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Capítulo Único – As Sombras da memória

Deixo as pílulas azuis em cima da mesa, ao lado de um copo de água. Gosto de colocar meus remédios em cartuchos de tic tac, pois faz o gosto amargo parecer melhor. Tomo uma pílula, tiro o cartucho e o guardo na gaveta do meu escritório. A última coisa que um doutor quer é parecer doente para seus pacientes.

Na tela do meu computador vejo qual o próximo nome na lista. Fecho as abas abertas do paciente anterior e chamo em voz alta o nome “Alessa”. A garota que responde é uma menina jovem, eu diria que com 19 anos no máximo.

— Pode passar. Sente-se — digo, apontando para a cadeira em frente ao escritório. — Eu sou o doutor Leandro. Você quer uma água? 

A garota é branca, mas parece mais pálida do que o natural. Suas olheiras delatam que faz dias que não dorme e a maquiagem feita às pressas não esconde o cansaço.

Ela parece assustada, por isso ofereço um copo de água antes de tudo.

— Doutor, eu preciso de ajuda. Doutor — começa. — Minhas memórias estão sendo roubadas. Eu estou esquecendo de vários pontos da minha vida, pontos importantes. Pessoas que eu amo, rostos, tudo. Está tudo desaparecendo aos poucos.

— Roubadas? — Essa palavra me chama a atenção. Começo a prestar mais atenção no que Alessa tem a dizer.

Ela leva a ponta do dedo até a boca. Eu espero, tenho que deixar os meus pacientes à vontade para falar. Sem pressioná-los. Ela tira o dedo da boca e começa a mexer na ponta de seus cabelos curtos e loiros.

— Roubadas, doutor. Tem que acreditar em mim, eu sei disso! Tenho certeza. Tem um monstro, uma criatura, levando as minhas memórias embora. E não é só isso… — Alessa faz uma pausa para coçar os seus olhos, borrando ainda mais a maquiagem. — Eu não sei o que está acontecendo, doutor. Tem que acreditar em mim!

Primeiro a certeza, depois a dúvida. Essa garota não parece saber o que está dizendo. O melhor por agora será tranquilizá-la.

— Tudo bem, tudo bem. É claro que eu acredito em você — digo, me lembrando da pasta com outros pacientes relatando exatamente a mesma história: as memórias sumindo aos poucos, a visão de um homem encapuzado ou uma criatura indescritível. Seja lá o que isso fosse, o padrão demonstrava que talvez, só talvez, isso fosse algum tipo de doença contagiosa, ou um vírus que afeta o hipocampo.

— É verdade, doutor. O senhor não está acreditando em mim. Há um monstro roubando as memórias das pessoas, doutor! — diz Alessa, ficando agitada. Ela havia ignorado completamente o que eu disse. — Eu não estou ficando louca, doutor. Eu juro!

— Por favor, se acalme.

Me levanto e caminho até o bebedouro, pensando em uma forma de amenizar a situação e tranquilizá-la. Agarro um copo de plástico e sirvo água.

Eu sou a única pessoa que pode ajudá-la nessa situação. Os outros casos foi a mesma coisa, quando eu tentava dizer que não havia nada sobrenatural e que poderia ser resolvido com o tratamento certo, mais o paciente se desesperava. Provavelmente o melhor a se fazer nesta situação é aceitar as loucuras que ela diz e receitar os remédios para tranquilizá-la.

Ofereci água e marquei outra consulta com Alessa daqui a dois dias. Dei uma caixa de remédios para insônia e os tic tacs que havia tirado da caixa para guardar meus remédios, dizendo que isso iria ajudá-la a se lembrar das coisas. Não queria enganá-la, mas sempre achei impressionante como o efeito placebo afeta as pessoas.

Alessa sai do meu escritório um pouco desconfiada, mas imagino eu que tenha aceitado tudo. Na próxima consulta farei alguns testes para saber o que está afetando o seu cérebro, para ver se encontro alguma coisa.

