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Completamente exausto, Mayck deixou a floresta e seguiu para uma praça próxima e sentou-se em um banco para descansar. 

Vagando em pensamentos, ele refletia sobre a luta que acabara de perder. No entanto, se ele tinha vencido ou não, era a menor das preocupações. O mais problemático naquele momento era o fato de que ele foi incapaz de usar qualquer habilidade corretamente e isso lhe deixou com um gosto amargo na boca. 

Por que será que isso aconteceu, hein? Se minhas habilidades eram passageiras, então…

Ele chacoalhou a cabeça levemente, tentando expulsar aquele pensamento. 

Não, acho que não. Ninguém nunca me falou sobre as habilidades serem passageiras. 

Após um longo suspiro, ele levantou seus olhos para o céu — que estava estrelado como sempre — e lembrou-se do que havia presenciado mais cedo. 

Aquele céu deslumbrante e belo. Apesar de ser assustador, ninguém que o visse poderia negar sua beleza. 

Isso me lembra daquele monstro… será que aquela pessoa que virou gato é igual a ele? Bom, tanto faz. 

O garoto suspirou. A exaustão que ele estava sentindo naquele momento parecia diferente do normal. Não era como o cansaço de se movimentar ou trabalhar um dia inteiro, mas um cansaço que parecia ter sido acumulado por anos: a fadiga de viver. 

Por um momento ele pensou em desistir de tudo o que havia feito e estava fazendo até essa dia, se alguém lhe oferecesse essa possibilidade ele aceitaria sem hesitar. 

“Acho melhor ir pra casa…” ele pensou nisso, mas se deu conta de sua situação atual e isso deu-lhe uma pontada no peito. “Ah, eu não posso ir pra casa, tenho que ir até a base para relatar o que aconteceu… mas isso importa agora?”

Importando ou não, ele decidiu se levantar, mesmo que o desejo de continuar ali, vagando infinitamente em sua mente, fosse grande, no fundo ele sabia que tinha que resolver as coisas. Caso contrário, ele ficaria estagnado e a situação se agravaria. 

Sua indiferença com a vida era tão grande, que ele foi impossibilitado de perceber uma criatura humanóide se aproximar dele de cima de uma árvore. 

A criatura era magra, talvez a personificação da fome, e seus longos braços contendo mãos enormes estavam prontas para agarrar sua presa, sendo ela no momento Mayck, que virou-se para trás rapidamente, mas incapaz de reagir. 

Entretanto, o desejo da criatura de tragar o seu alvo foi frustrado por um feixe de luz amarelo, que atravessou sua cabeça a uma velocidade que ela não pode reagir. 

O sangue arroxeado da criatura jorrou no rosto e na roupa do garoto e caiu no chão silenciosamente, mas, por incrível que pudesse parecer, a expressão do garoto não mudou nenhum pouco. 

Ao invés de se surpreender com a criatura, ele, com a mesma indiferença, procurou pela pessoa que acabara de salvar sua vida e a viu se aproximando. 

“Ei, você tá legal?” Ela gritou e acenou. 

Essa pessoa…

Quando ele se aproximou, Mayck o reconheceu imediatamente. Aquela máscara preta que cobria apenas metade do rosto e o chapéu icônico… na verdade ele estava usando um chapéu diferente, mas não alterava muito em seu visual. Ele também estava usando uma capa preta por fora e vermelha no interior. 

É o Merlim…?

Merlim, ofegante, colocou as mãos no joelhos e tentou recuperar o fôlego. 

“Você… está… legal?”

“Hm… sim. Eu tô legal.”

“Só… um momento… por favor…”

Mayck assentiu com um balanço de cabeça e esperou o mago autoproclamado se recompor. 

“Certo!” Ele se endireitou e abriu os braços. “Estou novo de novo.” Em seguida, ele pôs as mãos na cintura, fazendo uma pose confiante acompanhada por um sorriso. “O que achou? Eu acabei de salvar sua vida, legal, não?”

“Hmm… sim, obrigado…”

“Ahahahah! Eu sou demais. Já consegui salvar cinco pessoas desde que melhorei minhas habilidades. Você é a quinta, claro.”

