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23:42 pm.

Acolhi Benjamin nos meus braços a partir do momento em que nos encontramos, proporcionando-lhe um refúgio seguro para que me confidenciasse o sofrimento que tinha suportado às mãos de Klaus Fritz. 

Esta sombra, uma ligação que ultrapassa os limites da linguagem escrita, perduraria até ao seu próximo suspiro. 

Temos desde então seguido um caminho de proximidade, a nossa relação fortalece-se a cada momento que passa.

A confiança que Benjamin depositava em mim crescia constantemente, à medida que ele se sentia confortável em partilhar os seus medos e inseguranças mais profundos. 

Tornei-me o seu confidente, oferecendo-lhe um ouvido atento e um ombro amigo. 

Levei Benjamin a locais que, à primeira vista, pareciam normais, sob o manto da noite, através de ruas vazias e soturnas. 

Nem todos os locais em que parávamos tinham portas e sinais convidativos. 

Por vezes, jantar em lugares que deveriam ser destinos gastronômicos populares tornava-se uma operação secreta, uma invasão de território proibido.

Cada local que escolhemos para saciar os nossos desejos parecia exigir também uma pequena dose de audácia e aventura. 

Em vez de as portas estarem abertas, a entrada era conseguida através de uma espécie de invasão voluntária, em que passar o limiar era simultaneamente um desafio e uma afirmação de domínio próprio.

— Parece que estávamos prestes a invadir um covil de vampiros toda vez que entramos em um lugar daqueles. — disse Benjamin

— E quem sabe, talvez estejamos. Mas, nesse caso, nossa presa é nada além de hambúrgueres e batatas fritas. 

Retorqui, provocando um sorriso no rosto dele.

— A cidade sempre foi tão legal assim? Caramba… — disse, atônito. — Quero dizer, ignorando essas coisas estranhas, vindo do interior, há tantas coisas que podem ser divertidas aqui.

E seguia com Benjamin apoiado sobre meus ombros enquanto exploramos a cidade. 

Nossa amizade floresceu nesse percurso.

— Sim, mas eu não gostava muito de sair de casa. — respondeu-me. — Às vezes minha mãe insistia para eu sair um pouco.

— Por que nunca quis? Cê tava perdendo muita coisa. Tipo… uh… uns salgados. E pizza, não se fala mais.

— Eu não sei, só nunca tive vontade.

— Você é um tanto esquisito e anti-social, né?

A constatação era inequívoca, notava agora.

— Mas eu te entendo, também não gosto muito de sair. Minha irmã mais velha é como meu oposto, sempre sai quando minha mãe não está em casa. 

Não era uma mentira ou invenção. 

— Eu prefiro não sair, não sou muito de me misturar, prefiro a solidão do que estar entre um bando de gente desconhecida.

— Dizem que sou estranho por causa disso.

— Não ligue para eles. Não me preocupo com o que falam de mim, sei que no fundo ninguém se importa. Siga um simples foda-se e está tudo bem.

— Foda-se, Krynt.

O que senti foi uma humilhação passageira vinda dele, e me surpreendeu mais do que deveria.

— Nossa…

— Você pediu, me chamou de esquisito antes.

— Bem… — Suspirei, aceitando o destino autoinfligido. — Mereço. Mas você ainda é uma criança, não precisa dizer isso.

— O que devo dizer então?

Não ligo e não me importo, é só isso. E aí você segue essa filosofia.

— Entendi.

Senti-me um mentor terrível. Minhas lições nunca abrangiam todas as faixas etárias.

— Aliás, mano, prometo que enquanto tudo isso não acabar, vou tentar te manter seguro. Porque eu entendo sua situação, algo parecido aconteceu comigo e… não é nada legal. Quando a vida foge do controle, muitas merda acontecem.

Benjamin permaneceu em silêncio por um momento, como se estivesse absorvendo minhas palavras.

— Provavelmente deve ter ouvido falar sobre o massacre numa escola. Essa notícia tá rodando o mundo todo.

— Foi você?

— Odeio admitir, mas fui eu. 

A noite continuava serena ao nosso redor, um cenário tranquilo contrastando com a turbulência que carregamos. 