Me sento novamente no meu banco e abro a lista, Alessa é o último nome. Então me relaxo um pouco e descanso meus cotovelos sobre a mesa. Aperto minhas pálpebras prevendo que teria uma dor de cabeça mais tarde.

Tomo uma das minhas pílulas azuis e um remédio para insônia.

Aproveito que tenho um tempo extra e dou uma olhada na pasta que contém os pacientes com perda de memória — e que por algum motivo estão cientes disso. Adiciono todos os dados de Alessa em um documento do word, junto com uma foto sua, e a imprimo para adicionar na pasta.

Além dela havia a ficha de uma mulher adulta, com lábios carnosos e atraentes, com seus cabelos amarrados atrás, mostrando o rosto esbelto. A terceira ficha era de um garoto pequeno, de seis anos, que gritava e esperneava irritantemente dizendo que um monstro havia roubado suas lembranças… Apenas pirraça infantil.

Antes de passar para a última ficha percebo o horário. Levanto bruscamente quando me recordo que havia prometido a minha esposa um jantar romântico após o trabalho, e ela odiava quando me esquecia das coisas. Vivia dizendo que eu era esquecido demais, que me importava demais com o trabalho.

Em parte era verdade, fico pensando nisso enquanto pego meu casaco e desço rapidamente as escadas do hospital. Me sinto culpado por isso, como fui esquecer de algo tão importante? Havia planejando esse jantar há meses.

A chuva piora tudo, as buzinas incomodam e o vidro embaçado atrapalha a visão. O trânsito fica quase parado nesses tempos e eu não consigo ficar muito tempo sem olhar o relógio.

Me tranquilizo quando chego em casa. Mas percebo que as luzes estão todas apagadas. Já imagino minha esposa nervosa, com os braços cruzados e o olhar acusador. Com certeza ela não deve gostar nada do meu atraso. Engulo em seco antes de abrir a porta.

Vazio.

A sala está completamente vazia, ouço apenas o silêncio. Nenhum sinal de uma mesa preparada ou cheiro de comida, nenhum vinho caro ou luzes vermelhas e românticas. Talvez ela já estivesse dormindo. Talvez ela tenha guardado tudo e deitado, frustrada por eu ter esquecido algo tão importante. Me sinto mal por ela.

Sinto náuseas. Minha visão embaça por alguns segundos e logo vem a dor nas pálpebras. De novo essa dor. Já faz quanto tempo que estou acordado? Melhor não pensar nisso.

Vou até o quarto já pensando nas desculpas que tenho que dar e abro a porta devagar, se ela estivesse ali não gostaria de acordá-la de supetão.

Ninguém.

— Amor? — pergunto. — Amor? — Mais alto, se ela estiver em casa, deve ter ouvido.

Abro a porta do quarto ao lado, a luz entra e ilumina a cama. Meu filho pequeno, dormindo como um ursinho de pelúcia. Vê-lo assim me trás uma sensação de conforto, de dever cumprido. Fecho a porta devagar para não acordá-lo.

Onde ela poderia estar nesta hora da noite? Pra onde ela foi? Sinto minha boca seca.  Quando vejo pela janela o reflexo de um homem encapuzado. Sinto um aperto no peito, estranho.

O que aquele sujeito faz lá fora na chuva? Meu instinto me diz para dar uma olhada. Não vejo ninguém na rua pela janela, provavelmente por causa da chuva. No mesmo momento eu vejo meu vizinho Rodes voltando, estacionando sua quatro por quatro.

— Rodes! — grito, depois de abrir a porta de casa e então saio correndo na chuva. Sinto o frio molhado na pele. Ele abre o vidro, com um semblante preocupado.  — Me desculpa o incomodo, você viu minha esposa? Não encontro ela em lugar nenhum.

— Esposa? Que esposa? Você não tem esposa. — Ele me olha como se eu fosse louco.