“Entendo…” 

Mayck não estava dando a mínima. Ele mal podia esperar pra sair dali imediatamente. Algo lhe incomodava, no entanto, e era a simples possibilidade de Merlim estar salvando pessoas e fazendo público as suas habilidades sobrenaturais.  

Ah, que seja. 

Ele não teve vontade de perguntar no fim das contas. 

Imaginando que seus assuntos ali estavam terminados, Mayck decidiu se retirar e nem fez questão de pensar no porquê de Merlim estar naquele local. 

“Ei, ei, ei, espera. Você pretende continuar sozinho?”

“Hmm?”

“Bom, não tem jeito. Eu vou te acompanhar até sua casa. Assim, posso te proteger mais vezes… digo, posso evitar que você fique em perigo”, ele afirmou com um tom arrogante e um sorriso que escondia segundas intenções. 

Mas, bem, se tratando de Merlim, não tinha como as intenções escondidas dele serem algo tão ruim, Mayck pensou, então não importava o que ele fazia. Desde que não fosse algo egoísta para benefício próprio, não tinha porquê impedi-lo. 

Sob essas circunstâncias, Mayck seguiu em frente e o garoto mago foi atrás dele. Mal sabia Merlim que a caminhada duraria duas horas.

Nesse meio tempo, ele se arrependeu várias vezes, mas seu orgulho não iria permitir que ele abandonasse seu protegido. Aquele que ele jurou proteger… mesmo que não tivesse chegado a esse ponto. 

Enfim, Merlim disse que ia protegê-lo, portanto, não iria largar mão disso. 

Após um bom tempo de caminhada, Mayck parou repentinamente e olhou para uma casa. A placa ao lado da caixa de correios continha a palavra “Mizuki”.

“An? O que foi? Essa é sua casa?” Merlin chegou ao lado dele e olhou para casa, cujas luzes estavam todas apagadas, implicando que os moradores estavam dormindo ou a casa estava vazia. 

“Hum… vejamos, Mizuki… esse é o seu nome? Ah! Desculpe se eu estou me intrometendo…”

“Uh-uh.” Mayck balançou a cabeça levemente e voltou a andar, deixando Merlim confuso. 

“Essa não é sua casa…? Bom… beleza, né?”

Eles caminharam por mais um tempo e chegaram até o fim da rua, onde iniciava-se um caminho estreito e se estendia até onde os olhos não podiam alcançar. 

“Até aqui está bom”, Mayck falou. 

“Hã? Então você já está em casa? Mas não tem nada por aqui… você tem certeza?”

“Tenho. Você não precisa continuar daqui.”

Com um movimento de sua mão direita, Mayck fez surgir uma máscara branca, levemente danificada, e a pôs no rosto. Ele não se importava em ser visto, mas essa ação trouxe uma consequência…

“Vo-você é da Black Room?” 

Não tinha como não reconhecer aquela máscara, que era a marca registrada de uma certa organização conhecida por seus membros altamente habilidosos. Ela era muito famosa entre os caçadores e até mesmo entre aqueles que não se envolviam na caça aos Ninkais. 

Mas não era medo que Merlim sentia, mas, sim, decepção. 

“Entendi… um membro da Black Room… quer dizer que não tinha necessidade nenhuma de te proteger, não é? Um monstro daquele nível não seria nada pra você…”

Apesar de não querer pensar muito sobre a situação, Mayck conseguia entender o que Merlim sentia. No entanto, ele não podia ficar ali apenas para tentar explicar algo. 

“Não se importe com isso. Você está mais forte, Merlim, fico feliz.” 

Ele deixou essas palavras e seguiu em frente. Mesmo que elas fossem mentira e não fosse o que Mayck pensava de verdade, tais palavras deixaram Merlim feliz, que não só aumentou seu astral como também o ajudou a reconhecer a pessoa que havia salvado. 

“Mestre…” um sorriso se formou em seu rosto. “Hahaha. É claro que eu fiquei mais forte”, ele exclamou e acenou, vendo Mayck se distanciar. “Algum dia, eu quero te apresentar a pessoa que me ajudou. Tenho certeza de que vocês vão se dar bem.”

