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Os olhos de Thayala passavam de uma aberração à outra. As peles esverdeadas começavam a se destacar com o brilho da lua recém-chegada aos céus.

No entanto, embora seu olhar estivesse nos monstros, sua mente focava em uma preocupação diferente.

— Boyak! — ela vociferou. — Dê o fora daqui com Anayê! Vá direto para as colinas!

Um berro soou vindo da aberração em sua frente. Ela se esquivou com um salto elegante.

O ceifador cerrou os punhos.

— Eu não…

— Cale essa boca! — Então olhou diretamente para ele por poucos segundos. — Eu não posso lutar contra três aberrações e cuidar de um peso inútil como você!

Ele arregalou os olhos e cerrou os punhos. A cor fugiu de seu rosto.

Thayala sabia que a única forma de expulsar o ceifador daquele lugar era ofendendo seu orgulho, um choque de realidade perverso e cruel. Não era a sua vontade dizer aquilo, mas ela aprendera há muito tempo a deixar suas vontades de lado pelo bem maior.

A intenção surtiu efeito.

Auxiliado por Anayê, Boyak se ergueu, e logo em seguida, os dois partiram.

Nenhuma aberração os seguiu, afinal, suas atenções se voltavam à inimiga com poderes de vento.

A mente da ceifadora fixou nos seus novos problemas. Lançou uma lufada de ar para desnortear um gritador e avançou para atacá-lo com as adagas de vento. 

Não era a primeira vez que enfrentava mais de uma aberração. Na pior de suas experiências, estivera cercada por seis criaturas diferentes. Daquela feita, quase não escapara com vida.

Outro grito disparou em sua direção frustrando sua investida.

Seus pés giraram rapidamente e esquivaram de dois gritos consecutivos.

A grama ao redor tinha sido destruída e o chão estava cheio de terra deformada.

Mal ela havia desviado e outro ataque veio. Dessa vez, uma aberração desferiu um golpe com suas garras.

Thayala se afastou de modo fácil. Preparou as adagas para contra-atacar, entretanto, mais um grito impediu-a. Ela foi obrigada a recuar mais cinco passos, mantendo uma distância razoável dos três.

Porcaria, resmungou em seu pensamento. Não tinha tempo e nem espaço para atacar. Se o ritmo se mantivesse, não demoraria para falhar e ser atingida por um golpe.

Os três monstros abriram as bocarras e emitiram seus gritos ao mesmo tempo.

Uma onda sonora gigante se formou e forçou Thayala a usar toda a sua velocidade para escapar.

A ceifadora saltou e deu uma cambalhota abrindo ainda mais distância das criaturas. Sentiu os cabelos balançando com o vento vindo da onda sonora gigante.

Ofegante, se colocou em pé com a mente calculando uma estratégia para executar.

Sacou um frasco de fluido de oração do casaco e tomou o conteúdo inteiro.

Duas feras atacaram, a terceira esperou para usar o grito no momento oportuno.

Thayala invocou o vento e fez seu corpo se elevar a alguns metros do chão. As garras passaram direto no ar causando surpresa e confusão nas criaturas tempo o suficiente para a ceifadora usar seu golpe com adagas de vento e acertar em cheio a cabeça delas.

As aberrações caíram, mortas.

No entanto, a terceira aberração, espectadora da luta, emitiu seu grito quando a ceifadora ainda estava no ar e sem possibilidade de escapar.

Sem o chão para firmar os pés, Thayala foi atingida pela onda sonora e saiu girando até acertar uma árvore com as costas. Soltou um gemido quando as costelas se chocaram contra a madeira e a dor subiu ao cérebro.

Mesmo assim, ela pousou na terra em pé. Foi o tempo exato para perceber o gritador em sua direção pronto para dilacerar com suas garras.

Thayala se abaixou e escapou do primeiro ataque. O movimento fez suas costas estalarem. Ela ignorou o corpo e já preparava suas adagas de vento quando o segundo golpe de garras veio.

Deu uma cambalhota e tentou uma lufada de vento na intenção de atrapalhar o inimigo.

Porém, após observar a batalha anterior, a criatura aprendera algumas ações, e esquivou da investida dando um salto para trás. Em seguida, atacou novamente em uma sequência de quatro golpes consecutivos.