— Como assim? A minha esposa… — Seu nome. Percebo que não lembro seu nome. Sinto dores de cabeça e meus olhos ardem. Começo a arfar, como se meus pulmões tivessem encolhido, puxando o ar húmido, aumentando o frio que sinto. — Ela sumiu! Rodes!

— Isso é algum tipo de pegadinha, só pode. O que você faz na chuva? Vai pegar um resfreado.

Fico um momento incrédulo olhando para ele. Sua indiferença no tom de voz me deixa sem reação, como se ele não se importasse. Como eu não me lembrava de seu nome? Abro meus olhos novamente e percebo que estou sozinho na chuva, em pé. Às vezes essas coisas acontecem comigo, o tempo passa em um flash sem que eu perceba. Rodes já havia estacionado o carro e entrado em casa.

Entro desesperado, abandonando o frio de lá de fora. Tem algo errado. Muito errado. Seu nome…

Abro meu celular, buscando seu contato. Amor, Esposa, qualquer coisa, eu tinha que entrar em contato com ela. Meu dedo molhado desliza pela tela do celular, dificultando o funcionamento. Não vejo sua foto na miniatura do whatsapp em lugar nenhum. Eu não tenho o seu contato salvo? Onde está? Onde ela está?!

Ouço um trovão forte e uma luz branca ilumina toda a sala de estar por segundos breves. No mesmo momento vejo a silhueta de um homem encapuzado. Desta vez, ele parecia ter chifres, e diversos olhos.

Meu coração pula. Fico aterrorizado por alguns segundos. Aquilo desaparece junto com a luz do relâmpago. Eu devo estar ficando louco. Corro novamente até lá fora, quero saber o que era aquilo. Deve haver alguma explicação, minha tontura provavelmente está me fazendo ver coisas. Não existe monstro que rouba memórias…

Não vejo nada a princípio. A chuva está muito forte. Eu tropeço em um desnível da terra e caio na grama, me sujando de lama. Sinto as gotas frias caindo sobre meu rosto e meus olhos lutando para se manterem abertos.

Vejo uma luz na minha frente. É o meu celular. Ele está aberto nos contatos do meu whatsapp. Eu o agarro para protegê-lo da chuva e entro novamente em casa. Fico os últimos momentos perguntando para todo mundo sobre minha esposa.

Tia Velma, Roberto, Adriano, etc. A luz do celular parece mais forte do que nunca, incomodando meus olhos, e minha visão fica ofuscada.

Meus olhos ardem e eu os abro. Percebo que estou no chão da minha sala. Eu dormi? Parece que sim, mas não o suficiente para os meus músculos descansarem. Meu braço está formigando por estar tanto tempo debaixo do meu corpo.

Eu me levanto e percebo que parou de chover. Meu corpo ainda está molhado e sinto o cheiro de roupa ensopada. No celular, diversas pessoas haviam me respondido. “Que esposa? kkkkk”, “O que você tá inventando agora, heim?”, as mensagens cravam em mim como estacas. “Estou aqui amor”, emojis de beijo. Quando vejo o nome do contato: Lucas TRABALHO. Definitivamente não.

Essa piada de mal gosto me faz entrar em um medo ainda maior. Ninguém se lembra dela! O monstro… AquiloAquilo é real, está roubando as memórias das pessoas. Aquele monstro levou a minha esposa!

Não perco meu tempo. Agarro as chaves do carro e corro até o hospital. O caminho parece mais curto quando não está chovendo. De repente vejo pelo retrovisor o ser encapuzado, o ladrão de memórias. Levo um susto e quase causo um acidente, e um ciclista passa por mim me xingando.

Quando chego no hospital, vou diretamente para a recepção, mostrando meu crachá. A senhora que trabalha no local fica parada na minha frente, com uma cara de preocupada.

— Você não pode entrar — diz, parecendo um pouco tensa.

— Como assim? Eu sou o doutor Leandro, está no meu crachá. Veja, veja minha identidade.