Mayck levantou a mão em despedida. Mal sabia ele que havia acabado de melhorar o dia de alguém mesmo tendo uma atitude tão fria. 

Alguns minutos depois, ele chegou na base da Black Room e seguiu até a sala de Zero, para não perder mais tempo. 

Àquela altura, ele, com certeza, seria o último a chegar e comprovou essa tese ao ser recebido na sala e encontrando o time Alfa e Delta, assim como Nikkie e Zero. 

“Até que enfim chegou. Só faltava você”, Ethan falou assim que o viu entrar. 

“Desculpem. Eu acabei levando mais tempo que o previsto.”

Só de olhar para a máscara levemente danificada do garoto, Nikkie pôde refletir sobre o que teria causado a demora de Mayck, mas preferiu não tocar no assunto naquele momento. 

“Todo mundo já me relatou o que aconteceu, só falta você. Se tiver alguma boa informação, pode ser que ela nos ajude a preencher alguma lacuna.”

“Entendi.”

“Falando nisso, você disse que havia encontrado uma pessoa na floresta… Você conseguiu perseguí-la?” Lily lembrou do último contato que tiveram mais cedo. 

“Não… eu não consegui.” Por algum motivo, Mayck imaginou que devia esconder o que viu na floresta. “Mas eu acabei sendo atacado por um cara que se dizia guarda de um local chamado IAH.”

“IAH?” 

A sigla não trouxe nenhuma memória a ninguém ali, mas eles especularam sobre o que poderia significar. 

“Isso confirma que tem uma instalação por lá. Quer dizer, quem ia proteger algo que não está por perto?”

“A não ser que seja uma armadilha”, Isha completou o pensamento de Luna.

“Eu acho que isso é pouco provável. Mas é bom mantermos a possibilidade em mente.”

Em sua apatia, Mayck deixou que eles pensassem nos detalhes. Ele sentiu que não chegaria a nenhuma boa conclusão, estando tão cansado. 

“Um instituto em Aokigahara? Não que seja estranho, já que alguns corpos foram encontrados lá, além disso, bate com a história de Kenichi.”

“Sim. Se ele fugiu de um instituto que fica no meio da floresta, então faz sentido.”

Kenichi? Será que é o garoto que eles falaram naquela hora?

“Então nós já temos um lugar pra ir, certo?”

“É, mas não podemos ser descuidados. Zero, é melhor dizer para eles logo.”

“Você tem razão. Certo, me escutem um momento. Nós recebemos um pedido de aliança da Strike Down.”

A notícia surtiu o efeito esperado por Zero, deixando todos os ouvintes pensando se tinham escutado as palavras certas e se não era uma pegadinha de suas mentes exaustas. 

“Hehe… você é brincalhão, Zero-san…”

Stella tentou tirar a verdade, mas o líder da base e a vice-líder estavam sérios demais para ser uma pegadinha. 

“Espera… é sério mesmo? Aquela Strike Down?”

“É meio difícil de acreditar…”

Nem mesmo Mayck pôde esconder sua surpresa. 

“Eu sei como se sentem, mas é a verdade. Ethan falou que eles estavam sendo pressionados pelo governo, certo? Então, eu entendi o motivo para eles pedirem ajuda.”

“Basicamente, quanto mais forças, melhor. Eles querem uma aliança para que possamos resolver esse caso o quanto antes. Como estamos contribuindo com a academia, não é tão surpreendente”, Nikkie afirmou, sem intenção de esconder alguma coisa. 

“E o que vocês vão fazer? Vão aceitar?”

“Eu confesso que estou interessado na proposta. Aquele grande grupo precisando de ajuda só quer dizer que a situação está pior do que parece, mas eu não sei como as outras divisões vão reagir a isso.”

“Está pensando em aceitar? Mas isso…”

“Eu sei, eu sei. Vai contra os princípios da Black Room de não colaborar com organizações de fora. Entretanto, esse é um problema que está percorrendo o Japão inteiro. Nós temos que usar todos os recursos que temos em mãos.”

“…” Ethan mordeu os lábios com indignação. Ninguém ali entendia a sua resistência, no entanto.

