia imensa. Não fazia diferença, não o reconheceria de qualquer forma. 

Pensou nela, novamente, e então levou uma mão a testa, se censurando. 

“Pare com isso…”, disse a si mesmo, “ela nem deve pensar em você, estando com ele”. 

Ele não dormiu. Fitou a escuridão, ouvindo a voz dela negando o seu último pedido.


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