A mulher olha para sua parceira sem saber o que fazer. Percebo a dúvida em seus olhos. Parece até um olhar de pena. Minha paciência começa a ir embora. Tenho um trabalho a fazer.

— Com licença, mas eu tenho que passar. — Tentei ir pelo seu lado direito, mas ela se interpôs no meu caminho.

— Me desculpa, mas você não trabalha aqui. Deve ter se enganado de setor.

No momento em que ela diz isso eu vejo novamente. Um ser encapuzado, todo de preto, disforme como se não fosse humano. Ele caminha em minha direção a passos lentos. Acho que a mulher está tentando conversar comigo, mas não consigo prestar atenção em mais nada.

O mundo fica em câmera lenta. Eu olho para os lados, estão todos me olhando. Ninguém parece enxergar o ladrão de memórias. Entendi que nesse momento que meu dever era derrotá-lo, destruí-lo para terminar de uma vez por todas com seus ataques.

Não me resta muito tempo, inclusive meus parceiros de trabalho estão se esquecendo de mim. O que o monstro faria a partir daqui? Prefiro não pensar nisso. Quero juntar minhas forças. Ele continua vindo em minha direção.

Minha visão embaça. Eu tenho que resistir. Penso na minha esposa, no meu filho. Até mesmo a imagem de Alessa vem em minha mente. As pobres almas que tiveram suas memórias roubadas. Eu tenho que fazer isso por todos.

Corro com todas as forças em direção da criatura, a acertando e a derrubando no chão. Meu corpo todo sente o pesar. O monstro de perto é ainda mais aterrorizador. Seus olhos brilham e… Uma pancada forte me joga de lado.

Olhando para o chão, vejo minhas pílulas azuis. Eu agarro uma das pílulas e a engulo. Me sento, sem entender o que aconteceu. Minha visão vai voltando aos poucos e percebo que estou do lado de fora do hospital.

Como eu vim parar aqui? A dor na cabeça e o zumbido no meu ouvido me faz perceber que fui apagado. Olho para trás e vejo um policial fardado voltando para dentro do prédio. Não entendo o que está acontecendo. O monstro… O monstro deve estar roubando até mesmo minhas memórias recentes. Só pode ser isso, só pode ser isso.

Ninguém lembra de mim, nem da minha esposa. Seria eu o próximo a desaparecer? Onde será que está Alessa e os outros pacientes? A criatura deve tê-los levado. Sinto que minhas últimas chances estão se aproximando, eu preciso… eu preciso de um plano.

Sem perder tempo, volto para casa o mais rápido possível. Desesperado. Minhas mãos tremem quando abro a porta de casa. Meu coração dispara a cada passo que eu dou. Será que ele ainda se lembrava de mim? Meu filho, meu único filho.

Único. Será mesmo que ele era o único? Quantos mais não haviam desaparecido? Quantos mais ninguém se lembrava da existência?

Abro a porta com cautela, não querendo interromper nada, ou assustá-lo. Quando o vejo na cama um grande alívio bate em meu coração.

— Filho.

— Oi, papai — responde, com sua voz doce. Ele me olha apreensivo.

— Filho. — Me emociono. — Você se lembra de mim? Ainda se lembra de mim?

— É claro papai. Você é meu pai — ele diz, com expressão de dúvida. Mal posso imaginar o que se passa em sua mente, deve imaginar que eu estou ficando louco. Mas não importa, tenho que me assegurar de que ele está bem.

— Você se lembra do nome do papai? — Quero ter certeza. Tento colocar um tom mais suave na minha voz.

— Papai Leandro.

— Isso, meu filho. Isso. — Eu o abraço, tentando conter as lágrimas. Afago os seus cabelos e o beijo. De repente me vem uma ideia na mente. — E a mamãe?

Ele se desfaz do meu abraço, se levanta da cama e vai até a cabeceira. O vejo agarrar um papel. Ele me trás e aponta para a foto.

— É a mamãe.