“Bom, no fim, isso só vai ser decidido com o conselho geral. Eu queria aceitar imediatamente porque não podemos perder tempo e a cada segundo a situação só piora, mas não tem muito o que fazer…”

Zero estava pronto para sua decisão final, mas Mayck levantou a mão, o que deixou todos confusos. 

“Zero, eu poderia cuidar disso?”

“Quê? Você quer negociar com a Strike Down? Mas você sabe que isso vai contra o nosso acordo, não é?” 

Ele se referiu a parte em que Mayck não podia se aliar a nenhuma organização. 

“Sim, eu sei. Por isso eu peço para ir como mediador, e não como alguém independente. Se for assim, eu não estou quebrando o acordo, certo? Além do mais, você não quer esperar até que a reunião ocorra.”

“Eu concordo. Também é possível que ninguém aceite”, Nikkie reforçou a ideia de Mayck.

Se ele agisse como mediador, então estaria realizando um trabalho para juntar as duas organizações e não se aliando a uma delas. Esse fato deixou não só Zero e Nikkie intrigados, mas também as equipes Delta e Alfa. 

“Essa é realmente uma ótima forma de burlar o contrato sem quebrá-lo.” Zero riu levemente. “Dessa forma, nós podemos garantir uma parceria até que o conselho geral chegue a uma decisão. Muito bem, M-san, faça isso, por favor.”

O garoto assentiu. 

“Nesse caso, eu gostaria de ir agora. Você sabe quem são os representantes?”

“Eles se denominaram como equipe de ataque n°8.”

“Equipe de ataque? Isso não é suspeito?”

Kai estranhou o fato de uma unidade de ataque estar fazendo o trabalho de negociação   

“É estranho sim, mas não podemos demonstrar tanta desconfiança. Isso poderia acabar com a nossa chance.” Nikkie tentou amenizar a contenda que poderia se formar ali. 

“Uhum. Bom, eles estão esperando na sala de reuniões. Eu ia dispensá-los assim que terminássemos aqui, mas como as coisas acabaram assim, então eles ainda estão lá.”

“Beleza. Eu vou indo nessa, então.” 

Sem esperar muito, Mayck deixou a sala e os demais tornaram a discutir as informações obtidas. 

<—Da·Si—>

Depois das negociações, que não demoraram muito, Mayck se dirigiu para o quarto que havia pegado emprestado da Black Room. As horas se passaram, porém, Mayck não pregou os olhos. 

Ele não sabia se estava ativo demais para dormir ou se estava ansioso demais para ficar parado. Portanto, permaneceu ali, na cama e no escuro, encarando o teto. 

Pegou seu celular algumas vezes para ver se o sono chegava, mas não adiantou. Então só lhe restou ficar ali até que sentisse vontade de dormir. 

Foi mais simples do que eu pensei. Imaginava que a Strike Down viria com condições mais exigentes, mas, no fim, foi de boa. 

Quando se encontrou com o time de ataque n°8, Mayck sentiu um extremo alívio por ver Hana ali, e já estava preparado para impor condições igualmente egoístas, mas as coisas correram bem. 

Yuji, que tomou a frente na conversação, entendeu bem tanto o lado do garoto e a situação que a organização estava e sua atitude calma aceitou tranquilamente Mayck como mediador — ele afirmou que reportaria isso imediatamente aos seus superiores. 

Quanto ao combinado, a Strike Down iria fornecer informações para o garoto, que, por sua vez, levaria informações da Black Room. Juntamente com isso, as decisões de como agir diante de diversas situações seria discutida entre as duas organizações e só haveria movimento mediante um acordo unânime. 

Não foi um resultado ruim. Zero e Nikkie também aprovaram. No entanto, essa era uma decisão passageira, que poderia ser mudada no dia seguinte ou não. 

Eu espero que o conselho geral aprove… 

Só depois de ter feito tudo, Mayck percebeu o quão pé no saco seria agir como mediador entre os dois grupos. 

Por que eles não se juntam de uma vez? Que frescura.

Fora isso, Mayck também tinha que pensar no que fazer quanto à perda de memória de seu pai e seus amigos. 