Thayala fugiu dos três primeiros, mas o quarto se moveu rápido demais.

As garras adentraram a carne do seu antebraço esquerdo abrindo três linhas irregulares e sangrentas.

A ceifadora engoliu o grito e ignorou a dor sendo descarregada pelo braço inteiro.

Reagiu velozmente, aproveitando a proximidade com a aberração.

Movimentou a palma da mão direita para o rosto do monstro. Uma intensa rajada de vento bradou, lançando tanto a ceifadora quanto a fera para longe.

Thayala rolou por cinco vezes antes de conseguir parar.

A criatura, por estar tão próxima da fonte do vento, teve sua cabeça esmagada como se um martelo gigante a tivesse golpeado. Seu corpo inerte desabou.

Thayala suspirou. Finalmente foi capaz de analisar o estrago no braço e usou o fluido de oração em seu corpo para recuperá-lo.

Logo, nem a marca do ataque havia sobrado.

Se levantou observando o estrago. O local estava cheio de corpos dilacerados de gritadores.

Ela precisava encontrar Boyak e Anayê. Um novo pensamento surgira depois que ela havia dispensado os dois. Talvez esse fosse o plano de Ziron desde o início, separá-los dela.

Mas só pensar não bastava, a ceifadora correu na mesma direção para onde seus companheiros haviam ido.

***

Boyak estava irritado.

Com todas as forças, tentava não transparecer. Mas desconfiava que Anayê descobrira.

Depois de saírem da presença de Thayala, ele afirmara poder andar sozinho. Porém, bastou alguns passos para ser obrigado a parar e se apoiar em uma árvore. Suas pernas tremiam como vara verde.

— Eu te ajudo! — Anayê se aproximou.

— Não! Eu não preciso de ajuda! — ele berrou com o tom bem acima do normal.

A garota paralisou, assustada. Ele se arrependeu imediatamente.

— Desculpe, me desculpe — falou, envergonhado.

Ela permaneceu calada e parada.

Boyak deu um soco com o punho fechado no tronco.

Deixou de lado seus pensamentos, não podia fazer nada no momento e não adiantava ficar nervoso.

— Precisamos continuar — ele disse. — E eu… — Suspirou. — Não consigo sem a sua ajuda.

Pensava que veria um semblante de dó no rosto de Anayê. Porém, foi o contrário. A moça esboçou um misto de satisfação e gratidão, e isso mexeu com os sentimentos de impotência do ceifador.

Anayê se sentia honrada em poder ajudar, mesmo pouco, o seu salvador. Se fosse necessário, usaria toda a sua força para carregá-lo no colo.

Boyak aceitou o auxílio, mais calmo.

Caminharam por alguns minutos, a passos vagarosos e constantes, evitando a estrada onde o ceifador desconfiava haver mais armadilhas.

Mas assim que avistaram um descampado estendido por quilômetros, foram obrigados a suspender o trajeto.

Ali ficariam expostos e sem opção de fuga.

Quando se falava em fuga, Boyak pensava em Anayê, porque ele nunca fugiria e, naquele momento, mesmo se quisesse, não conseguiria.

— A gente pode esperar por Thayala aqui até o amanhecer — Anayê sugeriu.

De fato, não era uma sugestão ruim. Boyak tinha certeza de que a ceifadora os alcançaria logo.

Sua preocupação, no entanto, era não poder fornecer nenhum tipo de proteção para Anayê, caso fossem atacados.

Quanto mais próximos estivessem das colinas verdes, mais seguros estariam.

O terreno abençoado em que ficava a escola e o lar de seu mestre nunca era invadido por aberrações.

Ninguém sabia exatamente a razão de determinados lugares no continente serem abençoados. Alguns diziam que era porque outrora esses lugares receberam a visita divina. Outros afirmavam que esses lugares tiveram uma concentração muito grande de aberrações no passado.

Fato era que as Colinas Verdes se encaixavam na descrição de terreno abençoado. Somente lá, Boyak poderia suspirar aliviado.

Entretanto, ainda antes de conseguir decidir, ele avistou uma silhueta se destacando no horizonte. Nem precisou olhar muito, pois reconheceu quase no mesmo instante.

Era Ziron.

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Olá, eu sou o Naor!

É muito bom ter você aqui!
Espero que esteja curtindo a jornada de Boyak e Anayê.

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