— Estranho, né? A mesma pessoa que matou tanta gente tá servindo de consolo pra uma criança.

A cada passo construía uma ponte entre passados e futuros incertos.

— Sabe quando parece que tamo preso num labirinto e cada tentativa só faz a coisa ficar pior? Tipo, cada passo é tipo afundar mais em bosta. É como se a esperança fosse uma luz lá longe e inalcançável, e os esforços se perdem nesse caminho todo enrolado.

Minha expressão séria e compassiva permanecia, então prossegui:

— Mas olha, mesmo nos labirintos mais sinistros, sempre fica a chance de encontrar uma saída. Talvez cê só precise mudar sua perspectiva, explorar alguns caminhos diferentes.

Sob o manto de estrelas que adornavam o céu noturno, nosso caminho incerto ganhava um brilho de esperança. 

— Então, mesmo que a bosta pareça mais grossa a cada tentativa, quero acreditar que dá pra encontrar brechas e maneiras de dar a volta por cima.

As constelações cintilavam acima de nós, como pequenos faróis de luz em meio à escuridão que envolvia nossos corações. 

Era como se as estrelas fossem testemunhas silenciosas de nossas conversas e confissões, suas centelhas distantes ecoando a promessa de um futuro que ainda precisava ser desvendado.

— Pelo menos é assim que eu penso.

Ele permaneceu em silêncio. 

As palavras que eu havia compartilhado parecem reverberar em seu interior, como se ele estivesse ponderando sobre o significado delas.

— Ow, tá me ouvindo? — perguntei, buscando um sinal de sua presença no momento.

No entanto, continuou calado, como se perdido em seus próprios pensamentos. 

Uma gota fria caiu sobre minha cabeça, quebrando o silêncio.

— Ué, vai chover? — perguntei-me. 

Voltei com o olhar para o céu, mas a visão de estrelas contradiz a possibilidade de chuva iminente.

Uma nova gota caiu, a sensação de umidade contrastando com o cenário celeste. 

Minha preocupação se voltou para Benjamin, que ainda estava em silêncio.

— Ben? 

O chamei, minha voz carregando uma nota de apreensão.

Foi então que eu ouvi um som de choro. Por algum motivo, lágrimas escorriam silenciosamente por seu rosto. Um gesto tão raro, tão vulnerável, que me pegou de surpresa.

— Qual é, cara, o que tá pegando?

Ele tentou enxugar as lágrimas com as mãos trêmulas, um esforço para conter uma emoção que transborda de si. Era como se a barreira que ele construiu ao seu redor estivesse finalmente cedendo, permitindo que suas emoções fluíssem livremente.

— Sério, o que te fez assim? Isso é meio estranho.

Sua voz soou fraca, carregada de uma gratidão que transcendia palavras.

— Obrigado… 

O momento foi uma válvula de escape para sentimentos que haviam sido contidos por muito tempo. 

— O mundo é cruel, mas… você não.

Suas lágrimas eram um testemunho de sua vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, de sua coragem por deixá-las fluir.

— Ah… bem, valeu. Quero ser diferente.

A noite estava repleta de estrelas que brilhavam como faróis de esperança, mas naquele momento, a conexão entre nós brilhava mais intensamente do que qualquer constelação. 

A jornada que havíamos começado juntos parecia ganhar um novo significado, um compromisso mútuo de apoiar um ao outro em meio aos desafios e às incertezas que a vida nos reservava.

Nunca antes, em toda a sua vida, ele havia encontrado alguém que o compreendesse tão profundamente, que o acolhesse em sua vulnerabilidade. 

Eu, por minha vez, senti que estava desvendando camadas do seu ser que ele havia mantido escondidas por muito tempo. 

Em meio à escuridão da noite, sob as estrelas cintilantes, estávamos nos abrindo um para o outro, construindo um laço que resistiria aos desafios que ainda estavam por vir.

— Pode me levar para casa da Amy?

— Quem é?

— Minha amiga.

— Oh… é mesmo.

Ao mencioná-la, um nome ecoou em minha mente: Marie.

Imagens desvanecidas dela surgiram. 

O seu riso contagiante, os momentos de cumplicidade e os momentos partilhados. 