Ele já tinha preparado um plano, mas não sabia o que fazer a seguir. Não era um plano, exatamente, mas um teste. O plano de verdade viria depois. 

Eu me pergunto se isso vai dar certo…

A confiança que ele tinha em si também estava se esvaindo. 

Virando-se de lado, ele fechou os olhos, procurando dormir, mas acabou que ele só cochilou alguns minutos. 

O sol raiou, mas não era como se Mayck pudesse vê-lo de uma base subterrânea. Ele apenas soube disso porque viu a hora se passar no relógio digital do seu smartphone. 

Era 7h06.

Normalmente, ele teria vontade de ficar na cama mais um pouco. Dessa vez, porém, ele tinha se cansado de ficar ali por tanto tempo e mal via a hora de se mover. 

Levantou-se, então, e foi preparar um café, na intenção de conseguir alguma energia. No entanto, mesmo que ele tivesse energia física, mentalmente ele não estava nada disposto. 

Seu celular vibrou na cama e ele foi ver o que era. 

Hana?

A garota havia lhe enviado uma mensagem, pedindo para se encontrar com ele. 

O garoto ponderou por um momento. Se fosse antes de anoitecer, tudo bem. Os times Alfa e Delta queriam prosseguir com a missão à noite, visto que eles já tinham a localização de uma instalação. 

O intuito era que Mayck invadisse aquele local e tentasse encontrar alguma pista sobre onde estariam localizados os demais institutos.

Respondendo a mensagem, Mayck perguntou que horário estaria bom pra ela e em que local, ela logo mandou o horário e a localização. 

Seria na escola, às 13h. 

Na escola…?

A confusão que durou só um momento se desfez quando ele se lembrou que Hana participava de atividades do clube. Mas ela só estava indo nos últimos dias antes das aulas voltarem por conta de sua viagem e faltava menos de uma semana. 

Foi nessa hora que o garoto percebeu que mais um problema estava à porta: como ele frequentaria a escola naquela situação?

Eu preciso resolver isso o mais rápido possível. 

Ele respirou fundo e jogou o celular na cama, indo tomar o café em seguida. 

Com a hora marcada se aproximando, Mayck foi para a escola, visando chegar algum tempo antes. 

O calor estava mais intenso do que no dia anterior, então ele suou bastante no caminho e para amenizar isso comprou uma latinha de refrigerante em uma máquina de vendas que encontrou perto da escola. 

Ela me disse para encontrá-la na escola, mas não especificou onde… será que eu vou até a sala do clube?

Ele encontrou esse dilema enquanto olhava pelo portão da escola. 

E eu nem estou de uniforme. Espero que nenhum inspetor venha reclamar. 

Terminou a refrigerante e jogou a latinha numa lixeira próxima e entrou, se dirigindo até a biblioteca — se fosse para lá, teria menos chances de receber uma bronca caso fosse encontrado por algum inspetor. 

O garoto procurou por algum livro que o interessasse nas prateleiras de ficção científica e acabou tendo o vislumbre de um livro de H.P. Lovecraft, um autor que Mayck admirava. 

Nunca tinha visto ele por aqui… O medo à espreita… né?

Dizendo a si mesmo que aquela era uma boa escolha, o garoto se sentou e começou a folhear o livro, depois de mandar uma breve mensagem para Hana, afirmando que estaria esperando por ela na biblioteca. 

Ler algumas palavras foi o suficiente para Mayck imergir naquele conto de puro horror quase fora da imaginação humana e ele só despertou quando Hana pôs sua cabeça entre o garoto e o livro. 

“Você viaja mesmo quando lê.”

“Ah, foi mal… eu nem percebi você chegando.” Ele fechou o livro, tendo percorrido mais da metade dele. 

“E o que é dessa vez? Da última vez que vi você viajar desse jeito foi com uma light novel…” Hana pegou o livro e o analisou. “Você gosta de várias coisas mesmo, hein?”

“Bom, gostar de apenas uma coisa me parece solitário.”

“Hmm…”

“Você estava treinando, não é?”

Mayck deduziu após observar o uniforme de treino da garota e o seu cabelo amarrado para trás. 