Reconheço seus traços. A maior parte deles. Seus lábios carnosos, seus olhos, seu cabelo. Tudo se encaixava. Aquela mulher tinha sido minha esposa, eu tenho certeza. Guardo sua foto no meu casaco para mantê-la comigo. Dou outro beijo no meu filho antes de me levantar da cama.

Ele deita e eu o cubro com a coberta. Caminho até a porta, com mil coisas se passando pela minha mente.

Eu tento conectar as coisas. Tento me lembrar, mas não importa o quanto eu me esforce, as feições de minha esposa apenas desapareciam.

Seria o meu filho imune ao monstro? Ele se lembrava de mim, e de sua mãe. Aquilo não podia ser coincidência, por que ele seria o único? Sinto um calafrio na minha nuca. E se ele tem alguma relação com o ladrão de memórias?

Começo a pensar em inúmeras possibilidades. Fico um tempo de costas para o quarto do meu filho. Do meu filho? Por que eu o chamo assim? Sinto um enjoo. Minhas pálpebras doem e decido tomar outra pílula azul.

Eu a engulo. Me dá sede. Caminho até a cozinha, tentando me lembrar de seu nome. O nome do meu filho. Eu não posso perder, não posso perder ele também. Minhas lembranças dele são tão poucas. Tão poucas, como se eu não o conhecesse. Eu preciso, preciso de um jeito de guardar suas memórias.

Escrever. Tenho que escrever tudo o que sei sobre minha família. Tudo o que sei sobre mim mesmo. É isso, o monstro não pode vencer no final!

Caminho até a sala, desistindo da água. Meu objetivo era um papel e uma caneta. Me deparo com uma pasta no chão. No meio da sala, no exato lugar em que eu dormi no dia anterior.

Que pasta é essa?

— Tem alguém aí? — pergunto, observando todos os lados da casa. Os móveis parecem ter mudado de lugar, minha casa parece diferente. Sinto um calafrio. — Quem está aí?!

A foto. É melhor pegar a foto dela. Eu vou anotar tudo o que eu me lembro no verso da foto. Para não me esquecer do seu rosto. Eu pego a foto do bolso do meu casaco e a solto no chão, com um susto.

Não havia o rosto da mulher que eu amei. Não havia sequer uma mulher na foto. O monstro, a criatura encapuzada. Era um desenho da criatura. O medo toma conta de cada parte do meu corpo. Fico tremendo, repetindo para mim mesmo que aquilo não é real.

Perco a noção do tempo. Eu sempre a perco. O que está acontecendo? Como a foto foi substituída? Dúvidas enchem minha mente.

— Apareça! Seu monstro infernal! — grito, me virando para todos os lados. — É a mim a quem você quer, não é? Deixe a minha família fora disso, me leva logo!

Os segundos se passam. Talvez minutos. Na ausência de resposta me lembro da pasta no chão. Caminho até ela e a agarro, com muita hesitação.

— Mas que…

O que eu vejo me deixa em choque. É um absurdo. Tudo é um absurdo. A pasta é a minha pasta, a minha lista dos pacientes com falta de memória. Os seus rostos são exatamente os mesmos rostos de antes, mas agora eu lembro de mais coisas.

Sua boca, seus olhos, seus cabelos. O que eu me recordava de minha esposa era a paciente número um. Seguindo a lista, o paciente número dois, era exatamente o meu filho. O mesmo garoto de seis anos, que me lembro de fazer alarde e dizer que um monstro havia roubado suas lembranças. A terceira paciente, Alessa, a garota loira, minha última paciente.

Isso não faz sentido. Não faz sentido. O que tudo isso significa?

O meu filho, ele lembra de mim. Por que ele seria um dos pacientes? De repente um estalo vem à minha mente. Deixo tudo no chão, a pasta, as fichas dos pacientes e o desenho da criatura que antes era uma foto da minha esposa.