No entanto, por detrás deste véu de memórias felizes, pairava uma lembrança negra.

As recordações surgiram como fantasmas do passado, mas apertei meus olhos para apagá-los.

— O que foi? — perguntou ele.

— Nada. — Suspirei fundo. — Bom, se ela é sua amiga, tamo indo lá então. Só me guia pelo caminho.


O som dos meus passos ressoavam no pavimento.

Eu observava as fachadas das casas, que tinham uma variedade de estilos arquitetônicos e cada uma oferecia uma visão única. 

O bairro era tranquilo, com jardins bem cuidados e vasos de flores a adornar as varandas.

— A casa da Amy é ali, a última à esquerda. — Benjamin apontou para uma casa pintada com tons suaves, com luzes amareladas brilhando pelas janelas.

A caminhada prosseguiu e o ambiente urbano deu lugar a um bairro mais residencial. Casas com quintais espaçosos e luzes acolhedoras dão ao bairro uma atmosfera familiar.

À medida que se aproximavam da casa, os detalhes da arquitetura destacavam-se. 

A fachada da casa de Amy era uma mistura de tijolos expostos e janelas adornadas com cortinas que balançavam ligeiramente ao sabor da brisa.

— É bonito. — disse, avaliando a residência. — Depois do que aconteceu, não garanto que ela esteja aí. Parece vazia.

— Me coloca no chão.

— Tudo bem…

Segurando-o, tirei de meus ombros e o coloquei no solo. 

— Me espera aqui.

Ao aproximar-se da porta, Benjamin bateu levemente, revelando a ansiedade de um amigo que apresenta outro ao seu círculo pessoal. 

A antecipação encheu o ar enquanto esperavam por uma resposta, e o som abafado dos passos de alguém a aproximar-se ecoou pelo corredor do outro lado da porta.

A madeira rangeu suavemente quando a porta se abriu, revelando Amy, cujo sorriso caloroso dissipou qualquer resquício de nervosismo que pudesse ter pairado no ar. 

— Oi, Ben! 

Os seus olhos curiosos perscrutaram a figura do seu convidado, prontos para receber mais uma pessoa em sua casa.

— Olha! Ele é seu amigo?

O calor da recepção transformou-se num frio cortante que me percorreu a espinha. 

O sorriso caloroso da Amy, em vez de trazer conforto, provocou-me uma profunda confusão. 

Como um fantasma de um passado recente, Amy estava ali, aparentemente viva, mas os meus sentidos insistiam numa verdade mais sombria.

“Como diabos?!”

O espanto apoderou-se da minha língua, transformando em silêncio qualquer saudação planeada.

No entanto, algo sinistro estava à espreita na escuridão. 

Foi então que, como um pesadelo que se materializava, um vulto emergiu das sombras. 

— Benjamin!

Uma figura ágil, movendo-se com destreza predatória, convergiu rapidamente para ele. 

O ar pareceu congelar quando me notei ameaça iminente.

Num movimento fluido e rápido, coloquei-me entre Benjamin e o recém-chegado, empurrando a criança para trás e assumindo uma postura defensiva.

Surpreendido pela resposta inesperada, ele ajustou a sua abordagem, reencaminhando o seu ataque para mim. 

Um objeto afiado, antes escondido na penumbra, brilhou brevemente na luz, e a intenção assassina se manifestou claramente.

Num instante de desespero e adrenalina, consegui esquivar-me parcialmente do golpe iminente, mas não escapei ileso. 

O objeto afiado deixou um rastro de dor na minha pele, um corte profundo que marcou a ousada defesa.

A dor aguda alimentou a minha mente, e eu insisti com um golpe rápido, afastando o indivíduo o tempo suficiente para me permitir segurar Benjamin e podermos recuar.

— Ah… merda.

O corte profundo marcou a minha pele no lado esquerdo do meu tronco, estendendo-se desde o topo do meu ombro até ao meio das minhas costelas.

O sangue escorria, formando um rastro vermelho que lhe manchava a roupa e delineava a extensão da ferida.

— Benjamin Moore… Nossa, vejo que você fez um novo amigo. Ainda não o matou?