“Sim. Nós vamos ter um campeonato de tênis de mesa com outros colégios em setembro. Então é melhor me preparar desde já.”

“Entendi.” Ele respirou fundo e relaxou o corpo na cadeira. 

“Nossa, tá quente pra caramba aqui. Vamos pra fora.”

Hana se abanou com as mãos. Ela não sabia se estava quente daquele jeito mesmo ou se era porque ela tinha se movimentado muito há poucos minutos. Uma coisa era certa, no entanto, o calor estava intenso de um jeito absurdo ali, mesmo com a biblioteca vazia. 

“Verdade… eu nem tinha percebido.”

Sem demora, eles deixaram a biblioteca e se dirigiram para o campus da escola. 

Havia outros alunos que também estavam participando das atividades de seus respectivos clubes, então não era estranho que Mayck estivesse presente ali. 

Eles caminharam por um momento observando alguns lugares da escola, como o ginásio e o campo de futebol — onde tinha uma quantidade considerável de alunos — e depois pararam para descansar em um banco abaixo de uma árvore, um dos lugares que Mayck gostava de passar o tempo. 

“Esse calor tá me matando”, Hana reclamou e virou uma garrafa de água na boca para se refrescar. 

“Uhum… eu me pergunto como vocês aguentam praticar esportes em um dia tão quente.”

“Acho que é o costume. Talvez a determinação de cada um.”

“Determinação, é?”

Mayck refletiu sobre isso um pouco. Ele até conseguia entender, mas não conseguia se ver naquela situação e sentia uma exaustão só de imaginar seu corpo queimando como se estivesse saltando em um vulcão ativo. 

“Eu não gostaria disso…”

“Não é só você… talvez Chika, Haruna e Rika também não gostem, já que elas não apareceram aqui. Haruna e Rika até vieram algumas vezes, mas Chika nem deu as caras durante as férias, foi o que as garotas disseram.”

“É mesmo, é? Por que será…?”

Mayck percebeu que ela estava sendo indireta. 

Acho que sei o que vem a seguir…

“Ontem”, ela continuou. “Eu encontrei Akari-san no centro, mas ela agiu como se não soubesse quem eu era.”

“Hmm…”

“O que você tem a dizer sobre isso?”

“Digamos que estou na mesma situação. Não faço ideia do porquê, no entanto.” Mayck fechou os olhos brevemente e suspirou. “As coisas estão estranhas desde que eu voltei, então, está tudo confuso pra mim ainda.”

Ele tentou ser o mais sincero e direto possível, mas não sabia se estava fazendo um bom trabalho. Podia até funcionar com outras pessoas, mas, com Hana, não. Tudo porque ela era quem o mais conhecia bem, ao ponto de ver uma mentira estampada em seu rosto.

“Eu ouvi que… você andou fazendo algumas coisas ultimamente. Isso é verdade?”

“Sim. Desculpe esconder isso de você, mas eu tive meus motivos.”

“Então é verdade…” 

Uma amargura tomou conta do coração de Hana. Essa confirmação foi como a punhalada final para acabar de vez com seu objetivo de vida. 

“Você podia ter me contado antes…”

“Foi mal, mas eu não podia te contar.”

O silêncio reinou no meio deles por vários segundos. Segundos esses que pareceram horas. 

“Não podia me contar… acha que é só dizer isso que vai ficar tudo bem?”

“…”

“Eu sinto que fui traída esse tempo todo. É ridículo. Eu nem consigo dizer o quanto estou com raiva de você agora…”

Ela falou isso com calma, no entanto. Talvez o tempo que passou ao lado do garoto e o desenvolvimento pessoal que teve na Strike Down fez com que ela soubesse como conter suas emoções. 

“Eu sinto uma vontade imensa de te bater, mas sinto também que não é o certo…”

Ela se recusava a olhar para o garoto, então manteve seus olhos fixos para suas mãos trêmulas, que estavam cerradas em cima de seus joelhos. 

“Desde aquele dia, tudo o que eu fiz foi pra evitar que você sofresse com aquilo de novo. Eu não gostei nenhum pouco de te ver daquele jeito e confesso que até culpei Kin por aquilo ter acontecido.” Ela mordeu o lábio inferior. “Mas eu… a culpa foi minha por não ter prestado atenção direito.”