O medo me consome. A cada passo sinto meu mundo desabar e o quarto do meu filho se faz mais longe do que me recordo. Eu entro abrindo a porta com todas as minhas forças pelo desespero.

Fico paralisado.

Na cama, debaixo das cobertas, tudo o que havia era um ursinho de pelúcia marrom. Suo frio. Sinto minha cabeça latejar, minhas pálpebras doerem e minha visão embaçar. Nada disso me impede de correr até ele.

— Filho.. filho, filho! — grito, em desespero. Não consigo conter as minhas lágrimas, nem faço questão disso. Solto um grito da minha alma.

Sinto vontade de vomitar. Sinto que vou desmaiar. As lágrimas turvam a minha visão. O gosto estranho do vomito subindo a minha garganta me faz revirar o estômago ainda mais. Corro até o banheiro, cambaleando e batendo nas paredes do corredor.

Desabo no chão e solto tudo o que tinha para soltar no vaso. Fico vários minutos olhando aquela merda toda, como cheiro de vômito invadindo minhas narinas enquanto me concentro em não desmaiar. Me levanto, ainda tonteado. Nada faz sentido. Estou perdendo a memória também? Me pergunto como era a minha vida com a minha família. Aquele monstro com certeza vai pagar.

Enxaguo a boca, tomo mais uma pílula azul e me olho no espelho com um certo desejo de vingança, mas a dúvida e o medo me corroem, falando mais alto. Não sei a qual instinto seguir.

Engraçado. Estranho, muito estranho. Por que só há uma escova de dentes na pia? Abro a portinha do espelho, nenhuma outra escova de dentes.

Ajeito minha postura. Caminho lentamente pela casa observando tudo. Cada detalhe. Entro no quarto do meu filho, percebo que não tem nada lá além de uma cama velha e muitos ursinhos de pelúcia. O quarto parece abandonado, usado como um closet ou um quarto de bagunça. Nenhum brinquedo, nada de criança.

Saio pela casa, nenhum quadro, nenhuma foto de ninguém. Medo. Sinto algo se aproximando. Ele estava levando tudo?

Entro no meu quarto, no guarda roupa vejo roupas femininas. Ela é real. Ela é real, repito para mim. Calçados femininos no chão, absorventes na gaveta. Uma onda de tranquilidade bate no meu peito, aquela era a prova de que era real, de que ela era real.

Quando volto para a sala vejo a pasta no chão, com o que realmente estava dentro dela.

Passo toda a noite acordado, encarando todos aqueles desenhos. De manhã eu tomo outra pílula azul, uma das últimas.

Pela primeira vez sinto sono sem sentir dores de cabeça ou meus olhos arderem. Não me importei. Peguei o carro e fui direto para o hospital. O trajeto foi tranquilo, muito tranquilo. Eu já me sentia bem. Tudo havia voltado ao normal.

Entro na sala e coloco a pasta sobre o escritório. Os desenhos da criatura se espalham pela sua mesa, como se fossem fichas médicas desenhadas por uma criança.

— Olá, doutor Leandro. — digo. Ele me olha apreensivo. — O tratamento que o senhor me deu funcionou, tenho a mente clara agora.

— Ótimo. Isso é ótimo — responde. — Essa era a minha última tentativa para curar o seu transtorno.

Eu levo meu dedo até a boca. O Dr. Leandro conversa comigo sobre meu distúrbio. Começo a mexer nos meus cabelos loiros.

Depois de vários minutos naquela sala respondendo suas perguntas eu finalmente passo no teste e o Dr. Leandro me libera.

— Alessa — chama, quando eu estava por sair pela porta. Me viro, apreensiva. — Pode deixar as pílulas comigo, não vai mais precisar delas.

— É claro — respondo, sorrindo.

Essa é a última coisa que eu farei antes de ir embora e nunca mais voltar naquele hospital psiquiátrico. Deixo as pílulas azuis em cima da mesa, ao lado de um copo de água.

Olá, eu sou o yLance!

Olá, eu sou o yLance!

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