A voz de Fritz, contida e fria, perfurou o ar enquanto suas palavras pendiam como um desejo vil. A tensão se enroscou ao redor de nós como uma serpente prestes a atacar.

— Cala a boca, porra. — disse num tom alarmante. — Ou prefere que eu te cale à força? Tava querendo quebrar a cara de um estranho mesmo.

Uma expressão de surpresa nublou seu semblante por um momento. Suas feições geralmente compostas sendo surpreendidas por minha atitude desafiadora. 

A faísca de fúria dentro de mim ardeu mais intensamente, alimentada pela minha vontade de socá-lo.

— Corajoso… Um cão hostil, eu diria.

As palavras de Fritz estavam cheias de desdém puro, sua voz envolvida em uma certeza irônica que ecoava pelo ambiente. Seu sorriso mordaz abriu em seus lábios, revelando o prazer que ele tinha em subestimar a situação.

Meu olhar agudo, cheio de aversão, encontrou-se com o dele.

— Benjamin, o corajoso pretendente, pronto para defender sua amiga. Mas, como é engraçado que até mesmo os heróis mais valentes possam ser vítimas de destinos cruéis. 

Ele agachou-se ao lado da garota, passando os seus dedos sujos pelo rosto dela.

 — Amy, a donzela em perigo, esperando para ser resgatada.

Inclinou a cabeça, como se estivesse a contemplar uma obra de arte macabra.

— Ah, um casal moderninho e romântico. Um amor que floresce nas sombras da tragédia, como uma rosa cultivada em um jardim de espinhos. Veja bem, o amor é a arma favorita que o destino usa para nos ferir.

Ele deu uma risada baixa e doentia antes de continuar:

— O que é o amor, senão uma armadilha que vocês humanos criam para si mesmos? Uma teia entrelaçada com emoções torturadas, uma ilusão de redenção que muitas vezes leva à própria queda.

Parecia saborear cada palavra, como se estivesse a provar um vinho envelhecido, enriquecido com o sofrimento humano. 

Apesar de tudo, Amy ainda estava sorrindo inocentemente.

Benjamin manteve-se concentrado nela, sem se dar conta do esquema maléfico que estava a ser levado a cabo. 

Os olhos dela, no entanto, refletiam a opacidade de um destino brutalmente interrompido, em vez da luz da vida. 

Benjamin sentiu o choque do reconhecimento nos seus olhos, e então a realidade atingiu-o como um deslizamento de terra deprimente.

— Amy… 

O que restava de Amy era uma casca fantasmagórica da pessoa que ela tinha sido um dia. 

Benjamin deparou-se com a visão da morte, inevitável e implacável, como um abraço gélido de um destino certo.

— Tem que ser muito sem noção pra fazer uma parada dessa, né, ô seu arrombado?!

Ele parecia surpreendido com a minha reação, como se a minha agressividade desafiadora o tivesse apanhado desprevenido. 

Mas isto era apenas o início. As palavras afiadas e os olhares desafiadores eram apenas o começo.

— Não…

A dor e a raiva agitavam-se dentro de Benjamin como uma tempestade de emoções. Lágrimas derramadas pelo seu rosto, e os seus olhos ardiam com o calor da raiva controlada.

O seu coração estava cheio de revolta e desespero, fazendo com que ele caísse impotentemente de joelhos sobre o chão. 

A visão de Amy presa a um destino injusto era como uma lança perfurando seu coração e enviando uma onda venenosa de desesperança por todo o seu corpo.

O grito contido dentro de Benjamin encontrou finalmente um escape.

— Eu te odeio!

Sua última sentença pendia no ar como um desabafo.

— Eu te odeio do fundo do meu coração!

Da sua esfera sombria, ele deliciava-se a observar a angústia de Benjamin. Os seus olhos estavam cheios de um desejo desumano enquanto saboreava cada segundo do desastre que tinha planeado.

Um sorriso abominável deformou o seu rosto, espalhando a alegria sinistra de um diretor a conduzir uma sinfonia de dor.

Carregado por essas emoções negativas, Klaus disse: 

⌊  Cicatrizes ⌉

Olá, eu sou o Nyck!

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