Com o tempo, Hana viu muitas coisas e passou por muitas coisas que a fizeram desenvolver um sentimento de proteção, não só por Mayck como também pela humanidade. 

“Talvez seja por isso que eu deixei você de lado. Eu queria proteger todo mundo…”

“Você não estava errada. Isso não foi culpa sua. Não há nada de errado querer proteger as pessoas. Não há um culpado nessa história e se houver, eu ainda não sei quem é.”

Mayck se pronunciou com seus mais sinceros pensamentos. 

Os gritos do clube de futebol ao fundo não puderam abafar essas palavras. 

“É chato ouvir que alguém fez tudo por mim e no final deu tudo errado. Eu sinto como se eu estivesse dependente demais dos outros.”

“E o que isso tem a ver? Você está dizendo que não quer depender de mim, é isso? Por que não fala de uma vez só que não precisava da minha ajuda? É só dizer que eu fiz tudo isso porque queria e que não tinha necessidade nenhuma de eu fazer algo por você.”

Ela o encarou com seus olhos úmidos e lutava para não derramar nenhuma lágrima. 

Que droga… eu não quero isso. 

“Eu sou só uma intrometida na sua vida… não tenho nada a ver com o que você passa ou que você enfrenta, é isso?”

“Não… eu não sei o que falar pra você, mas… obrigado, de verdade.”

“…an?” Hana se surpreendeu com tais palavras.

“É sério. Obrigado por fazer tanto por mim. Você é uma das pessoas com quem eu mais me importo. Se não fosse por você, nem sei onde eu estaria agora. Quando Alana se foi, você fez de tudo pra me animar e a mesma coisa aconteceu com Kin, mesmo que você chorasse a noite por ela, mesmo tendo sofrido muito mais que eu, você fez alguma coisa.”

Mayck deixou as lembranças virem e permitiu que seu lado emocional tomasse conta, pelo menos um pouco. 

“Por outro lado, eu apenas me entreguei para todos os problemas e desisti de resolvê-los. Você, porém, estava lá para me ajudar. Muito obrigado.” Mayck se levantou e ficou de frente para a garota. “Pra mim, Hana, você é insubstituível.”

Como se uma ventania tentasse empurrá-la, Hana ouviu aquelas palavras em silêncio e seus olhos cederam, deixando rolar algumas lágrimas. Seu rosto também ficou vermelho e mais quente que antes. 

Mayck também desviou o olhar dela depois de dizer aquilo com o rosto levemente corado. 

“Pra falar a verdade, eu me senti mal por ter escondido tudo de você, mas eu não sabia como te contar. Por isso eu decidi pôr as cartas na mesa: eu preciso da sua ajuda Hana.”

“… Eu…” As palavras dela ficaram presas em sua garganta. “Eu estava esperando por isso.” Um sorriso surgiu naquele rosto deprimido até então. “… Mas eu quero que você me prometa uma coisa: nunca mais esconda algo de mim.”

“Tá legal. Eu prometo…”

Hana se levantou e pulou nos braços de Mayck, o apertando como se tivesse medo de deixá-lo escapar. 

“…ah…” 

Mayck se surpreendeu com aquilo, mas não afastou a garota, já que ela parecia confortável e o mesmo valia para ele. Parecia que aquele abraço havia lhe libertado de alguma coisa, então ele retribuiu o gesto e permaneceram ali por alguns segundos. 

Eles ouviram alguns cochichos e quando olharam a fonte, viram algumas meninas do clube de tênis os observando. Quando elas perceberam que haviam sido notadas, fugiram entre risos. 

Mayck e Hana afastaram-se, constrangidos. 

“Bem… eu… vou voltar pro ginásio. As meninas devem estar me esperando.”

“Entendi… Hana…”

“Até mais.” Sem dar ouvidos ao que Mayck iria dizer, Hana fugiu dali, envergonhada. 

“Bom, pode ficar pra depois…”

Mayck a observou se afastar e saiu da escola em seguida.

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